Love under the sea

1 Capítulo 1 - Coitado do meu celular


Notas iniciais
Aqui vamos nós

A água me acalma. É como chocolate, ou chá quente, ou sorvete de doce de

leite. Depois de um dia difícil, eu tranco a porta do banheiro, encho a banheira de

estilo antigo da tia Angie com água bem quentinha e sais de banho e então

mergulho em um mundo onde todos os meus problemas derretem.

Às vezes, isso não é o bastante.

— Você falou com ele?

Segurando o telefone no ombro, pego um punhado de bolhas de sabão e as

sopro por cima da minha barriga. Prefiro ignorar a pergunta, né? Ainda mais

porque nenhuma de nós vai gostar da resposta.

— ... — Cutuca a Fran.

Enquanto as bolhas caem na água e se dissolvem em espuma, solto um suspiro.

Tudo o que eu queria neste banho era me esquecer do desastre que meu dia

tinha sido — o que incluía o assunto abordado pela Fran —, mas parece que

não vai dar. Ainda que eu já esteja um pouco mais tranquila agora do que quando

entrei na água vinte minutos atrás, nada vai conseguir apagar essa memória da

minha mente.

É uma pena que os sais de banho não possam mudar o passado.

— Não — admito, soltando um grunhido de frustração. — Não falei com ele.

— Mas a gente tinha combinado! — diz ela, parecendo irritada. — Você ficou

de falar com ele na aula de trigonometria quando o Kingsley fizesse a classe

trocar os trabalhos.

— A gente combinou mesmo — concordo eu. — Mas...

— Mas o que, Vilu? — me interrompe ela. — O seu tempo está acabando.

— Eu sei disso. — E como sei. A areia da minha ampulheta está escoando

rápido; a formatura já está logo aí.

Encosto a cabeça para trás na linda borda curva da banheira e deixo meus

cabelos escorrerem até o chão. Um emaranhado loiro que se recusa a ficar

arrumado. Seria melhor ter uma esponja-do-mar na cabeça de uma vez, já que

não existe quantidade de condicionador e antifrizz no mundo que consiga domar

os efeitos da umidade aqui da Flórida.

— Mas o Kingsley fez a gente trocar os trabalhos de outro jeito — explico. —

A gente teve que passar os trabalhos para trás em vez de para os lados.

Ouço a Fran grunhir e imagino a expressão de revolta em seu rosto.

— Odeio quando ele vai nessas oficinas de reciclagem para professores — diz

ela. — Ele sempre volta cheio de ideias novas que nunca, nunca dão certo.

— Eu sei — concordo, tentando continuar nessa conversa com a vã esperança

de que ela... e eu... vamos esquecer o assunto original. A gente se vira como

pode. Eu não teria nenhum problema em jogar o Kingsley na fogueira para

escapar de outro sermão da Fran. — Foi a maior zona — eu me endireito um

pouco, ganhando confiança na minha estratégia. — Aqueles gêmeos trocaram de

lugar, e a maior parte da classe acabou dando nota nos próprios trabalhos. E

depois o Kingsley até deu parabéns por todo mundo ter tirado notas tão altas.

Boas notas são uma coisa rara para mim. Fran é uma das primeiras da

classe e tenta me ajudar, mas eu claramente não estou aprendendo muita coisa por

osmose, ou por associação, ou seja lá como isso se chama. O que eu posso fazer

se essas matérias todas parecem estar em outra língua para mim? Meu cérebro

simplesmente não foi feito para estudar. A única aula na qual eu vou bem é a de

artes — e só porque a sra. Ferraro gosta de mim. Todas as outras poderiam muito

bem ser física nuclear avançada.

Além do que, nos últimos tempos, a gente vem se concentrando mais no Baile

da Primavera do que na lição de casa da próxima semana. Agora que faltam tão

poucos dias para a festa (só três na verdade), isso parece ser um assunto muito

mais urgente do que um trabalho de literatura sobre A revolução dos bichos.

Agora, no entanto, eu preferia falar sobre a lição de casa. Ou produtos de

beleza. Ou bandos de águas-vivas assassinas. Qualquer outra coisa que não

aquela pergunta. Tento recorrer ao meu plano... de novo. A última coisa que

preciso agora é a Fran me dizendo mais uma vez que...

— Você é uma covarde, Violetta Castillo.

... eu sou uma covarde.

Filha de uma cavalinha.

Mexo a nadadeira do meu rabo e jogo os sais de banho de limão por cima dos

meus ombros. Essa é a mesma bronca que eu venho ouvindo toda semana nos

últimos três anos. Outra pessoa por aí já teria se enchido dessa conversa e

ganhado coragem para superar isso. Mas o problema é que... ela tem razão. Eu

sou uma covarde.

Especialmente quando o assunto é Tomás Eredita.

Nós, sereias, somos muito covardes mesmo. Manter nossa existência em

segredo absoluto na verdade exige essa covardia. Se não fugirmos ao primeiro

sinal de qualquer barco na água, podemos acabar saindo na capa de uma revista

sensacionalista qualquer. Somos uma espécie mais acostumada a fugir, mesmo.

Mas com o Tómas, meu instinto de fuga chega a níveis ridículos. Eu posso

fazer todos os planos do mundo, me sentir totalmente preparada para ir até o final,

mas assim que ele aparece, eu travo. Quando estou com muita sorte, consigo no

máximo continuar respirando, então me declarar para ele é simplesmente

impossível. Os hormônios são cruéis demais.

Ainda assim, ser lembrada o tempo todo da sua própria covardia pode levar

você à loucura. Por um segundo — meio segundo, na verdade —, penso em pôr

para fora a única coisa que a faria deixar esse assunto de lado. Mas eu já ouvi

muitas histórias.

Eu sei o que acontece quando um ser humano descobre que uma sereia é uma

sereia. A Fran é como uma irmã para mim, mas não posso correr esse risco.

Não posso pôr minha vida, minha família e meu reino inteiro em perigo só para

escapar de uma conversa desagradável. Por mais que eu queira muito confessar

tudo, meu dever vem antes da nossa amizade.

A Fran entenderia.

Então, em vez de revelar meu segredinho sujo — que, aliás, nem está mais tão

sujo, porque minhas barbatanas estão brilhando, limpinhas, com suas escamas

verdes e douradas na água salgada —, recorro à triste verdade.

— Eu tentei, Fran. — Deixo minha cabeça cair para trás contra a porcelana da

banheira com um bem merecido tump. — Juro que tentei. E dessa vez, eu

cheguei muito, muito perto. Respirei fundo, disse o nome dele e...

— E aí?

— Aí o Leon Vargas jogou uma bolinha de papel na minha testa.

Precisei de cada gota do meu autocontrole — e do sinal do intervalo — para

não levantar da minha cadeira e pedir desculpa para o Tomás, enquanto pulava

por cima dele para socar o Quince até virar um purê de alga-marinha. Os

marinhos são um povo pacífico, mas aquele menino iria aprender uma bela lição

se eu estivesse com o tridente do papai. Já pensei em várias formas muito criativas

de calar a boca do Leon.

— Que maldito — diz a Fran. — Parece que nasceu para atrasar sua vida.

— Pois é! — Esfrego distraída a esponja pelas minhas escamas. — Por que ele

faz isso? Sei lá, parece que a única coisa que ele faz da vida é mexer naquela

moto horrível e me atormentar.

O pior é que eu nem sei por que ele insiste tanto em me azucrinar. Não é como

se eu tivesse feito nada para ele além de ter me mudado para casa ao lado da dele.

No início, nós quase ficamos amigos... mas ele começou a me tratar como uma

inimiga.

Os meninos são muito menos complicados no oceano.

— Aquele... — Um bipe interrompe a Francesca. — ... precisa tomar vergonha

na cara!

— Espera. — Eu me endireito na banheira. — Tem outra pessoa me ligando.

A tia Angie já se cansou de me ver estragando o telefone lá de cima na água

do banho coisa de três aparelhos atrás. O substituto mais recente nem tem

identificador de chamada, e ela jurou que é o último que vai comprar. Se este

pifar, nunca mais vou poder falar ao telefone na banheira. Então tomo todo

cuidado para não deixar o aparelho cair, enquanto aperto o botão para mudar de

chamada.

— Alô?

— Você devia fechar as cortinas antes de tomar banho, princesa — diz uma

voz grossa e irônica.

— O quê?! — disparo eu, meio irritada e assustada, enquanto me endireito na

banheira.

A toalha mais próxima está bem dobradinha sobre o vaso... do outro lado do

banheiro. Com um movimento brusco, me jogo de lado, caindo no chão de

ladrilhos gelados, e mergulho na direção da toalha. Enquanto a jogo por cima das

minhas barbatanas, escuto uma gargalhada pelo telefone do outro lado da linha.

Enfurecida, pego o aparelho do chão.

— Fantástico! — berra ele, ainda rindo. — Eu sempre me divirto com você,

princesa.

Aaarrgh! Bato o telefone várias vezes no chão na esperança de que isso

estoure os tímpanos dele.

— Por quê?!? — Meu coração, disparado como a barbatana de um peixe em

fuga, desacelera enquanto olho primeiro para o telefone, que sofreu algumas

avarias com meu ataque de raiva, e depois para as cortinas bem fechadas

cobrindo a janela do banheiro. Enquanto ponho o telefone de volta na minha

orelha e ignoro as gargalhadas que ainda saem do fone, pergunto: — Por que

você gosta tanto de me atormentar assim?

— Por quê? — consegue dizer Leon entre suas gargalhadas. — Porque é

muito fácil!

Pegando a toalha agora ensopada, eu a jogo contra a parede ao lado da porta e

a vejo escorrer devagar para dentro do cesto de roupa suja. A gata da tia Angie,

a Prithi, mia de susto do outro lado da porta.

— Você... — esbravejo eu, subindo de volta na borda da banheira. — ... é

nojento... — eu me viro e afundo devagar — ... e desprezível... — mesmo morna,

a água ainda está ótima. — ... feito um verme marinho gosmento.

Encaixo o telefone entre a cabeça e o ombro antes de abrir as mãos embaixo

d’água para elevar a temperatura de volta a um ponto mais relaxante.

Ele ri mais uma vez antes de responder.

— Essa é nova.

— E tenho mais um monte se você quiser — rebato, enquanto me encosto de

novo contra a borda da banheira e fechos os olhos. — Quer ouvir algumas?

A água salgada me engole, acalmando meus nervos tensos. Pelo menos um

pouco.

— Outro dia — diz ele. — Talvez outro dia.

— Seu peixe-bolha... — murmuro, fechando os olhos e me imaginando em

casa, com as águas mornas da corrente do Golfo passando à minha volta,

enquanto flutuo sob meu lugar favorito do oceano... o recife raso ao leste de

Thalassínia, onde uma floresta de gorgônias e corais me oferece a camuflagem

perfeita para ficar horas e horas à toa, vendo os barcos pesqueiros coloridos

passando na superfície.

Esse lugar é meu paraíso. Nunca levei ninguém até lá, nem meu pai. Estou

guardando isso para alguém especial. Para o Tomás.

Quando sinto saudade de casa, fico me imaginando com ele nesse lugar.

— Admita, princesa — diz o Leon com o que só ele deve achar ser um tom

de provocação. — Se não fosse por mim, você morreria de tédio.

— Se não fosse por você... — respondo, querendo estar separada por mais de

cinco metros e duas janelas dessa peste — ... eu teria um par para o Baile da

Primavera!

Ele fica calado. Sinto um arrepio na nuca.

— Um par? — rebate ele.

Arregalo os olhos de repente.

Falei mais do que devia. A água reaquecida me deixou relaxada demais. Não

posso abaixar minha guarda nem por um segundo quando falo com o Leon.

— Você ainda não está gamada por aquele besta do Erelita, está?

— Eredita! — esbravejo eu, antes de me tocar. — Digo, não sei do que você

está falando.

— Acho que sabe sim...

— Aliás... — declaro eu, decida. — Nem sei por que ainda estou falando com

você.

— Você está falando comigo... — diz ele antes que eu tenha tempo de voltar

para a Fran — ... porque eu posso ajudar você a conquistar seu namoradinho.

— Ah, claro! — exclamo eu, dando risada. Como se esse infeliz que só me

atormenta fosse me ajudar. Como se ele pudesse me ajudar. — Essa foi boa,

Leon.

— Bom, tudo bem — lamenta ele, como se eu tivesse feito a escolha errada. —

Quando você deixar esse seu orgulho todo de lado, sabe onde me encontrar.

Claro, na casa ao lado, tentando me espiar no banheiro.

— Eu bem que queria não saber — digo eu. — Mas, viu! Como você sabia

que eu estava no banho? — Ouço só o silêncio do outro lado da linha. — Alô?

Baiacu! Eu é que queria ter desligado na cara dele desta vez.

O telefone apita, me lembrando de que a Francesca ainda está na linha. Eu sabia

que ela não ia desistir tão fácil. A gente ainda não tinha terminado a conversa

sobre como foi convidar o Tomás para o baile. Ela nunca perde nenhuma

oportunidade para falar o quanto estraguei tudo e o que eu posso fazer melhor na

próxima vez.

Eu até ficaria irritada com isso, mas ela é minha melhor amiga humana.

Aperto o botão no telefone.

— Voltei.

— Quem era?

— Ninguém — respondo, sem exagerar.

— O Leon — diz ela, e não é nem uma pergunta.

— Enfim, tanto faz — digo, batendo, toda distraída, minha barbatana na outra

ponta da banheira. — Só termine logo a sua bronca para eu poder ir para cama.

Ela ignora meu comentário rabugento.

— O que ele queria?

— O mesmo que sempre... me atormentar.

Não é como se eu fosse contar para ela sobre a proposta que ele me fez... nem

que ele estava tentando me espiar no banho. Depois de três anos morando ao lado

desse pervertido, já desisti de implorar à tia Angie para a gente se mudar. Daqui

a algumas semanas, vou voltar a Thalassínia para terminar meus estudos e

aprender a governar junto com meu pai. Nunca mais vou precisar ver a cara do

Leon, e ele não vai ser mais nada para mim além de uma memória terrível, mas

distante.

— Ele devia estar querendo alguma coi...

Como não estou a fim de falar sobre o Leon, volto para o único assunto que

pode desviá-la dessa conversa.

— Acho que vou falar com o Tomás amanhã, antes da aula.

Ela muda de foco na mesma hora.

— É bom mesmo — diz ela. — O tempo está acabando. O baile é na sexta, já.

— Sim, eu...

— Só faltam três dias.

— Eu sei disso. — Eu me sento, virando de lado contra a porcelana, enquanto

puxo a tampa do ralo. — Mas é que ele acabou de terminar com a Ludmila, e

não sei se ele já está a fim de jogar a linha de volta no mar atrás de outra pessoa.

Eu praticamente consigo sentir o suspiro de reprovação dela.

— Estou cansada demais para discutir essas suas metáforas marinhas — diz

ela. — E você já escolheu sua fantasia?

A água rodopia pelo ralo abaixo, deixando uma fina camada de espuma

salgada sobre minha pele e escamas enquanto escorre.

— Não — respondo eu, jogando um pouco de água no peito para tirar as

bolhas. — Eu já disse que não vou fantasiada. Isso é uma babaquice. Não sou

mais nenhuma a... — Paro antes de dizer “alevim”. Mesmo depois de três anos

em terra, ainda é difícil não usar minhas gírias do mar. — Não sou mais nenhuma

criança.

— Mas vai ter que ir — insiste Francesca. — A festa é à fantasia. É uma

tradição do Maresia.

— Vou pensar em alguma coisa — digo, só para acalmá-la.

A água gorgoleja, enquanto o último restinho começa a desaparecer pelo ralo.

— Tem que ser alguma coisa a ver com o tema “fundo do mar”.

— Não, eu...

— Já sei! — dispara a Francesca, cheia de empolgação na voz. — Já sei do que

você pode ir.

— Sério? — pergunto eu, distraída, enquanto pego uma toalhinha na borda da

banheira para enxugar o resto de sabão das minhas escamas. — Do quê?

— Você devia ir de... — ela faz uma pausa dramática — ... sereia!

Deixo o telefone cair. Então corro para pegá-lo antes que o último centímetro de água frite seus circuitos. A tia Angie ficaria uma fera se eu quebrasse mais

este.—

Não — digo eu, enquanto a água escorre pelo telefone e ouço os estalinhos

das faíscas elétricas dentro dele. — Não, acho que não seria boa ideia.

— Imagine só! Nós duas devíamos ir de sereias! — diz ela. — Vamos discutir

isso amanhã no almoço.

Coloco o telefone ainda pingando na base, com os fios esticados sob a porta do

banheiro até a tomada no corredor, e afundo de volta na banheira vazia.

Deixando a Francesca, o Leon e o Tomás de lado — embora do Tomás seja

meio difícil me esquecer —, eu me concentro na minha transformação. Na

maioria das vezes, mudo de forma sem muito esforço. Mas quando estou longe

do mar, acabado usando muito pouco meus poderes. Reaquecer a água da

banheira. Gelar meu suco no café da manhã. Mudar de forma para o banho

algumas vezes por semana. Quando estou no mar é diferente. Às vezes, eu me

sinto mais perto de casa quando me concentro na transformação.

Usando os poderes mágicos do meu povo — poderes concedidos por

Capheira, uma das ninfas do mar de Posseidon e nossa ancestral —, imagino as

escamas iridescentes se dissolvendo por completo e sendo substituídas por minha

pele rosada. Droga, eu bem que poderia ter nascido com um belo bronzeado, não

é?

Mesmo assim, é ótimo sentir minhas pernas de volta. Depois de passar os

primeiros catorze anos da minha vida com barbatanas, é incrível quanto consegui

me acostumar à minha forma terrestre. Com três anos vivendo em terra, já me

sinto como se tivesse nascido assim. Acho que é porque minha mãe era humana.

O que ela diria se me visse aqui, deitada na banheira da irmã, sonhando com o

menino que eu amo? Será que ela ficaria orgulhosa? Desapontada? Feliz por eu

estar me entregando à minha parte humana? Acho que nunca vou ter como saber.

Enquanto mexo os dedos dos pés com as unhas pintadas de verde-limão, ouço

um chiado e um estouro alto antes das luzes se apagarem.

A Prithi mia lá fora.

— Vilu! — grita a tia Angie da sala. — Você andou usando o telefone na

banheira de novo?

Cubro o rosto com as mãos. Já nem sei mais se eu devia mesmo ter saído do

mar. O colégio pode ser ótimo para humanos, mas não é lugar de uma sereia.

Notas finais
Espero que tenham gostado dessa ideia um beijo e xau!!

ASS:M.R