Love me Harder

2 Capítulo 2 - Carlos Eduardo Filho


Notas iniciais
Mil perdões pela demora, a tela do meu pc queimou e eu fiquei sem ter como postar, pq o cap já estava pronto - no outro pc que pra alegria e sorte não ter internet - mas enfim, está ai, boa leitura!

Love me Harder / Capítulo 2 – Carlos Eduardo Filho

*-*

Muito bem, a ideia de que Beto tinha prometido passar no meu restaurante me causava calafrios, Sthella contou para Duda e foi o único assunto das duas durante toda aquela semana. O que me deixou seriamente preocupada.

Quando o sábado chegou, de acordo com o próprio Beto, o primeiro sábado do mês dele que não terá plantão, e ele adoraria conhecer o sucesso da carreira de Manu Boaventura. Revirei os olhos com a lembrança, não estávamos falando de um garoto qualquer que estudara comigo e com as meninas no Ensino Médio, estávamos falando de Roberto Lessa Dantas, o carinha que entrou na metade do primeiro ano e todos julgaram por vir de escola do estado e simplesmente começou seu primeiro bimestre com notas acima de 8,5 no boletim, arrasando o ego dos outros da sala que se achavam por estudarmos em uma escola particular.

E depois de meia dúzia de amizades feitas, inicialmente por colas, mas logo por ele ser uma pessoa sossegada e sem ignorância eu comecei a reparar, e talvez eu tenha reparado ale da conta.

Ensino Médio é aquela fase horrível na qual a única preocupação das meninas é estar sempre linda e maquiada, em uma constante disputa umas com as outras, e olhar fotos de garotos sem camisa em rede sociais ou passar por eles em lugares públicos com risinhos bobos de vergonha. Naquela fase onde as meninas fazem de tudo por um namorado e os meninos estão preocupados em ver quem vai beber, fumar, ou transar primeiro em festas de finais de semana quando passam a semana jogando jogos no computador.

Roberto contrariava as expectativas, por algum motivo desconhecido, ele era estudioso, não tinha Facebook – o que impedia a procura de fotos e dados sobre a vida dele – e não tinha interesse em explorar o mundo das porcarias dos adultos. Ele não tinha intenção de espalhar quantas garotas ele pegava na balada sábado a noite, porque ele simplesmente não tinha interesse.

Meus amigos e eu achávamos que ele era gay, com toda certeza era. Os meninos adoravam desenhar pintos nas apostilas um dos outros com piadinhas idiotas sobre sexo constantemente, e listar as garotas que eles consideravam ‘gostosas’. Ele preferia tirar suas duvidas de química – porque se era do tipo que fazia esses tipos de bobagens, eu nunca vi.

Sthella e Duda entraram no inicio do ano, e ele na metade, elas foram a minha má influencia de certo ponto de vista, eu não conversava sobre garotos, sexo e quem ‘eu pegaria’ porque a situação me deixava tão sem graça que nada saia da minha boca. Boa parte dos meus amigos tinha saído para fazer técnico enquanto eu ficava para terminar o Ensino Médio — e talvez não tenha sido uma das minhas melhores decisões talvez.

Meus únicos interesses eram em livros, séries, e tentar recuperar minhas notas em física.

Então, de repente eu também estava me maquiando antes de ir para a escola, falava sobre sexo e como seria a primeira vez sem me sentir estranha, e não conseguia desviar o olhar quando algum garoto bonito passava na calçada enquanto eu estava dentro do ônibus a caminho do dentista.

– Manu? — O toque de Sthella na porta era insistente, me perguntava como ela poderia estar tão ansiosa quanto eu,

– Pode entrar.

– Estávamos na dispensa, o movimento àquela hora já era grande, e eu deveria estar na cozinha supervisionando tudo, mas me escondera ali para ver se conseguia fazer minha cabeça parar de funcionar, sem sucesso.

– Adivinha essa – Ela abriu um sorriso grande, os olhos brilhavam – Tem tatuagens de uns desenhos complicados de descrever subindo por um dos braços, o sexto sentido diz que provavelmente vai até o ombro e pega uma parte do peito. Formou-se em medicina, tem olhos verdes que se escondem por trás de um óculos muito sexy.

– Ah meu Deus – Eu cobri o rosto com as mãos.

– Ele está de jeans e uma camisa social vinho que deve custar um salário mínimo. Chegou todo simpático e sorridente pela porta da frente, com um problema do lado.

Quando Sthella dizia “que o sexto sentido dizia” era uma forma mais educada de dizer que ela já havia feito sexo com caras suficientemente diferentes pra saber estimar as coisas sobre eles.

Minhas mãos caíram, é claro que ele viria acompanhado. Era a primeira folga de verdade dele no mês, não dedicaria total atenção Amim, ou a nós. Por Deus como eu era idiota, tinha acabado de ser usada para o encontro de alguém.

Eu daria o pior prato pra ele e seja lá quem fosse.

– É um cara – O sorriso dela diminuiu um pouco – E talvez a gente conheça.

– Talvez?

– Não me lembro de perguntarmos se ele manteve amizade com alguém – Comentou pensativa e eu fechei os olhos – E algo me diz que não faria muito sentido ele trazer alguém desconhecido, então existem 100% de chance de que seja alguém que estudou com a gente que veio para saber que fim deu nós três.

– Se eu for humilhada quando chegar naquela mesa Sthella-

– Isso não vai acontecer, o meu lado barraqueiro não morreu okay? Eu só o controlo.

Nós saímos, Sthella não tinha permissão para andar pra lá e pra cá livremente — mesmo que eu quisesse não poderia – por isso ela teve que sair pela porta dos fundos pela qual entrara – e que só era a única a fazer isso porque ela já tivera um caso com meu segurança dos fundos e ele ficava todo molenga perto dela – e entrar pela frente junto com Duda como qualquer outro cliente. Eu resolvi passar na cozinha só para ter certeza de que estava tudo dando certo.

Um frio na barriga me subiu quando percebi que já estava diante das mesas. Alguns rostos eu conhecia e outros nem tanto. O meu coração bateu mais forte no peito e eu dei uma ultima olhada para mim mesma e um dos espelhos das paredes.

Eu tinha levado um tempão pra me arrumar, e acabei por colocar o meu único jeans preto – que de acordo com Duda eu poderia muito bem pegar quantos eu quisesse se saísse com eles com mais frequência – minha regata preta que tinha uns detalhes curiosos brancos e prateados, que estavam mais para riscos na vertical que faltavam e depois continuavam, e um paletó cinza por cima. No pé, uma bota de cano curto com salto mesmo.

Eu queria voltar para dentro e me esconder até todos irem embora, Sthella com certeza já teria se aproximado e as apresentações já teriam sido feitas, eu é quem estava atrasada.

Respirei fundo.

Estavam todos preto do balcão do bar, Duda parecia meio calada o que não me surpreendeu muito, Sthella comentava alguma coisa enquanto Beto sorria, seja lá quem fosse que ele trouxera estava de costas para mim.

Duda me viu primeiro, e houve um total silêncio enquanto eu me aproximava. Eu tive uma sensação estranha.

– Você está atrasada – Sthella ergueu uma das sobrancelhas e surpreendentemente os dois se levantaram, eu recuei um passo meio surpreendida, uma espécie de cavalheirismo em falta hoje em dia.

Que o outro cara era mais alto que eu já era um fato. Tinha um sorriso confiante no rosto, deixando a vista aquela serie de dentes brancos e alinhados. Os olhos castanhos eram pequenos, e eu logo reconheci um companheiro míope – quando se usa óculos por pelo menos um terço da vida, você começa a perceber que precisa e quem já usou – os cabelos também escuros estavam curtos, nada além de uma ligeira camada. Tinha um porte duas vezes maior que o meu, os ombros largos e o corpo todo proporcional.

– Manu se lembra do Carlos? – Sthella comentou lá trás.

Eu estava ocupada tentando processar o sorriso do outro cara.

– O Rex ou o-

Minha voz morreu quando constatou de qual Carlos estávamos falando. Muito bem, será que eu poderia me jogar de alguma janela agora, porque o sorriso convencido dele deixava claro que estava pronto para uma piadinha maldosa. Carlos Eduardo era alguém que eu nunca me sentia muito bem estando por perto, não que ele tivesse algum problema, mas eu não era muito focada em olhar garotos, e quando comecei a focar, Carlos Eduardo não fazia parte da lista.

Carlos tinha se declarado pra mim umas três ou quatro vezes no terceiro ano do fundamental, e dessas quatro vezes tudo o que eu fiz foi escutar e dar as costas. Podem me vaiar, mas eu não tinha reação, eu não sabia o que fazer e eu desejava simplesmente sumir com toda a pressão das piadas sobre ‘dar uma chance’ ‘ai que lindo, são um par perfeito esses dois’.

Quando o assunto deu em pizza eu me senti mais relaxada, mas nos anos que se passaram e ele se tornou apenas simpático comigo eu fiquei ainda mais louca, não parecia natural, ele deveria me odiar, tinha que me maltratar e não agir como se eu fosse apenas uma amiga antiga.

Eu queria que ele me odiasse por ter sido tão seca com ele.

Outro porém, era que eu nunca chamava ele de Carlos, sempre Eduardo. O motivo dessa palhaçada, já que todo mundo – todo mundo — o chamava de Carlos? Minha mãe era amiga do pai dele, o pai dele chamava alguma coisa Eduardo também, ele me tratava sempre bem e eu gostava dele, e eu nunca fora muito boa em assimilar nomes – tanto que eu tinha um apelido para cada pessoa no mundo – então era muito mais simples pensar em Eduardo Pai e Eduardo Filho que ficar lembrando nomes.

– É bom te ver também Manu – Ele se referiu ao meu silêncio e eu soltei um sorriso sem graça.

– Uau você... Cresceu.

Beto puxou uma cadeira.

– Pode sentar Manu.

O uso frequente de um apelido tão intimo estava me provocando arrepios.

– As pessoas crescem – Respondeu eu tom brincalhão.

Que ótimo, eu estava entre os dois, as duas piranhas com sorrisinhos sugestivos mais a minha frente.

– Todos já pediram? – Eu suspirei levando o guardanapo ao colo, eu tinha que me manter civilizada o máximo de tempo que conseguisse.

– Estávamos esperando por você – Quem comentou foi Duda erguendo a mão para chamar algué.

Cada um fez m pedido, eu me contei em pedir algo forte para beber. Já estava ali à contra gosto, no meio dos dois caras com certa influência no meu histórico de amores não correspondidos/sucedidos.

O assunto voltou a contagiar a mesa, e eu fiz o que pude para prestar atenção. Roberto comentou sobre como era a faculdade de medicina, as poucas e boas pela quais passou, tinha terminado com a namorada há alguns meses, e acho que escutei algo sobre mestrado ou pós-doutorado.

Sthella falou sobre a faculdade de Educação Física, sobre como era dar aulas em duas escolas e em outra durante as férias, sobre como dava aulas particulares de Personal e como adorava exercícios, jogar, correr.

Eu virei a taça, a mudança de escolhas e gostos entre os dois fazia parecer haver um abismo separando cada um de nós. Duda não fizera faculdade, sem se decidir sobre um curso começara trabalhando como balconista em uma loja de ferramentas, e fotografia nas horas, com as fotos sendo melhoradas de acordo com o tempo, ela dormira com o chefe de um jornal para conseguir a vaga de fotografa em um jornal. Às vezes eu pensava que a vida que ela levava era um sonho e um pesadelo, a vã em que trabalhava era financiada pelo jornal, a câmera era dela, e tudo o que tinha que fazer era bater meia dúzia de fotos sobre o que mandassem, já que nem procurar a matéria ela precisava.

Mas é lógico que ela não contou essa versão, dizendo tudo muito superficialmente, dava para entender que ela deixara seu curriculum como fotografa em diversos lugares e jornais e cidades, Lutara com garra pelo cargo que tinha.

Duda podia ser minha amiga, mas havia coisas nela que eu odiava de tal modo que minha vontade era de dar com a cabeça dela na parede pra saber se ela tinha conta sobre o que fazia com a própria vida.

Eu virei a segunda garrafa em menos tempo que a primeira, e por alguma razão desconhecida Eduardo fora pulado. Estavam todos olhando para mim e eu já estava meio alta.

Dei de ombros.

– A julgar pela minha demora, é provável que Sthella já tenha contado parte da minha estória pra vocês.

Ela me jogou um olhar Ada agradável e eu ignorei.

– Adoraríamos escutar a sua versão dos fatos – Eduardo cruzou os braços diante do peito, os botões da camisa que usava pareceu deixarem mais pele a mostra. Além de bronzeado, metade de um desenho ficou a vista.

Eu franzi o cenho.

– Será que algum de vocês dois poderia me explicar quando se converteram a favor de tatuagens? Se eu me lembro, vocês consideravam isso coisa de ‘gente perdida’.

Beto abriu um meio sorriso, aquele sorriso. Mesmo sentada eu senti minhas pernas se desestabilizarem.

– Cada uma tem uma história – Passou a moa pela nuca puxando a gola e mostrando vagamente até onde mais ou menos os rabiscos seguiam – Qual delas você quer primeiro?

Sthella cobriu a boca com uma das mãos e eu fiquei muda. Espera. O que? Ele estava me cantando? Tinha alguma ideia sugestiva sobre eu ver as tatuagens ou escutar o porquê de fazê-las?

Sorri enquanto prendia o cabelo, do jeito que as meninas pegavam no meu pé para que eu fizesse com mais frequência. “Você fica tão sexy quando marra desse jeito despojado, é como se tivesse se arrumado as pressas depois de ter transado com um milionário gostoso no escritório dele”.

– Bom, depende, devemos começar por ordem cronológica ou por lembranças mais agradáveis?

O sorriso dele se expandiu.

– Por que não escolhe uma? – Ele arregaçou mais as mangas – Aquela que você gostar mais. – Estendeu o braço sobre a mesa.

– Eu teria que ver todas com clareza pra me decidir qual eu gosto, e não apenas parte delas — O queixo de Sthella caiu, era como se eu tivesse pedido pra ele tirar a roupa ali mesmo – E pelo que me deu a entender até agora Dr. Dantas, me sinto na obrigação de lhe informar que não é permitido entrar, ou permanecer sem camisa dentro deste estabelecimento.

Duda tossiu, e depois de alguns segundos chocado Eduardo gargalhou alto ao meu lado, chamando mais atenção do que deveria.

– Essa foi muito boa, 1 a 0 para Manu Boaventura, Dantas! – A voz dele soou sarcástica, Beto não pareceu muito satisfeito com o comentário. Os pratos chegaram.

– Tem certeza de que não vai querer nada? – Sthella pareceu preocupada enquanto todo mundo se enlambuzava e eu permanecia com meu copo pela metade.

– Tenho.

– Não faz bem beber de barriga vazia – Beto tirou brevemente os olhos do prato.

– Eu vou ter que pagar por essa consulta?

– Manu! – A apreensão partiu de Sthella, eu apenas ergui as sobrancelhas, Beto riu brevemente.

– Tudo bem – Disse antes que eu pudesse retrucar – Ela está bêbada.

– Eu não estou bêbada. – Ralhei.

Duda sorriu.

– Você com certeza já está bêbada, virou duas garrafas sozinha, e já está na metade da terceira.

Eu revirei os olhos, mesmo que eu estivesse eu queria sair dali. Eu fiquei de pé, e o mundo todo girou, me forçando a apoiar as mãos na mesa, maldição, o efeito do álcool.

– Vá com calma – A mão de Beto parou sobre a minha, quente, terna – Se não você não sai daqui andando.

Eu senti meu corpo estremecer e o olhar dele se estreitou sobre o meu rosto.

– Você vai voltar a sentar ou vai dar a louca de querer sair marchando?

Eu o encarei, não era o cara extrovertido e encantador de dois minutos atrás, era o médico me pedindo pra não fazer bobagem se eu quisesse viver mais tempo.

Eu respirei fundo, odiando-me pelo comportamento infantil.

Eu voltei a me sentar, ele sorriu.

– Que ótimo! Sobre o que vamos falar agora?