Notas iniciais
Esperamos que gostem!

Depois de passar cinco anos em uma penitenciária, já havia esquecido como a cidade era barulhenta. Não que eu não goste do ruído, na verdade eu não gostava, mas agora gosto. É aquele papo de gostar, enjoar e depois de um tempo gostar de novo. E me agrada mesmo que eu precise ir caminhando até o apartamento que meu amigo arrumou pra mim.

Os últimos anos foram, de certa forma, bons pra mim, não posso dizer o contrario, mas simplesmente não deviam ter existido. Digo, essa historia de prisão é uma verdadeira droga quando você não a merece. Foi um acaso — do destino, da vida ou seja o que for — que me ferrou e acabou me colocando lá, e, agora que saí, uma nova vida precisa começar. E essa vida começa agora, com toda a barulheira que me cerca no caminho até minha nova casa.

Se André tiver deixado um biscoito na cozinha ou qualquer coisa pra eu comer, eu não me importaria. Porque depois vou sair procurando trabalho por aí ou começar a fazer qualquer coisa que me renda dinheiro. Preciso de energia, mas sim, eu to animada. Tive chance de virar uma daquelas tias chatas depois disso, ranzinza. Quem sabe eu até seja um pouco, mas uma tia chata descolada, eu diria. Nenhuma tia chata aguenta comida azeda por anos. Pelo menos não a minha. Olha só, falando em tia, acabou de passar de carro por mim. Só faltou deixar de ser mal educada e cumprimentar a sobrinha ex-detenta.

Chegando ao meu destino, fui recebida com um estranho olhar do porteiro, que me mediu dos pés à cabeça. Fiquei um pouco confusa, não sabia se me olhava por ser mulher ou por ser ex-detenta. Deduzi que a primeira opção era mais provável já que eu era nova no prédio e ele certamente não me conhecia. Não o cumprimentei, na verdade fiz apenas o realmente necessário: me identifiquei pra poder entrar no prédio. Logo que passei do portão, segui para o elevador que, coincidentemente, estava no térreo pra me levar para cima. Terceiro andar, apartamento 12, não podia esquecer.

Meu quarto era o ultimo. Era frio, mas não tanto quanto a rua. As paredes todas brancas, com exceção de uma atrás da cabeceira da cama que era amarelo queimado. Se não for essa a cor eu realmente não sei qual é. A cama era toda branca, desde a cabeceira até o lençol, cobertores e colchas. Uma TV antiga pendia na parede e parecia que ia cair, mas eram só uns parafusos meio soltos, eu espero. Uma mesa de quatro lugares isolava-se num canto com duas cadeiras e um vaso bonitinho em cima, ah, com uma flor artificial. Também tinha um guarda-roupa de madeira grossa na parede do lado e um cabide. E, por fim, na parede da janela, uma pia, com frigobar e microondas em cima do balcão. E para a minha sorte, tem bolachas no armário.

Tudo o que eu queria agora, mesmo estando empolada, era poder deitar um pouco. Apesar de pequena, a cama parecia me chamar para si. Eu queria dormir como se o amanhã não existisse, mas não podia. Eu precisava dar um jeito na minha vida que no momento não parecia ter um destino certo. Talvez, tudo que eu precisava era ligar para André e pedir um emprego, mas aquele traficante de Viagra não tinha mais obrigação de me ajudar e provavelmente não poderia, mesmo que fosse obrigado. Agora, você deve estar rindo e se perguntando o porquê do "traficante de Viagra", não é mesmo? Bom, não passa de um apelido muito carinhoso que eu dei pra ele quando soube que, no meio das drogas que ele contrabandeava e traficava, havia Viagra. Sim, isso mesmo, André é contrabandista de muita coisa, mas em especial de drogas de farmácia. Virou piada quando descobrimos as pílulas no meio de suas coisas. Era impossível não caçoar

Coloquei minha mochila em cima da cama. Aliás, todo o resto das minhas coisas minha mãe havia mandado pra cá ontem. Depois que fui indiciada, não falou mais comigo, a não ser um "Quando tu vai parar de fazer merda?", enquanto meu pai nada disse desde aquele dia. Única coisa que fez foi me olhar, provavelmente estava pensando em algo menos grosseiro pra dizer. Mas não disse.

Comecei a vasculhar a casa atrás dos objetos mais simples e o que mais encontrei foi poeira. Procurei alguma maquiagem que pudesse usar, algo pra prender meu cabelo e uma toalha para me banhar, mas não tinha toalhas em casa. Acho que alguém se esqueceu de trazê-la na mudança, o que significava que eu precisava ir ao shopping fazer algumas compras. Ao menos as coisas mais caras eu já tinha, como meu edredom e meus travesseiros. Troquei de roupa, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e saí.

O problema todo era saber onde ficava o shopping.

A pessoa mais conhecida pra mim naquele ambiente era o porteiro estranho e mais ninguém. Nenhum dos meus amigos –... Bem, acho que posso chamá-los de amigos – estava por perto e André, talvez o único que poderia confiar, tinha apenas me visitado na prisão, logo não tinha seu número mais. Ninguém podia me ajudar. Entretanto, eis que, fechando a porta para descer as escadas, vejo uma senhora de cabelos muito brancos subindo e se direcionando a porta de frente a minha. Ela sorriu para mim antes de dizer qualquer coisa.

— Boa tarde! — ela disse, sem tirar o sorriso amarelo do rosto. Respondi sem palavras, apenas devolvi o sorriso simpático. — Você se mudou pra cá hoje, não é? É frio aqui, mas logo você se acostuma. Meu nome é Mirian.

— E o meu, Margaret. Estou acostumada com o frio, isso não vai ser o problema.

— Você parece cansada... O dia foi cansativo, Margaret? — disse meu nome com a voz tremula, enquanto arrumava as sacolas do mercado nas mãos.

— Acho que essa minha aparência esteve assim por um bom tempo...

Ela demonstrou que havia entendido, mas dava pra ver a curiosidade em seu rosto.

— Senhora — continuei, cortando rapidamente a conversa. Não podia levar muito tempo falando com ela. — Poderia me dizer onde fica o shopping? Preciso comprar algumas coisas que não trouxeram com a minha mudança.

— Ele fica cinco quarteirões pra baixo — ela gesticulou com os braços e mãos para indicar o caminho. — É só seguir a rua de trás do apartamento, à esquerda vai ver um prédio gigante cor grafite. É ele.

— Muito obrigada mesmo. Então, até mais.

— Se precisar de algo — ela disse, por fim, quando eu descia as escadas. —, moro no 10. Até mais — e sorriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.