Love as Sakura | 爱如樱

65 第57章 A chave mestra - Parte III


Pian Feng acordou e encontrou a cama vazia. Levou apenas um segundo para seus sentidos em alerta imaginarem o pior, que Chao Ya, em um surto de tristeza, saíra pelas ruas em busca de uma Yan Da que não podia voltar para casa. O peso do cansaço dos últimos dias mal dormidos se abateu sobre ele, mas a culpa por ter negligenciado a esposa era maior que a sua necessidade de descansar. Pondo-se de pé, ele saiu rapidamente do quarto e foi recebido pelo alívio de encontrar a cantora no sofá da sala de estar com uma fumegante xícara de chá.

— Eu não estou louca ainda, pode tirar essa cara de pavor. — Alfinetou com certo bom humor.

— Não é nada disso, só fiquei um pouco surpreso quando não te vi na cama. — Desvencilhou-se indo servir-se de uma xícara de chá.

— Surpreso ao imaginar que eu estaria perambulando atrás da minha filha morta. — Devolveu. — Pian Feng, há quanto tempo nos conhecemos, acha que pode mentir pra mim?

O guerreiro do vento nada disse sabendo que ela estava certa, mas apesar do tom de censura, Chao Ya entendia sua preocupação, o estado de espírito dela andava despencando com cada vez mais velocidade. Sentando-se ao seu lado, ele segurou sua mão com um aperto confortador notando a palidez e os olhos inchados da esposa, seu coração partia-se sempre que a encarava imersa naquela tristeza sem poder fazer nada para amenizar seu sofrimento.

— Hu Bing veio aqui enquanto você dormia. — Anunciou ela colocando a xícara sobre a mesa de centro. — Perguntou se tínhamos alguma notícia de Yan Da porque não conseguia falar com ela desde que ela foi para a Europa...

— Xing Jiu deve ter finalmente cuidado das lembranças dele. — Suspirou Pian Feng. — O que você disse?

— Fiquei sem saber o que falar e disse que a última notícia que tivemos é que ela provavelmente ficaria sem sinal porque faria um cruzeiro. Foi a coisa mais demorada que me veio à cabeça.

— Isso vai nos dar algum descanso. — Anuiu.

— Quanto tempo acha que vamos conseguir enganá-lo? Não podemos mentir para sempre, Pian Feng, uma hora ele vai descobrir que ela se foi.

— Amor, confie em Ying Kong Shi por mais irônico que possa parecer eu dizer isso. — Ele fez uma careta e foi presenteado por uma leve risada. — Se Xing Jiu mexeu nas memórias de Hu Bing significa que há uma chance para nossa fadinha, vamos trazê-la de volta.

Chao Ya baixou o olhar para as mãos entrelaçadas dos dois e ficou em silêncio por longo tempo. Durante muito tempo arrependera-se e sonhara com o dia em que finalmente poderiam ficar juntos, mas agora que tinha o amor da sua vida ao seu lado a felicidade parecia incompleta pela ausência da sua outra metade. A falta de Yan Da doía tanto quanto a primeira vez que vira Pian Feng morrer diante dos seus olhos. Ela ergueu os olhos para encará-lo e anuiu brevemente.

— Nesse caso creio que deveríamos ir ajudá-los. — Ela apertou a mão dele em retorno. — Quero estar lá quando nossa menina acordar.

— Claro meu amor, o que você quiser.

Ele sorriu, animado diante da melhora no estado da esposa, e beijou-lhe o rosto com carinho. Chao Ya levantou-se e retornou ao próprio quarto para tomar banho, coragem e renovar os ânimos diante da nova batalha contra a morte.

※※※

Pian Feng acordou e encontrou a cama vazia. Levou apenas um segundo para seus sentidos em alerta imaginarem o pior, que Chao Ya, em um surto de tristeza, saíra pelas ruas em busca de uma Yan Da que não podia voltar para casa. O peso do cansaço dos últimos dias mal dormidos se abateu sobre ele, mas a culpa por ter negligenciado a esposa era maior que a sua necessidade de descansar. Pondo-se de pé, ele saiu rapidamente do quarto e foi recebido pelo alívio de encontrar a cantora no sofá da sala de estar com uma fumegante xícara de chá.

— Eu não estou louca ainda, pode tirar essa cara de pavor. — Alfinetou com certo bom humor.

— Não é nada disso, só fiquei um pouco surpreso quando não te vi na cama. — Desvencilhou-se indo servir-se de uma xícara de chá.

— Surpreso ao imaginar que eu estaria perambulando atrás da minha filha morta. — Devolveu. — Pian Feng, há quanto tempo nos conhecemos, acha que pode mentir pra mim?

O guerreiro do vento nada disse sabendo que ela estava certa, mas apesar do tom de censura, Chao Ya entendia sua preocupação, o estado de espírito dela andava despencando com cada vez mais velocidade. Sentando ao seu lado, ele segurou sua mão com um aperto confortador notando a palidez e os olhos inchados da esposa, seu coração partia sempre que a encarava imersa naquela tristeza sem poder fazer nada para amenizar seu sofrimento.

— Hu Bing veio aqui enquanto você dormia. — Anunciou ela colocando a xícara sobre a mesa de centro. — Perguntou se tínhamos alguma notícia de Yan Da porque não conseguia falar com ela desde que ela foi para a Europa...

— Xing Jiu deve ter finalmente cuidado das lembranças dele. — Suspirou Pian Feng. — O que você disse?

— Fiquei sem saber o que falar e disse que a última notícia que tivemos é que ela provavelmente ficaria sem sinal porque faria um cruzeiro. Foi a coisa mais demorada que me veio à cabeça.

— Isso vai nos dar algum descanso. — Anuiu.

— Quanto tempo acha que vamos conseguir enganá-lo? Não podemos mentir para sempre, Pian Feng, uma hora ele vai descobrir que ela se foi.

— Amor, confie em Ying Kong Shi por mais irônico que possa parecer eu dizer isso. — Ele fez uma careta e foi presenteado por uma leve risada. — Se Xing Jiu mexeu nas memórias de Hu Bing significa que há uma chance para nossa fadinha, vamos trazê-la de volta.

Chao Ya baixou o olhar para as mãos entrelaçadas dos dois e ficou em silêncio por longo tempo. Durante muito tempo arrependeu-se e sonhou com o dia em que finalmente poderiam ficar juntos, mas agora que tinha o amor da sua vida ao seu lado, a felicidade parecia incompleta pela ausência da sua outra metade. A falta de Yan Da doía tanto quanto a primeira vez que vira Pian Feng morrer diante dos seus olhos. Ela ergueu os olhos para encará-lo e anuiu brevemente.

— Nesse caso creio que deveríamos ajudá-los. — Ela apertou a mão dele em retorno. — Quero estar lá quando nossa menina acordar.

— Claro meu amor, o que você quiser.

Ele sorriu, animado diante da melhora no estado da esposa, e beijou-lhe o rosto com carinho. Chao Ya levantou-se e retornou ao próprio quarto para tomar banho, coragem e renovar os ânimos diante da nova batalha contra a morte.

※※※

No momento que Xing Jiu abriu os olhos se deparou com a frenética aldeia mortal na fronteira com o mundo imortal. Crianças brincavam livres acerca das barracas de seus pais que gritavam suas mercadorias a fim de atrair clientes. Outras crianças, mais pobres, pastoreavam animais ou ajudavam seus pais a vendê-los. Era ali também, naquele pequeno mundo de humanos, que habitava os mestiços, filhos rejeitados de imortais com humanos, chamados de feiticeiros e verdadeiros párias no mundo mortal e no imortal.

Ele não precisou de muito esforço para distinguir Li Luo ali no meio deles, botas de couro até os joelhos, uma capa puída cobrindo-lhe todo o corpo, cabisbaixa murmurando suas parcas compras enquanto recebia olhares de rejeição por todos os lados. O capuz estava sobre sua cabeça, mas quando ela se virou ele pôde distinguir os cabelos azuis caindo até a cintura em ondas opacas. Naquela época ela ainda não estava a serviço do reino do gelo, fora convocada como a melhor entre os feiticeiros para localizar os príncipes que haviam se escondido no reino mortal durante a primeira grande batalha contra o reino do fogo.

Pensou em chamá-la, mas se deteve percebendo haver algo incomum na imagem diante dele. Observando melhor, Xing Jiu percebeu que o cenário do sonho estava um tanto nublado significando que aquela era uma projeção da verdadeira Li Luo que via tudo de fora. Tendo Ying Kong Shi como um catalisador, o astrólogo podia dosar melhor a quantidade de poder que investia ali dentro e isso poupava sua energia. Concentrando-se melhor, ele conseguiu limpar a visão e dividir a ilusão nevoenta da verdadeira paisagem por trás, a floresta Pingheng*[1]. Li Luo estava sentada sob uma das grandes árvores, o olhar perdido ao longe como se ainda estivesse imersa na visão.

— Não é irônico? — Indagou quando o astrólogo chegou mais perto. — Antes eu amaldiçoava a vida que levava por causa do imortal que enganou minha mãe, mas para mudar essa vida acabei aceitando trabalhar para um deles.

A amargura na voz dela fez com que o astrólogo, inconscientemente, encolhesse os ombros. Conhecera muito pouco de Li Luo, a maior parte do que sabia vinha dos sonhos de Ka Suo, mas lembrava-se de uma mulher meiga lutando com coragem contra as adversidades. Aquela aura derrotista não lhe caía bem.

— Por isso se uniu a Lian Ji, para punir Ka Suo? — Quis saber.

— Punir Ka Suo? — Riu sem humor, nesse momento seus olhos se voltaram para Xing Jiu. — Ninguém precisa punir Ka Suo, ele faz isso sozinho e muito bem, seria um desperdício de tempo. Não, eu queria punir a mim mesma, minha própria estupidez e terminar com essa segunda chance que não pedi. Eventualmente, Lian Ji encontraria seu fim e eu poderia ir com ela. Meu único arrependimento foi Yan Da ter se ferido no meio disso tudo.

— Você devia saber que tentaríamos te salvar.

— Não deveria haver salvação! — Contrapôs frustrada. — É uma das condições de ceder o corpo.

— Li Luo, toda regra tem exceção. — Devolveu Xing Jiu. — Exceto talvez uma, que se aplica a nós astrólogos e aos curandeiros da tribo xamã, ainda não podemos interferir em uma vida que não deseja ser salva.

— Por isso está aqui, me persuadir a ser salva? — O sarcasmo na voz dela incomodou o astrólogo.

— Não. — Meneou a cabeça. — Estou aqui para perguntar se você deseja sair dessa situação. A escolha continua sendo sua e não vou interferir nela mesmo que não concorde. Só quero lembrá-la de duas coisas: a primeira é que independente do que aconteceu no passado, você ainda é importante para todos nós e não apenas para Ka Suo. Do contrário, não teríamos lutado contra seu fim. A segunda é que poucas pessoas têm a chance de receber uma segunda oportunidade, se você realmente se ressente pelo que aconteceu à princesa, por que não pensa em honrar o sacrifício dela?

— Yan Da não fez isso por mim, fez por Ying Kong Shi.

— Ela fez isso por todos, incluindo por si mesma. Libertou todos nós ao condenar a si mesma e cabe a nós decidir como agradecê-la.

Virando as costas para a figura imóvel da feiticeira sobre a árvore, Xing Jiu sentiu seu coração apertar quando começou a ir embora. Estava desapontado com a feiticeira, mas não havia mais nada que pudesse ser feito. Abrindo o portal com o auxílio do cajado das estrelas, ele atravessou sem olhar para trás.

※※※

Peng Yan guiou Yan Da pela floresta na direção da base da Montanha Kunlun. Os dois andaram incansavelmente pelo que, na cabeça da princesa, pareciam semanas, mas o tempo era indefinido no Diyu. Subindo um pouco a montanha, havia uma caverna, todo o lugar tinha uma aura tão limpa que Yan Da sentia seu espírito sendo purificado desde o momento que entrou no território da cadeia montanhosa.

Num primeiro momento, o lugar parecia a casa de alguém. A caverna era muito espaçosa e bem organizada, havia uma cama de pedra forrada com peles, alguns móveis de bambu e um fogão a lenha numa cozinha improvisada mais ao fundo. Archotes presos em suportes nas paredes iluminavam o lugar, era tudo muito rústico, mas tinha algum charme. Observando os utensílios mais de perto, a princesa do fogo percebeu que tudo estava impecavelmente limpo como se a caverna fosse usada com frequência.

— Você pode ficar aqui pelos próximos dias. — Anunciou Peng Yan. — Não importa que você seja uma alma à deriva, ninguém de nenhuma corte do Diyu pode vir até esta terra sagrada.

— E você, não vai ficar comigo?

A resposta de Peng Yan foi um longo silêncio e só então Yan Da compreendeu a negativa que o amigo não queria verbalizar. O coração da princesa comprimiu-se no peito, a despedida era certa, ela bem sabia, mas não deixava de ser difícil. Por mais que desde o começo estivesse consciente que precisava deixar Peng Yan ir, dizer adeus era doloroso demais para seu coração, especialmente pelo inegável fato de que aquela seria realmente a última vez que se veriam. Por isso, era impossível evitar as lágrimas e as nuvens de palavras não ditas pairavam acima deles de maneira opressora. Peng Yan se aproximou e, com os dedos, enxugou as lágrimas que percorriam o rosto da sua amada e lhe tinha nele o efeito de inchar o peito como se as engolisse e, eventualmente, morresse nelas afogado. Yan Da o abraçou apertado, encostando a cabeça em seu peito na busca da música de um coração que não mais batia, ele segurou sua cabeça acariciando os cabelos macios e lutando contra as próprias lágrimas.

— Quando o mundo encontrar a escuridão de um dia, você terá uma chance de ser puxada para a vida outra vez, luz e trevas serão confundidos, vida e morte podem ser iguais. — Ele murmurou as palavras com voz embargada. — Quando esse momento chegar, Da’er, ouça o silêncio dentro de você e não olhe para trás nem sequer uma vez, hao bu hao?

Wǒ dāyìng nǐ. — Respondeu trêmula. — Wǒ ài nǐ, Peng Peng…*[2] eu realmente te amo muito.

— Eu te amo, Da’er… com todo meu ser. Vou amar para sempre. — A voz dele falhou nesse momento e seus braços apertaram mais a princesa contra si. — Não esqueça do que falei, certo? A chave mestra está dentro de você.

Ela anuiu, o nó em sua garganta impedindo-a de produzir qualquer som. Peng Yan afastou-se um pouco e segurou seu rosto entre as mãos, os olhos encarando cada traço do rosto da princesa como se desejasse gravar na sua mente, tatuar a imagem no seu espírito, Yan Da ficou na ponta dos pés e o beijou, o gosto de sal de suas lágrimas misturando-se ao sabor doce de seu beijo, e trocaram o carinho sem desejo de largar-se, temendo o futuro daquele sentimento ceifado pela morte e preservado pela esperança.

Com muito esforço, separaram-se. Cada qual ficando com a metade do outro em si. Peng Yan virou as costas e foi embora sem olhar para trás uma única vez, sabia que, se o fizesse, perderia a determinação de seguir adiante e ele não era o destino de Yan Da, por mais que a amasse também precisava deixá-la ir. Ele sabia desde cedo que o amor era assim, doloroso e difícil. Lhe confortava a certeza de que sua princesa conseguiria seguir seu destino, alcançaria a felicidade que merecia e ele cumpriu sua missão de ajudá-la nisso. O céu do Diyu continuava limpo como antes, mas no espírito de Peng Yan, a tempestade da tristeza mesclada com o alívio caía com violência.

— Peng Peng… — Yan Da sussurrou mais para si mesma que para qualquer um, a voz quase não saía como se a realidade estivesse longe. — Peng Peng!

Ela gritou o nome dele sem resposta e saiu correndo da caverna, mas o melhor amigo já havia desaparecido dentro da floresta, o coração da princesa doía tanto que era difícil respirar, caindo de joelhos no chão em frente a caverna, ela chorou copiosamente a saudade que voltava para lhe assombrar mesmo na eternidade. Ao se ver ali sozinha a espera de uma volta incerta, pela primeira vez Yan Da se perguntou se fizera a escolha certa.

※※※

Chao Ya e Pian Feng chegaram bem no momento em que Huang Tuo, Yue Shen e Lan Shang saíram da biblioteca secreta no salão de cura. Todos receberam o casal de modo caloroso, felizes por estarem reunidos mais uma vez. O guerreiro do vento quis saber que descobertas o grupo havia feito, mas a envenenadora sugeriu que estivessem todos reunidos, uma vez que as informações eram um tanto abrangentes e eles poderiam precisar que os representantes de cada tribo contassem o que sabiam a respeito.

Embora estivessem ávidos por um cálice de esperança, o casal concordou. Pian Feng notou como os três amigos pareciam cansados, provavelmente por várias noites em claro procurando uma maneira de ajudar Yan Da, sentiu-se culpado por não ter ido até lá ficar ao lado deles, cego pelo seu luto. Yue Shen e Lan Shang uniram-se a parte com Chao Ya para conversar, não se viam desde o ocorrido na ponte, quando ela e o marido foram embora furiosos com Ka Suo.

— Como está Chao Ya? — O curandeiro perguntou baixinho.

— Estava inconsolável. — Mostrou melhoras depois que Ying Kong Shi foi visitá-la.

— Ele foi? — Huang Tuo estava surpreso. — Quando?

— Não tem muito tempo. Estava em um estado deplorável, precisei fazê-lo reagir, de alguma forma ele é necessário para que tudo funcione, não é mesmo? — Indagou, referindo-se a revelação de que a lótus escarlate estava o tempo todo dentro do príncipe do gelo. — Por que Ka Suo nunca nos contou nada? Quantas coisas poderíamos simplesmente impedir se soubéssemos disso.

— Imagino que ele ficou com medo de Lian Ji tomar conhecimento disso caso soubéssemos. Ainda assim, confesso que me senti um tanto traído. Imagino como Shi ficou quando descobriu.

— Pensei que ele estivesse aqui. — O guerreiro olhou em volta.

— Bem, estávamos até agora nos arquivos, se ele chegou não tivemos a chance de nos ver.

Pian Feng anuiu.

— Pode ao menos me dizer se tem boas notícias do que encontraram?

— Sim. — Anuiu o curandeiro. — E não. É mais complicado do que parece, mas como Yue Shen bem disse, melhor que falemos quando todos estiverem presentes, talvez precisemos dos seus conhecimentos para entender melhor o que achamos.

Vendo a angústia nublando o rosto do amigo, Huang Tuo colocou a mão em seu ombro e apertou levemente. Não podia deixar de comparar Pian Feng a um pai desesperado para salvar a filha e aquilo o comovia. O cansaço dos dias de pesquisa ininterruptos fizeram total sentido ao ver o sofrimento do amigo, mais do que nunca, o curandeiro renovou suas energias e a determinação de trazer a princesa do fogo de volta.

— Vamos conseguir, Pian Feng. — Garantiu. — Não importa como, encontraremos uma saída.

※※※

Xing Jiu voltou da câmara dos sonhos no mesmo momento que Li Luo abriu os olhos e vomitou um bocado de sangue. Ao seu lado, Shi sentiu uma mistura de alívio e terror, mandando Liao Jian ir atrás de Huang Tuo imediatamente. Desde que havia chegado ali não encontrara o curandeiro e os demais. Shi prestou a primeira assistência à Li Luo, Ka Suo deu alguns passos na direção da cama, mas o astrólogo o impediu com um gesto discreto de cabeça, vendo o alerta no rosto do amigo a quem considerava seu braço direito, o monarca anuiu, magoado, e deixou o cômodo.

A condição da imperatriz da neve era delicada, seu poder espiritual estava caótico e ela se via muito fraca. Mesmo que pudesse aliviar os sinais mais visíveis, o príncipe do gelo não conseguiria ajudá-la sem Huang Tuo. Duas criadas trouxeram água, lençóis novos e toalhas, além de um hanfu limpo para que Li Luo pudesse se trocar. O curandeiro chegou poucos minutos após Liao Jian ter saído para buscá-lo e, com a ajuda de Shi, ajudou a feiticeira a chegar num quadro estável. Diante da situação, o melhor era deixar que Li Luo descansasse após um banho e uma refeição leve.

Desse modo, a reunião do que fora descoberto nos livros secretos da tribo xamã foi adiada para o dia seguinte, assim todos poderiam descansar e estar com a cabeça limpa para ouvir o que Huang Tuo, Yue Shen e Lan Shang tinham a dizer. Quartos foram preparados, uma refeição foi pedida pelo príncipe da tribo a ser entregue nos aposentos de cada um, por mais que fosse sua vontade jantar com todos reunidos, imaginou que seria desconfortável para Pian Feng, Chao Ya e Ying Kong Shi tolerar a presença de Ka Suo à mesa. Os arranjos foram feitos de modo que os casais ocupassem, cada um, seu quarto no pavilhão dos aromas. Xing Jiu e Xun Hao dividiram um cômodo, assim como Ka Suo e Liao Jian — que não se opuseram à sugestão — no pavilhão do silêncio. Lan Shang, Ying Kong Shi e Li Luo permaneceram em aposentos separados no pavilhão da cura, que era o prédio central.

Quando se despediram a fim de ocuparem seus quartos, Shi ignorou o irmão que vinha em sua direção e pediu para falar com a princesa sereia que, alheia ao mal-estar entre os dois naquele momento, aceitou curiosa o convite. Os dois saíram do salão de cura e atravessaram o átrio até os jardins, ali, o príncipe entregou a lágrima ancestral para a sereia.

— Achei que era hora de retorná-la à verdadeira dona. — Disse, um tanto sem jeito.

— Obrigada. — Lan Shang fechou a mão em torno da pedra sentindo a energia que fluía dela relaxar todo seu corpo. — Acho que é uma boa desculpa para voltar e encarar a minha avó. Eu te devo desculpas, Ying Kong Shi. De alguma forma, sou responsável por tudo que aconteceu.

— Também quero me desculpar por antes… posso ter sido irracional.

— Todos nós somos quando se trata de amor. — Ela sorriu. — É uma bênção e também uma maldição.

— Quais são seus planos, quer dizer, quando tudo isso acabar?

— Viver. — Respondeu a sereia, sem hesitação. — Meu único objetivo é viver.

Os dois sorriram um para o outro compartilhando pela primeira vez a cumplicidade de uma amizade que estava nascendo.

※※※

— Shi, nós podemos conversar?

Ka Suo abordou o irmão tão logo este se separou de Lan Shang prestes a ir para seu quarto. O príncipe do gelo mal conseguia encarar o irmão mais velho, seu coração torcendo-se em fúria, mágoa e incredulidade. Sempre que olhava para Ka Suo via suas mãos manchadas com o sangue de Yan Da e se encontrava incapaz de perdoá-lo.

— Não temos nada para falar.

Ia apenas passar direto, mas a mão de Ka Suo prendeu-se como grilhões em seu braço impedindo-o de seguir.

— Por favor. — Implorou.

As mãos de Shi fecharam-se em punho, não acreditava que Ka Suo estava sendo tão cínico depois do que fizera a Yan Da, que mais ele teria a dizer? Que justificativas poderia dar para uma ação guiada pelo puro egoísmo? Não havia nada que Shi quisesse ouvir dele, pelo menos não até ter uma certeza que podia trazer Yan Da de volta.

— O que você quer, Ka Suo, pedir desculpas por ter enfiado a lâmina da sua espada na mulher que eu amo ou comemorar que a sua está viva? — Cuspiu, furioso. — Nos dois casos, lamento, não quero ouvir e nem tenho espírito para comemorar.

— Você pode não entender, mas se aceitei a exigência de Yan Da eu fiz isso por vocês. — Tentou explicar. — Concordo que fui egoísta ao escolher você, mas também pensei nela, não importava o desfecho, ela ainda estaria atrelada à maldição da tribo do fogo, condenada a uma vida de infortúnio por mais seis mil anos, Shi, eu pesei todas as consequências antes de me render, eu juro!

— Ah, você pesou — riu sem humor, o tom ácido em sua voz fez Ka Suo se encolher —, mas não pesou nem um pouco quando decidiu esconder de mim que o tempo todo eu estava com a lótus escarlate, que eu havia me tornado parte dela! Você me tratou como uma arma para vencer a batalha e trazer Li Luo de volta, salvar todo mundo que você envolveu nessa bagunça mais uma vez às custas da minha mulher! Então, sinto muito se eu não consigo sentar com você e tomar chá como se nada tivesse acontecido.

— Você acha que seria diferente se eu a tivesse poupado e matado você? — Argumentou. — Primeiramente, eu sequer poderia fazer isso, considerando que você é mais forte que todos nós. Shi, você é meu irmão, a pessoa que mais amo na minha existência, Yan Da também escolheu você e ela era a única com poder para te ferir. Não havia nada que eu pudesse fazer, por favor…

Gòule!*[3] — Gritou, furioso. — Nada do que diga muda o fato que você mentiu pra mim, me usou para obter sua maldita liberdade às custas da minha felicidade! — Shi fechou os olhos e cerrou os dentes por um momento tentando se acalmar, as unhas curtas cortando a carne da palma de sua mão, lágrimas ardendo em seus olhos. — Você era a pessoa em quem eu mais confiava, Ka Suo, Yan Da foi a única mulher que eu cheguei a amar em duas vidas, um dia eu me sacrifiquei por você, permiti que ela morresse por mim sem sequer conseguir dizer o que eu sentia, agora tive nas mãos a chance de corrigir esse erro e você a tirou de mim! Você, que um dia foi a minha vida.

— Shi… — A voz de Ka Suo falhou.

Ying Kong Shi abriu os olhos se recusando a derramar as lágrimas que inundavam seus olhos, seu coração contorcia-se de fúria, mágoa e dor. A presença de Ka Suo era como um caco de vidro enfiado no seu peito, incomodava e, ao mesmo tempo, ele não podia remover porque era o que mantinha o sangramento sob controle.

— Não quero ouvir mais nada de você. — Sua voz soou mais branda ao pronunciar essas palavras já de costas para o irmão. — Agora não. Eu mal consigo olhar para você, Ka Suo. Faça um favor a nós dois e me deixe em paz.

Sem esperar qualquer palavra do outro, o príncipe do gelo apenas seguiu seu caminho e entrou no quarto destinado a ele sem olhar para trás. Sabia que, mesmo sob o pedido de Yan Da em seu sonho, não era capaz de perdoar Ka Suo, a raiva que sentia do irmão era maior que o amor naquele momento. Yan Da era a única coisa que Shi conseguia ter em mente, precisava salvá-la, não importava de que maneira fosse. Se não a tivesse de volta, o príncipe receava não conseguir seguir em frente.