As taças de vinho ainda meio cheias descansavam na mesinha ao lado do sofá, assim como a embalagem do cheesecake, aberta às pressas e agora esquecida. A TV seguia ligada, passando a reprise do jogo, enquanto a cidade se desenhava em janelas amplas, pontilhada por luzes e silêncio. Ethan e Hannah estavam no sofá, enroscados sob uma manta leve, como se pertencessem exatamente àquele espaço.

Ela havia se ajeitado entre os braços dele, com os pés gelados enfiados por baixo da perna dele como sempre fazia. Ethan usava uma de suas camisetas largas, e Hannah agora vestia outra — preta, com o logo dos Raiders. Cabelos ainda úmidos do banho, o cheiro de lavanda do shampoo dela se misturando ao cheiro dele, familiar e reconfortante.

— Você devia dormir na cama, — ela murmurou, a voz embargada de sono. — Isso aqui não vai fazer bem pras suas costas.

— Tô dormindo com você. Tá tudo certo — ele respondeu, beijando de leve o topo da cabeça dela.

Silêncio por alguns segundos. Só o som da narração esportiva, distante, e da respiração deles se ajustando à calma.

— Você ronca quando tá muito cansado — ela murmurou, traçando linhas invisíveis com a ponta dos dedos no peito dele.

— É mentira. Isso foi um elogio disfarçado? — Ethan respondeu, olhos semicerrados de sono e sorriso torto.

— Talvez. Mas não muda o fato.

Ele riu baixinho. Na TV, uma jogada do segundo tempo apareceu em câmera lenta: Ethan correndo, desviando de dois adversários e fazendo um passe milagroso antes de levar uma pancada absurda.

— Ai. Essa foi a que te deixou com aquela marca na costela? — Hannah apontou, fazendo uma careta.

— Essa mesma. Mas valeu o touchdown. E a torcida. — Ele virou o rosto até encostar os lábios no cabelo dela. — Principalmente a parte em que eu vi alguém de camiseta laranja me esperando no fim.

Ela sorriu, fechando os olhos por um instante.

— A transmissão mostrou minha cara no telão bem na hora, né? Tava parecendo uma fangirl desesperada.

— Tava parecendo linda. E furiosa. Os seguranças ainda devem estar debatendo se te barravam ou pediam autógrafo.

Hannah deu uma risada abafada, se encolhendo mais contra ele. Ficaram assim por um tempo.

— Você vai mesmo me deixar roubar todas as suas camisetas? — ela perguntou, com um sorriso quase infantil.

— Já é tudo seu mesmo — ele respondeu. — Camiseta, chave, sofá… coração.

Hannah ergueu o rosto devagar, olhos verdes buscando os dele.

— Posso te contar uma coisa? — sussurrou. — A curadora da galeria em Nashville me fez uma proposta. Ela quer manter minhas fotos em exposição fixa. Já vendeu metade e disse que vai cuidar de tudo. Eu não precisaria mais correr tanto… nem ficar pulando de cidade em cidade.

Ethan ficou em silêncio por um instante. Não porque não sabia o que dizer, mas porque aquilo soava como o futuro dando um passo em direção a eles.

— E você toparia trocar a correria por um sofá em Vegas?

— Se ele vier com você… — ela sorriu, mordendo o lábio. — Talvez eu tope.

Então Ethan pigarreou baixinho.

— Hannah...

— Hm?

— Eu… ah. Nada.

— Ethan — ela virou o rosto para encará-lo, com as sobrancelhas erguidas de leve. — Você fez essa cara aí. Aquela de quando tá tentando fugir de uma conversa séria.

— Eu não tô fugindo. Só... me preparando.

— Tá. Vai. Tô ouvindo.

E então foi a vez dele.

— Eu também tenho algo. Recebi um e-mail ontem... Dos Titans.

Hannah piscou, surpresa. Ele continuou.

— Disseram que, dependendo da minha performance de hoje, deve chegar uma proposta essa semana. De transferência. Não sei se fui bem o suficiente, mas...

— Você… voltaria?

— Antes eu não conseguia voltar… — ele disse, apertando levemente a mão dela — Tanto por falta de oportunidade, quanto por não ter que encarar o vazio que você deixou no Tennessee.

Ela piscou, fazendo uma lágrima involuntária rolar. Abriu a boca para falar, mas não disse nada de imediato.

— Eu não sei se vai rolar — ele continuou, apressado — Não assinei nada ainda. Mas... Seria perto da sua galeria, da exposição. Talvez...

Hannah o interrompeu com um beijo leve, demorado.

— Olha o jogo que você fez hoje — Ela disse baixinho, sorrindo — Teria vaga em qualquer time. Além de que, se alguém pode ajudar o Tennessee a voltar aos dias de glória, é você. Se arrumarem aquela defesa, claro.

Mais sorrisos e risos. Silêncio. O tipo de paz que não grita, mas se instala devagar, no lugar certo. Carter comentou, casualmente:

— Então a gente quase bagunçou tudo de novo?

— Quase. Mas dessa vez... parece que a vida tá do nosso lado — Hannah parecia radiante, mesmo naquele ambiente de meia luz.

Ele sorriu e a puxou mais para perto, até ficarem com os rostos colados.

— Quer saber? Se o destino ainda estiver indeciso, a gente dá um jeito. Meio Tennessee, meio Vegas. Um lar que caiba os dois.

— Desde que tenha vinho, sofá e você — ela disse, bocejando. — Tá tudo certo.

— E cheesecake.

— E camisetas emprestadas.

— E você roubando o cobertor todo.

Ela riu com sono, os olhos já se fechando.

— A gente é bom em planos de última hora, né? — ela sussurrou, já com a voz se perdendo no sono.

— Somos — ele respondeu.

E então ficaram ali, embalados pelo cansaço, pela esperança e pelo tipo raro de amor que sobrevive ao tempo, às distâncias e aos silêncios.

— Boa noite, Ethan.

— Boa noite, Han. Fica.

— Já fiquei faz tempo.

Silêncio. A cidade respirava lá fora. E dentro do apartamento, o mundo parecia caber no espaço entre um sofá e um par de promessas sussurradas.

(...)

O céu de Las Vegas ainda estava pintado de tons azulados e alaranjados quando Hannah acordou no sofá, enrolada em uma manta fina, com Ethan completamente descoberto. Levou alguns segundos para ela entender que havia roubado a coberta inteira. O apartamento ainda dormia em silêncio, exceto pelo leve zumbido do ar-condicionado e o ronronar distante da cidade que nunca parava. Espreguiçou-se devagar, sentindo os ombros levemente doloridos. A camiseta laranja com o número 84 ainda estava jogada sobre a poltrona, como um vestígio silencioso da noite anterior.

Após lançar a manta sobre o homem que jazia estirado no sofá, andou descalça até a varanda. A brisa matinal era fria o suficiente para despertar seus pensamentos. Pegou o celular e viu uma nova mensagem da curadora da exposição: uma nota publicada em um site grande, elogiando seu trabalho e apontando sua fotografia como “uma ponte poética entre o íntimo e o efêmero”. Hannah sorriu, surpresa. O reconhecimento era bom, mas o que lhe tirava o fôlego naquele momento era o fato de Ethan ainda estar ali, dormindo a poucos metros de distância. Como se o tempo tivesse feito um laço e puxado os dois de volta pro mesmo lugar.

Logo ele apareceu na varanda, os olhos semicerrados, os cabelos bagunçados, vestindo apenas a calça de moletom. Se apoiou na grade ao lado dela, o corpo ainda aquecido de sono.

— Você sempre acorda assim? — ele perguntou, a voz rouca. — Pensando no sentido da vida antes do café?

— Só às terças. E nos domingos com cara de despedida.

Ele sorriu. Um sorriso lento, com um quê de melancolia.

— Tava lembrando de uma coisa boba — disse, coçando a nuca. — Você lembra daquela vez na faculdade que a gente ficou preso no laboratório de fotografia? Teve um apagão e ninguém veio abrir a porta.

— Claro que lembro. A gente improvisou um jantar com biscoito de máquina e Coca quente. E você me contou sobre a cicatriz no joelho.

— E você tirou a pior foto da minha vida com uma câmera analógica quebrada.

— Que está até hoje na minha gaveta.

Silêncio por um instante. Eles se encararam, e a sensação era de que talvez o mundo lá fora tivesse mesmo parado um segundo só pra eles.

— É estranho — ele disse. — Eu passei tanto tempo achando que tinha perdido alguma coisa que não voltaria. E agora você tá aqui, no meu apartamento, usando a segunda camiseta mais importante da minha vida.

Hannah olhou pra frente, os olhos vagando pela paisagem urbana.

— A vida muda — ela respondeu, quase num sussurro. — A gente faz planos e o universo ri. Mas às vezes, ele entrega um presente desses e espera pra ver o que a gente faz com ele.

Ele encostou a testa no ombro dela por um segundo. Aquilo era mais íntimo do que qualquer beijo.

Depois de um café simples na bancada — pão aquecido na frigideira, morangos e restinhos de cereal —, sentaram-se no tapete da sala, rodeados por almofadas e o caderno de esboços de Hannah. Ela mostrava algumas ideias novas enquanto Ethan, meio deitado, mexia no celular.

— Eu não queria te apressar — ele disse, virando a tela pra ela. — Mas se a gente for mesmo pro Tennessee, acho que essa casa combina com a gente.

A imagem mostrava uma construção de madeira clara, com varanda frontal e árvores ao redor. Simples, aconchegante.

Hannah sorriu, mas não respondeu de imediato.

— E se eu receber mais propostas? — ela perguntou. — E se sua transferência não sair? E se...

— E se tudo der certo?

Ela o olhou. Havia uma esperança teimosa no olhar dele. Não iludida, mas firme. Como quem já conheceu perdas demais pra duvidar de segundas chances.

— Se tudo der certo — ela disse, devagar —, você vai ter que me deixar pendurar fotos estranhas pela casa inteira.

— Fechado. Mas só se você me prometer usar a camiseta número 84 toda vez que meu time jogar.

Ela riu. E era um riso cheio. Cheio de tudo o que foi, do que nunca foi, e do que ainda podia ser.

— Fechado. Mas vamos precisar mandar fazer novas, não quero estragar essa.

Mais tarde, com a luz dourada da tarde se infiltrando pelas janelas, Ethan estava encostado no sofá, com Hannah adormecida sobre o peito. A TV mostrava o jogo em reprise. O mesmo touchdown passava de novo e de novo, como se o tempo insistisse em repetir os momentos que realmente importavam. Ocasionalmente também havia alguns closes dela na torcida, parecia ter sido realmente um diferencial no evento.

Ele passou os dedos pelos cabelos dela e sussurrou, mais pra si mesmo:

— A vida muda. E dessa vez... acho que é pra ficar.