Love Story
1 Alison
Notas iniciais

São Francisco, Califórnia. – 06h30 AM.
Eu acordei com o som do despertador tocando e soltei um suspiro pesado, encarando o teto do sótão – sim, eu durmo num sótão – e esboço um sorriso ao lembrar que dia é hoje. O pequeno quartinho onde costumo dormir é bem pequeno, então dava apenas para a cama de solteiro, uma escrivaninha que estava entulhada de papéis e um notebook ainda ligado, uma pequena estante na parede com meus livros preferidos – agora ela está vazia – e uma janelinha circular que dava para ver a rua vazia; era cedo demais para alguém estar acordado em um sábado. Desde que Kate, a noiva do meu pai, foi morar lá eu fui mandada ao sótão já que tive que ceder meu antigo quarto para os dois filhos da minha “amada” madrasta.
Levanto-me da cama e a arrumo, deixando tudo organizado para quando voltasse nas férias de verão. Pego as roupas que já havia separado em cima da cômoda para a viagem e sigo em direção ao banheiro, onde tomo uma ducha rápida e gelada para espantar o sono. Estava bem ansiosa para morar com a minha mãe, Marianne, em Nova York. Não à via desde o Natal de 2012, há dois anos, quando esta ainda morava na Carolina do Norte e papai concordou em financiar a passagem para passarmos um final de semana juntas. Havia ficado sob a guarda de Henry já que a mamãe costuma viajar muito a trabalho e o Tribunal chegou à conclusão que para ter uma vida estabilizada deveria ficar em São Francisco. E assim foi até hoje.
Depois de ter me trocado e feito todas as minhas higienes matinais volto ao quarto e termino de arrumar a mala colocando mais alguns livros, meu notebook e o velho e surrado caderno de desenhos que ganhei de Henry em meu aniversário de 12 anos, um mês antes de a mamãe sair de casa após descobrir que o papai a traía. Fiquei arrasada quando ela se foi, éramos melhores amigas e depois disso só nos víamos no Tribunal ou nos finais de semana que ela ia lá ao nosso apartamento me buscar. Sofri por muito tempo com a separação dos meus pais, era nova demais para entender e a única pessoa que me consolava em minhas crises era a Elizabeth, minha melhor amiga e confidente.
Afasto os pensamentos melancólicos da minha mente e fecho a mala, pego meu iPod com os fones e os enfio na bolsa de mão saindo do sótão, sem antes de fechá-lo de chave e a guardar na bolsa caso a Mary, minha madrasta, quisesse mexer nas minhas coisas. Acredite, ela é capaz de tudo para infernizar a minha vida, é assim desde que se mudou para cá com suas crias, Matthew e James, duas pestinhas. Desço a pequena escadinha que dá para o primeiro andar e depois desço o outro lance de escada caminhando em direção à cozinha para comer algo antes de ir ao aeroporto, onde embarcaria as 08h40.
Depois de ter comido dois waffles azuis – amo comidas azuis, é uma velha tradição que eu e a mamãe compartilhamos desde que era menor, e mesmo com ela longe não deixei de praticá-la – e um suco de laranja pego meu celular e disco o número da Lizzy para lembra-la que deve me buscar, já que o Henry viajou a Los Angeles a trabalho, provavelmente dando aulas de história em uma das universidades de lá.
Ligação modo on
- É bom que tenha um bom motivo para me acordar a essa hora da madrugada, loira. – Elizabeth atende com o tom de voz grosseiro e sonolento, meio arrastado. “Ressaca” pensei enquanto revirada os olhos. Às vezes até eu duvidava como podia ser amiga de alguém como a Lizzy, uma rebelde revoltada com os pais e que sempre dizia como a vida era injusta enquanto virava um copo com vodca.
- Bom dia para você também Bennett, esqueceu que hoje você vai me levar ao aeroporto?
- Puta que pariu! – ela pragueja do outro lado da linha irritada. – É hoje?!
- Sim, você havia esquecido? – pergunto já prevendo sua desculpa
- Sabe como é né Ally... Eu fui a uma festa ontem depois de discutir com o meu pai de novo e bebi algumas, acabei esquecendo, me perdoe. Já estou indo para aí! – Lizzy responde desligando o celular logo em seguida.
Ligação modo off.
- Ela nunca muda mesmo... – falo para mim mesma e ligo a televisão deixando na Sony enquanto a carona não chegava, passava a reprise do primeiro episódio de Revenge.
Sinto-me mal em estar aliviada por sair daquela casa, apesar de na infância ter vivido bons momentos ao lado dos meus pais, eu também vivi péssimos dias depois do divórcio e principalmente com a Mary virou a “senhora” da casa, seis meses depois dos papéis terem sido assinados. Ela fazia, e ainda faz até hoje, questão de me atormentar e tudo só piorou quando o meu pai lhe deu um anel de noivado oficializando tudo.
Convivo com ela há quatro anos e ainda não me acostumei em vê-la todos os dias de manhã ocupar o lugar da mesa que antes pertencia à minha mãe. Sinto saudades dos meus momentos “Pai e Filha” com o Henry, os jogos de beisebol, as tardes comprando livros ou no cinema, mas depois de cair na real e perceber que nada não é mais com antes me permito não pirar com isso ou com as insinuações da Cruela, aparentemente apenas a Elizabeth e o Hamster – meu hamster de estimação – eram os únicos naquela cidade que pareciam gostar mesmo de mim, e isso me reconfortava bastante.
Saio dos meus devaneios quando ouço a buzina do lado de fora da casa anunciando a chegada da minha amiga. Pego a mala, a mochila e a bolsa de mão, escrevo um pequeno bilhete ao Henry se despedindo e depois saio de casa, provavelmente aquela seria a última vez que pisaria naquela grama ressacada pelos próximos meses. E estou muito satisfeita com isso.
— E aí novidades? – Lizzy pergunta enquanto dava partida e acelerava o carro.
Elizabeth Bennett é uma adolescente bem peculiar, tem seu próprio estilo e foi isso que mais me atraiu nela durante primeiro dia de aula da sétima série. Apesar de já ser veterana, eu não tinha amigos na minha antiga escola, todos me achavam muito estranha e reclusa, era basicamente a CDF da turma e não gostava me relacionar com ninguém, apesar de alguns garotos arriscarem algumas cantadas, afinal não sou feia. Eu tenho minha beleza e devo tudo isso a minha mãe, já que sou a cópia fiel dela: Cabelos loiros e ondulados cortados abaixo do ombro, olhos cinza azulados e pele bronzeada por conta do sol californiano.
Já a Elizabeth possui uma beleza bem mais exótica: cabelos pretos cortados de forma desregular acima dos ombros com uma mecha azul escuro que lhe caía muito bem por conta da sua pele pálida, os olhos são de um azul eletrizante que eu nunca vi na vida e estão sempre contornados por muito lápis de olho e delineador, a boca carnuda e bem definida por um batom vermelho. E sem falar de suas roupas que era geralmente pretas, rasgadas e abusando do couro. Lizzy não era alguém para se considerar gótica, apenas com um estilo diferente, já que além de gostar bastante das roupas que veste é assim para provocar seu pai. Afinal, quem nunca teve conflitos com os pais? Sou a prova viva disso.
- Pior que não, está tudo na mesma. Deixei um pequeno bilhete me despedindo do Henry, mas não que ele irá se importar em ler, acho que a Mary irá rasgar tudo antes mesmo que meu pai chegue da viagem.
- Aquela megera... Não sei como você não enlouqueceu lá dentro Ally! Aquela mulher faz o capiroto parecer tão bonzinho. – replica Thalia fazendo uma careta. – Você trancou seu quarto né? Não duvido nada que a Cruela venda tudo num mercado negro na internet ou toque fogo e dance em cima das cinzas. Depois do escândalo que ela fez para estragar sua festa de despedida eu não duvido de mais nada.
- Tranquei sim e trouxe a chave comigo, nunca gostei da cisma dela em arrumar meu quarto, nunca a deixaria entrar lá, vai saber o que pode fazer...
Depois dessa a Lizzy jogou a cabeça para traz e começou a gargalhar, não demorou muito para que eu a acompanhasse. A nossa amizade é assim: forte, unida, cheia de brincadeiras e xingamentos, porém bem singela. Eu a amo como a irmã mais velha que eu nunca tive.
A morena ligou o rádio e passou de estação algumas vezes até achar o nosso programa musical favorito. Naquele momento estava tocando “My Immortal” de Evanescence. Fechamos os olhos por um momento, permitindo o vento que entrava pela janela do AUDI A4 balançar os nossos cabelos contra o rosto. Até que de repente a Lizzy começou a chorar e soluçar, suspiro e ponho a mão no seu ombro para conforta-la. Ninguém disse nada por um tempo.
- Foi o Travis de novo? – pergunto quebrando o silêncio.
- Sim. – ela disse entre soluços. – Ele não para de beber e fumar! O chefe dele o demitiu alegando que não era competente o suficiente para continuar na emissora, ele está muito mal e vejo a hora morrer de tanto tabaco e álcool no seu organismo! Você sabe que eu também bebo e fumo, mas é só em festas e para descontrair, não sou viciada que nem o Travis. Estou pensando seriamente em pedir ajuda a June, que sempre soube como acalmá-lo em suas crises, mas como ela é casada não sei se seria uma boda ideia. E agora que você vai embora não tenho mais ninguém que possa me ajudar com ele, o que eu devo fazer Ally?
- Eu não sei como te ajudar agora Lizzy, mas acho que deveria tentar falar com sua mãe, você sabe que ela é a única que pode realmente ajudar o Travis nisso, ele ainda a ama mesmo depois que tê-los abandonado. – respondo afagando seus cabelos. – Mas saiba que mesmo estando do outro lado do país estarei sempre ligando e mandando e-mails viu? Não irá escapar de mim tão fácil! E eu virei para cá em todas as férias.
Não fazia ideia de como aumentar o ânimo dela, até porque meu coração estava tão apertado por ter que deixa-la sozinha no momento em que mais precisa de mim.
- Agora erga a cabeça e coloque um sorriso no rosto, seja mulher! Elizabeth Bennett não se abala tão fácil.
Ela esboçou um sorriso fraco e passou as mãos pelos olhos para limpar as lágrimas, manchando o rosto com a maquiagem borrada, estava parecendo uma panda.
- Meu rosto está horrível não é?
- Sim. – respondo entre risos. – Todo amassado, manchando e seus olhos estão inchados e vermelhos. Se não quiser sair do carro posso ir sozinha fazer o check-in, sei me virar.
- Nem pensar! Quem se importa com o que os outros irão dizer ou pensar? Eu não. Posso estar muito escrota agora, mas vou te acompanhar até o portão de embarque e ver você decolar naquele avião. Não adianta nem argumentar. – Elizabeth exclama enquanto entrava no estacionamento do aeroporto e estacionava o carro em uma vaga qualquer.
Levanto meus braços em sinal de rendimento e desafivelo o cinto de segurança abrindo a porta do carro e indo até o porta malas pegar a minha bagagem. Depois de ter descarregado tudo adentramos no enorme edifício com paredes de vidro e vários andares, parecia mais um shopping do que um aeroporto!
- A última vez que vim aqui foi quando a mamãe estava indo para a Grécia fazer suas pesquisas para terminar o doutorado em arquitetura. Lembro-me de ter implorado para o Henry me deixar ir com ela, mas ele não deixou dizendo que eu seria um empecilho para ela. Chorei o resto da noite e fiquei sem falar com ele durante uma semana por causa disso. Enquanto eu estava no meu quarto lamentando a ida da mamãe ele provavelmente estava transando com a Mary.
- Olha Ally, eu sei que você ainda sofre com a separação dos seus pais e eu nem imagino os motivos de seu pai ter trocado a linda e gostosa tia Marianne pela vadia da Mary, mas não se aflija disso. Está indo morar em Nova York para esquecer sua vida naquela casa não é? – balanço a cabeça em afirmação. – Então façamos um acordo: nunca mais falaremos sobre o seu pai ou sobre a sua madrasta, isso é passado, preocupe-se com isso apenas quando estiver no avião de volta para cá, nas férias, o.k? Agora se apresse e vá fazer o check-in, irei comprar um cappuccino para mim ali no Starbucks e já volto.
Nem deu tempo de eu concordar, a Lizzy já se distanciava de mim e ia em direção à loja do Starbucks comprar seu precioso cappuccino. Virei minha atenção à fila de espera para o check-in e quando chegou minha vez fui atendida rapidamente por uma funcionária. As malas foram despachadas e então me liberaram faltando meia hora para avião decolar. Com apenas a bolsa de mão fui caminhando até o Starbucks atrás da Elizabeth, quem sabe eu poderia ter sorte e achar uns trocados perdidos na carteira para comprar um milk shake de morango né?
Quando cheguei ao coffee shop a Lizzy estava conversando com um rapaz e parecia irritada. Ele tinha cabelos cor de areia, era bem mais alto que eu e estava de costas para mim, mas pude ouvir sua voz alterada e ver os gestos que fazia com a mão. Quando a Elizabeth me viu e percebeu minha expressão confusa falou mais algumas coisas com o rapaz e depois veio caminhando em minha direção, ele se virou e deu uma boa olhada em mim, pensei tê-lo visto sorrir, mas acho que foi apenas coisa da minha cabeça que deu meia volta e foi embora para o caminhando oposto ao nosso.
Eu o que conhecia de algum lugar? Provavelmente não, mas ele me fazia lembrar alguém de quem fui próxima, há muito tempo atrás. Mas não estava a fim de reviver memórias dolorosas então expulsei as dúvidas na minha cabeça, ou apenas guardei-as em um lugar seguro para dar atenção a elas depois, e foquei minha atenção na Lizzy e no que ela falava.
- Você ouvindo o que eu disse Alison? – Elizabeth questionou estalando os dedos em frente aos meus olhos, recuperando a minha atenção.
- Ãhn? Desculpe Liz, poderia repetir o que disse? Não entendi nada. – pedi e ela respirou fundo impaciente, o que será que aquele rapaz loiro lhe disse para que ficasse tão irritada?
- Primeiro: não me chame de Liz, sabe que o único que costumava me chamar assim saiu da nossa vida há muito tempo e eu sempre detestei esse apelido. – ela fez uma careta e eu revirei os olhos. – Segundo, não revire os olhos, isso parece coisa do capiroto. E terceiro, eu disse que se você quiser milk shake terá que comprar agora, pois daqui a doze minutos o seu avião irá decolar e precisa estar na sala de embarque antes disso para não evitar atrasos.
- Você amava que o Ed te chamasse de Liz, se derretia todinha... – eu disse e ela deu uma tapa no meu braço com força. – Ai! É isso o que eu ganho por estar contando verdades?
- Me erra Alison. – Elizabeth ralhou e eu levantei as mãos em sinal de rendição.
- Bem, você tem dinheiro aí? É que só tem algumas moedas na minha carteira, não dá para comprar nada gostoso com esse dinheiro. – pedi e ela assentiu forçando um sorriso enquanto tirava dez pratas do seu bolso com algumas moedas. – Eu sou oficialmente uma pão duro.
- Para mim você sempre foi. – Lizzy disse dando de ombros e tomando um gole do seu cappuccino. Dei uma tapa no seu braço e ela gemeu de dor.
- É isso o que eu ganho por estar contando verdades? – exclamou dando uma risadinha e eu revirei os olhos, ela revirou os dela e nós ficamos nessa brincadeira infantil até me sentir tonta e decidir parar. – Venha, faltam apenas oito minutos para o avião decolar e mesmo que eu não concorde com você estar indo para o outro lado do país sua mãe gastou muito dinheiro com a passagem para você perder o voo.
Ela foi me puxando pelo braço como se eu fosse uma criança até o portão de embarque.
- Mas e o meu milk shake?! – perguntei chateada.
- Você compra no avião, com certeza eles devem vender esse tipo de coisa lá. – Elizabeth respondeu enquanto me abraçava com força, retribui o abraço mesmo sendo um difícil já que ela é dez centímetros mais alta. Pois é, ser baixinha é foda. – Por favor, não me troque por uma patricinha nova iorquina, por favor, e ligue sempre que puder. Vou pegar o turno da noite lá no boliche para conseguir um dinheirinho extra e comprar uma passagem para te visitar assim que as coisas lá em casa se estabilizar, o.k?
- Não tem como se esquecer de você, é como uma irmã para mim. – respondo sorrindo e de repente sinto meus olhos marejarem, mas reprimo todas as lágrimas, detesto chorar em público. Faz-me parecer fraca. – E não precisa arranjar outro turno no Strike’s, você já se mata de trabalhar para manter a casa, pode deixar que eu converso com a mamãe e lhe mando a passagem por correio.
- Ally...
- Nada de “Ally”, você vai aceitar e pronto. – digo autoritária depois de me soltar do abraço e ela ri. – Agora me deixe ir, senão não consigo embarcar!
- Tchau loira, boa viagem! – Lizzy se despede com um aceno e eu aceno de volta, porque sei se for falar alguma coisa não vou conseguir segurar mais as lágrimas.
Entrego minhas passagens para a funcionária que os estava recolhendo, passo pelo detector de metais e depois recolho minha bolsa de mão caminhando pelo extenso corredor que dava para a pista de pouso. Suspiro sem conseguir compreender os sentimentos dentro de mim; estava feliz por me ver livre da Mary e do Henry, porém triste pela Elizabeth.
Já dentro do avião e acomodada na poltrona pego meu iPod no modo voo e ponho os fones no meu ouvido, seleciono uma música aleatória na playlist e encosto minha cabeça na janela e caio no sono logo em seguida, e foi assim durante todo o percurso a Nova York.
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Notas finais
Para quem quiser saber como é a roupa que a Ally escolheu para viajar, aqui o link: http://www.polyvore.com/cgi/set?id=131579879&.locale=pt-br
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