A paisagem ártica se estendia a perder de vista. Não havia qualquer sinal do imponente Snowblade com seus pináculos azuis que pareciam perfurar o firmamento e as torres com passarelas interligadas através dos precipícios. Nem mesmo a aldeia próxima aos muros do castelo, cercadas de famílias que circulavam no interior dos muros de gelo, havia deixado qualquer resquício que um dia existiu. Olhando para o deserto de neve, parecia que a cidade havia sido engolida por uma cratera que fechara-se com o passar dos séculos tornando-a uma Atlântida terrestre, viva apenas nas memórias dos remanescentes do mito eterno.

Naqueles dias prateados, quando o vento soprava por entre as ruas intrincadas da cidade de gelo e Shi era apenas um menino correndo na direção da floresta do nevoeiro, ele não podia sentir as nuvens escuras que se prenunciavam no seu destino. Ele só desejava ser como seu irmão, alto, forte, inteligente e imponente, queria permanecer ao lado dele no declive das cerejeiras enquanto a neve caía, ele ficaria chateado por Ka Suo fazer um escudo para bloquear os flocos, mas no fim os dois ainda sorririam e o futuro rei contaria uma história.

Mas olhando aquele vácuo, era como se toda a sua história fosse algo inventado por alguém, sem restar qualquer prova para atestar a veracidade dos fatos. Todavia, Shi podia sentir aquele poder percorrendo suas veias, a ilusão do gelo, o ardor destruidor do fogo. Resquícios da alma compartilhada com Yan Da que remanescia nele, aquela era a prova irrefutável do que vira em seu sono tormentoso. Da realidade do seu passado incontestável. Erguendo a mão na direção de onde um dia as altas montanhas abrigavam a Snowblade que ele chamou de lar, Shi aspergiu seu poder de ilusão para criar um espectro do local, nada mais que uma sombra da saudade que apertava seu coração, uma vida que não podia mais voltar e erros jamais reparados.

Ele seguiu para o noroeste do palácio, lá era onde ficava o declive das cerejeiras, alguns quilômetros antes da floresta do nevoeiro. Para sua surpresa, o lugar continuava intacto, as árvores com suas flores que nunca morriam espalhavam seu cheiro adocicado pelo ar enquanto as pétalas flutuavam no ar na dança harmônica da liberdade. Shi visualizou a si mesmo nos braços de Ka Suo, a espada do irmão atravessada no seu corpo, o sangue espalhando-se pela neve e, a cada lágrima derramada por Ka Suo, cristais de gelo rubro cresciam ao seu redor. Lembrava-se da dor pungente consumindo-o, do céu azul evanescendo conforme o sangue enchia seus pulmões e bloqueava a respiração.

Mais adiante, na floresta do nevoeiro, ele viu as altas árvores cujas folhas cobertas de neve balançavam suavemente, as formações rochosas e a clareira circundada de grossos troncos escuros com caminhos labirínticos que apenas os moradores de Snowblade conheciam, ele viu ali Yan Da, o corpo sem vida desfazendo-se em seus braços, tornando-se faíscas e fogos de artifícios que saudavam a morte. Ele viu a si mesmo percebendo o que queria enquanto se separava dela para sempre. "Ge, se eu amo alguém, estou mais que disposto a dessitir de tudo", sua voz infantil ecoou pelas árvores lembrando-lhe de suas convicções, antes da sombra cobrir seu coração, cegando-o para tudo que era certo e racional. Shi mentiu para si mesmo. Não cumpriu sua própria palavra, ousara censurar o irmão por não ir atrás da mulher que ele amava, mas causara a morte do seu próprio amor.

Não. Shi matara Yan Da muito antes.

Ele matara a confiança dela, os sonhos, a fé em si mesma, a capacidade de acreditar no amor e a força de lutar pelos seus sonhos. Ele destruira-a todas as vezes nas quais foi protegido por ela e só lhe retribuiu com frieza e indiferença, quando cobriu seu coração com gelo não se permitindo ver nada além de Ka Suo. Ele matou Yan Da lentamente até culminar no momento em que ela deu a vida por ele, salvando-o do próprio pai, para ainda ser ele incapaz de assumir a verdade dos seus sentimentos por ela, sequer ser capaz de confortá-la nos seus momentos finais. Como ele podia encará-la outra vez? Encarar qualquer uma das pessoas cuja vida ele destruiu?

As lágrimas escorriam pelo seu rosto e tão logo tocavam o chão nevado formavam cristais de gelo que cresciam à sua volta. Ele era um monstro e agora parecia se mostrar um covarde também. Aos poucos, a dor o cegava, Shi nunca antes se sentira tão sufocado pela angústia, oprimido pelo desespero e a agonia que partia sua alma em milhões de fractais congelados, sentia uma espécie de sombra conflitando dentro dele, despertando em si o pior lado, curvando-se à escuridão, sucumbindo às trevas. Nesses momentos, o poder do fogo crescia com mais intensidade fazendo as veias do seu corpo inflamarem. As vozes na sua mente cresciam e o jovem príncipe lutava contra elas, mas estava perdido, abandonado, condenado, incapaz de alcançar merecimento para a redenção.

O grito rasgou sua garganta no momento em que caiu de joelhos sem conseguir lidar com aquele sofrimento que lhe devorava o ser. Pela primeira vez em milênios de existência, o jovem e poderoso príncipe do império da neve estava com medo.

※※※

Não importava quantas vezes tentasse ler as estrelas, Xing Jiu não conseguia localizar Shi em lugar nenhum. Yue Shen, Liao Jian, Ka Suo e Huang Tuo se moviam por todos os pontos da cidade onde o príncipe já estivera ou poderia ter ido, mas não havia qualquer sinal dele. Ka Suo dera ordens a Pian Feng de manter o ocorrido oculto de Yan Da e tentar sondar a princesa a fim de descobrir o que havia acontecido já que ela fora a última pessoa a ver Shi. Mesmo sendo incapaz de prever as ações do irmão quando recuperasse a memória, o monarca nunca cogitaria a ideia de Shi simplesmente desaparecer como fumaça sem qualquer explicação. A ansiedade começava a deixá-lo insano.

Precisava encontrar Shi o quanto antes, não apenas por saber que o irmão precisava dele, mas pela certeza dele não conseguir suportar o peso daquela agonia sozinho, se não fosse encontrado rapidamente, o espírito sombrio que se escondia na alma do príncipe poderia dominá-lo e suprimir seu verdadeiro eu, desse modo Ka Suo poderia perdê-lo para sempre outra vez.

Se perguntava se Lian Ji podia ter algo a ver com aquilo, por mais que desejasse amarrá-la em uma cadeira e forçá-la a falar, o rei do gelo se obrigou a ser racional, havia muita coisa nublada em tudo aquilo, a primeira coisa a fazer era refazer seus últimos passos e tentar, com a ajuda de Yan Da, preencher as lacunas entre o momento que deixou o irmão e o instante no qual ele escolheu desaparecer. Sim, porque Ka Suo não duvidava que era uma escolha, Shi deliberadamente escondeu sua estrela de Xing Jiu e, entre eles, era o único que tinha poder para fazê-lo. Mas não importava se o irmão não queria ser encontrado, ele precisava ser e cada minuto era crucial.

O grupo se reuniu mais uma vez no apartamento de Shi com resultados infrutíferos em sua busca. Yue Shen, que havia ido até a montanha onde Yan Da havia levado o príncipe uma vez, ainda não havia chegado, mas telefonara para Ka Suo informando que não havia qualquer sinal dele lá. Restava saber se Pian Feng tivera melhor sorte com Yan Da, pelo que dissera brevemente ao telefone, a princesa estava "aparentemente em choque" e não conseguia conversar com ela, de modo que a fizera dormir, então, restava esperar que acordasse melhor para ter uma conversa.

※※※

Lan Shang mordeu lábio enquanto olhava a mulher adormecida sobre o tapete felpudo da ala mobiliada do enorme cômodo. Já fazia mais de uma hora que ela havia terminado e Lian Ji — ainda no corpo de Li Luo — não havia acordado. Por um instante, achou ter errado alguma coisa ao usar o abismo do tempo e, com isso, matado as duas. Por um lado, caso tivesse acontecido, não seria de todo ruim, pelo menos isso indicaria o fim de seus problemas e dos de Ka Suo.

Inquieta, ela caminhava de um lado para outro enquanto esperava a mulher acordar. Sabia que era arriscado usar a lágrima ancestral sendo tão inexperiente como era, mas se vira sem alternativa, não sabia do que a criadora de Shi era capaz se contrariada. Mesmo com a animosidade que pairava entre eles, a sereia gostava do jovem príncipe do gelo e não queria vê-lo machucado. Quanto a Yan Da, ela tinha uma dívida de gratidão para com ela, sabia que ela uma vez tinha salvado sua vida e, sobretudo, era graças ao seu sacrifício que a guerra havia acabado e Ying Kong Shi havia podido salvar Ka Suo, portanto, também queria que o final feliz dela acontecesse. Era por isso que estava disposta a pagar o preço por usar o abismo do tempo, não se desculparia com a avó por isso, àquela altura, inclusive, sabia que a velha senhora não alimentava mais esperanças de ter a neta ao seu lado nos últimos anos de vida.

Ainda havia uma chance de vencer a batalha e ficar ao lado do amor da sua vida, ela seguraria nesse fio de esperança até o fim.

Lian Ji abriu os olhos de Li Luo e sorriu. Lan Shang sentiu o estômago se comprimir quando aqueles olhos ametistas fitaram os seus, nesse momento soube que havia conseguido. A lágrima ancestral respondera ao seu canto.

E o abismo do tempo estava aberto.

※※※

Shi enterrou os dedos na neve enquanto encarava o céu azul sobre ele. Não sentia os dedos adormecerem ou queimarem como era o esperado, a sensação era de tocar algo próprio de sua natureza, uma parte de si mesmo. Ele riu, histérico, deitado no meio da floresta do nevoeiro. Os galhos das árvores se moviam graciosamente com a brisa gelada que soprava, era o acompanhamento do riso doloroso do jovem príncipe que um dia comandou aquela terra, as lágrimas ardiam em seus olhos, mas ele se recusava a deixá-las cair, não era digno de chorar.

As mãos fecharam em punho ainda na neve, ele podia ver a si mesmo, a máscara da morte vestindo uma armadura negra, os cabelos escuros voando ao vento coberto de cinzas e faíscas, o odor de fumaça e sangue se espalhando à sua volta, a espada gotejando o sangue inocente impregnado na sua lâmina, os olhos âmbar sedentos pela devastação. Era incapaz de reconhecer o próprio rosto na imagem refletida no céu, olhos impiedosos, expressão impassível.

Li Tian Ji.

Era vívido na sua memória o momento em que destruiu Huang Tuo com suas próprias mãos, assassinou Liao Jian, Chao Ya, Pian Feng, Li Luo, Lan Shang, e o próprio Ka Suo! Não matou Yue Shen por causa da proteção do curandeiro e o alívio era diminuído pelo fato de ter tentado. Com tanto sangue em suas mãos, ele poderia denominar-se algo além de monstro ou assassino? Tudo aquilo era dentro de Shi como garras dilacerando-o, pregos enferrujados enterrados no seu coração. Nem mesmo a morte seria capaz de pagar os pecados que cometera. Ele fechou os olhos tentando evitar a imagem, lutando contra aquelas memórias dolorosas que despertavam a escuridão no mais profundo do seu coração.

Se não mantivesse o controle, ele temia se perder em si mesmo para sempre.

※※※

Pian Feng acariciava os cabelos de Yan Da enquanto esta dormia pesadamente ao seu lado. Já vira a princesa nervosa outras vezes, mas nunca de uma maneira tão intensa ao ponto de se machucar como fez naquele dia. Ele estava preocupado e, mais do que o próprio Ka Suo, queria saber o que acontecera.

Mais cedo, no hospital, Huang Tuo lhe pedira para voltar para casa, ao que parecia, a conversa com Liao Jian havia esgotado Chao Ya e não era uma boa hora para visitas. Mesmo um tanto contrariado, ele acatou a sugestão sabendo que era o melhor para a cantora, também aquele tempo seria benéfico para ajudá-lo a colocar seus pensamentos em ordem. Enquanto ia para casa, ele se perguntava o que faria a seguir, não sabia como repararia seu comportamento com Chao Ya quando a visse novamente.

Por enquanto, não queria pensar nisso.

Imaginava que Yan Da já teria ido trabalhar, então o tempo sozinho lhe ajudaria a refletir sobre suas ações. Contudo, qual não foi sua surpresa ao entrar no apartamento e encontrar sua fadinha estapeando-se com mãos trêmulas e lágrimas nos olhos, parecia desnorteada, fora de si. Em geral, acalmar Yan Da não era muito difícil, pelo seu histórico pessoal, tudo que ela precisava era compreensão e carinho, mas naquele momento a princesa parecia surda à razão. Acalentando-a, levou um bom tempo até que ele conseguisse fazê-la respirar normalmente. Ele preparou um chá com outra dose da poção dada por Huang Tuo e sugeriu que ela dormisse um pouco, ela pediu-lhe que ficasse ao seu lado, então, ele deitou ao lado dela e a abraçou até que ela adormecesse.

Apesar de não ser exatamente "pró Shi", o guerreiro admitia que estava preocupado com ele, por mais que tentasse imaginar para onde ele iria, não conseguia chegar a nenhum lugar. Era uma das principais características do jovem príncipe do gelo, ele era imprevisível. Com um suspiro, ele olhou novamente para Yan Da dormindo ao seu lado, com cuidado para não acordá-la, levantou e foi até a sala onde poderia ligar para Huang Tuo.

— Conseguiram encontrá-lo?

Não. Ele parece ter evaporado no espaço!

— Se ele escondeu a estrela de Xing Jiu brincando não está. — Bufou irritado.

Yue Shen está voltando de Hunan, ela disse que também não há sinal dele na montanha Luo Ying Po, estamos ficando sem tempo e sem opções.

— Yan Da ainda está dormindo, tentarei falar com ela ao acordar e descobrir o que aconteceu.

— Precisamos de algo o mais rápido que você puder, se refizermos os passos dele antes de sumir talvez consigamos uma ideia de para onde ele foi.

— Te mantenho informado.

Ele encerrou a chamada e apertou a ponte do nariz sentindo-se estranhamente cansado. Os últimos dias tinham sido exaustivos como se todos os males do mundo estivessem prenunciando o desastre, Pian Feng tinha medo até mesmo de pensar no que mais poderia dar errado.

— Sobre o que você precisa falar comigo?

Como uma resposta ao pensamento que ele tentava evitar, a voz de Yan Da surgiu por trás dele e Pian Feng sentiu a espinha gelar se virando para encará-la, ainda um tanto sonolenta, parada na entrada do corredor. Ela prendia os cabelos com um elástico enquanto o encarava esperando uma resposta, ele se perguntava desde quando ela estava ouvindo a conversa.

— Fadinha, ouvir a conversa dos outros não é educado, creio que ensinam isso na aula de etiqueta.

— Desculpe, não era minha intenção. — Deu de ombros. — Acordei e você não estava na cama, então vim beber água e peguei sua última frase, o que queria que fizesse? Só há um caminho até a cozinha.

Ela serviu um copo com água para si mesma enquanto o guerreiro pensava em uma maneira de fazer perguntas sem parecer suspeito. De volta a sala, Yan Da sentou na poltrona com o copo nas mãos.

— Então?

— Está bem... — Ele soltou uma lufada de ar dando-se por vencido. — Ahn...

— Que tal começar por quem estava com você ao telefone que, aparentemente, precisa do resultado da nossa conversa?

— Era o doutor Huang. Ao que parece Shi teve uma pequena complicação no quadro e ele queria saber o que aconteceu quando você saiu de lá.

— Complicação? — Yan Da se pôs de pé. — Meu Deus, é minha culpa, preciso vê-lo.

— Não! — Pian Feng levantou segurando a mão dela e pensando numa mentira rápida. — É que... ele teve um colapso nervoso, então o doutor Huang só está permitindo a visita de Zhang xiansheng no momento. Então, se você me disser o que aconteceu ele vai saber a origem do problema e ter um norte de por onde começar o tratamento.

Yan Da estava trêmula, ele podia ver que se sentia realmente culpada, se soubesse que ele havia desaparecido provavelmente sairia sem rumo procurando por ele. Parabenizou a si mesmo por ter mentido depressa. Voltando a sentar, a princesa contou com detalhes o que aconteceu, desde que começara a resfria-lo por causa da febre até o momento em que ele acordou e a abraçou. Ela omitiu apenas a parte do sonho lúcido.

— Fadinha — Pian Feng estava sério — o que você não está me contando?

— Como assim? Isso é tudo.

— Yan Da, eu conheço você melhor do que as linhas das minhas mãos. — Seu tom era de advertência. — Você não consegue mentir para mim nem ocultar coisas. Sabia que você enrola o cabelo quando mente?

Ela o encarou, surpresa. Nunca tinha parado para prestar atenção naquele gesto involuntário. Suspirou, não havia uma maneira de contar a Pian Feng sobre os sonhos lúcidos sem ganhar uma passagem só de ida ao psiquiatra.

— Vamos lá, seja o que for eu vou entender. Você sabe que vou.

Não estava tão certa assim.

— Está bem... aconteceu uma coisa antes...

Contou a ele sobre os sonhos ou visões que tinha desde criança e que pioraram muito depois que conheceu Shi. Pian Feng ouvia tudo sem interromper, a expressão oscilando entre impassível e preocupada.

— Hu Bing sabe sobre isso? — Perguntou quando ela ficou em silêncio. Yan Da agitou a cabeça em negação. — Certo, não conte a mais ninguém sobre isso, tudo bem?

— Você me acha maluca, não é? — Ela baixou os olhos para as mãos.

Pian Feng sorriu ternamente e levantou indo até ela e segurando suas mãozinhas entre as dele fazendo um delicado carinho nelas.

— É claro que você não é maluca, minha fadinha. — Ergueu o rosto dela suavemente. — Seus únicos defeitos são ser bonita demais e boa demais com quem não merece.

Yan Da sorriu sentindo-se extremamente aliviada ao ouvir as palavras dele, inesperadamente inclinou-se e o abraçou apertado em um agradecimento silencioso.

※※※

— Oh, mesmo? — Huang Tuo anuiu. — Está bem, deve nos dar uma ideia, obrigado, Pian Feng, continue mantendo ela no escuro sobre o sumiço dele e não a deixe sozinha de jeito nenhum, dado o espírito impetuoso dela, não é nada difícil que saia daí tão logo você baixe a guarda.

Desligou e olhou para o grupo reunido na sala de estar do apartamento, Ka Suo estava em tal estado de impaciência que o médico começava a cogitar a ideia de sedá-lo. Xing Jiu continuava tentando buscar a estrela de Shi e não fazia muito tempo que Yue Shen havia voltado para casa.

— Eis o que temos: a princesa encontra Shi com febre e, enquanto ela tentava resfriá-lo, ouviu-a chamar seu nome, ao tocá-lo, no momento que Xing Jiu conectou as duas mentes, ela teve uma rememoração não muito feliz.

— Ei, não fale com esse tom acusatório. — Defendeu-se o astrólogo. — Estava apenas cumprindo ordens, além disso, não sou responsável pelo que ela poderia ver, isso dependia deles. Sua majestade sabia dos riscos.

— Bem, depois disso o príncipe acordou provavelmente se sentindo menor que um grão de areia no Saara, e abraçou a princesa. Dado o estado de nervos que Pian Feng relatou, não era surpresa que ela simplesmente saísse correndo ao invés de estapeá-lo e pedir explicações.

— Espere. — Yue Shen falou como se tivesse acabado de ter um insight. — É claro, por que não pensamos nisso antes?! Sei onde ele pode estar.

— Sabe? — Ka Suo pôs-se de pé.

— Xing Jiu não consegue localizar a estrela dele, é claro, porque ele não está neste mundo. — Explicou ela. — Se fosse o príncipe Shi e acabasse de acordar com o peso de todo aquele passado sombrio para onde mais eu iria se não para um lugar que me é intimamente familiar?

— Sim, você está certa. — O monarca concordou. — Xing Jiu.

O astrólogo assentiu e rapidamente mudou o mapa das estrelas com o auxílio do cubo dos sonhos, não demorou muito para uma estrela se destacar aos olhos de todos eles com um intenso brilho que oscilava entre o prata e o dourado.

— Ele está na floresta do nevoeiro, meu rei.

— Rápido, Huang Tuo, Yue Shen, vocês vêm comigo. Xing Jiu continue rastreando a estrela dele, Liao Jian volte ao hospital e fique de olho em Chao Ya.

Depressa, ele abriu um portal usando a cerejeira no quarto de Shi e os três atravessaram.

※※※

Com algum esforço, Shi se pôs de pé, sentia algo queimando nas suas mãos como se as veias dos seus braços estivessem em chamas. Sua mente estava um caos e a dor era tão intensa que ele só pensava em morrer para se livrar daquela angústia pungente que lhe devorava a alma. Trôpego, ele deu alguns passos para voltar ao declive das cerejeiras, mas uma silhueta desfocada ao longe o impediu. O príncipe do gelo parou, tentando fazer os olhos focarem novamente, aos poucos a figura ajoelhada ganhou forma e ele surpreendeu-se ao ver quem era.

— Li Luo?

Shi não sabia se era mesmo ela ou apenas mais um espectro do seu passado. Ela usava as roupas de rainha do gelo, como ele lembrava. Os cabelos azuis esvoaçando no vento gelado que soprava, os olhos, contudo, tinham um brilho diferente da memória dele, como se escondessem uma espécie de rancor. Li Luo se pôs de pé e caminhou até ele com passos delicados como se flutuasse sobre a neve.

— Li Tian Ji, fico feliz que se lembre de mim! — Seu tom era acusatório. — Você tem alguma consciência, afinal!

— Eu... não sou...

— Não é? — Ela deu uma risada de escárnio. — Claro, suas mãos sujas do meu sangue também não são suas, não é mesmo?

— Li Luo... eu não sabia quem você era naquele momento, eu sinto muito, de verdade, nunca quis machucar você...

— Você é igual a ele! — Acusou, lágrimas de sangue manchando seu rosto alvo. — Pelo menos você me libertou da vida amarga que eu estava levando por culpa do seu irmão, incapaz de reconhecer minha alma, apaixonado por um corpo cuja alma não me pertencia. Ele nunca me amou de verdade, ele gostava da minha beleza.

— Do que está falando? — Shi a encarava confuso.

— Claro que ele nunca te contaria como me usou. — O olhar afiado dela era como uma faca apontada para ele. — E também, você o matou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, não é mesmo?

Com essas palavras, Shi sentiu o momento em que a batida irregular do seu coração fez alguma coisa pulsar dentro dele, era forte e tornava a queimação nas suas veias ainda mais intensa ao ponto de ele se curvar pela dor excruciante. Li Luo chegou mais perto, ajoelhando-se diante dele com o rosto riscado de rubro pelas lágrimas sangrentas.

— Não apenas ele, mas Huang Tuo, Chao Ya, Pian Feng, Liao Jian, Lan Shang, todos morreram pelas suas mãos. E não posso esquecer da principal pessoa morta por você: Yan Da.

— Pare!

As palavras dela funcionavam como um ativador daquela sombra que crescia dentro dele. Shi não sentia ter forças para lutar contra ela, cada segundo mais ela despertava com uma violência incomensurável que o assustava. Sua visão gradualmente perdia o foco, a respiração pesada se tornava dolorosa como garras dilacerando-o por dentro — como se todo o corpo dele já não estivesse sendo bombardeado por dor o bastante —, um zumbido agudo crescia nos seus ouvidos e o poder obscuro começava a dominá-lo.

— Sim, Yan Da. — Continuou Li Luo. — Aquela que você enganou, magoou, brincou com os sentimentos e no fim ainda usou o amor dela por você como um escudo para se proteger de Huo Yi. Mas o que importa, não é mesmo? Ela nunca significou nada para você mesmo, era apenas mais uma ferramenta para ajudar na sua obsessão por Ka Suo.

Ele se afastou dela, mas conforme a sombra o engolia as pernas paravam de responder, colocando as duas mãos nos ouvidos, Shi tentava bloquear aquele som, retomar o controle dos próprios pensamentos, mas a sombra apenas sussurrava a ordem de matar. Esse desejo sanguinário crescia como um veneno nas suas veias, como e mesmo que ele lutasse para rechaçá-lo aos poucos ia perdendo o controle sobre si mesmo. Era assim que ia acabar? Aquela era sua punição por todos os pecados que cometera?

Os demônios o estavam alcançando, Shi não sentia mais nenhuma energia para combatê-los, fechou os olhos e, num grito alucinado de dor, entregou-se nos braços da escuridão.