Kenna sempre diz que eu sou impulsiva. Que tomo decisões no calor do momento, e que eu deveria ter mais certeza na hora de decidir algo sério. Como na vez que eu decidi comprar um ticket pra lua. 48 prestações depois decidi jogar o nome da empresa no Google e descobri que era uma empresa de fachada. Ou quando eu aceitei a primeira oferta pelo Box de Game of Thrones autografado, e dois dias depois, um homem de Kentucky me ofereceu mais do triplo. Enfim, se ela soubesse que comprei um apartamento pelo dobro do seu valor estimado só para não perder a oferta, ela diria que eu deveria consultar um analista. Mas por mais que tenha realmente sido no impulso, eu tinha certeza de que deveria ter feito isso. E se eu perdesse aquela oportunidade, eu nunca me perdoaria.

— Finalmente acordou, Bela Adormecida? Ficou quantas horas dormindo? 6? — Kenna reclama ao telefone, enquanto eu solto a última caixa no chão da cozinha.

— Ah, acho que ter assinado com a Simon & Schuster me deixou um pouco cansado. Ou talvez tenha sido porque eu comi muito no almoço com o editor, não sei. — A parte de ter assinado com a editora e do almoço com editor eram verdade. Minha mãe não podia mais me chamar de vagabunda. Se ela ainda falasse comigo, é claro.

— CALA A BOCA! – ela grita, e um sorriso surge na minha boca enquanto eu entro no quarto ao fim do corredor, indo direto até a sacada a.k.a saída de incêndio. — Cass, isso é sensacional! Cassidy Valois assina com a S&S aos 24. Mal posso esperar pra por isso no blog. Estou indo escrever sobre isso agora mesmo. Sem brincadeira. Cass isso é maravilhoso! Como você conseguiu isso? — ela me atola de palavras e mais palavras enquanto eu subia as escadas de incêndio até o apartamento de cima, que tinha sido o grande motivo de eu ter pagado o preço de um loft com vista pra praia em um apartamento com vista para uma parede de tijolos cor-de-terra.

— Eu mandei alguns dos meus projetos por e-mail, e eles viram no seu blog sua resenha do meu conto e decidiram assinar o contrato. Parece que ser amiga da blogueira mais famosa de Nova York serve pra alguma coisa. — Kenna é dona do Is not wrong talk about this, um blog que antes servia apenas para expressar seus sentimentos quando ela se sentia oprimida pelos tabus constantes na sociedade atual. O blog cresceu e faz um grande sucesso, e agora ela fala de tudo um pouco.

Finalmente chego até o apartamento de cima e me deparo com a sacada fechada, as cortinas abertas mostrando um quarto. E na cama, deitada de bruços e cercada de revistas, livros e caixas de chocolate, está uma garota esguia, com cabelos longos rosa bebê. Havia um computador aberto na sua frente, e um celular pousado ao lado dele. Ela vestia apenas lingerie, o que fez meu rosto corar estranha e bruscamente

— Isso é sensacional. Sério. Eu gostaria de poder ir aí dizer o quanto eu te amo e como estou feliz por isso.

— Bom, então é só abrir a sacada, Pink pie. — digo batendo os nós dos dedos na porta de vidro. Kenna levanta-se da cama em um salto e corre até a porta de correr, olhos tão felizes… Nunca tinha sentido tanto extase ao conhecer alguém. Exceto quando conheci Celeste, mas me arrependo até hoje de já ter colocado os meus olhos nela.

—Ela é a filha do prefeito, Cassidy Anne. Meio pertubada, mas é. Seja legal com ela, por favor. – Minha mãe, equilibrada em um par de salto-alto de 20 centimetros, diz arrumando o meu cabelo. — Impressão minha ou seu cabelo está ficando cada vez mais claro? E aqui está meio rosa… – seus dedos tocam parte de minha franja, e ela loga joga-a para trás, juntando todo o cabelo em um coque.

— A cabeleleira deve ter cometido algum erro. — Minto, me observando desconfortável naquele vestido estúpido e pomposo.

— Podemos consertar isso depois. Vá lá com ela e não se esqueça de dizer que a construtora Siolav é a melhor de toda North Vancouver.

— Mãe, só existem duas construtoras em North Vancouver.— digo pegando minha carteira, dando uma checada, só para ver se o conteúdo continuava ali.

— Mas somos a melhor. Vá logo! – ela me empurra para fora da casa de campo do prefeito e logo estou num vasto jardim. Árvores se erguiam dos meus dois lados, e flores brotavam cautelosas por entre as raízes, soterradas pela terra escura e fofa. Três metros à minha frente, a entrada de um labirinto de pedra. E parada ali na entrada, a filha do prefeito. Cabelos branco-gelo até as coxas, o que parecia a parte de cima de uma lingerie preta e uma saia curtinha preta. Saltos pretos, óculos escuros redondos e um chapéu igualmente preto terminavam o look. Me senti estupidamente ingênua e dessarumada, mesmo levanto em conta que estava em um vestido de grife. Ando até ela.

— Oi. – digo apertando nervosamente a minha bolsa. Ela muda o apoio de um pé ao outro.

—Por que você acha que tem o direito de falar comigo? – Abro a boca para argumentar mas ela coloca dois dos longos e esguios dedos nos meus lábios. — Vamos brincar um pouco. Se você me encontrar nesse labirinto, te dou um prêmio. E o direito de, ocasionalmente, dirigir a palavra à mim. Se não, eu conto que você tem maconha na sua bolsa. — Mais uma vez tento argumentar, surpresa, e mais uma vez ela me interrompe, com um sorriso nos lábios. — Espere um minuto e vá atrás de mim. – E com isso ela vira-se e corre para o labirinto.

Meu coração bate forte dentro do meu peito, tão forte que tenho medo que a pele arrebente e que ele caia aos meus pés. Aquela garota, Celeste Julliards, sempre fora considerada a garota problema, e eu a perfeitinha. E a simples idéia de me perder com ela era excitante.

— Estou indo! – Digo caminhando até uma das paredes de pedra, e pisando em seus tijolos , subindo até o topo, onde eu tinha uma visão melhor. Dali de cima, eu podia ver um borrão de cabelos prateados como a lua, que já estava no céu, indo até uma encruzilhada. Graças aos meus anos infantos brincando naquela casa, sabia exatamente como chegar até ali.

E assim o faço.

— Celeste? Onde está você? – digo risonha, parada em uma das entradas da encruzilhada. Antes que eu possa repetir, uma mão se fecha na barra do meu vestido, e quando vejo, estou no chão, uma cortina de mechas brancas ao meu redor. Celeste está em cima de mim, e seus óculos não estão mais ali, nem o chapéu… ou a lingerie. Cada centímetro de sua pele exposta brilhava ao luar, um sorriso travesso coroava seus lábios.

— Parece que me achou.– ela morde os lábios, correndo os dedos pra dentro da saia do meu vestido. – Está na hora de receber seu prêmio.

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Afasto as memórias indesejadas assim que Kenna me abraça. Ela afunda a cabeça nos meus cabelos e suspira. Quando se afasta, seus olhos estão brilhando com lágrimas.

— Ei, sonhando acordada? – ela segura o meu rosto. – Me pergunto se eu estou. Me pergunto se tudo de bom que vem acontecendo é real. – ela sorri de forma tão adorável que meu coração aquece.

— É real. Estou bem aqui. –Digo apertando seus dedos. Ela me puxa pra dentro do quarto dela, que é decorado com todas as referências possíveis à feminismo e gatos. Tinha até um quadro de um gato na famosa pose ‘we can do this’. No mínimo adorável.

— O que você está fazendo aqui? – Ela senta-se no chão, empurrando caixas de pizza e cadernos para abrir um espaço para nós duas.

—Fechei um contrato com a S&S em Toronto, e lá eles adiantaram meu pagamento e eu consegui pagar um avião pra cá e o apartamento aqui debaixo. Acho que amanhã eu vou almoçar com a minha editora. Eleonor Lisv… Lisv… Ah, sei lá, um sobrenome estranho. Ela tem 25. Dá pra acreditar nisso? 25 e já é uma das editoras mais bem sucedidas dos Estados Unidos.

— O que você vai publicar? Tales of Love and Hate? The Maze? Não, não, espere, acho que é Royalty. É Royalty? – eu não ouvi o nome dos meus projetos de livros quando ela os disse, mas sim apenas Celeste, Celeste, Celeste. Merda.

— Na verdade, é um contrato de expansão artística. Eu ainda não tenho nada escrito para eles publicarem. — Digo abrindo uma das caixas de pizza e me deparando com uma pizza vegetariana — De quando é isso?

— Ontem. Mas você já tem idéias? Vai escrever sobre a Cel… — quando estou prestes a morder a pizza, meu estomâgo revira — Desculpe.

— Eu não sei. Mas se eu não tiver idéias é só entregar Tales of Love and Hate. Ou Royalty. Ai, sei lá. — dou de ombros. Kenna me dá uma cotovelada.

— Preguiçosa! Se não fossem 3 da madruga eu te levava pra conhecer Nova York ainda hoje. Talvez te inspirasse. Você não tem o almoço com a editora amanhã? Vai dormir! — ela se levanta num salto e me estende a mão, que eu aceito. Assim que me levanto ela me empurra pra sacada e fecha a porta.

— Ei! – ela fecha as cortinas, e eu desço as escadas até o meu apartamento.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.