Love Me Tender
1 Prólogo
Meu padrasto era um sedentário fervoroso. Desses que amaldiçoam academias só de ouvir falar em uma, e devoram caixas de Panetone, sozinho, enquanto escuta a um vinil do Elvis, exilado no quarto de hóspedes. Mas naquela manhã, especialmente bonita e fresca, Marcos achou que, como qualquer outro paulista, ele também poderia correr no Ibirapuera. E por que não? Era um fiel pagador de impostos, assinou o abaixo assinado para preservação do bairro da Liberdade, doou R$300,00 para a ONG de Animais Abandonados. Algum direito certamente ele tinha.
E foi. Vestiu o velho calção de ginástica, um tênis vagabundo que comprou no centro e ainda pensando nos seus direitos de cidadão não tão bem usufruídos, correu até o parque. A cada metro conquistado, ganhava mais gosto pela coisa. O suor escorrendo pela testa significava que era um homem saudável, não um bancário, aos 40 e poucos anos, tentando secar a barriga expandida pelo casamento.
Finalmente Marcos fazia parte da sociedade secreta dos atletas de fim de semana, que por darem algumas voltinhas por aí, se achavam melhores que os outros! Foi quando percebeu que, não. Ainda lhe faltava uma coisa. Uma pequena coisa para fazê-lo um legítimo corredor do Ibirapuera.
Todos os outros estavam acompanhados. Não pelas esposas, namoradas ou colegas do trabalho. Mas pelos fieis, quadrúpedes e afetuosos cachorros. Eles não reclamavam, não pediam para voltar para casa antes das seis, não diferenciavam um tênis Nike de um comprado na 25. Eram a companhia perfeita para um homem tentando entrar em forma.
Além do mais, sua enteada queria muito um, não queria? O que foi mesmo que ela lhe disse no Natal?
"Seria tão bom ganhar um cachorrinho".
E já não vendo nenhum sentido em continuar ali, sozinho, sem um cachorro para acompanha-lo, Marcos foi até o Pet Shop de um velho conhecido seu do banco, o Eustácio Mathias, perguntar em quantas vezes poderia parcelar o filhote bonitinho da vitrine. E dividindo em quatro vezes, sem juros, no Visa Eletro, mal sabendo o que vinha pela frente, Marcos deu ao pobre infeliz o primeiro que lhe veio na cabeça. O nome de um rei, seu maior ídolo, o homem cujo rosto estava estampado em quase todas as paredes da nossa sala...
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