Love me Harder
6 Capítulo 6 - Boa noite
Notas iniciais
Love me Harder / Capítulo – Boa noite.
Eu com certeza deveria estar pagando por alguma coisa horrível que eu fiz em outra vida, provavelmente chutei um cachorro ou atropelei um gato. Porque Sthella ficou doente e na semana seguinte.
Sthella odiava com todas as suas forças ambientes hospitalares, depois que seus pais se separaram quando ela entrou na faculdade, sua vida se tornou uma bagunça porque seus irmãos mais novos ficavam doentes quase que toda hora e os pais não tinham horários para leva-los no médico.
— Eu não preciso ficar aqui sabe – Resmungou enquanto batia os dentes, com frio, com febre – Só me seguram aqui pra não dizer que não tem pacientes para trabalharem.
— Eu queria acreditar em você – Resmunguei em resposta, ocupada demais em desenhar nas folhas finais do caderno de contas que eu tinha na bolsa – Mas tem bastante gente na sala de espera.
Ela revirou os olhos.
— Muito bem – Beto entrou repassando os papeis da prancheta que tinha em mãos, o sorriso sem vergonha no rosto – A Srta. esta com uma bela de uma virose gastrointestinal – Ergueu os olhos pra nos ver – Alguma coisa que comeu, bagunçou com teu organismo.
— Então ela não deveria estar sentindo apenas enjoo, e se trancar no banheiro a cada dez minutos?
— Febre também é um sintoma. – Deu meia volta caminhando até a pia e abrindo uma gaveta cheia de comprimidos. – Vou dar remédio pras dores no corpo, e um antitérmico caso tenha febre outra vez, mas com toda a diarreia e os vômitos preciso que beba bastante água pra que não precisemos nos preocupar com desidratação. – Ele franziu o cenho para a gaveta – O antitérmico não esta aqui, peço pra alguém trazer pra você.
Voltou-se para frente, escrevendo com rapidez sobre o bloco de atestado, destacando a folha e entregando na direção dela, que agradeceu com um aceno de cabeça.
Voltei a focar nos meus rabiscos, porque se fosse um enfermeiro que viesse Sthella não perderia a chance de jogar um charme, mesmo que estivesse nas piores condições.
— Então o que vai fazer agora?
Ele perguntou, o quarto ficou silencioso.
Eu ergui o rosto, os dois olhavam pra mim. Ele ergueu as sobrancelhas devagar.
— É comigo?
Sthella me xingou pelo olhar.
“Dã, eu to doente lembra?”
— Que horas são?
Ele esticou o braço, erguendo a manga branca, os desenhos na pele se destacando debaixo do relógio caro.
— São quase sete.
Droga, isso fazia com que ele estivesse no fim do expediente ou o que? Esse horários de médicos eram confusos demais pra mim.
— Vou esperar o remédio da Steh chegar e depois disso vamos embora.
— Não precisa me esperar – Ela negou veemente com a cabeça – Você a ia querer dirigir, e me recuso a deixar você dirigir meu carro, vai acabar matando nós duas.
O sorriso dele aumentou.
— Eu não sou ruim no volante. – Ela não podia estar falando serio.
— Eu sei, mas tenho certeza que se fosse pra dirigir você teria seu carro e meio.
— Ótimo – Ele levou os braços ao peito – Eu te dou carona.
Eu não tinha por onde fugir.
— Ta bom – Coloquei minhas coisas de volta na bolsa o mais rápido que pude, vou esperar na lanchonete la fora enquanto você se organiza.
Eu não o deixei responder, já do lado de fora, comecei a pensar se dava tempo de correr sem que desse tempo dele me alcançar. Provavelmente ele só mandaria alguém buscar o remédio de Sthella, guardaria o jaleco e pegaria as chaves de sabe se lá o que ele tinha.
Eu não tinha tempo.
Bufei quando me sentei e neguei querer alguma coisa pra balconista que fez cara feia, meu celular vibrou no bolso.
Ele saiu mais apressado do que você daqui, pelo amor de Deus, não fode as coisas.
Vibrou outra vez.
No sentido ruim ta? No sentindo bom pode.
Oh Deus.
— Então – Se jogou de forma preguiçosa no assento ao meu lado. Será que ele viu as mensagens dela? – Você parece meio avoada hoje, é por isso que não está no restaurante.
— Tenho um gerente, ele é tão pé no saco quanto eu, não preciso estar sempre se não quiser.
— Oh – Exclamou surpreso enquanto girava o molho de chaves dos dedos – Isso deve ser legal.
Cara, eu tava com os nervos a flor da pele. Eu queria saber me explicar, dar inicio a algum assunto banal, perguntar se já poderíamos ir, mas minha mente tinha parado de funcionar.
Por favor raciocínio, volte.
— Me desculpe por ter desligado o telefone no outro dia – Ele não parecia nem um pouco desconfortavel – É que eu tinha que por a limpo as coisas com Eduardo sabe? Ele não se expressa direito, ai fica falando merda por ai.
— Não tem com o que se desculpar.
— Só achei legal que ele tinha dito que você foi bem objetiva, sem deixar brechas. Ele costuma usar as brechas quando recebe um fora, pra não sair perdendo.
— Eu imagino — Respondi num suspiro e ele voltou a olhar pra mim, semicerrando os olhos.
— Você não me ligou nenhuma vez depois disso, por quê?
Eu abri a boca pra responder, mas nenhum som saiu. Eu tinha que ligar? Ah é mesmo, eu é quem queria complicar as coisas, então eu deveria ligar.
Espera, o que?
— Não sei.
Ele sorriu.
— Vamos revezar, então, como você foi a última agora é minha vez. — Estávamos mesmo planejando ligar um para o outro? – Está tudo bem pra você?
— Você só precisa parar de falar – Eu passei a mão pelo rosto, talvez pela quinquagésima vez – Você me perturba – Arqueou as sobrancelhas lentamente outra vez — Talvez devesse parar de me olhar também. – Ele não tirava aquele maldito sorriso dos lábios – Essa também é uma ótima ideia.
Ele riu muito brevemente antes de voltar a sorrir abobadamente para continuar a falar.
— Por que está tão nervosa?
E ainda assim ele perguntava. Antes fosse apenas nervosismo, nervosismo de estar perto dele costumava me deixar gelada, acho que a essa altura eu já deveria estar morrendo. As batidas do meu coração contra o peito provavelmente não estavam filtrando o sangue direito, apenas o jogando de volta no corpo, sem sangue utilizável meu corpo gelava e eu começava a morrer.
Porra, eu estava estupidamente gelada.
— Acho que estou morta – Estiquei o braço em sua direção, esperando que pegasse em minha mão. Seus olhos brilharam em divertimento e logo em seguida mudaram para surpresa quando sua mão quente tocou meus dedos frios.
— Uau – Disse de forma lenta – Não se preocupe ainda esta viva.
Eu suspirei em alivio, ignorando a onda de eletricidade que percorreu o meu corpo enquanto ele explorava minha mão, literalmente.
Ele não me soltou, mesmo eu tendo recuado o braço, usou como artimanha para chegar mais perto.
O que ele estava fazendo?
— Acho engraçado que esteja gelada – Segurava minha mão com as duas, explorando meus dedos como pediatra procura machucados na criança pequena – As pessoas não costumam ficar geladas perto de mim.
Não me arrependeria de perguntar.
— E como elas ficam?
Ergueu os olhos brilhosos para o meu rosto. Deus, como era possível eu me sentir queimar por dentro e ainda assim estar tão gelada por fora? Eu me sentia um petit gateau. Minhas bolas de sorvete, Sthella e Duda, meu escudo para que ninguém se aproximasse. E se chegasse em mim, eu estva como um bolinho de chocolate gelado, preparado para ser dividido pela metade.
Metade jogada fora, pelo bom proveito que fora feito do sorvete, e a outra levada em consideração, pelo prazer de ver que por dentro eu era só calda de chocolate quente.
—Quentes. – Lançou aquele sorriso, arrumando o óculos no rosto.
Não sei porque o contato visual permaneceu mas ele mantinha minha mão perto do seu rosto e abriu a boca para falar outras duas ou três vezes, desistindo e me deixando sem entender nada.
— Certo, podemos ir?
— Claro.
Ele tomou a frente, caminhando a passos tão confiantes que me senti um pouco menor do que já sou. Então o som do carro apitou, e ele deu a volta abrindo a porta do passageiro.
Está tudo bem.
Eu tinha que descer logo daquele carro, estava completamente infectado pelo cheiro dele, fora o casaco marrom jogado displicente sobre o banco de trás. Ele deu a volta outra vez, tranquilo, enquanto sentava no banco do motorista, inspirava fundo e começava a nos tirar dali.
Eu estou no carro de Beto.
Eu estou no carro dele, com ele.
Estamos indo pra minha casa.
— Então, para onde vamos?
Ele se ofereceu pra me levar em casa.
— Eu vou indicando.
Assunto, eu preciso de um assunto, assunto. Meu celular voltou a vibrar.
Estou saindo. Era uma enfermeira.
Vibrou outra vez.
Você está fodendo no sentindo bom ou ruim?
Eu olhei para o lado, ele parecia completamente distraído.
Ruim
— Com quem está conversando?
Eu movi assustada, pega no flagrante.
— Com Sthella. Ela acabou de sair de la.
— E sobre o que estão conversando?
Sobre eu ainda não ter te prendido no meu quarto.
— Criticando minha falta de habilidade em comunicações.
— Eu certamente não a culpo por isso – Eu apontei em direção a rua que deveria virar – Se não teria trabalhado com jornalismo, ou telemarketing. Não precisa se sentir na obrigação de ter sempre algo pra falar, acho até que isso pioraria as coisas, poderia acabar dizendo algo sem pensar e ficaria remoendo isso depois.
Por que tão perfeito?
— É, é mesmo. Então, qual é a nossa habilidade?Por que fazemos o que fazemos?
Ele ponderou antes de sorrir, indiquei a outra rua.
— Você cozinha porque gosta de agradar as pessoas, gosta de ver a satisfação delas por algo que você fez e considera bem feito. Eu gosto de ajuda-las, fazer acreditar que não vai ser uma doença forte que vão destruí-las.
Meu corpo inteiro relaxou sobre o banco.
— Certo.
Ele piscou em minha direção, rindo.
— O que foi? Por que está me olhando assim?
— Nada – Voltei minha atenção a rua – Do seu lado esquerdo, na próxima quadra, a terceira casa.
Ele estacionou perfeitamente.
— Entregue –Tirou as mãos do volante, abandonando-as perto do corpo, ainda sorrindo.
Eu já estava contaminada, não queria descer do carro.
Meu celular vibrou outra vez.
Se joga em cima dele, eu te imploro. Muito melhor que conversar, garanto.
— O que ela disse?
— Me pediu pra não ser tão chata. Você quer entrar?
Ele deixou os ombros caírem, uma das mãos passando pela nuca enquanto o outro braço se espreguiçava e se encaixava sobre o encosto atrás de mim.
— Hoje não vai dar – Ele parecia realmente decepcionado – Carlos e eu vamos juntar uns amigos la em casa pra jogar poker e falar besteira. Tenho que voltar pra casa pra improvisar alguma coisa comestível e esconder objetos de valor. A gente marca pra outro dia.
A gente marca.
— Bom, então está bem – Eu destranquei a porta do meu lado, na esperança de que minhas pernas não me deixassem na mão quando eu as colocasse pra fora. Com a bolsa encaixada no ombro, escutei-o rir antes de segurar em meu braço e me impedir de sair.
Ok, eu não estava preparada para nada do que viria a seguir, mas ele inclinou o corpo pra frente, sem nenhum cinto de segurança pra me proteger, a outra mão foi parar no meu rosto enquanto beijava a minha bochecha.
Eu estava pior que manteiga.
Foi demorado, foi inusitado, foi dengoso, foi um pecado.
Eu senti meu corpo vibrar, e torcia que, por ainda estar me segurando não tivesse percebido. Afastou o rosto sorrindo.
— Não posso ligar pra ti hoje, então boa noite.
Isso estava mesmo acontecendo? Isso tinha sido um beijo de boa noite? O tempo não estava totalmente escuro, estava?
— Boa noite – Eu praticamente murmurei em resposta, um pouco abalada.
Abalada demais.
Seu sorriso se expandiu, a mão se soltando, o corpo ainda inclinado pra frente. Meu pai, o que eu faço agora?
Se joga em cima dele, eu te imploro. Muito melhor que conversar, garanto.
Por que ele estava tão perto e ainda assim parecia tão difícil?
Seus olhos pareciam brilhar com o desafio, era como se ele pudesse ler a guerra interna pela qual eu estava passando. Não era eu quem queria ‘dificultar’ as coisas? Então nesse caso eu deveria só sorrir e descer, fingir que nada tinha acontecido.
Mas ele estava tão fácil.
Queria estar bêbada para poder jogar a culpa em cima de alguma coisa, ou doente pra dizer que não estava conseguindo pensar direito e estava sob comando de alucinações. No entanto eu estava perfeitamente sóbria e saudável.
Não sei o que deu em mim quando eu avancei, qual pensamento encorajador que funcionou, ou se era o simples fato de que eu me odiaria eternamente se tivesse dado as costas, mas o impulso fez as borboletas no meu estomago enlouquecerem.
Quando nossas bocas se encontraram, eu realmente não queria pensar, queria desligar todo o trabalho racional do cérebro, talvez pelas próximas doze horas. Queria que ele desmarcasse o jogo de cartas e experimentasse os ultimo pedaços do bolo de chocolate que eu fizera, guardados para a chegada nada agradável de Duda na tarde seguinte.
Ele tinha sabor de melancia.
Ele não teve a mesma reação estática e inesperada que a minha, era como se o desgraçado tivesse lido em meus olhos o que eu estava pra fazer antes mesmo que eu soubesse, as suas duas mãos voltaram para o meu rosto, as pontas dos dedos se escondendo no meu cabelo.
Não sei como a porta do meu lado fechou, mas sei que ela se fechou.
Enquanto eu me sentia capaz de explodir pelo numero de emoções acumuladas no peito, ele ainda era perfeitamente gracioso, as pontas dos dedos me incitando a continuar, enquanto eu mordia seu lábio inferior.
A distância tinha começado a se tornar muito grande, eu passei por cima do freio de mão, indo parar no seu colo.
Eu estava no carro de Beto.
Eu estava no carro dele, com ele.
Eu estava no colo dele.
Não sei como fui parar tão longe, mas não podia estar mais extasiada, rodou um dos braços na minha cintura, como se me proibisse de sair. O congelamento tinha ido embora, estamos no bolinho de chocolate.
Quando o celular vibrou sobre o outro banco assustou a nós dois.
Maldição Sthella.
Ele inspirou fundo uma serie de vezes enquanto me abraçava, o rosto escondido no meu pescoço enquanto eu me esticava para pegar o celular.
E então? Ele já foi?
— O que ela quer saber? – Murmurou, a voz rouca.
Eu estava no carro de Beto.
Eu estava no carro dele, com ele.
Eu ainda estava no colo dele.
— Se você já foi embora.
Ele bufou, o hálito quente me provocando arrepios.
— Eu pediria pra você dizer que estamos ocupados, mas eu realmente tenho que ir. – Me apertou uma ultima vez antes de recuar o corpo, só as mãos no meu quadril.
— Então, boa noite – O beijei uma ultima vez na têmpora, ele fechou os olhos, anestesiado.
Ele esticou o braço, ainda com os olhos fechados, pegando minha bolsa.
— É mais fácil que você desça por esse lado mesmo.
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