Love Poison
2 Resquícios
Notas iniciais
Encostado à janela de um luxuoso quarto de hotel, Sasuke suspirava e afrouxava cada vez mais a gravata de seda azul. Entediado pela visão noturna excessivamente iluminada de Nova Iorque, tirou uma caixinha do bolso, logo balançando-a para pôr um cigarro entre os lábios ressecados. Acendeu-o sem importar-se com a proibição imposta pelo hotel e respirou fundo, permitindo-se esquecer dos recentes ocorridos por alguns segundos.
No entanto, sua face era a única coisa que preenchia sua mente.
Seus dedos apertaram o cigarro, irritado. Agora estava tudo acabado, não? Bem, não era como se fosse sua culpa. Se ele não houvesse invadido o clube de Artes naquele infortuno dia, se ele não houvesse se metido tanto na sua vida, isso nunca teria acontecido. Sasuke não tinha culpa – deu-lhe uma escolha, e Naruto optou por não permanecer a seu lado. Não era sua culpa que estivessem assim.
“Mas aquele que deu a facada primeiro foi você, idiota.”
Outro pesado suspiro embaçou o vidro, seguido à fumaçinha característica do cigarro. Tinha vinte e seis anos e ainda sofria por causa de um amor juvenil. Um amor homossexual, diga-se de passagem. Diferente do que se esperaria entre adolescentes ingênuos em busca de uma aventura, o que ele e seu ex-namorado tinham era algo mais puro, mais inocente. Na época, tal relação era a única coisa que o mantinha são – honestamente, as lembranças o controlam até hoje, dez anos depois. Não ansiavam toques indecentes e sexo vinte e quatro horas por dia, não; limitavam-se a ver filmes, jogar vídeo-games e a sair juntos de vez em quando, naquelas horas em que a coragem era suficiente para chamar o outro para um encontro de verdade. Trocavam muitos beijos e carícias, isso não poderia negar. Em poucas palavras, eram extremamente felizes juntos, mesmo que o moreno não demonstrasse tal felicidade com a frequência que deveria.
Quando dizem que ações revelam mais do que palavras, nem sempre estão certos.
Sentindo certa ânsia com tantos pensamentos preenchendo sua perturbada mente, o Uchiha andou vagarosamente até a cama e jogou-se entre a pilha de travesseiros, exausto. Uma garrafa vazia de uísque pousava esquecida na cabeceira, fazendo companhia a um copo semi cheio de vodca que foi rapidamente agarrado pelas mãos do advogado. O barman já o deixara ciente de que misturar não era uma boa ideia, mas embebedar-se até não conseguir distinguir o preto do branco era sua meta atual.
Uma risada seca escapou-lhe.
– Se ele me visse nesse estado, com certeza enfiaria uma garrafa de água tônica na minha goela. – Gargalhou com rouquidão, imediatamente tomando um grande gole do copo de vodca enquanto deixava o cigarro no cinzeiro a seu lado. Pelo jeito, a bebida já estava fazendo efeito.
“Ótimo.”
Sentindo-se novamente entediado, pegou preguiçosamente o controle da televisão e a ligou, passando pelos canais sem nem ao menos ver direito os programas em si, até que um em especial chamou sua atenção. Era uma entrevista com o criador do conhecido “Meio litro de Chocolate”, um programa de culinária que ensinava a fazer doces e massas em geral. O show estava ganhando bastante popularidade nos últimos anos, apesar de Sasuke nunca ter tido a curiosidade de vê-lo.
Apesar de estar em inglês, idioma que veio a dominar graças ao trabalho, optou por assistir, já que não parecia haver algo melhor no momento.
“- Hoje estamos aqui com a face por detrás do ‘Meio litro de Chocolate’, um popular programa de culinária cujo sucesso tem intensificado-se muito nesses anos! Somos realmente sortudos por termos pegado-o aqui, em Nova Iorque. Por favor, recebam o adorável senhor Naruto Uzumaki!”
À menção do sobrenome que tanto conhecia e há tanto não ouvia, o coração de Sasuke automaticamente acelerou. Seu corpo enrijeceu e inclinou-se para frente na expectativa de se aproximar ainda mais da tela, quase como se aqueles pares de gráficos fossem o próprio loiro. Sentando-se sobre as pernas, colou os olhos na íris celestial do eterno amado, rapidamente sentindo o devastador efeito que estas causavam em seu peito.
“- Ah, eu é que sou o sortudo, Molly! Graças a vocês sou o que sou hoje, afinal de contas.” – O jovem de cabelos bagunçados riu alegremente.
A risada de Naruto, embora tenha tornado-se mais rouca e grossa com o passar dos anos, mantinha sua ensolarada essência juvenil, e a realidade de que ela nunca mais seria proferida por sua causa o entristecia brutalmente. Por mais que quisesse jogar a culpa no outro, no fundo sabia que era mentira. Por mais que dissesse que não o amava e que não precisava dele, sabia que estava apenas tentando cobrir o sol com a mão.
Mas Sasuke nunca admitiria isso.
“- Então, Naruto, por que não começa nos contando sobre sua experiência com o renomado pâtissier Jacques Chevalier?”
“- Com muito prazer! Bem, quando eu era um moleque, eu realmente era fascinado pelo Jacques, sabe? Tipo, muito mesmo! Então, um dia eu...”
O som da garrafa vazia de uísque batendo contra a parede e estraçalhando-se em mil pedaços emudeceu o resto da sentença aos ouvidos do telespectador. Com a respiração pesada e gotas de suor deslizando por seu rosto esculpido, o moreno sentira o repentino desejo de estrangular a entrevistadora excessivamente maquiada. Por que ela precisava trazer à tona tal homem? Chevalier já lhe causara demasiados problemas e brigas inúteis com seu ex-namorado que inocentemente continuava a entender seus “toques amigáveis” como simplesmente “amigáveis”. Bufando, recostou-se nas almofadas e tomou outro gole de vodca, torcendo os cantos dos lábios em um mínimo sorriso ao focar a visão no rosto sorridente do loiro.
“- ...Então, foi isso! Muito bacana, né? O Jacques pode parecer tranquilo, mas ele realmente pega pesado!”
A expressão assustada de Molly era até um tanto quanto cômica.
“- A-Ah, entendo, ha-ha!” – Ela tossiu, desconfortável. – “Naruto, você tem apenas vinte e cinco anos, é muito bonito e, ainda por cima, tem bastante dinheiro. Porém, em todos estes anos de carreira, você nunca mencionou sobre ter alguém especial. Isso significa que está solteiro, ou que prefere manter a privacidade?”
Como se fosse em câmara lenta, o rosto de Naruto suavemente obscureceu-se e entortou-se, expressando certa hesitação em responder tal questionamento. Tanta demora deixou Sasuke ansioso, temeroso daquilo que o jovem pâtissier poderia dizer. Após dar um pequeno suspiro, o loiro deu um sorriso fraco.
“- É um assunto complicado, mas... Bem, em poucas palavras, não desejo me apaixonar por ora. Mesmo que não queira, continuo preso ao passado, o qual espero que seja enterrado pelo tempo.” – Ele depositou uma mecha atrás da orelha, gesto que o moreno pôde identificar como nervosismo.
Dito moreno não conseguiu mais aguentar ver aquele rosto angelical de tal maneira.
Largando o copo na cabeceira, o Uchiha desligou a televisão exatamente poucos segundos antes da próxima pergunta. Ver um Naruto bem-sucedido era suficiente. Ou melhor, vê-lo era suficiente, mesmo que através de uma tela. Há quanto tempo não via seu rosto? Seis meses? Um ano?
– Cinco anos, três meses e seis dias... – Murmurou em um longo suspiro. Sendo sincero consigo mesmo, assustava-lhe saber o quanto se passara desde que terminaram. A imagem do menor chorando silenciosamente enquanto lhe virava as costas e caminhava para longe estava eternizada em sua mente como se fosse um castigo, uma punição. Naruto era uma pessoa sentimental e chorava sempre que algo bom acontecia, esperneando e berrando; naquele dia, porém, ele não pronunciara um único som: somente baixara a cabeça, pegara o casaco e saíra pela porta do apartamento que compartilhavam.
Simples assim.
Não tentar impedi-lo foi seu maior erro, reconhecido somente anos depois.
Sentindo a bebida subir-lhe à cabeça, acabou por deitar sem tirar o terno e sem comer. Entender o efeito que sua atitude e suas palavras causaram no amado fora um choque – afinal, realmente achara que, a esta altura, Naruto já estaria com outra pessoa, provavelmente até casado.
Entretanto, saber que isso lhe causava sofrimento não o agradava em nenhum aspecto. Saber que ambos sentiam-se desse jeito era o tapa que há tanto precisava.
Antes de por fim adormecer, o advogado recordou-se de um decisivo fato: Naruto estava aqui, em Nova Iorque. Entretanto, embora muito desejasse poder encontrá-lo, tinha a plena consciência da enorme chance de tal desejo não ser mútuo.
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DEZ ANOS ATRÁS
[COLÉGIO KHS] – TÓQUIO, JAPÃO
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Não era preciso dizer o quanto Sasuke Uchiha era popular na Konoha High School. Independentemente de seu desprezível caráter, sempre havia seguidores e garotas chamando-o para sair; afinal, além de rico e bonito, era excelente nos estudos e nos esportes. Portanto, era raro vê-lo sem seus “amigos” e sem sua namorada. Como a bela jovem de curtos cabelos rosados e olhos verdes conseguira o tão procurado título permanecia um mistério, especialmente quando não era segredo a infidelidade de Sasuke.
Dois dias haviam passado-se após ter conhecido Naruto. O loiro irritante, por mais que o Uchiha se recusasse a admitir, demonstrou não ser tão irritante, sendo até agradável para passar o tempo e...
– ...Aí, então, ele disse que eu era pior que um asno! Uma vez me disseram que isso é um elogio, mas não tenho tanta certeza, sabe? Você sabe o que é um asno, Sasuke?
“Pensando melhor, ele continua sendo um idiota.”, ponderou em um suspiro.
– Naruto, pela centésima vez, por que você insiste em me seguir? – Resmungou o moreno por fim, encarando o Uzumaki apoiado em seu ombro antes de afastá-lo bruscamente. – E pare de andar desse jeito, seu usuratonkachi!
– Eh? Ah, você está irritado de novo, né? – O menor balançou a cabeça, desapontado. – Que horror, Sasuke. Você vive de mau humor! Ah! É TPM, aposto. Ouvi umas garotas falando disso, parece que essa tal TPM mexe com os hormônios e causa irritação. Se eu fosse você, daria uma checada neles. – Comentou sério, dando uma cutucada na bochecha pálida do colega.
Absolutamente incrédulo diante o ouvido, Sasuke bateu levemente na própria testa e suspirou. Não havia sentindo em rebater, havia? Mesmo que lhe explicasse que tal fenômeno afetava somente mulheres, provavelmente o loiro traria mais perguntas à tona e isso seria ainda mais problemático. Optou, portanto, em deixar o assunto de lado.
Até porque Sasuke apreciava essa idiotice ingênua, e o fato de não poder negar isso fez com que um quase imperceptível sorriso levantasse os cantos de seus lábios.
– Falando nisso, Naruto, você acha que...
– Sasu-kun! – Exclamou uma voz fina e manhosa, interrompendo a sentença do rapaz de olhos ônix que, ao reconhecê-la, imediatamente teve seu humor deturpado e seu sorriso dissipado.
Era a voz de Sakura Haruno, sua namorada.
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