Capítulo 2

Eu andava com minha cabeça sempre abaixada, estava com medo de ver o cara estranho. Eu já havia tido a sensação de déjà vu, ou seja, só faltava eu o ver e eu ia ser exterminada.

Faltava só algumas ruas para chegar ao meu apartamento, eu já havia decorado todo o trajeto das tantas vezes que tentei fugir, mas nunca consegui. A única vez que cheguei perto o bastante foi quando cai da escada, foi tão perto.

Cheguei a um cruzamento e fui obrigada a levantar a cabeça, olhei temerosa para ver se havia alguém na rua ou se vinha algum carro. Nada, estava deserto, não havia ninguém, atravessei correndo com medo de ser atropelada novamente. Eu estava conseguindo, eu não ia morrer dessa vez, eu ia descobrir o que estava acontecendo.

Caminhei pelas ruas com passos rápidos, o mais estranho era que havia ninguém em lugar algum, era só eu e um nada inquietante, das outras vezes as ruas estavam cheias de pessoas.

Avistei o meu prédio e agora ele era da cor azul celeste, corri alegre rumo a ele, quem sabe se não houver mais mortes eu poderei saber o que realmente está acontecendo.

Parei em frente a ele respirando fundo, eu havia conseguido. Senti uma brisa em meu rosto e meu corpo todo se arrepiou, olhei para o lado e lá estava ele, iluminado por uma luz vinda de um poste, com um rosto triste e amargurado, sua boca se mexeu sem produzir som, mas eu entendi o que ele disse, ele disse: JULIET.

-Dessa vez eu não vou morrer! – gritei para ele e uma lágrima desceu pelo seu rosto.

Saí correndo para dentro do prédio, eu não ia morrer não por culpa dele. Subi rápido as escadas, um erro fatal é claro. Tropecei e estava prestes a cair quando por instinto agarrei o corrimão, meu corpo bateu com tudo na escada, mesmo com dor continuei subindo dessa vez com mais cuidado.

Cheguei a frente ao meu apartamento, procurei a chave na minha bolsa e não conseguia achá-la, enquanto procurava as luzes do corredor se apagaram de uma vez me deixando em um puro breu sem fim. Procurei a chave mais desesperada dessa vez, comecei a ouvir um barulho de algo que não consegui identificar, eu já estava prestes a chorar quando senti as chaves, as peguei e comecei a tentar qualquer uma na fechadura, e o barulho estava cada vez mais perto.

Clic! Empurrei a porta desesperada e a fechei rápido, e algo bateu nela com um estrondo, contive o soluço que queimava minha garganta.

Testei as luzes do meu apartamento e elas estavam funcionando, comecei a vasculhar atrás de coisas que podem ser perigosas – tomadas, gás, objetos cortantes, etc. – organizei tudo de forma que não oferecessem perigo a mim. E quase faleci várias vezes nesse processo.

Quando havia terminado, olhei ao redor e vi a minha sacada, como se um imã me puxasse minhas pernas se moveram em direção a ela, eu não tinha controle algum, abri a porta de correr e senti o ar frio em meu rosto, e mais uma vez minhas pernas se moveram rumo à beira da sacada, então eu escalei a murada e fiquei em pé sobre ela.

-Para! Eu não quero morrer de novo! – gritei com a voz embargada com o choro.

Olhei para baixo e lá estava ele, movimentava os braços indicando para que eu descesse, mas em seu rosto havia um sorriso discreto.

-Faça isso parar! – gritei para ele, mas ele não me ouviu.

E sem a minha permissão eu pulei, e por um segundo eu não senti nada... Eu só vi o céu azul aquele infinito azul.

E essa foi a minha 6ª morte.

****

Acordei gritando, eu não estava caindo... Estava simplesmente deitada em minha cama. Olhei ao redor e o meu apartamento estava diferente, a cama que ficava perto da sacada está do lado oposto a ela, as cores de tudo pareciam diferentes e suas posições também. Eu havia ‘’revivido’’ mais uma vez.

Levantei cambaleante, olhei para a sacada e um medo se espalhou pelo meu corpo, há poucos segundos eu havia pulado dela. Eu quase consegui fugir da morte, mas ela foi mais esperta e fez com que eu mesma me matasse isso com certeza é novo.

Procurei um papel e uma caneta, eu estava preenchida com um sentimento novo, talvez coragem ou adrenalina. Acabei achando em minha cômoda, havia uma cena preenchendo minha cabeça. Ele encostado no poste parcialmente iluminado pelo mesmo e uma singela lágrima escorrendo pelo seu rosto.

Minha mão foi ágil e começou a traçar curvas e linhas do mesmo jeito da minha lembrança. Alto, braços definidos e ombros largos, um rosto triste e desesperado, uma lágrima solitária. Calça escura, tênis, blusa azul e uma jaqueta surrada de couro. E por fim seus olhos azuis. Olhei o meu trabalho e me impressionei estava tão realístico, que por um momento fiquei com medo. Acabei descobrindo que sabia desenhar, isso até me fez ficar mais animada.

Anotei mentalmente as coisas que sabia sobre mim mesma:

1-Meu nome, Juliet Dominic
2-Sei desenhar
3-Sou muito azarada
4-Estou à beira da insanidade

O que eu vou fazer agora? Andei de um lado para o outro, eu necessito de um plano sério e bem elaborado. Então eu recordei de como as coisas mudam toda vez que eu volto, e uma dessas particularidades era o meu trabalho. Toda vez ele mudava, já fui garçonete, balconista, caixa, trabalhei em um café e fui bibliotecária. Procurei algum sinal de um horário, aparentemente hoje era 3 de março... Estranho, sempre é 3 de março... Esquece deve ser coisa da minha cabeça... Acabei achando algo, parece que trabalho em um Banco.

Anotei o endereço do Banco e peguei o desenho, pus os dois em uma bolsa e depois fui atrás de algum uniforme no armário, acabei encontrando um uniforme azul, o peguei e vesti. Agora só falta uma coisa, fui à cozinha e mexi nas gavetas até que encontrei o que precisava.

Hora de por o plano em ação.