Love as Sakura | 爱如樱
54 第49章 O último enigma
—Por favor, Yan Da, não faça isso comigo. — Implorou Ka Suo.
— Não vim pedir sua permissão, Ka Suo, estou avisando o que vai ser feito. — Devolveu ela, incisiva. — Não me confunda com seus subordinados.
— Deve haver outra maneira de contornar a situação. Precisa haver. — Insistiu a angústia na sua voz quase comoveu a princesa do fogo. Quase. — Não posso fazer isso com Shi, machucá-lo dessa maneira, é impossível para mim.
— Não é impossível. — Rebateu. — Será que você nunca se deu conta que o magoou a vida inteira? Você o infectou com a sua obsessão por liberdade e depois por Li Luo, tornou-o um instrumento da sua vontade. Agora me diz que não pode machucá-lo? — Ela riu sem humor. — Você é ridículo. Se existe mesmo outra forma, pois bem, me diga uma e não falaremos mais sobre isso.
Ka Suo permaneceu em silêncio como se tivesse sido estapeado, as mãos segurando o rosto, completamente derrotado. Por mais que não quisesse admitir, sabia que ela tinha razão e mesmo que se opusesse completamente ao que ela lhe disse, não tinha escolha, ele não tinha qualquer autoridade sobre ela, Yan Da só respondia a si mesma. Vê-la daquela maneira, insensível e sem misericórdia alguma, fazia-o lembrar de seu irmão quatro mil anos atrás, completamente focado nos próprios objetivos e ignorando a destruição que seus atos causariam naqueles que o cercavam. Ele não podia culpar Yan Da por agir daquela maneira, ela era um produto do sofrimento extremo que ele causara indiretamente.
— Se não tem mais nada a dizer, não temos tampouco porque continuar essa conversa. — Ela se levantou e deu alguns passos na direção da porta. — É a sua vez de oferecer o sacrifício. Faça o que eu disse ou as consequências serão muito piores para você e seu irmão.
Antes que ele pudesse falar mais qualquer coisa, ela atravessou a porta tão segura quanto entrou. Seguiu pelo corredor para o elevador pronta para ir embora quando acabou encontrando Ying Kong Shi. Reprimiu um suspiro de frustração sabendo que não conseguiria ignorá-lo, ele não permitiria isso. O príncipe do gelo caminhou diretamente até ela sem hesitação e Yan Da amaldiçoou seu coração por se atrever a acelerar daquela maneira. Cruzou os braços se preparando para o confronto inevitável e desejando que fosse realmente o último quando Ka Suo finalmente cumprisse sua parte.
— Yan Da, podemos conversar, por favor?
※※※
Yue Shen olhou para o céu dourado e franziu o cenho. Um frio inesperado subiu pela sua espinha enquanto Huang Tuo analisava a situação. Os dois haviam saído no apartamento de Shi depois que ela abrira o portal com medo de onde parariam caso o marido tentasse de novo.
— Saímos no mundo certo? — Ele externou as preocupações dela em voz alta. — Foi você que abriu o portal dessa vez.
— Isso não é bom, Huang Tuo. — A voz soou pesada e apreensiva.
— Precisamos encontrar Ka Suo o quanto antes, não temos mais tempo.
Não havia ninguém em casa. Shi, Ka Suo, Chao Ya ou Pian Feng, o casal decidiu passar no apartamento de Yan Da antes de ir à ZhangYing onde provavelmente encontrariam seu rei. Contudo, o guerreiro do vento também não estava em casa, de modo que encontraram a cantora sozinha parecendo um tanto angustiada. Ao ver Yue Shen, Chao Ya a abraçou apertado e a envenenadora afagou seus cabelos enquanto olhava preocupada para o curandeiro.
— Tudo bem, Chao jie, vamos conseguir resolver, você vai ver. — Tentou acalmá-la.
— O que aconteceu enquanto estávamos fora, Chao Ya? — Quis saber Huang Tuo. — E onde está Pian Feng?
Ela contou a eles sobre o abalo e a tempestade de areia que surgiu do nada no dia anterior cobrindo o mundo com aquela cor dourada sinistra, também como Ka Suo declarou, de modo sombrio, que aquele era um sinal que o abismo do tempo começara a se abrir, então Pian Feng entrou em um pequeno desespero e tão logo a oportunidade surgiu foi atrás de Yan Da, temendo partir antes com algum desentendimento entre eles.
Durante todo o relato, Yue Shen se mostrou taciturna, imersa em pensamentos, ao passo que Huang Tuo ficou preocupado. Embora todos eles estivessem, de alguma forma, preparados para o possível final, nenhum esperava que fosse tão cedo. Afinal, ninguém quer morrer. Aquela vida não parecia longa o bastante para acabar antes mesmo de sentirem-se livres para vivê-la de fato. O médico encarou a pensativa esposa com tristeza, por trás dela, através das grandes janelas de vidro do apartamento, o céu dourado se estendia pelo horizonte como um lembrete fúnebre do fim vindouro.
— Não gosto de soar pessimista, mas acho melhor todos esses mortais terem um plano funerário válido. — Comentou o curandeiro, tentando aliviar a tensão do ambiente.
— Precisamos encontrar Ka Suo, contar o que descobrimos e ver o que ele tem em mente. — Disse Yue Shen se pondo de pé. — Não é possível que apenas tenhamos que aceitar esse destino passivamente só porque Yan Da é rancorosa.
— É o preço do sacrifício, Yue Shen, não há nada que possamos fazer. — Contrapôs Chao Ya.
— Ela tem razão, amor. — Concordou Huang Tuo. — Não acredito que ela vá perdoá-lo só para salvar todos nós e, de algum modo, não sinto que seria justo com ela.
— Xing Jiu foi o responsável pelo sacrifício, ele deve saber alguma maneira alternativa que possa nos salvar.
— Amor... — Huang Tuo se pôs de pé e segurou a esposa pelos braços com delicadeza fazendo-a encará-lo e acalmar a ansiedade que distorcia seus sentidos. — Vai ficar tudo bem.
— Como? — Os olhos de Yue Shen marejaram, para espanto dos outros dois. A guerreira nunca demonstrava emoções abertamente. — Se aquela coisa abrir vai desintegrar a alma de Li Luo e engolir esse mundo, incluindo a gente, então como vai ficar tudo bem, Huang Tuo?
— Yue Shen tem razão. — Chao Ya também se levantou. — Vamos todos procurar Ka Suo, não podemos desistir até se esgotarem todas as nossas possibilidades. Vou buscar algumas máscaras.
Ela saiu deixando o casal sozinho. Huang Tuo abraçou a amada com força enquanto Yue Shen tentava bravamente conter as lágrimas que forçavam passagem. Vê-la fragilizada daquela maneira era mais doloroso para ele que qualquer tortura, mas no atual cenário as chances de escaparem daquele destino sombrio eram aparentemente inexistentes. Ele não disse nada, não havia nada que pudesse aliviar o medo que também vivia dentro dele, se pudesse apenas abraçar a esposa até o fim, ele aceitaria a inevitabilidade.
※※※
— Seja rápido, Pian Feng está me esperando no carro e Hu Bing me espera para o almoço.
Yan Da cruzou os braços, sentada à mesa da cafeteria da ZhangYing encarando um nervoso Ying Kong Shi diante de si. A angústia dele lhe afetava mais do que ela gostaria de admitir, mas não estava disposta a ceder. Shi se encolheu um pouco diante das palavras frias dela, mas não recuou.
— Ouça, eu sei como tudo isso deve parecer para você, mas será que não consegue mesmo ver minha sinceridade em cada atitude que tomei com você desde que nos encontramos aqui?
Ela sorriu amarga.
— Ying Kong Shi, eu pareço mesmo idiota para você, não é? — O olhar estreito encarou-o com fúria. — Acha que não sei sobre o abismo do tempo e sua tentativa de salvar Ka Suo de novo? Você está me usando mais uma vez para manter todos eles vivos e eu não vou ajudá-lo dessa vez. Não me importo se eu também vou morrer no processo, afinal, o que mais eu tenho para perder, não é?
— Eu juro por tudo que é sagrado que não fui responsável pela morte de Peng Yan! — Quase gritou. — Eu sequer sabia da existência dele quando aconteceu.
— Tudo bem, nisso eu sou capaz de acreditar. Pian Feng me esclareceu esse fato. — Admitiu. — Mas isso não diminui tudo que você fez antes e o que está tentando fazer agora.
— Isso não tem nada a ver com Ka Suo! — Rebateu. — Nada do que eu fiz tem a ver com ele. Aquelas semanas que passei ao seu lado no hospital eu não tinha qualquer memória do passado, meu amor por você nasceu de forma genuína, Yan Da, não foi parte de nenhum tipo de plano, por favor, acredite em mim.
— Amor? — Ela riu sem humor. — Você sequer entende o que é isso? Mesmo o seu irmão por quem sempre foi tão cego, você realmente amou, Ying Kong Shi, ou foi apenas uma obsessão cega que mantinha você preso ao chão por falta de um objetivo maior?
— Você não pode julgar o eu de agora por quem eu fui quatro mil anos atrás...
— Então me diga, se fosse preciso escolher entre Ka Suo e eu dessa vez, quem você salvaria?
— Você. — Respondeu direto sem qualquer hesitação. — Pelo cristal de gelo, mil vezes você! Será que não entende? Tudo que me importa é você!
Yan Da ficou estática. Não esperava aquela resposta direta e sem hesitação, ele não parou para pensar e pesar as coisas. Será que tinha noção do peso das suas palavras ou estava apenas desesperado pelo perdão dela? Olhou bem nos olhos dele, aqueles olhos amendoados que, outrora, como Yun Fei, lhe fitavam sem qualquer traço de afeto, agora lhe olhavam com angústia, desespero, súplica. Ela queria acreditar nele, mais do que era seguro para seu coração, mas se lembrava de quão baixo ele podia ir quando queria alguma coisa.
Por que tinha de amá-lo daquela maneira? Por que tinha de passar por aquilo duas malditas vezes na sua vida? Ela baixou a cabeça e fechou os olhos tentando recobrar a racionalidade, se agarrando a cada barra de determinação e dor dentro de si, escalando os espinhos cravados em seu coração.
— Yan Da...
— Você pode achar que encarar a parede apaga o que fez, Ying Kong Shi, mas sou eu que vivo com os efeitos colaterais. — Murmurou.
— Você me ama. — Afirmou. — Eu sei, eu sinto em cada parte de mim que responde a você com desespero e intensidade. Se quiser que eu morra para você ter certeza disso, não me importo, é só pedir. É o mínimo que posso fazer por você.
— E de que adianta?! — Cortou. — Cada palavra que você fala é como se estivesse usando uma agulha para me esfaquear!*[1] Se eu não confio em você, me diga, de que adianta eu te amar?
— O que eu preciso fazer? Me diga qualquer coisa, Yan Da, qualquer coisa e eu farei!
— Se para você é fácil esquecer a dor depois que o corte sara*[2], desculpe, para mim não é. — Ela levantou. — E não há nada que você possa fazer para mudar o passado. Se ainda tem alguma consideração por mim, por favor, não me procure mais.
Shi tentou impedir que ela fosse embora, mas Yan Da puxou o braço que ele segurava com brusquidão e deixou o prédio rapidamente. Ele ainda foi atrás dela, incapaz de desistir, mas ela entrou no carro que Pian Feng dirigia e desapareceu sem olhar para trás uma única vez. Ele permaneceu ali, impotente, tentando entender aquele final. Talvez ela tivesse razão, os danos que ele causou foram profundos demais para serem perdoados e agora estavam fadados a seguirem fins diferentes. Era tarde demais e não havia mais nada que ele pudesse fazer para salvar sua alma.
Seria aquela sua punição, encarar o fim de tudo sem o perdão daquela que amava? Condenado a vê-la morrer sem poder fazer nada para salvá-la? Shi se recusava a aceitar aquilo. Ele deu a volta e entrou no prédio novamente, entrou em um armário de zelador qualquer da empresa e abriu um portal para o mundo imortal, não importava o que precisasse sacrificar para manter Yan Da viva, ele faria de tudo.
※※※
— Está tudo bem aí? — Pian Feng perguntou quando notou sua fadinha muito quieta ao seu lado. — Eu sei, é uma pergunta idiota.
— Estou bem. — Mentiu. — É só que...
— Eu sei. — Interrompeu. — Não se force a nada, fadinha, nenhum de nós poderia culpar você por não aceitar Ying Kong Shi.
Ela não respondeu, os olhos encarando o céu dourado do lado de fora, estava se sentindo frustrada. Realmente, não havia meio de salvar sua alma mais, cada vez que encontrava com Shi seu coração e sua mente eram convertidos em gelatina, ela ia na direção dele como um ímã, era como se mesmo naquela vida — desvinculada do passado distante, em que ela nascera de novo e seguira um caminho inteiro paralelo a ele —, mas parecia que ele estava entalhado na sua alma, uma peça trágica escrita pelo destino. Usando a analogia trágica, ela se sentia a Ophelie em Hamlet, mas se recusava a perder a sanidade por ele, doar a sua vida para ele se curvar e receber os aplausos no final da peça, como o heroi injustiçado.
O que mais lhe irritava era a certeza de que, ao vê-lo de novo — e ela sabia ser inevitável — todas aquelas emoções iriam dominá-la novamente, empurrando-a no abismo, entorpecendo seus sentidos. Chegava a ser opositor como ele era a causa da agonia e, ao mesmo tempo, o alívio, quatro mil anos e Yan Da ainda estava viciada na mesma droga. Ela levava o peso dos escombros das duas vidas nas suas costas, ainda assim se via incapaz de odiá-lo, do mesmo modo como nunca conseguiu odiar Ka Suo por ser o estopim de tudo aquilo. Assustava-lhe saber que as correntes de Shi ainda estavam firmemente presas em torno do seu coração e um dos motivos que a levavam a mantê-lo longe dela era porque temia ser incapaz de negar se ele pedisse de verdade para que ela o perdoasse. Sob toda aquela camada de cinzas, os céus sabiam que ela não conseguiria dizer não.
Agora aquele mundo estava prestes a ruir e, no fundo, ela não podia deixar de se sentir um tanto culpada por aquilo. Se estava buscando uma solução para todo aquele caos, era por causa de Pian Feng, Chao Ya, Huang Tuo, Yue Shen e Hu Bing, eles mereciam uma segunda chance de verdade, ter uma vida inteira pela frente, para descobrir coisas, ajudar pessoas e viver a felicidade que lhes foi tirada. O resto do caminho foi silencioso, Pian Feng respeitou sua meditação sem mais perguntas, algo pelo qual ela se sentiu agradecida. Chegaram em casa por algumas horas antes do almoço, Hu Bing não devia demorar muito mais e os dois se acomodaram na sala para passar o tempo. Yan Da disse a Pian Feng que não voltaria para seu apartamento por enquanto, já fazia muito tempo desde a última vez com o irmão e ela gostaria de desfrutar de sua companhia, algo muito justo aos olhos do guerreiro, especialmente na incerteza dos dias que viriam.
Por não gostar de silêncio — uma vez que ele aumentava a voz dos seus pensamentos — ela ligou a televisão em um canal aleatório apenas para fazer som de fundo enquanto conversavam, mas a notícia os silenciou.
“Meng Huo Yi foi preso nessa manhã pelo próprio filho, Meng Hu Bing, de volta do exterior para o principal cargo do supremo tribunal de justiça da cidade. Fontes revelam que, no exterior, o juiz foi responsável pela condenação de um de seus irmãos, Meng Yaxing, por atos corruptos e homicídio. Não sabemos detalhes da condenação do segundo filho da família Meng, mas algumas das acusações que pesam contra o patriarca são a morte de um legista do Hospital Particular Chang’An e sonegação de impostos da Huo Enterprises. Nossa correspondente está no Hospital Chang’An nesse momento e tem novas informações, Yuan Mi.”
O rosto da repórter apareceu na tela diante do hospital onde Huang Tuo trabalhava e Yan Da sentiu o estômago dar uma volta completa dentro do seu corpo, estava prestes a vomitar o café-da-manhã.
“Meng Shuo Gang, que foi admitido no Hospital alguns dias atrás, não teve o histórico médico divulgado pela diretoria do hospital, mas agora também está sob vigia policial esperando alta para ser levado à unidade principal de polícia onde responderá pelas acusações de homicídio, cárcere, sequestro e tortura. As vítimas também não foram divulgadas e nossa fonte não conseguiu muito mais detalhes sobre as investigações, Meng Hu Bing pessoalmente apareceu para decretar a prisão preventiva do irmão, mas não quis dar entrevistas assim como o superintendente responsável pelo caso.”
Quando viu que a garota estava ficando cada vez mais pálida, Pian Feng apenas desligou o noticiário e pediu um pouco de gelo para Qiqi que lhe trouxe uma compressa pequena, ele colocou na testa de Yan Da tentando acalmá-la, a palidez começava a ganhar tons esverdeados na face dela como se estivesse prestes a vomitar. Ele sabia que ela queria justiça para Peng Yan, mas talvez não tenha considerado que tanto os segredos da sua família quanto sua própria exposição estariam em jogo. Hu Bing chegou alguns minutos depois, quando um pouco da cor já havia voltado ao rosto da irmã. Ele largou a pasta e o celular no aparador e foi direto até ela, ainda sentada no sofá assistida por Pian Feng.
— Sinto muito. — Pediu. — Queria ter falado com você antes, mas a mídia foi mais rápida.
— Não era como se prender um dos maiores empresários da China fosse algo fácil de ser abafado. — Comentou Pian Feng.
— Está tudo bem... — Yan Da afastou a compressa, a voz ainda soando vacilante. — Só fiquei um pouco chocada. Parecia que a qualquer momento ia ter repórteres batendo a minha porta atrás de uma exclusiva...
— Não se preocupe, seu nome e o de Peng Yan estão sob segredo de justiça, embora alguma fonte que ainda não identifiquei tenha mencionado você antes, mas foi em tom especulatório, já tenho pessoas trabalhando nisso, vou fazer de tudo para protegê-la de qualquer exposição. — Garantiu.
— Eu não me importo com o preço, gege. — Ela ergueu a cabeça para olhá-lo, a expressão turvada pela angústia. — Apenas faça eles pagarem o que fizeram com o Peng Peng. Mesmo que esse mundo seja engolido por um meteoro, eu não quero morrer sem ver meu melhor amigo vingado.
Hu Bing abraçou a irmã com delicadeza acariciando seus cabelos. Era como se Yan Da fosse criança de novo buscando refúgio da realidade naquele regaço protetivo, o único em que ela podia confiar cegamente. Ele beijou-lhe a têmpora esquerda e a apertou suavemente.
— Prometo a você que pagarão, minha menina. Vou me certificar disso.
※※※
Yue Shen, Chao Ya e Huang Tuo chegaram alguns minutos depois da saída de Yan Da à ZhangYing. O trio passou apressado pelo saguão sem se anunciar e rumou para os elevadores executivos com o passe dos seguranças que, de tanto os virem por ali, já não questionavam mais suas razões para entrar e sair da empresa quando bem quisessem. Ka Suo ainda estava sob o choque da conversa com Yan Da quando os três irromperam pela sala sob os protestos de sua secretária. Ele dispensou a funcionária e pediu que Chao Ya, a última a entrar, fechasse a porta.
Tentando não ser otimista, sentou-se na saleta acompanhado dos amigos e ouviu suas novidades, uma ponta de esperança surgiu quando Huang Tuo lhe explicou a respeito do procedimento que poderia acordar Xing Jiu e também falou a respeito da estrela morta, algo que o monarca só tinha ouvido em antigas lendas sombrias passadas pelos antigos reis do império da neve. Talvez Lian Ji não estivesse tão fraca quanto eles pensaram e isso certamente seria um problema.
— A essa altura, ela pode ter se dado conta do abismo do tempo. — Temeu o monarca. — Precisamos ir até a casa de Liao Jian imediatamente, Lan Shang pode estar em perigo.
— Mesmo que ela descubra sobre o abismo do tempo, não há uma maneira de saber que ela está ligada a ele, há? — Indagou Yue Shen enquanto os acompanhava porta afora.
— Se ele começou a dar sinais que está rompendo isso pode gerar alertas no espírito de Lian Ji, como a alma dela e a de Li Luo estão ligadas, se o espírito da imperatriz romper, ela sentirá. — Explicou Huang Tuo. — Não é bom. Definitivamente nada bom.
— E quanto penso que existe uma luz no fim do túnel. — Comentou Chao Ya, frustrada.
— Nosso túnel está é enchendo de água! — Devolveu o médico, sarcástico. — E se você estiver vendo alguma luz, certamente é a luz do outro mundo.
— O mundo imortal? — A cantora ergueu a sobrancelha.
— Dos mortos. — Salientou o curandeiro.
O carro de Ka Suo foi trazido sem demora, todos entraram e o rei do gelo dirigiu pelas agitadas ruas da cidade coberta pelo manto dourado, não queriam usar portais por enquanto dentro daquele mundo, qualquer tipo de energia que se chocasse contra o abismo do tempo poderia ter influência negativa e ninguém queria isso, especialmente porque a alma da imperatriz ainda estava lá dentro. Além disso, não havia como saber se Lian Ji estaria do outro prestes a atacar.
Levou cerca de uma hora até que conseguissem finalmente chegar à casa do advogado. Ele, como era costume naquele horário, estava na promotoria resolvendo pendências de um caso do qual cuidava, Yue Shen, contudo, não teve muita dificuldade para conseguir acesso à senha do portão eletrônico usando o pó de maquiagem na bolsa de Chao Ya e uma fita adesiva e, diante do olhar espantado dos demais, ela disse apenas:
— Tenho passado tempo demais nesse mundo, ando aprendendo coisas. — Deu de ombros.
Como esperavam, Lan Shang não estava em nenhum lugar à vista, os quatro se separaram para procurar na enorme mansão do advogado, a preocupação misturando-se à inquietude e ansiedade, foi a cantora que encontrou a princesa sereia no andar de cima e gritou para os demais a localização: o quarto que o advogado designou para ela, mas quando chegaram já era tarde demais.
Lan Shan estava desacordada, presa num sonho no qual nenhum deles podia entrar. E mais preocupante que aquilo, era o fato do corpo desacordado de Xing Jiu não estar em nenhum lugar.
※※※
Quando atravessou o portal, Ying Kong Shi saiu exatamente onde queria estar: a antiga tribo do fogo. Ele esperava que seu plano desse certo, mas tinha algumas ressalvas quanto a isso, especialmente por estar pleno da sua essência primária agora. De repente, mesmo com todo o poder que possuía, Shi se sentiu impotente. Ele atravessou a primeira ponte ouvindo seus passos ecoarem contra as montanhas de pedra escura. O calor do lugar não lhe afetava graças a essência de Yan Da dentro dele.
Suas memórias percorrendo aquele chão com a armadura dourada da tribo do fogo ainda estavam vívidas na sua mente. Ele quase podia esperar a silhueta e sensual de Yan Da em seus trajes reais aparecer a qualquer momento por entre as construções prestes a tentar se aproximar dele outra vez. O sorriso triste dela enquanto o olhava era tão claro que ela quase se materializou diante dele, como não era capaz de ver que os sorrisos dela sempre choravam perto dele? Agora, sua insensibilidade passada conseguia chocá-lo.
Avançou silencioso ouvindo o ecoar dos seus passos e o crepitar do rio de lava que ainda escorria do leito da montanha, o silêncio salientava ainda mais a cidade fantasma que o outrora poderoso clã se tornara, nada mais que casas abandonadas, um lembrete sombrio do mundo esquecido no tempo. Ele seguiu adiante até o último nível da montanha principal onde vivia a chama do fogo sagrado, o coração da tribo e a fonte de seu poder e existência. Shi parou diante da caverna fechada e, ainda relutante, ergueu sua mão e tocou na pedra.
Não tinha certeza se fora a parte de Yan Da impressa em sua alma ou o reconhecimento do Li Tian Ji que, de algum modo, ainda vivia dentro dele, mas a pedra que fechava a caverna se moveu lentamente dando-lhe passagem. No interior, uma enorme lagoa de lava estava parada no centro e escorria por uma fenda profunda na parede dos fundos da caverna, a rocha era ainda mais escura ali dentro, sendo as chamas do lago de fogo a única iluminação presente, uma cratera se abria no chão acomodando as lavas que nunca transbordavam. Havia uma pequena estrutura circular flutuando a cima das lavas, lá, em um ponto de luz forte que pairava no ar, estava o fogo sagrado.
“Dize teu nome, alma dividida que está diante de mim. Sinto a minha magia em teu cerne, mas não me pertences.”
A voz ecoou nas paredes da mente de Shi, que procurou ser cauteloso.
— Eu sou o príncipe da tribo do gelo, Ying Kong Shi. — Revelou. — Igualmente fui príncipe da tribo do fogo, Li Tian Ji.
“Que trazes tu, um descendente do gelo, às entranhas do poder ancestral da tribo do fogo?”
— Imploro a sua ajuda para salvar a vida da princesa do fogo, Yan Da. — Disse ele, hesitante. — Deve haver alguma maneira de fazê-la escapar do destino daquele mundo condenado.
“É nobre a razão que te traz até mim, e nobre são os sentimentos que cultivas em teu coração, príncipe do gelo. Contudo, nada posso fazer para ajudar-te. Yan Da paga pelos crimes da tribo em que nasceu como sua última descendente. A tribo do fogo deve perecer por dez mil anos para pagar seus pecados, nadas pode fazer para mudar esta sentença, príncipe do gelo. Tua essência não é minha para que a barganhes, segue, pois teu caminho.”
— Isso não é justo! — Argumentou Shi. — Yan Da não tem culpa das escolhas do pai, foi Huo Yi que tomou atitudes guiado pela sede de poder, por que ela tem que pagar por isso?
“Isso em nada te cabe decidir!” A voz bradou. “Se queres reverter o destino dela, traz-me em sacrifício a alma arrependida daquele que me ofendeu. Do contrário, nada me podes ofertar.”
Algo começou a empurrá-lo para fora da caverna.
— Espera! — Implorou e a força invisível cessou. — Se não posso salvar a vida dela, então, suplico, ajuda-me com outra coisa.
※※※
O almoço de Yan Da, Hu Bing e Pian Feng foi mais silencioso do que eles próprios esperavam. A princesa parecia absorta nos seus pensamentos e, enquanto o irmão achava ser culpa da mídia noticiando a ruína do império de sua família que poderia lhe tornar um alvo a qualquer momento, Pian Feng sabia que era por causa do que ela sabia agora a respeito de Ying Kong Shi e de tudo que havia acontecido desde que todos eles vieram para aquela realidade.
No meio de toda aquela névoa de perigo e confusão, ele não via qualquer sinal de esperança de um futuro naquele mundo. Mas estava resignado com seu fim, apenas não conseguia se conformar que mais uma vez Yan Da partiria sem conhecer a felicidade merecida. Nunca em sua vida, Pian Feng desejou tanto que Peng Yan estivesse vivo para poder ficar ao lado dela naquele momento, se houvesse uma maneira de ele trazê-lo de volta ele o faria — ou morreria tentando — apenas para vê-la sorrir com sinceridade mais uma vez antes que o sopro da morte arrancasse o brilho dos seus olhos.
— Preciso sair. — Anunciou quando terminou de comer.
— Onde vai? — Hu Bing quis saber. — Precisa ser um pouco mais cautelosa agora.
— Apenas pegar algumas coisas no apartamento. — Mentiu. — E ver a jiejie. Pian ge vai me acompanhar, tudo ficará bem.
— Cuidarei dela, prometo. — Assegurou o guerreiro percebendo a mentira da sua fadinha.
— Sei que vai. — Suspirou o jovem juiz.
— Voltarei para o jantar. — Prometeu dando um beijo no rosto do irmão.
— Nesse caso, voltarei à promotoria para acertar os detalhes da audiência de Huo Yi. — Resignou-se. — Vejo você à noite.
Yan Da sorriu para o irmão, mas não havia brilho em seu olhar, nenhum sinal de alegria genuína. Aquilo fragmentou ainda mais o coração incompleto de Pian Feng. O guerreiro estranhou o fato do juiz não ter descoberto que a irmã mentia, talvez os anos longe dela tenham afastado as pequenas nuances que, outrora, ele perceberia com facilidade. Especialmente julgando como Yan Da era uma péssima mentirosa. Ele a acompanhou para fora do apartamento sem fazer perguntas quando ela não pegou sua bolsa, só o celular. Apenas quando estavam no elevador, ele perguntou a verdade.
— Onde estamos indo?
— Para casa. — Respondeu ela laconicamente.
— Que casa? — Indagou de modo incisivo. — Fadinha, seu irmão pode estar enferrujado com suas sutilezas, mas eu consigo ver a uma milha quando você mente. Não tente me enganar.
Yan Da suspirou.
— Vamos para a tribo do fogo. — Disse finalmente. — Consegue abrir um portal?
— Não sou particularmente eficiente nisso. — Admitiu. — Mas por você posso tentar se me disser o que pretende fazer lá.
Ela não respondeu imediatamente como se pesasse bem suas palavras, por fim, olhou bem nos olhos do guerreiro para tirar dele qualquer dúvida sobre a veracidade da sua afirmação.
— O que mais eu poderia ir fazer lá além de buscar a única chance que tenho de salvar você e a jiejie?
※※※
Huang Tuo soltou o pulso de Lan Shang e deu um suspiro resignado. Como previra Ka Suo, ela estava em uma espécie de coma. O monarca reconhecia aquela letargia porque outrora passara pelo mesmo. Nada podiam fazer para ajudá-la e, com Xing Jiu desaparecido — muito provavelmente levado por Lian Ji — não havia qualquer forma de acordá-la, nenhum deles podia.
A sensação de derrota começava a engolfá-los e as esperanças esmaeciam como o azul do céu eclipsado pelo manto dourado de areia que não se dissipava. Por mais que se recusasse a aceitar aquele fato, Ka Suo sabia que a única saída que lhe restava naquele momento era aceitar a imposição de Yan Da, mas ele seria capaz de salvar todos os seus amigos e perder o seu irmão? Qual seria então a finalidade de todo o sacrifício que fizera se perdesse Shi para sempre? Àquela altura, qualquer traço de chance que ele tivesse do irmão ser perdoado pela princesa do fogo havia desaparecido, Yan Da nunca ia aceitar o amor de Shi, as marcas deixadas no seu coração eram mais fortes até mesmo do que eles construíram naquela vida.
Ele olhou para Lan Shang sobre a cama, para Chao Ya, nervosa ao lado dela. Para Huang Tuo abraçado a uma Yue Shen taciturna, todos esperando os minutos finais que extinguiria seu respirar. Era sua culpa, novamente falhara ao planejar suas batalhas e havia perdido, apostara todas as suas fichas na peça errada e agora todos pagariam as consequências daquele erro. Seu coração apertou ao pensar no irmão, escolher entre ele e os amigos parecia muito cruel e ele pensou que talvez aquela fosse a maneira da princesa do fogo expurgar seus pecados do passado. Ela o estava punindo pelo destino de Shi e ele merecia isso, só queria que ela não tivesse de lhe tirar aquilo que ele mais amava, mas de algum modo era justo quando ele lhe fizera o mesmo.
Tentaram Ligar para Liao Jian, mas ele não atendeu. A ansiedade começou a fazer Ka Suo imaginar se não havia acontecido algo com ele também, de repente, o monarca se sentiu estranhamente vulnerável, exposto, como se, um a um, seus aliados estivessem desaparecendo. Erguendo-se, ele chamou os demais para saírem dali, não acreditava que Lian Ji voltaria, seu trabalho estava concluído e não havia nada mais que pudessem fazer. Lan Shang não estava morta ainda, isso lhe dava alguma chance, afinal, precisava pensar com cuidado, pesar o plano de Yan Da, descobrir no íntimo do seu coração se estava disposto de verdade a sacrificar uma vida pelo bem de milhares.
Talvez fosse mais simples se a vida em questão não fosse a de Shi.
※※※
Shi saiu do portal direto no seu próprio quarto. Levou um segundo para ele se readaptar a atmosfera daquele mundo. Ele respirou fundo e olhou em volta reconhecendo a cerejeira pintada na parede preta e tentando sentir alguma ligação afetiva com aquele lugar, muitas vezes era como se ele não se sentisse mais ele mesmo.
Sua audição estava apurada, ainda mais do que quando ele recuperou as memórias — e com elas os poderes —, mas não ouviu qualquer ruído dentro do apartamento. Ele podia ouvir algumas coisas ao longo do prédio, mas eram barulhos rotineiros, isolando para o apartamento de Yan Da, mas também não ouviu nada. Sentia aquela diferença particular na sua constituição, aquilo o fez olhar para as próprias mãos, aparentemente continuavam normais, mas sob a pele os pontos de energia convergiam em mais poder.
Tudo que precisava fazer agora era cumprir sua parte no acordo. Era sua única chance de mudar aquele jogo que parecia fadado ao fim. Ele desceu até o andar do apartamento de Yan Da, não teve dificuldade em entrar usando um portal, para ele aquilo era muito simples, como brincar. Sentou no sofá e fez a única coisa que podia naquele momento: esperar.
Chao Ya chegou primeiro, duas horas depois. Parecia nervosa e levou um grande susto quando o viu sentado confortavelmente no sofá. Uma mão no coração e a outra pronta para atacar, ele se desculpou pela intrusão, mas enfatizou que precisava ver a princesa a qualquer custo. A cantora explicou que Yan Da estava na casa do irmão e não sabia quando — ou se — ela voltaria para o apartamento. Assim, Shi lhe pediu que ligasse para ela e marcasse um encontro sem mencioná-lo. Ele não contou os detalhes, apenas lhe deu uma pequena esperança e a musicista cumpriu.
De início, ela não conseguiu completar a ligação, mas continuou tentando até que, quase duas horas mais tarde, finalmente Yan Da atendeu o telefone. O encontro foi marcado ali mesmo no apartamento e ela garantiu que chegaria em poucos minutos.
— Há algo errado. — Disse Shi.
— O quê? — Alarmou-se a cantora.
— A voz dela está estranha. — Ele se inclinou para frente, pensativo. — Pesada, trêmula. Inconstante.
— Como você pode saber? — Chao Ya estava chocada. — Não me diga que você ouviu a ligação!
— Isso não é importante. — Ele fez um aceno com a mão. — Pian Feng está com ela, saia e certifique-se que ela entre sozinha.
— O que você vai fazer, Shi? — Dessa vez o tom da cantora soou cortante. — Não vou deixar passar se você a machucar de novo.
— Eu nunca me perdoaria se ferisse Yan Da outra vez, Chao Ya. — Garantiu. — A única coisa que quero é garantir que ela sobreviva a esse inferno, se puder salvá-la, também não estaria disposta a arriscar?
— É minha última vez acreditando na sua palavra. — Alertou. — Aquela garota é importante para mim, é minha menina, se você falhar com ela de novo nem Ka Suo será capaz de salvá-lo de mim!
O som do elevador fez Shi alertar a cantora que eles haviam chegado, deviam estar perto do prédio, o que ajudava muito. Chao Ya saiu ao encontro do marido dando a desculpa que precisava lhe contar algo em particular, Shi ouviu quando Yan Da deu um beijo no rosto da cantora e prometeu esperar dentro do apartamento. A porta fechou atrás dela com um clique e, quando atravessou o pequeno corredor, encarou a figura de Shi com consternação.
— O que está fazendo aqui?! — Exigiu saber, irritada. — Pensei ter dito que não queria mais te ver, não temos mais nada para conversar.
— Dessa vez eu não vim conversar.
Antes que ela conseguisse perguntar mais qualquer coisa, Shi puxou-a contra si e a beijou.
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