O calor estava escaldante, como todos os dias. Já nem me lembrava mais como era sentir uma brisa, como era sentir o frio. Até mesmo as noites eram tão quentes como os dias dos Antigos. Eu ainda era pequeno, tudo o que eu tinha era uma vaga lembrança. Principalmente da Guerra, quando perdi tudo, perdi meus pais, meus irmãos e comecei a viver dessa forma.

Ajeitei minha túnica em meu rosto. Um forte vento, quente, queimando meu rosto, jogou areia em meus olhos. Por sorte, eu estava com um óculos de proteção, mas, só servia para protegê-los, pois não enxergava nada a um palmo de distância.

Areia, areia para todos os lados. A cada passo que eu dava, eu afundava meus pés nela. Não a sentia, só o seu calor. Nem mesmo minhas botas eram o suficiente para manter meus pés protegidos e sem queimaduras. Nada era o bastante nesse novo mundo. Principalmente a água, algo tão precioso e raro.

Sei que estava bem perto de chegar em uma gruta que servia para mim como minha casa há vários dias. Precisava chegar logo até ela. Estava cansado da noite. Atrasei-me demais e por fim, não consegui roubar quase nada, mas vai ser o suficiente. Tropecei em algo macio e cai de cara na areia. Tive dificuldades para levantar e mais ainda para identificar o que era aquilo. Parecia uma... menina.

Agarrei-a e a segurei em meu colo. Ela passou os braços pelo meu pescoço e gemeu baixinho alguma coisa que não entendi. Voltei a caminhar com dificuldade, mas em passos rápidos. Ela estava leve demais para alguém da sua idade. E para estar jogada no meio dessa tempestade de areia, ela só poderia estar a beira da morte. Eu precisava ajudá-la. Não sei por qual motivo, não sei o por que de eu querer tratá-la, usar o pouco de comida e água que mal tenho para mim, para ajudá-la a sobreviver. Só sei que, não iria deixá-la morrer nesse deserto como muitos fazem com seus amigos.

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– Ei, Don. O que vamos fazer? – perguntou ela enquanto segura com mais firmeza a minha mão.

– Eu não sei… parece que tem algumas pessoas ali. Será que descobriram nosso tesouro?

Senti sua mão tremer. Ela tinha medo de que isso acontecesse. Nossa sobrevivência dependia disso, e sinceramente, desde que eu a conheci, há dois anos, ela não tem me deixado roubar. Ela quer que eu viva honestamente. E, claro, eu sabia que eles desconfiaram de mim, afinal, não é ninguém que tem tanta água assim para comprar comida e roupas.

– Você acha isso mesmo, Don? Estou com medo… não quero perder tudo.

– E você não vai. Eu vou até lá, espantá-los – disse, segurando o punho da minha espada.

Ela colocou sua mão em cima da minha, impedindo-me de sacá-la.

– Don, não se arrisque. Você comprou essa espada faz pouco tempo… E nem sequer sabe usá-la.

Olhei para aqueles olhos grandes, de um verde-claro e profundo, como se ela penetrasse a minha mente e me controlasse. Eu gostava dessa preocupação.

– Ei! Eu não sou o seu louquinho? O seu Don Quixote? Sou um cavaleiro! – disse a pegando no colo e a jogando para cima. – E você é minha pequena princesa.

Ela começou a rir, feliz. Era assim que eu gostava de vê-la. A coloquei no chão e voltamos a encarar os estranhos que circulavam perto demais do nosso tesouro. Notei que alguns estavam armados. Realmente, eles eram capangas de peixe grande.

– Mas, Don… — notei que ela estava realmente assustada agora. – Eles estão armados. Você pode ser um cavaleiro, mas não é indestrutível.

– Sei disso, Anne. Mas você se lembra daquela brincadeira? – disse, olhando-a sapecamente.

Na mesma hora ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Ela era esperta demais para uma menina em seus 9 anos.

– Então, vamos lá, expulsá-los e proteger nosso tesouro.

– Sim, vamos, Don!

E corremos em direção a um dos nossos túneis secretos. Nos preparamos demais para caso esse dia chegasse. O dia em que lutaríamos por nossa água, nosso tesouro.

~.~

– O que foi isso? – gritou um dos homens, apontando as armas para todos os lados.

– Não sei… Mas me deu calafrios.

Novamente, Anne riu. Até eu sentia calafrios com aquela risadinha de criança dela… uma risadinha maníaca. Ela sempre mudava totalmente na hora de “brincar”. E alguém sempre se feria gravemente nessas brincadeiras.

– Ei, querem brincar? – ecoou uma voz infantil pelos corredores do armazém cheio de caixas velhas e vazias.

Um dos homens atirou na direção de onde a voz tinha vindo, mas ela já não estava mais lá.

Eles estavam atentos, mas não o suficiente para notar aquela pequena diabinha os encurralando para a morte. Novamente, a risada dela ecoou, e os homens dessa vez estavam visivelmente assustados.

– Quem está ai? O que você quer?

– Eu já disse… Eu quero brincar – disse, aparecendo em um canto escuro.

Um dos homens a viu e cutucou seu parceiro para mostrá-la. Os dois apontaram a arma para ela e um deles começou a andar em sua direção.

– Ei, menininha. Pare de correr por ai. Por que não vem conosco até a vila? Lá poderemos cuidar de você, desde que nos obedeça.

– Não é assim que se brinca…

O homem continuou caminhando em sua direção lentamente, sorrindo falsamente, tentando enganá-la.

– E como se brinca, garotinha?

E então, o seu parceiro que ficara pra trás gritou e quando seu amigo olhou assustado ele já havia sumido. Novamente, a risadinha ecoou pelo corredor e ele se virou furioso para onde Anne antes estava, mas ela já havia desaparecido.

– Vamos brincar… – e riu novamente.

O homem começou a recuar, assustado. Ele não sabia o que dizer sobre aquilo. Eu e Anne tínhamos uma defesa praticamente perfeita. Todos pensavam que aquele armazém velho era assombrado, e nós apenas aproveitávamos isso para fazer esse teatrinho todo. Anne os distraia e eu os pegava. Normalmente não tínhamos que matar muitos para que os outros fugissem assustados, mas sempre nos deixavam em paz por um bom tempo.

– Ei, garotinha. O que você fez com ele? Cadê vocês?! – e então ela riu atrás dele. Ele se virou furioso e descarregou a arma em vão, pois ela já não estava mais ali. – Apareça!

E então, notei os outros do grupo correrem na direção do seu amigo.

– Ei, posso saber por que você atirou? O que houve?

– O espírito da menininha… Ela pegou o Jack.

Todos riram e o que parecia ser o líder deles falou:

– Isso é apenas uma lenda. Vamos, pare de brincadeiras, onde está o Jack?

– Aqui – disse Anne, jogando o corpo de Jack no meio deles, pendurado por uma corrente no seu pescoço, morto, com os olhos arregalados. – Quem quer brincar agora? – perguntou rindo.

E então, todos eles saíram correndo do armazém, atirando sempre que viam Anne, mas sempre errando. Mal sabiam eles que usávamos muito jogo de espelhos para dar a impressão de que ela estava parada ali. Esperei eles se afastarem bem do armazém antes de descer do telhado e me encontrar com a Anne.

– Você estava ótima, Anne. Até me assustou.

– Mas eu tive que fazer todo o trabalho, Don!

Eu ri.

– Okay, okay. O mérito é todo seu. Agora, vamos ver nosso tesouro?

– Sim! – respondeu ela com um brilho nos olhos.

Caminhamos em direção ao fundo do armazém. Afastamos um grande armário que dava para uma porta. Anne puxou sua corrente, onde havia uma pequena chave, e abriu a porta. Nós a empurramos com força, e rangendo, ela se abriu, revelando uma escada escura. Peguei minha lanterna presa em minha jaqueta e começamos a descer. Depois de um longo tempo, vimos uma luz brilhante no fim da escada.

Ao chegarmos até lá, nos deparamos com a visão mais bela de todas. Um rio subterrâneo, que misteriosamente brilhava em um tom de verde parecido com os olhos de Anne. Haviam vários peixes vivendo ali e sua correnteza era calma. Era uma nascente enorme, com um grande lago. Essa parte era uma caverna, mas certa vez, mergulhei e passei por baixo das pedras. A água ia tão longe que eu não sabia onde ele terminava. Algumas de nossas coisas já estava ali, pois há algum tempo já estávamos pretendendo nos mudar para ali. Havia muitos outros tuneis com saídas em vários lugares. Conhecíamos todos, e havíamos fechados vários, por segurança.

– Está segura! Que ótimo! – disse ela se jogando no pequeno lago.

– Ei, sua porquinha. Você vai sujar toda a água.

Ela surgiu do outro lado da margem, rindo.

– Você sabe que isso é impossível. Você é mais sujo do que eu. Vamos, venha tomar um banho, Don.

Sorri e pulei na água junto com ela. Eu precisava mesmo disso. Mas eu tinha uma péssima sensação, a terrível sensação, de que aqueles homens não desistiriam facilmente.

Notas finais
É isso ai pessoal. Espero que gostem! Comentem, critiquem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.