Love Story
1 Universitária.
Notas iniciais
Jules;
“Respira. Respira. Respira”. Segurei o envelope branco firmemente, e comecei a abrir a aba vagarosamente... Puxei o papel, e quando começava a desdobrá-lo, a campainha tocou. “Mas quem diabos era agora? Justo agora!” pensei.Pousei o papel sobre a bancada e me encaminhei até a porta. Assim que abri, a escuridão do preto entrou em foco em meu olhar.
- Ah, é você. – Disse revirando os olhos. Deixei a porta aberta e voltei para a bancada à cozinha.
- É bom te ver também, Tampinha. – Ela disse sorrindo e fechando a posta atrás de si. Os cabelos escuros tão diferentes dos meus loiros, presos no familiar rabo-de-cavalo, a forte maquiagem preta em volta dos olhos castanhos, e as roupas pretas. Essa era Sel. Minha melhor amiga punk. Selene na verdade, mas ela odiava esse nome, então, se queria irritá-la, bastava chamá-la assim. E já que sei disso...
- Não me chame assim, Selene. – Ela me mostrou a língua enfezada.
- Você não disse que vinha Sel, não conseguiu avisar? – Perguntei.
- Ãhn, na verdade, eu te perguntei se iria sair hoje. E você disse que não, então, resolvi aparecer. – Respondeu sorrindo marotamente e dando de ombros.
- Claro. – Eu disse revirando os olhos e sorrindo. Ela se sentou na bancada escrevendo no braço com uma caneta retirada do cós da jeans preta. Fui até o sofá em frente dela e peguei uma almofada, mirei e joguei-a em direção a ela. Acertei em cheio. E só ri quando ouvi “Hey!”.
- Sai daí, folgada. – Me joguei no sofá. Um aviãozinho passou voando por cima da minha cabeça e caiu em algum lugar da sala. E alguns instantes depois ela se jogou ao meu lado. “Espera um pouco”...
- Sel, onde estava esse papel?... – Perguntei arregalando os olhos.
- Na bancada, por... – Antes que ela pudesse terminar a frase eu soltei um gritinho agudo. Ela arregalou os olhos.
- O quê?!... Cadê a vespa?!... – Gritou se levantando e segurando um dos gastos coturnos nas mãos.
- Não é nada disso sua idiota! Você acaba de fazer um aviãozinho de papel com a minha carta-resposta de Oxford! – Berrei procurando pelo maldito aviãozinho perdido na sala.
- Ãhn, foi mau. Mas, Jules?... – Ela disse.
- Agora não, me ajuda a procurar! – Respondi tateando debaixo da mesinha de centro.
- Mas Jules... – Ela começou de novo. Isso já estava me irritando, por que ela não estava procurando?!
- Agora não! Me, Ajuda. Entendeu?! – Respondi cerrando os dentes.
- Jules... – Ah meu Deus! Ela quer apanhar?!
- Eu já disse que agora nã... – Comecei, mas quem interrompeu dessa vez foi ela.
- Cale a boca e me escuta porra! – Eu fiquei quieta. – Está bem ali, caramba. – Ela disse apontando para o vaso de flor ao lado da estante onde fica a TV. O aviãozinho estava embrenhado no meio das plantas.
- Ah. Valeu. – Disse pegando-o, e rindo sem graça. Ela revirou os olhos e fomos até a bancada. Ela se sentou de um lado, e eu de outro, o papel entre nós.
- E aí, está esperando o quê? Abre logo. – Ela disse erguendo as sobrancelhas.
- Ah, mas e se eu não for aceita e... – Comecei a dizer. Estava morrendo de medo. Era a melhor universidade do Reino Unido. As probabilidades de eu ser aceita eram de... Sel interrompeu meu raciocínio.
- Tudo bem, eu abro então. – Ela disse com a mão indo em direção ao papel.
- Não! Tudo bem, tudo bem. Eu abro. – Disse dando um tapinha em sua mão enquanto ela sorria. Abri o papel vagarosamente, e comecei a ler. “A Universidade de Oxford tem o prazer em informar que a estudante Jules Helena Stuart foi aceita para cursar Relações Exteriores em nossa instituição de ensino. As aulas começam...”. Parei de ler. Eu fui aceita. Eu realmente fui aceita. Eu vou pra Oxford...
- Eu vou pra Oxford, eu vou pra Oxford, eu vou pra Oxford, eu vou pra Oxford!... – Saí gritando e pulando pela casa inteira. Sel observou rindo enquanto eu descia as escadas (Quais eu tinha acabado de subir) correndo e pulava no sofá.
- Parabéns Tampinha, vou sentir saudades... – Ela disse sorrindo e se apoiando nas costas do sofá.
- Ah, eu também vou. – Eu disse tentando fazer cara feia. Por mais que eu fosse sentir falta de Sel, estava explodindo de alegria.
- Ih, pode parar. Pode sorrir que eu sei que você está morrendo de felicidade. – Ela disse rindo. Eu sorri e me sentei.
- Isso merece comemoração! Sorveteria... Nos aguarde! – Disse correndo para cima me aprontar, Sel veio atrás de mim. Ela subiu as escadas vagarosamente.
- Eu juro, cada vez que venho aqui essas escadas estão maiores!... – Disse ofegando e se jogando na minha cama.
- Seu sedentarismo é que fica maior! – Eu disse rindo e olhando um vestido rodado no espelho.
*20 minutos depois*
- Vamos Jules! Pelo amor de Deus escolhe logo qualquer um e vamos! – Sel berrou impaciente de fora do closet.
- É fácil falar, você só anda de preto! – Berrei de volta. Ouvi uma risada baixa.
- Ponto pra você, Tampinha. – Ela respondeu encostada na porta do closet.
- Wow! Mas como assim?!... Eu vim aqui semana passada e não tinha tanta coisa assim! – O closet que já era cheio estava duas vezes mais cheio. É, eu amo compras.
- Você já devia ter se acostumado. – Eu disse rindo. Ela reparou na roupa que eu tinha em mãos. Shorts jeans, blusa tomara-que-caia rosa, bolero branco e sapatilha rosa e branca.
- Vai com essa. Está ótima. – Ela disse franzindo a testa para a pilha atrás de mim. Eu sorri.
- Eu sei, fui eu que escolhi. – Sel revirou os olhos.
- Okay, okay. Vamos logo Tampinha. – Ela disse. Eu sorri.
- Acessórios! – Fui até a penteadeira e peguei uma tiara de laço prateado. Maquiagem: Lápis preto suave, em torno dos meus fabulosos olhos verdes (Okay, parei. Mas eles são mesmo!), rímel, e gloss rosa. Eu pude ouvir Sel pulando na minha cama. Acabei a maquiagem e saí do closet.
- Que tal? – Sorri. Ela levantou, pegou a bolsa surrada tira-colo e passou-a por cima do pescoço.
- Perfeita. Vamos. – Ela me puxou escada a baixo e eu deslizei a mão pela bancada, pegando as chaves para trancar a porta.
***
Cheguei em casa morrendo de preguiça. Cumprimentei mamãe e papai na sala e subi para o meu quarto. A tarde tinha sido divertida, com sorvete e Sel xingando umas garotas que olharam feio para nós. Mas não era de se estranhar. Uma punk e uma patricinha? Chama atenção.
Troquei de roupa e me joguei na cama. Deixando os pensamentos vagarem, até Oxford. E então adormecer.
***
A semana havia passado voando. E o dia de ir a Oxford já chegara. Eu sentia borboletas no estômago. Mamãe e papai me deixaram no campus, e eu andei até o grande e imponente prédio. A diretora era gentil, mas eu não duvidava que ela poderia ser severa quando quisesse. Ela me disse para aproveitar a primeira semana, que era para a recepção dos calouros. Eu estava adorando esse lugar.
O meu quarto era bem em frente a um lindo jardim. Ficava no segundo andar. Eu deixei minhas coisas e saí para o campus, queria conhecer aquele lugar.
***
Sem fôlego, exausta, e sem conhecer nem metade do lugar direito eu me sentei embaixo de uma árvore. Um chorão, eu acho, pela copa caída em torno do tronco, um bom esconderijo. Acabei me deitando sobre a grama macia, e olhei para o topo da copa. Quase enfartei ao constatar que no galho bem acima de mim, havia um garoto sentado, me encarando com as pernas balançando e sorrindo. Só não gritei porquê tapei a boca. É, um bom esconderijo. Suspirei, aliviada.
- Caloura, certo?... – Perguntou ainda sorrindo. Eu assenti, não sabia se não conseguiria falar direito pela falta de fôlego ou pelo susto, mas de qualquer forma não estava afim de gaguejar.
- Imaginei. Ãhn, então, a caloura tem nome? – Ele perguntou. Respirei fundo.
- Jules. – Eu disse e ele assentiu.
- Danny. – Respondeu e continuou. – Sabe porquê queria saber seu nome Jules? Aposto que não, queria pedir para você ficar bem parada. Não se mova... – Eu quase enfartei de novo ao ouvir isso, e quando fui levantar, ele pulou, e eu não tive tempo pra me mover, então achei melhor ficar parada. Ele caiu em pé, se desequilibrando um pouco, com um pé de cada lado do meu corpo. Ele sorriu.
- Desculpe, mas assustar os calouros é tradição. Ah, a propósito, bem-vinda à Oxford! – Ele disse me estendendo a mão e sorrindo. Cabelos e olhos castanhos, sorriso maroto. – Você não é de falar muito né? – Disse enquanto me erguia do chão. Sel riria muito se ouvisse isso. Segundo ela eu nunca paro de tagarelar.
- Desculpe, é que eu não te conheço. – Eu disse sorrindo sem graça. Ele sorriu.
- Claro que conhece, eu já te disse meu nome. – Eu ri.
- Você achou a minha árvore. Meu lugar pra se esconder. – Ele disse olhando pra baixo.
- Eu cansei de andar, esse lugar parece não ter fim! – Eu disse gesticulando com os braços. Ele riu.
- É, isso é verdade. Mas você se acostuma. – Ele olhou para cima, observando o céu azul. Eu olhei o relógio em seu pulso. Oh-Oh. Eu devia ter ligado para Sel a duas horas.
- Olha, foi legal te conhecer Danny, mas eu tenho que ir, estou atrasada pra uma coisa... — Eu disse já começando a correr. Ele me olhou atônito. Eu corri até o prédio das garotas. Entrei no meu quarto e busquei pelo telefone na bolsa. No fundo, embaixo de tudo, eu o encontrei. Disquei o número. Caixa postal. Quis matar Sel. Me joguei na cama, ofegante, o quê é que ela estaria fazendo essas horas para cair na caixa postal?
- Wow, como você corre garota! – Me assustei com a voz na porta do quarto. Um Danny ofegante se apoiava no batente. Eu sorri.
- Eu sempre fui rápida. – Disse, me deitei de novo, ainda cansada. Falaria com Sel mais tarde. Mas como se três sustos (Causados pelo mesmo motivo, ou, pessoa) não bastassem, pulou ao ouvir um grito vindo do corredor.
- Daniel Jhonny Cooper! O que você está fazendo no prédio das garotas de novo?! – Danny arregalou os olhos.
- Tchau Jules, me pegaram de novo! Foi legal te conhecer! – Ele bateu uma pequena continência e sorriu. Depois saiu correndo. Logo atrás dele foi uma mulher mais velha, gorda e descabelada. Eu sorri, a inspetora. Que será que ela quisera dizer com aquele “de novo”?
Arrumei minhas coisas, e me deitei de novo, cochilando antes de sequer parar de pensar em “Daniel Jhonny Cooper”.
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