Love as Sakura | 爱如樱

59 第54章 Amor como cerejeira - Parte I


Pian Feng notou a neve assim que saíram da avenida Ren Xue. A expressão no rosto de Chao Ya se tornou sombria e conforme o carro avançava na estrada, mais intensa a neve caía obrigando o guerreiro do vento a diminuir a velocidade. Impaciente, Pian Feng usou uma rota alternativa para a ponte já que o trânsito se convertia de caótico a lento em questão de segundos, muitos carros eram obrigados a parar por causa da nevasca que lhes cobria completamente impedindo a locomoção. A cantora franziu o cenho encarando o céu sombrio que se arrastava acima deles como se estivesse se revolvendo em suas entranhas.

Havia algo errado e Chao Ya podia sentir apertando seu coração, gelando suas veias e entorpecendo seus pensamentos. As mãos apertaram em punho e esperava que, a seu lado, o marido não notasse o medo extravasando dos seus poros. Areia, Chuva, neve... eles precisavam fechar aquela coisa rápido, ela não queria imaginar o que poderia vir a seguir. Mais à frente, os dois precisaram parar o carro, eles não estavam equipados para dirigir na neve que se acumulava cada vez mais rápido no chão. Os dois começaram a correr implorando aos céus que o temor em seus corações não se tornasse real.

※※※

O astrólogo seguiu as orientações da sereia conforme avançava no corredor mal iluminado por luzes amareladas embutidas em uma cornija. A impressão que tinha, em um primeiro momento, era a de estar em um corredor personalizado de cinema para algum filme de terror, mas ali, ele era a vítima e podia ter um monstro à sua espreita em qualquer lugar. Todavia, ele não conseguia sentir qualquer aura mágica mesmo ali fora o que era curioso. Dentro da câmara, a barreira podia ter suprimido seus sentidos, mas ali fora não era o caso.

Ainda se apoiando nas paredes, Xing Jiu tentava se concentrar nos amigos que precisava encontrar, pensar neles lhe dava força para se manter de pé quando era muito difícil estabilizar a energia. Não havia qualquer sinal de Ka Suo do lado de fora o que ele encarava como um mal sinal, sabia que o monarca nunca faltaria com a sua palavra se algo muito sério não tivesse acontecido e ele estava fraco demais até mesmo para acessar as estrelas naquele momento.

Levou alguns minutos para sair dos intrincados corredores subterrâneos e chegar à passagem secreta que Lan Shang lhe dissera levar ao pátio central, a sereia tinha lhe alertado para evitar o lugar, se esgueirando pelas paredes até a porta do jardim e saindo por lá. Mesmo não sentindo qualquer energia hostil na casa, o astrólogo não achou prudente ignorar o aviso da sereia, também precisava das paredes para se manter equilibrado. Do lado de fora, a luz pálida fez seus olhos doerem e o ar gelado lhe recordou do mundo imortal do qual acabara de acordar.

A neve se espalhava por todo lugar como se uma nova era do gelo tivesse caído sobre a cidade. Xing Jiu não pôde conter o espanto ao encarar tudo à sua volta coberto de branco com cristais afiados nos galhos das árvores e nos beirais dos telhados. Fractais dançavam no ar caindo e mesclando-se ao solo branco enquanto o céu cinza-chumbo era um prenúncio sinistro do que estava por vir. Afastando a camada entorpecida dos seus pensamentos, ele tentou se orientar, dali até a casa de Liao Jian seriam pelo menos quarenta a sessenta minutos, tempo demais para ir andando em seu estado.

Tateou os bolsos da calça que usava quando foi capturado e percebeu que além do cubo dos sonhos, a semideusa não se preocupou em tirar dele o telefone. Deixou a mansão e cambaleou pelas ruas até avistar um táxi que acabava de deixar em casa uma senhora, ele chamou e deu indicações da casa do advogado. Enquanto se afastava com cautela por causa da neve, o motorista ouvia no rádio a respeito do caos que se espalhava com os movimentos climáticos inesperados e inconstantes, muitas pessoas saíam às ruas gritando sobre o apocalipse e o epicentro de um caos começava a se formar.

Bem, pensou o astrólogo, não é exatamente como se estivessem errados. O trânsito estava muito lento, as pessoas começavam a abandonar carros no meio da pista por não conseguirem avançar graças a neve cada vez mais alta no solo. Mesmo usando correntes nos pneus, o motorista do táxi tinha dificuldades de se locomover. Tratores trabalhavam para limpar as pistas, mas também em ritmo lento e atrasou muito mais que o previsto até ele finalmente chegar à casa de Liao Jian. Pagou a corrida usando o celular e cambaleou para dentro, olhou mais uma vez para os céus e pediu ao universo que seus amigos estivessem bem.

※※※

Huang Tuo encontrou Yue Shen, Ka Suo e Shi próximo à ponte Luo Ying. Sua esposa analisava ao longe uma estratégia que lhes permitisse se aproximar da melhor maneira e discutia com Ka Suo enquanto o impaciente príncipe parecia prestes a ignorar os protocolos de guerra e avançar. Pian Feng e Chao Ya chegaram correndo alguns minutos depois e, após explicar por alto a situação, o grupo seguiu na direção da ponte.

A envenenadora os fez parar apenas alguns passos depois. Analisando melhor, ela notou a barreira e Shi franziu o cenho percebendo também. Usando uma de suas agulhas, ela mirou no muro de energia e, ao tocá-la a agulha tornou visível com um brilho prateado a dimensão do escudo. Era por isso que atrás deles o trânsito estava estagnado, os carros não conseguiam se mover e congelavam antes de alcançar a ponte. Shi ergueu dois dedos na direção da barreira e a abriu para que eles pudessem passar, ele foi na frente, seguido por Yue Shen, Ka Suo, Pian Feng e Chao Ya.

O escudo mágico criado por Lian Ji se estendia por toda a ponte e mais alguns metros adiante para todos os lados, era o campo de batalha perfeito, longe dos olhares dos mortais daquele mundo, de modo que não atrapalhariam o confronto. Havia um único carro estacionado ali, próximo à balaustrada, diante dele, uma bela mulher trajando um hanfu branco com desenhos de fênix e chamas em vermelho e dourado, os cabelos escuros caindo até os tornozelos adornados com joias de prata. Ela esboçou um sorriso arrogante quando os viu, parados a alguns metros em linha reta.

Huang Tuo fez um escudo para protegê-los, Ka Suo ficou ao lado de Shi, um passo a frente dos demais do grupo. Todos, com exceção do príncipe, empunhavam suas armas. Sob as ordens do monarca, nenhum deles atacou primeiro, precisavam considerar que Yan Da estava em posse dela, não podiam fazer qualquer movimento até saber onde a princesa estava. Se ainda viviam significava que Yan Da não fora morta, ou seja, o sacrifício ainda estava em voga.

— Onde está a princesa? — Ka Suo quis saber.

— Por que acha que eu diria a você? — A semideusa sorria. — Ela veio até mim por sua própria vontade, quão rude seria recusar seu desejo?

— Yan Da nunca faria isso, você a ludibriou com as suas mentiras! — Rebateu Pian Feng. — Não seria a primeira vez que tenta.

— Você é muito corajoso para falar assim comigo, guerreiro do vento. — Semicerrou os olhos. — Um inseto como você pode ser esmagado com um estalar de dedos meu.

— Ainda se achando demais, não é? — Ele cruzou os braços. — Devolva Yan Da antes que a gente sirva você de jantar para os pássaros da neve.

Ignorando os protestos de Yue Shen, Shi caminhou mais a frente forçando Huang Tuo a expandir o escudo, as mãos fechadas em punho começavam a cintilar com um brilho azulado. Ele lançou um breve olhar para o curandeiro, sabia que, caso ele forçasse seu poder daquela maneira ia se exaurir e precisavam dele de pé. O escudo retrocedeu mesmo contra a vontade do médico e Shi avançou ainda mais na direção de Lian Ji.

— Onde ela está? — Perguntou entredentes.

— Para alguém prestes a morrer, você está tão impaciente quanto seu irmão, Ying Kong Shi!

Lian Ji ergueu a mão na direção de Shi, o olhar de Ka Suo abriu-se em terror. Yue Shen se adiantou saindo da proteção e avançando na direção de Ka Suo que começou a correr na direção do irmão para impedir a semideusa de feri-lo, mas ela o bloqueou com um golpe atirando-o a metros de distância cuspindo muito sangue, longe do alcance de Shi — que ainda a olhava com uma mistura de ódio e tristeza — sem conseguir evitar as lágrimas que lhe enchiam as orbes, toda a verdade pesava sobre ele como golpes de espada.

Por mais que desejasse ir em socorro do irmão, o príncipe do gelo não se mexeu, continuou encarando a semideusa com olhar inflamado recusando-se a chorar, recusando-se a pensar em qualquer coisa que não fosse matá-la. Mas antes precisava saber onde estava Yan Da. Yue Shen ajudou a levar Ka Suo de volta para a barreira de Huang Tuo, o monarca estava enfraquecido pelo golpe, apesar de não ter sido tão forte quanto milênios atrás, na primeira vez que enfrentara Lian Ji, devia admitir que subestimara um pouco a força dela naquele mundo. Provavelmente ela estava usando a lágrima ancestral como um catalisador para potencializar seus poderes.

— Lian Ji, wo gaosu ni, a única pessoa a morrer aqui hoje é você! E eu vou garantir que não sobre nem a sua alma para reencarnar!

※※※

Como Ka Suo havia prometido, tanto Lan Shang quanto Liao Jian estavam na casa do advogado. Havia uma barreira protetiva erguida por Huang Tuo em torno da residência opulenta do antigo guardião do norte. Sentando-se no chão diante da cama onde a sereia dormia, o astrólogo sabia que não seria capaz de acordá-los se não parasse para equilibrar a si próprio. Era o princípio da magia dos sonhos: você jamais seria capaz de unir uma alma se a sua própria estivesse fragmentada.

Ficando em posição de lótus, Xing Jiu fechou os olhos e começou a equilibrar sua energia, levaria tempo — um tempo que ele não podia perder —, mas não havia outra maneira, se era verdade que Ka Suo precisava dele e dos demais amigos, eles precisavam estar em sua melhor forma para atender seu rei.

Enquanto seu poder se alinhava com o cosmos, o astrólogo podia sentir no íntimo do seu ser o desequilíbrio no universo enquanto o abismo do tempo se expandia e a alma de Li Luo pulsava, lutando para resistir à força prestes a destruí-la. O mundo insistia em permanecer, mas conforme a massa de energia se abria, por todo o globo as catástrofes se espalhavam, como uma testemunha ocular, Xing Jiu assistia a tudo impotente, também travando uma luta interna para não deixar aquele grande poder interferir no seu equilíbrio interno.

Xing Jiu?”

O astrólogo estremeceu ao ouvir aquela voz sussurrar angustiada em seu subconsciente.

Niáng niáng?*[1]

Como era possível? A suspensão do espírito dela dentro do abismo teria sido retirada? Nem mesmo na antiga história o astrólogo ouvira algo sobre aquilo.

“Lian Ji precisa ser detida.”

Por que cedeu a ela o seu corpo, niáng niáng, isso não faz sentido. — Quis saber o astrólogo.

Eu estava furiosa, não pesei as consequências... mas é tarde demais agora. Ela está usando a lágrima ancestral para catalisar a energia do abismo do tempo, precisam detê-la.”

— Como é possível fazê-lo, seu servo roga que diga.

Use a lótus escarlate. Ela é a única que tem o poder de destruir Lian Ji, pois foi criada por ela”.

Como imaginei. Pensou o astrólogo, o cenho franzido pelo esforço, mas quando foi responder à Li Luo, ela havia desaparecido, sentia o espírito enfraquecido dela se tornando mais e mais distante, num lugar onde ele não podia alcança-lo. Abrindo os olhos, o astrólogo sentiu todo o seu poder regenerado, a exaustão de momentos atrás havia desaparecido. O mapa das estrelas se expandiu e se alinhou com o do mundo mortal, Xing Jiu sentiu algo pesar no seu peito, a estrela de Yan Da estava fora de curso.

Mestre.”

Xun Hao?

“Mestre, eu tenho comigo um sonho da princesa do fogo.”

— De Yan Da? Como conseguiu isso?

“Meses atrás, ela veio até a tribo do fogo, também não sei como aconteceu, mestre, mas recebi o sonho dias depois. Tentei várias vezes entrar em contato, mas não conseguia alcançá-lo.”

— Mostre para mim, vou guarda-lo aqui e entregar à Shi.

O conteúdo do sonho era desolador. O astrólogo não conseguia acreditar no que seus olhos viam. Não podia deixar a princesa se sacrificar daquela maneira, tinha de impedi-la. Usando o cubo dos sonhos, ele ligou a energia à Lan Shang, precisava se apressar, imaginava que Ka Suo sabia o que fazer, mas Shi era aquele que precisava executar a magia.

Murmurando palavras antigas, ele tentou puxar a consciência da princesa sereia de volta, torcendo para não ser tarde demais.

※※※

— Ying Kong Shi, por que esse ódio tão profundo no olhar? Isso são modos de olhar para sua mãe? — Ironizou ela.

Mãe? — Shi riu sem humor. — Acho que criadora seria melhor para você e não me orgulho nem um pouco de ter sido criado por um monstro.

— Monstro! — Lian Ji lançou-lhe um olhar ofendido. — É assim que os mortais denominam tudo que não os agrada, monstros, aberrações. Só uma desculpa para justificar suas maldades.

— Onde está Yan Da? — Indagou ele, cortante.

— Isso importa? — Ela deu alguns passos em círculo. — Você nunca ligou para ela antes, sequer se comoveu quando ela morreu por sua causa. Não me diga que está arrependido?

A risada cruel dela encheu o local. Ka Suo ergueu o tronco machucado, sangue escorria pelas suas roupas brancas, a visão embaçada fitava os borrões de pé sobre a neve. Shi estava altivo, atrás dele, Yue Shen, Liao Jian, Huang Tuo, Pian Feng e Chao Ya estavam em posição de ataque.

— Onde ela está?! — A voz dele ecoou grave e ameaçadora.

Lian Ji estreitou o olhar na sua direção e tentou ataca-lo, mas Yue Shen e Chao Ya bloquearam o poder para a surpresa dela que cambaleou para trás quando seu poder voltou contra si.

Bù kěnéng!*[2] — Murmurou.

— Surpresa? — Shi sorriu, havia um quê de crueldade na forma como seu olhar mirava Lian Ji, Ka Suo viu ali a personalidade do príncipe do gelo que ele se tornara antes de morrer.

— Como esses insetos conseguem me bloquear? — Ela estava mais indignada que qualquer outra coisa. — Todos eles são fantoches! Eu os manipulei no meu jogo, na minha cidade de fantasia! Este é um jogo que eu criei! Apenas eu manipulei o sinal da estrela e criou a ligação entre você e Ka Suo. Todas as tramas são jogos em minhas mãos.

Dessa vez, foi Shi quem riu. Ka Suo pôs-se de pé e se aproximou do epicentro do embate.

— Isso talvez tenha sido quando você ainda dominava a lótus escarlate. — Rebateu Shi. — Naquele seu mundo manipulado. Mas aqui? Aqui você não tem esse poder. Aqui, você não dita qualquer regra!

— Como se atreve? Você não passa de uma mistura de pétala de flor de cerejeira, uma pétala de lótus vermelha e uma pena do pássaro de neve. Acha que pode me desafiar?

O sorriso de Shi era diabólico.

— Tanto posso que estou fazendo agora. — Com um simples movimento de seus dedos, Lian Ji foi atingida por um raio de gelo que a fez cuspir um bocado de sangue. — Ninguém aqui é mais seu fantoche e eu não sou sua criação. Eu sou Ying Kong Shi, o segundo príncipe do gelo e o mais poderoso ilusionista da cidade Ren da Neve.

Lian Ji gargalhou.

Bīng wángzǐ?!*[3] Ying Kong Shi, você viveu tempo demais na fantasia e não consegue ao menos aceitar quem é de verdade? Você não existe! É uma marionete, um boneco de barro criado pelo meu propósito.

— Você está errada, Lian Ji. — Era Ka Suo. — Shi se tornou real a partir do momento que nossa família o acolheu, sobretudo, a partir do momento em que ele criou um vínculo verdadeiro com Yan Da, um vínculo que não foi manipulado por você e se consolidou quando ela dividiu sua alma com ele. No momento que ele se apaixonou por ela, ele deixou de ser uma criação sua. Eu destruí o seu jogo, acabei com sua cidade de fachada, e Shi destruiu a roda do destino. Você perdeu.

— Nunca!

Huang Tuo criou um escudo em volta de Shi e dos demais quando uma grande explosão de gelo e fogo eclodiu, vinda de Lian Ji. Shi sentiu o coração pular uma batida quando o corpo de Yan Da, envolto em uma massa de energia, flutuou do pandemônio pouco acima da cabeça de Lian Ji. Ele precipitou-se na direção dela, mas foi impedido por Yue Shen que segurou seu braço com firmeza.

Èr Diànxià*[4], por favor, permaneça dentro do escudo.

— Não. — Retrucou com firmeza. — Ela sempre me protegeu, ela me manteve vivo e eu virei as costas para ela até o último minuto. Não vou deixar ninguém mais machucá-la, eu não posso perdê-la, de novo não!

Antes que qualquer um deles pudesse impedir, Shi avançou em direção à Lian Ji que, usando Yan Da como escudo, o atacou. Ele bloqueou o ataque sem dificuldade e parou apenas quando ela mirou em Ka Suo.

— Veremos agora, Ying Kong Shi, com quem está sua lealdade. Se você escolhe seu irmão ou a mulher a quem deixou morrer! — Riu com desprezo. — O que aconteceria se eu usasse a lótus escarlate para destruir essa pequena alma indomável?

Shi petrificou no lugar quando Lian Ji, usando uma magia poderosa, fundiu sua alma com a de Yan Da que, ao abrir os olhos, tinha um olho azul e outro castanho. A risada insana de Lian Ji ecoou na voz de Yan Da que, segurando a espada de Ka Suo, apontou a lâmina na sua direção.

— Yan Da!

— O que você vai fazer agora? — Quis saber. — Qual morte você escolhe assistir, Ying Kong Shi?

Shi ficou parado por um instante sem saber o que fazer. Seu olhar, fixo em Yan Da, passou para Ka Suo que fez um discreto movimento negativo com a cabeça esperando que ele entendesse a mensagem. Ele amava seu irmão e sabia que Ka Suo também o amava tanto quanto era amado por ele. Shi anuiu discretamente e, no momento que deu um passo na direção de Yan Da, Lian Ji — usando o corpo dela — atacou Ka Suo com violência, Huang Tuo conseguiu bloquear o golpe, mas foi ferido e caiu no chão cuspindo uma boa quantidade de sangue. Se não fizesse algo logo, todos os seus amigos poderiam se machucar ou pior, morrer. Mas ele não podia atacar Lian Ji enquanto ela estivesse usando o corpo de Yan Da. O impasse fez o estômago de Shi revirar, a única maneira era fazer com que a própria Yan Da expulsasse a alma de Lian Ji de dentro de si.

Ele a havia ferido de tantas formas. Lembrou-se de Yan Da protegendo-o do seu pai e irmão, indo contra sua própria família para ajudá-lo, em cada gesto dela seu amor era afirmado e reafirmado, entretanto ele sempre a tratou com frieza e indiferença, nunca foi capaz de ser honesto com os próprios sentimentos e admitir para si mesmo — e para ela — que a amava. Que a amou no primeiro momento que a viu mesmo ela sendo destinada a ser sua inimiga. Ele amava a forma como ela abraçava a vida com afinco e se empenhava em ser a melhor versão de si mesma, como protegia aqueles que amava até as últimas consequências e, mesmo sendo um pouco imprudente e teimosa, tinha o sorriso mais cativante que ele já vira em toda sua existência.

Shi não sabia se ela conseguiria perdoá-lo, se merecia o perdão dela. Tampouco sabia de que forma expressaria aqueles sentimentos que ainda lhe eram uma novidade tão confusa e assustadora. A única coisa da qual tinha certeza era que, dessa vez, não importava o preço que tivesse que pagar, ele a salvaria. Ele diria a ela, mesmo aos tropeços e gaguejos, que ela não era a única com aquele sentimento avassalador e indomável dentro de si.

Lian Ji virou-se na direção de Ka Suo e atacou-o outra vez, mas Chao Ya bloqueou o golpe e, também sendo atingida, ficou seriamente ferida a alguns metros de Huang Tuo. Todos eles hesitavam em atacar com medo de machucar Yan Da, o impasse estava se tornando perigoso e Shi não sabia mais o que fazer.

— Yan Da! — Chamou-a. — Eu sei que você pode me ouvir em algum lugar aí dentro. Também sei que eu não mereço que você escute ou atenda nenhuma das minhas palavras... se você me odiasse e me visse como seu inimigo, não poderia e nem iria culpa-la. Mas eu também sei que a Yan Da que eu conheço é a mulher mais forte dos quatro reinos, ela nunca se deixaria manipular por um monstro como Lian Ji, mesmo que a artimanha usada para isso fosse a mágoa profunda que eu causei ao seu coração.

A tensão espalhou-se por todo lugar, o ar parecia mais denso — e não era causado pelo acidente glacial — parte de Shi queria olhar Huang Tuo e Chao Ya, certificar-se que eles estavam bem, mas ele sabia que desviar o olhar de Yan Da era dar a Lian Ji mais poder sobre a alma fragilizada de sua amada.

— Foi sempre você que me protegeu... — continuou — eu costumava dizer a mim mesmo que era pelos sentimentos que não entendia, mas a verdade é que você sempre foi mais forte que eu. Mais forte que qualquer um. Ainda é. Eu fui uma testemunha passiva do poder do seu coração e me sinto muito idiota por nunca ter te dado a resposta que você pediu, por ter cedido ao meu medo e mentido pra você. Me perdoe, Yan Da. Se você me der só mais uma chance, eu prometo que nunca mais vou soltar sua mão outra vez!

O corpo de Yan Da curvou-se e ela caiu ajoelhada, quando Shi fez um movimento em sua direção ela emitiu um forte grito como se seu corpo estivesse se partindo, a mão espalmada contra o chão nevado, Shi foi empurrado por uma força invisível e caiu perto de Yue Shen, que o ajudou a levantar, bem no momento que Yan Da expulsou Lian Ji de dentro do seu corpo e direcionou um olhar cheio de esperanças para ele. Um sorriso se formou nos lábios de Shi e por um segundo ele esqueceu que o perigo ainda não havia acabado, ela se afastou alguns passos da semideusa quando uma espada azul atravessou o seu corpo, Shi não pôde acreditar no que acabara de presenciar.

Era róngyù bīng, a espada de Ka Suo.

— YAN DA! — Pian Feng não acreditava no que seus olhos viam.

— NÃO!

O grito de Shi pareceu ecoar em todo o universo. Ka Suo e Pian Feng conseguiram conter Lian Ji, que ficara ainda mais fraca, Shi estava acometido por uma dor tão profunda que o poder que emanava do seu corpo se expandia em ondas violentas à sua volta. As paredes da barreira se abalaram, o chão tremeu, ele segurou o corpo de Yan Da, ela chorava, um fio de sangue escorria pela sua boca, mas o sorriso não deixava seu rosto mesmo quando ela estava sofrendo a mais terrível das dores. A mão de Shi tremia quando ele acariciou o rosto dela, o sangue vertendo sobre o chão de gelo, ensopando suas roupas assim como quatro mil anos atrás. Imagens daquele momento desolador voltaram à sua mente, ele engoliu o nó que apertava sua garganta, a espada de Ka Suo ainda estava ali no corpo dela, mas o desespero mal o permitiu o pensamento de matar o irmão naquele instante, todo o seu ser estava voltado para ela.

— Yan Da... Yan Da... — ele repetia seu nome como uma oração.

— Ying Kong Shi... — Ela engasgou no próprio sangue e tossiu. — Eu te salvei de novo...

— Claro que sim. — Ele sorriu, mas as lágrimas escorriam pelo seu rosto. — Você sempre me salva, não é? Mas não fale, por favor, não se esforce, vai ficar tudo bem, eu prometo. HUANG TUO! — Gritou ele, em aflição.

— Você disse... a verdade? — Ela ergueu a mão com dificuldade e acariciou as lágrimas dele.

— Sim, eu disse. Eu amo você, Yan Da... a amo desde o momento que te vi pela primeira vez quando você me salvou do lago. — Confessou. — Todas as vezes que eu disse que você era só uma inimiga, eu menti, para mim mesmo e para você. A única mulher que já conseguiu tocar meu coração foi você, ainda é você e sempre será você.

Shǎguā*[5]... — Chorou ela, com um sorriso ainda maior. — Por que demorou tanto tempo para finalmente me dizer? Você só me diz as coisas quando eu estou indo...

— Não, você não vai a lugar nenhum dessa vez. — Ele segurou a mão dela com firmeza. — Seu lugar é bem ao meu lado. Eu não vou te deixar ir embora nunca mais.

— Isso é bom... de ouvir... — Ela olhava para o céu com um sorriso pacífico.

Com um baixo gemido, Yan Da fez uma careta de dor antes de olhar Ying Kong Shi uma última vez e desfalecer. Ele sentiu-a pender em seus braços e a última batida de seu coração ecoou em seus ouvidos e penetrou pela sua pele. O sangue de sua ferida vertia sobre as roupas dele, empapando-as com o líquido viscoso e maculando a neve sob eles. Shi segurou a mão de Yan Da antes que ela tocasse o solo, apertou-a com força como se pudesse fazer seu coração voltar a bater.

— Yan Da? — Shi segurou o rosto dela com a mão livre. — Bu yao! Você não pode me deixar, nãoYan Da! Por favor, você tem que acordar! Não pode me deixar sozinho, YAN DA!

Ele abraçou o corpo dela mergulhado em desespero e angústia. Shi a havia perdido outra vez, por sua causa ela encarara uma morte dolorosa e injusta. Mais uma vez, ele fora incapaz de salvá-la. Ka Suo e seus companheiros assistiam à cena imponentes, seus corações partidos pelo jovem príncipe do gelo cujo destino parecia sempre negro. Ka Suo se aproximou do irmão sentindo a culpa drenar suas forças.

— Shi...

— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?! — Chorou ele, abraçado ao corpo de Yan Da. — VOCÊ A MATOU, VOCÊ, KA SUO!

— Nós vamos trazê-la de volta, Shi, eu prometo. — Sua voz quase não saía.

Shi deixou Yan Da com cuidado sobre o chão e ergueu-se, os olhos novamente inflamados por um ódio cego que não distinguia amigos e inimigos. Ele golpeou Ka Suo que foi arremessado vários metros à distância, Huang Tuo e os demais o encararam incrédulos. O príncipe se virou para Lian Ji.

— Isso foi muito melhor do que eu poderia imaginar. Parabéns, Ka Suo!

— Lian Ji!

A semideusa começou a rir de forma histérica nesse instante atraindo a atenção dos demais. Inesperadamente, ela afastou Pian Feng com um golpe e atacou Ka Suo quando este tentou impedi-la. Huang Tuo levantava nesse instante e rapidamente ergueu uma barreira em volta de Shi no momento que o golpe foi direcionado para ele, a força ricocheteou de volta para Lian Ji que cuspiu sangue e caiu de joelhos. Furioso, e cego pela dor, Shi começou a caminhar lentamente, uma aura azul com borda dourada rodeando-o, ele ergueu o braço e sua espada se materializou na sua mão, seus cabelos cresceram em um reluzente tom prateado, a coroa real com a joia azul formou-se em sua fronte, suas vestes tornaram-se brancas e seus olhos clarearam no azul profundo da tribo do gelo.

Ele caminhou na direção de Lian Ji e nem mesmo seus amigos ou seu irmão conseguiram — ou se atreveram — a impedi-lo. Mesmo sendo o segundo príncipe do gelo, Shi era o mais forte e poderoso príncipe do reino do gelo e vizinhos. Ninguém se atreveria a entrar no seu caminho. Lian Ji havia cometido um erro irreparável ao machucar Yan Da e nem mesmo mil mortes poderiam aplacar a fúria que Shi estava sentindo naquele instante. A semideusa ainda ria sem demonstrar qualquer hesitação.

— Ying Kong Shi, você está com raiva? Nada pode trazer Yan Da de volta, apenas a lótus escarlate e, mesmo assim, ela não se lembraria de você. — Zombou. — Apenas eu tenho a lótus e com ela vou transformar você e este mundo em pó.

Um sorriso diabólico se formou nos lábios de Shi enquanto, com graça e leveza mortais, ele apontava a lâmina na direção do pescoço de Lian Ji.

— É mesmo? — Sua voz soava cortante como o fio da sua espada. — Sabe como eu sei que você está mentindo, Lian Ji? Só restou uma lótus escarlate no lago da montanha e ela é minha.

— Do que você está falando?

— Xin Jiu destruiu seu mundo de fantoches junto com Ka Suo e quebrou a sua roda do destino idiota. Para me libertar, ele usou a lótus escarlate. — Ele se abaixou diante dela, o rosto próximo o bastante para que ela sentisse o hálito dele beijar seu rosto. — Se antes eu era o ilusionista mais forte da tribo do gelo, quão poderoso você acha que eu me tornei depois de receber a lótus escarlate?

— Isso é impossível! — Refutou ela. — Eu tenho a lótus, só eu posso tê-la.

— O que você tem é uma réplica criada por Xin Jiu. — Ele segurou o queixo dela com força. — Eu sou a lótus escarlate agora. A verdadeira. Aquela que vai destruir você de uma vez por todas!

— Quem você pensa que é?! Eu criei você e todo esse mundo, ninguém pode me destruir, ninguém!

Com um único e certeiro golpe, Shi penetrou a lâmina no coração de Lian Ji e usou um forte poder para, junto a espada, destruir toda alma dela em milhões de fragmentos que nunca poderiam se juntar novamente. Tomada de surpresa e agonia, a antes invencível Lian Ji desfragmentou-se em cinzas que voaram junto ao ar glacial. O abismo do tempo fez a terra tremular e, em um instante, a neve desapareceu, a barreira de energia em volta deles também. A ponte voltou a ser a construção comum que era antes como se nada tivesse acontecido.

Xing Jiu, Lan Shang e Liao Jian chegaram nesse momento, mas todo o caos já havia desaparecido. Yue Shen ergueu uma nova barreira para impedir o trânsito. Shi deixou a espada cair no chão quando o corpo da semideusa desapareceu e virou-se para o corpo de Yan Da, de onde Ka Suo já havia tirado a espada de gelo e Huang Tuo prestava atendimento à ferida. Mas era inútil, ela se fora. Aproximando-se deles, ele afastou o irmão com força e caiu de joelhos diante da princesa, as lágrimas caindo sobre seu corpo inerte.

— Shi...

— Eu a perdi de novo! Ela se foi, Huang Tuo! — Chorou ele, abraçado ao corpo de Yan Da. — Eu não pude salvá-la! Eu falhei!

— Vamos trazê-la de volta, eu prometo. — Assegurou o curandeiro.

Pian Feng e Chao Ya estavam em choque, não conseguiam esboçar nenhuma reação, choravam ajoelhados diante do corpo de sua menina como se estivessem vendo uma ficção. O astrólogo se aproximou sem conseguir acreditar naquele desfecho trágico que se repetia, ajoelhando-se diante de Shi que ainda abraçava o corpo de Yan Da, ele murmurou para o príncipe com uma voz embargada.

Wangzi, não sei em que momento ela fez isso, mas eu tenho um sonho da princesa para você. — Falou entregando a esfera de vidro para ele. — Xung Hao me mostrou quando consegui acessar as estrelas outra vez.

Ele segurou a esfera com a mão ensanguentada e encarou-a por alguns minutos. Tomando o corpo de Yan Da nos braços, Ying Kong Shi abriu um portal de neve e desapareceu.

※※※

Wang, pode me explicar o que aconteceu? — Yue Shen encarou Ka Suo. — Por que fez aquilo com ela?

— Ela me pediu. — Revelou ele.

— Ela te pediu?! — Chao Ya o olhou, incrédula, as lágrimas caindo pelo seu rosto. — Ela te pediu e você simplesmente atendeu, você lançou uma espada no corpo dela só porque ela pediu para você?!

— Acha que eu queria, Chao Ya? — Gritou, a dor nítida em sua voz. — Eu tentei convencê-la a desistir da ideia... eu juro que tentei...

Notas finais
[1] Niáng Niáng [娘娘]— Imperatriz; majestade (fem.) [2] * bù kěnéng [不可能] — impossível [3] * bīng wángzǐ [冰王子] — Príncipe do gelo [4] *Èr diànxià [二殿下] — ao pé da letra seria segundo príncipe ou segunda alteza. Mas, em uma tradução mais adequada, seria correto usar apenas alteza ou sua alteza já que o 二 (dois) apenas indica a ordem de nascimento e posição de Shi em relação ao trono. [5] * Shǎguā [傻瓜] — Idiota, tolo, bobo. [6] *Hóngmù sēnlín [红木森林] — Floresta das sequóias. [7] *suǒyǐ fàngshǒu wǒ ba. Wǒ yě huì fàngshǒu nǐ. [所以,放手我吧。我也会放手你。] — Então me deixe ir. Eu também vou deixar você ir. [8] *Nessa vida, não devemos mais nada um ao outro. —Cadê os fãs de Ten Miles of Peach Blossoms pra reconhecer essa frase?