Love comes softly
9 Davi
“It’s a love that lasts forever
It’s a love that has no past”
–Don’t Let me Down (The Beatles)
“É um amor que dura para sempre
É um amor que não tem passado”
Suas mãos apertaram a cintura de Johan, enquanto sua respiração voltava ao normal. Seus lábios formigavam levemente e seus pensamentos era os mesmos desde o momento em que puxara o homem para si. Merda. Merda, merda. Eu não queria beijá-lo ainda.
O cheiro de sabonete entrou por suas narinas e Davi sorriu ao sentir seu cabelo ser acariciado.
“Sinto muito. Eu me descontrolei.” As palavras saíram estrangeiras por seus lábios, que, há poucos minutos, estavam ocupados com algo melhor.
“Por que está se desculpando?” Johan sussurrava, parecendo querer manter aquele momento por mais tempo.
“Porque eu não queria beijá-lo.” Um sorriso sincero escapou de seus lábios e Davi continuou antes que fosse interrompido. “Eu quero te dar um tempo, mas sem pressioná-lo. Quero que você goste de mim pelo o que eu sou e não pelo o que tenho a oferecer.”
O silêncio que se instaurou na sala fora levemente incomodo, mas extremamente necessário. O policial aproveitou a oportunidade para admirar Johan, incapaz de interromper aquele momento tão importante. Eu preciso fazer algo.
O homem de cabelos castanhos sorriu e se levantou, saindo do colo de Davi e se sentando no sofá. Seus lábios estavam extremamente avermelhados, contrastando com a pele pálida do rosto.
“Você não deveria se desculpar.” Johan quebrou o silêncio com palavras diferentes do esperado. “Eu fiz você me beijar. Eu sinto muito.”
“O que?” Com as sobrancelhas unidas, Davi tentava compreender o verdadeiro sentido daquela frase.
“Eu não gostei da ideia de você beijando outra pessoa, então agi com egoísmo.” Johan passou a mão pelos cabelos e encostou a cabeça no ombro do policial. “Eu sei que você gosta e mim, por isso quis testá-lo. Queria ver até onde você está falando sério.”
Respirando fundo e entrelaçando uma das mãos com a de Johan, Davi fechou os olhos e apoiou a nuca no alto do sofá. Um teste, huh? Talvez por isso o Rafael tenha dito aquelas coisas. Algumas pessoas não gostam de serem testadas.
“Para a sua sorte, Johan... Eu sou um policial.” O sorriso insistente não deixava seus lábios e foi assim que Davi percebeu que estava fazendo a escolha certa. “Eu amo ser testado e, devo admitir: quanto mais difícil, melhor.”
Os olhos verdes de Johan se arregalaram e seu rosto ficou extremamente corado. Ele parecia querer protestar, mas as palavras não achavam o caminho para fora. Ele pode me testar o quanto quiser, mas eu só vou desistir quando for devidamente chutado.
“E então? Vamos assistir ao filme?” A pergunta saiu com o intuito de quebrar o clima pesado e Davi sorriu ao ver o homem de cabelos castanhos assentir com a cabeça, com o rosto corado.
Aproveitando o momento, o policial se inclinou para o lado e depositou um gentil beijo na testa de Johan, antes de se levantar para pegar o controle. O único erro do Rafael foi desistir quando recebeu a primeira rejeição. Eu não vou deixar o Johan me odiar.
X
Quando o filme acabou, o clima já havia voltado ao normal, mas Johan não demorou em ir embora.
“Eu não te contei, mas consegui um emprego como professor universitário.” O homem de cabelos castanhos comentou, enquanto levava a bacia de pipoca para a cozinha.
“Mesmo?! Isso é ótimo Johan, meus parabéns!” Davi sorriu e deu um tapinha nas costas do homem.
“Sim... Sou professor de biologia laboratorial. Vou fazer meus aluninhos abrirem sapos.” Um sorriso maldoso adornou aqueles lábios, enquanto Johan colocava os tênis e caminhava até a porta.
“Eu não sei se fico com dó dos seus alunos ou de mim.” O policial comentou enquanto abria o portão, parando de andar assim que ambos chegaram à calçada.
“Dó de você? Por quê?”
“Porque nós já tínhamos pouco tempo para nos ver, por causa do meu trabalho. Agora sabe-se lá quando poderemos nos encontrar.” Davi cruzou os braços, como se aquela fosse a coisa mais óbvia do mundo.
“Minhas aulas são apenas de manhã. Eu tenho a tarde e a noite livres.” Johan uniu as sobrancelhas e corou, visivelmente envergonhado.
Um sorriso malicioso despontou nos lábios de Davi e ele deu um passo para frente, ficando um pouco mais próximo do rapaz. Ele está praticamente dizendo que quer me encontrar. Que adorável.
“O horário do meu trabalho varia de acordo com a ronda, então não posso afirmar que nos veremos todos os dias.” O policial suspirou, mas manteve um olhar gentil. “Amanhã eu começo a trabalhar às duas da tarde, então passarei no seu apartamento para dar um ‘oi’. Tudo bem?”
“Você quem sabe. Não quero atrapalhá-lo.” Johan deu de ombros e virou o rosto para o outro lado.
“Não vai.” Davi sorriu e se inclinou, depositando um gentil beijo na bochecha do homem de cabelos castanhos. Eu não consigo não amá-lo.
O rosto de Johan ficara extremamente corado, mas o homem manteve um olhar sério, parecendo determinado.
“Davi, eu... Decidi que não me importo em... S-ser tocado por você. E-eu g-gos-” Mas a frase não foi finalizada.
“Ei, seu policial!” O grito veio da calçada do vizinho, fazendo ambos se assustarem. “Eu vi o que você fez com o meu filho!”
“P-pai!” O rosto de Johan ficara ainda mais corado. “O que você está fazendo?!”
“Vim colocar o lixo para fora.” Vinícius apontou para Davi, mudando de assunto. “Você! Se você quebrar o coração do meu filho, eu não vou perdoá-lo” Não me importo se você é um policial ou não!”
“Pai!”
“Eu acho que é mais provável o seu filho quebrar o meu coração.” O policial riu, sem conseguir deixar de achar aquela cena cômica.
“Mas ele pode quebrar o seu coração porque ele é meu filho! Você é quem não pode fazer isso!”
“Entendido capitão!” Davi bateu continência, fazendo Johan passar a mão no rosto.
“Ótimo.” Vinícius abriu o portão de casa, se preparando para entrar. “E outra coisa: cuide bem dele.”
A frase ficou no ar, enquanto Vinícius entrava em casa, deixando ambos os homens sozinhos novamente.
“Meu pai não existe...” Johan parecia verdadeiramente envergonhado.
“Eu o achei bem engraçado.” Davi sorriu.
“É. Claro.” Um suspiro deixou seus lábios e Johan se virou para o policial, com a expressão séria. “E eu não faria isso.”
“Uhm? Isso o que?”
“Quebrar o seu coração. Eu não faria isso.” Os olhos verdes brilharam. “Porque você está me fazendo gostar de você.”
As palavras chegaram aos seus ouvidos com um toque extremamente gentil, fazendo seu coração acelerar e seus olhos se arregalarem. Eu espero estar ouvindo direito!
“E-eu preciso ir agora. Até amanhã, policial.” Johan acenou e caminhou até o carro, recebendo um sorriso de Davi.
“Até amanhã cidadão. Eu realmente te amo.”
Fora por culpa do momento, mas Davi não se arrependeria de dizer aquelas palavras. Seus sentimentos eram verdadeiros e ele gritaria para o mundo inteiro ouvir, se isso significasse que seria correspondido. Embora ele já esteja começando a gostar de mim.
X
O dia seguinte chegou rápido e, quando viu, Davi estava parado na recepção do apartamento de Johan, de uniforme, esperando uma autorização para subir.
“Desculpe me intrometer, senhor policial, mas o senhor Johan estar irritado é o motivo de um policial estar aqui?” O atendente perguntou enquanto discava o número do apartamento de Johan.
“Irritado?” Davi arqueou uma sobrancelha.
“Sim. Ele chegou extremamente irritado do trabalho. Achei que tinha acontecido algo e então o senhor chegou, querendo falar com ele. É algo sério?”
“Uhm... Isso é o que vamos descobrir.” O policial arrumou o quepe e colocou a mão sobre a arma – uma pose que havia se tornado mania. Esse porteiro parece ser bem atento. O que será que irritou o Johan?
“Pronto, o senhor está autorizado a subir.” O rapaz interrompeu seus devaneios.
“Obrigado. Tenha uma boa tarde.”
Seus passos foram abafados pelo tapete de entrada, e Davi não demorou a chegar ao segundo andar, já que os elevadores estavam completamente desocupados.
A porta de número ‘43’ apareceu em seu campo de visão e fora uma questão de segundos até ela ser aberta, sem que ele precisasse bater.
“Você demorou!” As palavras de Johan saíram irritadas, parecendo navalhas. Céus, ele está muito mais do que irritado!
“São duas hora e cinco minutos! Como que eu estou atrasado?!”
“Você disse que viria às duas!”
“São só cinco minutos, Johan! Pelo amor de qualquer coisa, o que aconteceu? Podemos conversar dentro do seu apartamento pelo menos? Não quero que os vizinhos escutem.”
O homem de cabelos castanhos bufou e virou de costas, deixando a porta aberta e caminhando para dentro do apartamento.
Davi deu de ombros e respirou fundo, entrando e fechando a porta atrás de si. O clima de raiva pairava pelo apartamento como uma sombra e o policial teve certeza que algo acontecera no trabalho novo de Johan.
“E então? O que aconteceu?”
“O que aconteceu?! Eu te digo o que aconteceu!” Johan quase gritava. “O que aconteceu é que eu deveria ter um parceiro no trabalho. Um professor de biologia teórica. Tudo bem, eu não me importo. Mas esse alguém não precisava ser o Rafael!”
Davi uniu as sobrancelhas e cruzou os braços, encostando-se à bancada da cozinha, enquanto Johan voltava a picar alguns ingredientes que estavam sobre a pia. A faca subia e descia furiosamente e o policial se perguntou se estava tudo bem em deixar uma faca nas mãos de uma pessoa irritada. Provavelmente não.
“O Rafael? Aquele Rafael? Aquele que eu conheci no mercado?”
“Você conhece algum outro Rafael por acaso?” Johan estava tão irritado que era quase cômico.
“O Rafael que falou aquelas coisas para você não é o único Rafael do mundo.” Um sorriso tentava se apossar dos lábios de Davi, mas ele lutou para se manter sério.
“É Davi! É o Rafael do mercado!” O grito saíra desafinado, mas em um tom bravo, enquanto Johan jogava a faca contra a pia, fazendo-a pular e cair ao chão, próxima aos seus pés.
“Johan...” Davi colocou a mão sobre a boca e se desencostou do balcão, rindo sem parar.
A expressão do homem de cabelos castanhos fora de irritação para incredulidade em milésimos de segundos e isso só deixou as coisas ainda mais engraçadas. Eu sei que estou pisando em um campo minado, mas não consigo deixar de rir!
“Johan, saia de perto dessa pia, ok? Você vai se machucar e eu não quero ter que te levar para o hospital.” Enquanto as risadas deixavam seus lábios, Davi puxou Johan pelo braço, afastando-o da pia e aproximando-o de seu corpo.
“Como você pode rir?! Eu estou tão... Ugh!” Os pulsos de Johan estavam sendo segurados pelas mãos do policial e ele respirou fundo, se controlando do ataque de risos.
“Johan acalme-se. Sinto muito por ter dado risada. É só que... Você fica adorável quando está irritado.”
“Não é hora para essas coisas. Eu estou soltando fogo pelas ventas!”
“Na verdade, você está jogando facas para os lados, mas isso é assunto para outra hora.” Davi deu de ombros e puxou Johan para mais perto, entrelaçando seus braços em sua cintura, em um abraço gentil. “Mas que coincidência. Essa história de parceiros de trabalho.”
“A sorte me odeia.”
“Nós já tivemos essa conversa e você chegou a essa conclusão sozinho. Se bem que, depois dessa, eu tenho quase certeza de que é verdade.”
“Obrigado por concordar.”
Um suspiro pesado cruzou os lábios de Johan, fazendo Davi apertar o abraço um pouco mais.
“E então? O que ele fez dessa vez?”
“Uhm? Quem?”
“Johan, você estava todo irritado por causa do Rafael até dois segundos atrás.”
“Desculpe, eu estava prestando atenção no seu a-abraço...”
“Uhm... Mesmo?” O abraço ficou mais apertado enquanto o sorriso de Davi aumentava. “Mesmo assim, eu ainda quero saber o que ele fez.”
“Ele não fez nada. Disse que queria conversar comigo no final do nosso expediente, mas alguém ligou para ele e ele saiu correndo.” O homem de cabelos castanhos deu de ombros.
“E por que você está tão irritado se não aconteceu nada?”
“Porque eu sei que vai acontecer.”
“Você não acha que está um pouco traumatizado?” Davi apoiou o queixo sobre a cabeça de Johan. “Quer dizer, eu fiquei muito bravo quando o ouvi dizer aquelas coisas no mercado e teria dado um tiro nele se não estivéssemos em local público, mas... Não sei. Depois que parei para pensar, não me pareceu ser sincero.”
“O que você quer dizer com isso? Está defendendo ele?” Johan afundou o rosto contra o ombro do policial.
“Não. Eu jamais defenderia alguém como ele. Estou dizendo que talvez seja bom escutar o que ele tem para dizer. Além do mais, se ele fizer alguma gracinha, minha arma tem espaço para seis balas. Uma a menos não fará diferença.”
Uma risada sincera deixou os lábios de Johan e ele suspirou, parecendo ter se acalmado consideravelmente da crise de raiva.
“Ótimo. Estou melhor. Obrigado por isso.”
“Vou estar aqui sempre que você precisar, não se preocupe.” Davi afagou seus cabelos e se aproximou da pia, vendo uma barra de chocolate picada em pedacinhos. “O que você estava fazendo?”
“Ah. Quando eu fico irritado, gosto de cozinhar. É relaxante e eu me acalmo mais rápido. Estava começando a fazer cookies.”
“Se acalma mais rápido? Parece que hoje não estava funcionando.” O policial sorriu.
“Realmente, não estava. Mas você apareceu e agora estou melhor.”
“Quer saber de algo? Desde que deixei claro que não conseguiria não dar em cima de você, acho que seu lado ‘atirado’ ficou mais solto.” Davi não pode evitar uma risada ao ver a expressão ofendida de Johan. “Ah, mas eu disse isso por um lado bom. Significa que você está mais aberto a novas experiências.”
“Eu não me importo. É verdade mesmo.” Johan deu de ombros.
O barulho de um celular tocando interrompeu a conversa.
“Sim?” Era uma chamada no celular de Davi. “Ah. Rodrigo. Sim? Eu já estou indo, me espere alguns quarteirões antes.”
O telefonema foi desligado e o policial suspirou.
“Rodrigo? É aquele policial que estava com você quando o cara me assaltou na rua?”
“Esse mesmo. Parece que há uma denuncia de trafico de drogas em um ponto da cidade. Preciso ir lá pra fazer intervenção.”
“Quando seu trabalho acaba?” Johan cruzou os braços.
“Só amanhã no fim da tarde.” Davi arrumou o quepe.
“E você vai passar esse tempo todo com o Rodrigo?” Ambos caminharam lado a lado até a porta e o homem de cabelos castanhos a abriu, deixando que Davi passasse para o lado de fora.
“Sim. Ele é meu parceiro, afinal de contas.”
Johan se inclinou para frente e depositou um casto beijo nos lábios do policial, pegando-o desprevenido.
“Só para você se lembrar de que eu sou a pessoa por quem você está interessado agora. Não se sinta atraído pelo seu parceiro de trabalho.” O homem de cabelos castanhos se afastou com uma sobrancelha arqueada e o rosto levemente corado.
“Eu jamais esqueceria de que estou interessado por você.” Davi sorriu e lambeu os lábios. “Mas obrigado pelo aviso.”
“Idiota.”
“Até logo cidadão.”
“Não faça loucuras. Se você tomar um tiro, eu não vou te visitar no hospital.”
“Combinado.” Uma breve piscadela foi lançada na direção de Johan antes do policial se virar e caminhar em direção ao elevador.
Com a mão sobre a arma na cintura, Davi apertou o botão que levava para o térreo e deixou que seus dedos tocassem os próprios lábios, se lembrando do leve beijo que acabara de receber. Se este for um sinal de que estou conquistando um lugar no coração dele, então eu não me importo em deixar as cortesias de lado por um tempo. Nós dois merecemos essa chance de verdadeiro amor.
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