Quando acordo contemplo a chuva do lado de fora da janela do meu quarto aos salpicos na varanda. Um nevoeiro esbranquiçado tapa a\"\" paisagem dos enormes edifícios de Londres e transmite-me uma sensação de tranquilidade. Vou para a cozinha – que fica a duas divisões do meu quarto – e encontro os meus pais a tomar o pequeno-almoço.

– Bom dia! – saúdo enquanto dou um beijo enorme à minha mãe e ao meu pai.

– Bom dia, querida! – a minha mãe levanta-se da cadeira e dirige-se ao frigorífico, onde tira um frasco de vidro com um líquido de tom alaranjado – O leite acabou por isso tens de beber sumo de laranja.

Aceno com a cabeça e agarro no recipiente, depois despejo-o num copo e engulo o doce sumo de laranja.

– A Sam já acordou? – pergunto.

– Ela saiu hoje com a Lizzie ao centro comercial. – responde o meu pai. Tento associar o nome Lizzie à Sam, mas não encontro nada. E como se lesse os meus pensamentos, a minha mãe relembra:

– Lizzie, aquela amiga da Sam que cá veio na semana passada…

Troco a expressão inquiridora por uma de reconhecimento. Lizzie é aquela miúda com os cabelos pretos e olhos castanhos que é mais uma das supostas melhores amigas da Sam. Despejo cereais numa tigela pequena e sento-me junto aos meus pais. Consigo ver a chuva a crepitar sobre a embaciada janela da cozinha.

– Hoje eu e a tua mãe vamos jantar fora. – anuncia o meu pai depois de dar uma golada de café.

– Ok, não se preocupem, eu cuido da Sam. Estou a pensar em convidar o Bill e a Jen para passarem cá o dia e depois quando chegarem vão para as suas casas.

– Tudo bem. – concorda a minha mãe, com um sorriso. Ela gosta que o Bill e a Jen venham passar os dias comigo porque na verdade são bons amigos. Ela acha que se eu socializar mais possa confiar noutras pessoas.

Levo uma colher de cereais à boca e por fim termino de comer.

– Vou telefonar ao Bill e a seguir vou descer para ir ter com a Jen. – digo. Os meus pais concordam e deixo a cozinha com um sorriso na cara. Volto ao meu quarto e ligo para o Bill:


– Olá Biil!

– Olá Vivian! Então, novidades?

– Podes passar a minha casa agora? É para ficares até à noite.

– É claro! Só vou avisar os meus pais e vou já ter aí! – consigo detectar um tom alegre.

– Sendo assim até já!

Desligo o telemóvel e coloco-o na mesa-de-cabeceira. Como ainda estou de pijama visto-me — http://www.polyvore.com/cgi/set?id=58747671 – grito aos meus pais que vou ter com a Jen e desço as escadas até ao 3º andar. Bato à porta e uma mulher alta e ligeiramente maquilhada abre-a. É Mrs. Patterson, a mãe da Jen.

– Bom dia, Mrs. Patterson! – cumprimento-a.

– Bom dia Vivian. Entra, entra. – disse, fazendo sinal para entrar. – Vou já avisar a Jennifer que cá estás!

Entro e Mrs. Patterson vai ao quarto da Jen. A entrada tem como tema animais africanos. As paredes são verdes, pequenas estatuetas de elefantes estão pousadas no chão e quadros de uma savana bem definida estão espalhados pela divisão. Quando dou por mim estou já na sala de estar a mirar os quadros de zebras e girafas.

– Precisas de alguma coisa? – diz uma voz por detrás de mim, apanhando-me de surpresa.

– Bom dia! – cumprimento em grande alvoroço quando me viro. A Jen estende-me os braços e eu correspondo.

– Então? O que se passa?

– Queria que passasses o dia na minha casa e à noite voltavas.

– Por mim tudo bem. – concorda, sempre esboçando um sorriso calmante no rosto.

A Jen avisa Mrs. Patterson e ambas vamos para o meu apartamento. Quando lá entro não encontro os meus pais por isso imagino que tenham ido comprar leite.

– O Bill também vem? – pergunta a Jen, esperançosa.

– É claro que sim! Ele deve estar mesmo quase a chegar! Vamos para o meu quarto?

Ela acena afirmativamente e num instante estamos envoltas de tonalidades roxas. Ligo o computador e vou directamente para o facebook, enquanto a Jen está entretida a olhar para a chuva que cai na minha varanda.

– TLLIIM TLLOOM!!!!

– É a campainha. – digo, ao ouvir o barulho da porta de entrada.

– Eu vou lá! – anui a Jen, que sai de rompante do meu quarto. Ela sempre gostou do Bill como um irmão já que não tinha o Oliver por Inglaterra, e eu compreendo-a mais do que ninguém. Para mim ele é o irmão que nunca tive.

Deslumbro que a minha mãe deixou o facebook dela ligada e vejo que a Anne enviou-lhe umas mensagens estranhas. Dizem “ Na segunda dá perfeitamente! Esperamos-vos na estação do comboio, até amanhã xoxoxoxo! “ De facto a mensagem deixa-me perturbada. “Na segunda” ? Mas segunda é amanhã!, penso “Esperamos-vos?”, “Estação de comboio?” Tudo isto é estranho! Simplesmente não faz sentido. Há qualquer coisa que a minha me anda a ocultar… Eu sei que não devia ver as mensagens da minha mãe, mas é mais forte que eu. De repente os meus pensamentos são interrompidos por uma voz masculina:

– Olá!

O Bill chega-se ao pé de mim e abraça-me em cima da cama, quase sem me deixar respirar. Por fim, quando me solta dos seus braços fortes, digo:

– Qual era a tua intenção, sufocares-me ou deixares-me cair da cama?

A Jen e o Bill riem-se.

– Trouxe uma coisa. – diz o Bill sem hesitar. A Jen levanta o braço e mostra um saco cheio. – São muitos sacos de pipocas!

– Para quê? – pergunto, levantando o sobrolho – Eu não disse que íamos ver um filme!

– Pois não. – confirma o Bill – É por isso que trouxe dois!

E da mãe esquerda que anteriormente estava oculta mostra dois dvd´´s O primeiro intitulado “A proposta” e o outro “Engana-me que eu gosto”.

– Já sabias disto Jen? – pergunto.

– Pois, sim, foi por isso que demorámos tanto tempo na entrada… não duvidas-te do tempo?

– Não. – respondo. Será que deva dizer-lhes ou não? – Estava a ver umas coisas, só isso.

– Olha, miúda, já são horas de almoçar. Comemos aqui ou vamos a outro sítio? – pergunta o Bill.

– McDonald´s! – digo logo. Os dois concordam e vamos logo para lá, mas antes mando uma mensagem à minha mãe e ela responde-me que já não vai a casa.

Comemos, bebemos, comemos, rimos, comemos e depois à tarde ainda vemos os dois filmes em minha casa. Já às 18 horas aparece a Sam.

– Onde é que andas-te? – pergunto-lhe sem grande êxito, já que não para de olhar e babar-se para o Bill. – Sam?! Responde-me!

A Jen e o Bill desatam-se a rir.

– Haaha… estive… há… no centro comercial com a Lizzie…

– Pelo menos onde é que comeram? – pergunto com um tom severo.

– Pizza Hut. – responde sem convicção. De seguida abana a cabeça e vai para o quarto dela.

– Bem, a Sam estava mesmo hipnotizada! Já viste o que fazes Bill, mesmo no princípio das férias de verão? – comenta a Jen na brincadeira.

Á noite comemos uma salada russa que eu e a Jen preparamos ( o Bill ficou a jogar vídeo jogos e como é de esperar a Sam ficou a olhar para ele).

Não ficamos muito tempo a ver televisão, porque estamos cansados. A Jen e o Bill vão para as suas casas e eu e a Sam ficamos a dormir imóveis no sofá.


– Levantem-se meninas! – grita uma voz.

Abro os olhos e consigo ver o meu pai a abanar a Sam ao meu lado.

– Que se passa, pai? – pergunto, enquanto a Sam se recompõe.

– Vamos para Holmes Chappel!

– O quê?! – pergunta a minha irmã – Vamos apanhar uma granda seca lá! Eu não vou!

– Vais sim! – ordena o meu pai, desorientado.

As coisas estavam a associar-se na minha cabeça, enquanto digeria a informação na minha mente. As mensagens da Anne, a viajem a Holmes Chappel…

– Pai, vais arruinar as minhas férias de Verão! – insistia a Sam.

– Não vou nada! Vais ver que vai ser divertido!

– Pai? – chamo num murmuro. Um constrangedor silêncio instala-se na sala.

– Diz, Vivian. – pede o meu pai igualmente num sussurro.

– Porque é que vocês sabiam disso e não nos disseram nada? – pergunto confusa, aumentando o meu tom de voz.

– Porque a tua irmã assim não tinha mesmo vontade nenhuma de ir.

A Sam resmunga qualquer coisa e abana a cabeça, furiosa. Vem-me à cabeça o campo verde. Aquele campo que me assombra à anos. É inevitável esquecer-me dele num momento destes.

– A mãe já está lá em baixo à vossa espera com as malas no carro. – diz o meu pai.

A Sam levanta-se irritada e dá meia volta em direcção à saída. Eu fico sem me mexer.

– Querida, está tudo bem? – pergunta o meu pai, agachando-se de joelhos e segurando-me as mãos.

– Eu não me despedi do Bill e da Jen.

– Ontem não se divertiram?

– É claro que nos divertimo-nos, mas não foi da maneira de lhes dizer para onde ia…

Agora falando nisso penso em como lhes podia ter dito sobre as estranhas mensagens agora lógicas.

– É só dois meses. Podes falar com eles por telemóvel ou no facebook.

Talvez o meu pai tenha razão. São apenas 2 meses. E se encontrar o campo? Posso ainda me divertir, mas tenho receio. Não sei, mas parece que o meu estômago invadiu-se de borboletas enjoativas.

– Vai tudo correr bem. – o meu pai beija-me a face e ajuda-me a levantar.

Vamos para o carro e do carro para o comboio. Entretanto aviso por telemóvel a Jen e o Bill. O que me esperava em Holmes Chappel? Uma aventura? Novos amigos duvido, mas talvez de facto o sonho de encontrar o tal campo se realize. Não sei o que me espera, mas sei que algo de novo vai começar na terra onde nasci.


Notas finais
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