Love Me Tender
2 Capítulo 1
E lá estava Elvis.
Dois quilos e quatrocentos gramas, à nossa porta, como um bebê abandonado. Mamãe foi às lágrimas e, até hoje, durante os nossos intermináveis jantares de família, repete aquela mesma história. Como Marcos era um homem incrível, como Marcos tocou a campainha sem as mãos, como Marcos comprou uma cestinha azul e enfiou um cachorro dentro. Não me entenda mal. Meu padrasto era mesmo um cara incrível. Mas, não podia, sei lá, ter escolhido um cachorro com níveis de hiperatividades mais baixos?
Elvis levou apenas uma semana para destruir tudo o que havia de mais interessante meu quarto. O papel de parede floral, minha penteadeira vintage, a sapatilha de ponta que ganhei no último Natal. Qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, ele mordia, destroçava e metia goela abaixo. Não me pergunte como isso era possível. Elvis tinha apenas três meses, seus dentes ainda estavam crescendo e, teoricamente, não deviam trabalhar com tanta intensidade. Mas trabalhavam. E esse era o grande problema sobre meu cachorro: ele simplesmente não parava de morder.
Nunca. Nem por nenhum segundo. Estava sempre enfiando aqueles malditos dentes em algum lugar, de preferência nas minhas coisas, nas minhas lindas coisinhas. Eu já nem sabia o que era comer com os pés no chão, porque Elvis adorava meus sapatos e – o que era ainda pior! – meu pobre calcanhar. Imagine só. Lá está você, saboreando um almoço divino, quando, das profundezas do além, surge Elvis para abocanhar seus pezinhos (tudo bem, não é um termo muito adequado para alguém que calça 38).
Não era uma sensação das mais agradáveis, isso posso garantir. E foi tentando salvar meu mundo da destruição, que resolvi pesquisar na internet alguma solução para o meu problema – ou melhor, meus problemas. Sapatos e pés mordidos, paredes descascadas, fios rompidos, maquiagem digerida... Deus, a lista era imensa e não podia sair digitando tudo o que viesse na cabeça. Resumi minha vida jogando “Meu cachorro é um potencial destruidor” no Google e, valha-me Deus, quantos resultados! Descobri até que existia um fórum brasileiro, exclusivo para donos de Shih Tzu, com mais de 6000 usuários cadastrados, quase todos daqui de São Paulo.
Santa fosse a globalização!
Cadastro feito, nem mesmo me dei ao trabalho de checar os outros tópicos e já fui direto abrindo o meu. Mas o que exatamente escreveria? Não podia correr o risco de as pessoas sentirem preguiça de me ajudar, e ao olhar um número infinito de palavras, fossem correndo solucionar o problema de alguém menos dramático. Não. Tinha de ser o mais direta possível. O drama ficaria todo para o título, algo desesperador e original, exatamente como...
S.O.S. FILHOTE PSICOPATA
por: psicho_elvis
Elvis aparentemente adora destruir meus pertences. Todos eles. E agora?
Apertei enter e fiquei sentada, esperando. Cinco, dez, quinze, quarenta minutos e... Nada. Onde todos aqueles 6000 usuários se enfiaram, afinal? Será que não percebiam a gravidade do que eu estava passando? Que ficar sem sapatos decentes estava tudo bem? Quem eles pensavam que iria pagar pelo papel de parede novo? Meu padrasto? Até que não seria uma má ideia, sabe, mandar a conta para o Marcos. Foi ele quem escolheu um Shih Tzu, justo a raça mais esquizofrênica de todas e...
Tudo bem, tudo bem. Havia aquele pequeno detalhe.
Mas claro que quando falei que “queria tanto um cachorrinho”, eu não estava pensando nas coisas destruídas, muito menos em limpar cocô e ter o meu braço inteiro mordido pelo meu amiguinho de quatro patas. Nem que ficaria noites acordada, porque Elvis não pararia de latir para o próprio reflexo, ou que ele se molharia imediatamente depois de eu ter pago 70 reais em um banho e tosa (Meu Deus, por que não me respondiam logo?).
Não, eu nunca criei um cachorro antes e não fazia ideia do quanto poderia ser difícil. Só pensava em como seria legal ter uma companhia, nos finais de semana em que mamãe e o Marcos estivessem fora, e em comprar uma roupinha linda, que vi no Pet Shop do Seu Mathias. Mas não dava simplesmente para voltar ao passado, desfazer o meu erro catastrófico e ficar tudo bem, dava? O que dava, e deveria estar acontecendo nesse momento, era alguém me responder e tirar todas as minhas dúvidas...
PLIM-PLIM.
Meu post finalmente fora respondido e eu não pude evitar gritinhos histéricos. Minhas preces foram ouvidas, havia mais alguém compartilhando comigo daquela situação desesperadora, alguém que me diria exatamente como resolvê-la. Eu estava super feliz. Esse usuário definitivamente merecia ser canonizado. Ou foi o que pensei, antes de atualizar a droga do meu tópico e me deparar com uma porcaria de SPAM, ocupando metade da página. Em uma droga de fórum para cachorros, havia gente espalhando anúncio, sobre “Como aumentar seu pênis em até 10 cm e conquistar a gata dos seus sonhos”. E eu nem tinha pênis; mas um Shih Tzu louco o bastante para destruir a minha casa!
Minhas orelhas queimaram e, com Elvis mordiscando meus pés, decidi migrar para cama. Mergulhando no colchão, peguei meu celular no criado mudo e, sem me ater para a hora, mandei mensagem para a única pessoa no planeta que eu chamava de amiga.
Alana: Qual é a situação?
Patrícia não me responderia imediatamente, claro. Ela estava na balada, com um algum cara provavelmente maravilhoso, que conheceu em algum lugar pelo mundo afora. Era isso o que pessoas normais faziam aos Sábados – saiam, bebiam, namoravam. E, eu, que não tinha nenhuma aptidão para normalidades, estava em casa, prestes a cair num sono profundo, com sérios riscos acordar em meio ao apocalipse.
Pat está digitando...
Será que eu estava enxergando bem? Patrícia nunca, jamais, em hipótese alguma, responderia uma mensagem enquanto estava acompanhada! Meu Deus. O cara tinha bafo. Não, com certeza se vestia mal. Pat sofria de uma espécie de aversão bizarra a bermudas curtas, e o dito cujo devia estar usando uma no joelho, igualzinha àquela da Richards, que a gente viu na semana passada. Provavelmente também era rosa. Minha amiga detestava homens de rosa, em todas as circunstâncias, por mais lindos que fossem.
Pat: 25 anos, incrivelmente lindo e bom de papo. Mas...
Pat está enviando uma mídia...
A foto ainda nem carregou, e eu já podia ver um sujeito másculo, lindo e forte, usando uma bermuda, rosa, na altura do joelho. Pink ou bebê? Não fazia muita diferença, mas algo me dizia que uma tonalidade berrante seria um agr...
NÃO.
Não, não, não.
Mil vezes.
NÃO.
Infinitamente pior que bermudas curtas, bafo ou um beijo ruim. De todas as gafes masculinas, aquela era, de longe, a mais grave. Onde diabos Patrícia arranjou esse cara? Com certeza não pessoalmente. Aquele surfista de Santos não sabia o que era Watsapp, pronunciava Smartphone de um jeito estranho, acho que nem mesmo tinha um celular. Só pode ter sido no Tinder. Patrícia e aplicativos de paquera não se davam muito bem.
Alana: É cilada.
Alana: Sai correndo.
Alana: Agora!!!
Pat está digitando...
Pat: Eu sei L
Pat: Mas você precisa ver como ele é gato!!!
Pat: E Gostoso.
Pat: TEM MÃOS ENORMES!!!
Reparei nas mãos, claro. Era a única coisa que dava pra ver, já que o cara estava sentado, de cabeça baixa, mandando uma mensagem pelo celular.
Pat: Ele disse que era importante. Provavelmente trabalho. Acontece.
Senti alguma coisa me tocando. Algo peludo, bem no fim das minhas pernas...
– Elvis, desce da cama. Jáááááá!
Alana: woei9029290je230e209ejqweqeneopq
Avançou no meu Iphone. Ótimo. Se por um acaso quebrou alguma dessas teclas, que nem terminei de pagar, eu juro que... Adorava o jeito como ele balançava o rabo, sem me encarar nos olhos, com um ar de arrependido. Já disse que Elvis é lindo? Não?! A coisinha mais fofa do mundo (quando está comportado).
Alana: Elvis. Foi mal.
Pat: Falando em Elvis, amiga, preciso te pedir uma coisa...
Pat: Mas depois a gente se fala melhor. Me deseja sorte!!!
O senhor “uso celular durante o encontro” provavelmente terminou, seja lá o que estivesse fazendo, e como um cachorrinho obediente, Patrícia foi correndo atende-lo. Situação estranha. O cara devia ser mesmo arrasadoramente gato, bom de conversa e sabe-se lá do que mais, para compensar aquele defeito, que em qualquer outra ocasião diferente, Pat jamais deixaria passar.
Mas não levei muito tempo para esquecer o caso. PLIM-PLIM, o som mágico, tocou pela segunda vez naquela noite e eu fui trazida de volta ao meu mundo de quarto destruído, cachorro endiabrado, dois cartões de crédito estourados e zero relacionamentos amorosos. Balancei o mouse, a tela do notebook se abriu e lá estava a notificação de tópico respondido.
Tudo bem. Devia ser outro Spam idiota, de alguém desocupado o bastante para passar a madrugada de sábado proliferando vírus em um fórum sobre cachorros. Você sabe o que o ócio pode fazer, Alana. Você mesma já fez coisas bem estúpidas, como pedir um cachorro de presente em vez de qualquer outra mais inteligente, tipo, saldar suas dívidas. Mas eu me sinto tão sozinha. Seria tão legal ter uma companhia nessa casa solitária. Viu? Não culpe o anúncio do Pênis. Culpe a vida, o sistema, sua falta de habilidade social.
Voltei ao tópico, esperando uma enxurrada de propostas alucinantes, de como perder minha barriga em cinco dias, conquistar aquele gato maravilhoso em dois ou fazer fortuna sem precisar sair de casa. Mas, para o meu espanto, não foi nada disso que eu li. A resposta era séria, esclarecedora e muitíssimo bem elaborada. O usuário donodasilvia, credibilidade cinco estrelas, cadastrado desde 23/08/2014, me compreendia como ninguém.
Gostei dele na primeira frase. Era como se estivesse tocando a minha mão, olhando nos meus olhos, enquanto me dizia entendo perfeitamente o que você está passando. Não acredita que fomos feito um para o outro? Primeiro sinal de nossa compatibilidade: tínhamos um Shit Zu com sérios problemas comportamentais. Segunda, não tão óbvia quanto a anterior, mas igualmente precisa: estávamos passando um Fim de Semana em casa. A terceira era apenas uma teoria baseada em mim mesma, que desenvolvi enquanto relia pela milésima vez aquela resposta: quais seriam chances de alguém, em plena madrugada de Sábado, acessando um fórum sobre cachorro, continuar sendo virgem?
Deixe que eu responda para você: altas, muito altas.
Mas existia um pequenino problema que destruía toda e qualquer possibilidade da nossa relação existir. Por trás da tela do computador, provavelmente se escondia um jovem muito magro, de baixa estatura, com hábitos higiênicos pouco agradáveis. Eu também não era a loira, bronzeada, de sorriso reluzente, que ele viu num desses filmes pornôs e provavelmente estava imaginando agora...
Meeeu Deeeus.
Nova meta de vida:
Parar urgentemente com essa mania de avaliar todos os caras do planeta, como se a vida fosse um concurso para o preenchimento do cargo de meu futuro amor.
Essa brincadeira não tem mais graça.
Voltemos ao que de fato interessa. Depois da resposta bem elaborada do donodasilvia, meu tópico se tornou uma espécie de point para donos de Shih Tzu desesperados e todo mundo resolveu narrar sua própria história. Era como se os outros só estivessem aguardando uma luz divina para poder se manifestar – alguém que lhes dissesse exatamente o que fazer – e, agora, graças às palavras amigas do donodasilvia, se sentissem seguros para falar de velhos problemas.
A usuária clariceS3lexy estava com pouca sorte e aparentemente conseguiu encontrar uma filhote mais temperamental que Elvis. Lexi, sua cadelinha de três meses, gostava de roupas de tecidos finos. Nada de malha, apenas seda pura para aquela cretina mimada. E depois do episódio com o vestido de 900 reais destruído (quase chorei lendo o relato na íntegra), Clarice jogou a toalha e resolveu partir para o modo hard: adestração. Uma ideia bacana, mas com chance zero de eu poder usar. Mamãe enfartaria. Onde já se viu mandar internar o cachorro que a gente ganhou do Marcos?!
Também havia o “kennedy23”, que contava uma história absurda, sobre como o pequeno Whisky engoliu três bolinhas de gude e conseguiu sobreviver. Uma avalanche de carinhas impressionadas invadiu o tópico, mas, sinceramente, acho que ninguém acreditou muito nele. O problema era que o kennedy23 usava uma foto legítima no avatar e isso parecia gerar uma necessidade de ser gentil – ou foi o que senti, antes de lhe mandar condolências. Também deram as caras o “igor_sasha34”, a “brunagomes_91”, o “melhorcachorrobilly” e mais uma centena de outros usuários.
Confesso: me senti bem melhor depois de ler os relatos. Perto daqueles cachorros, Elvis era um anjo, com asa, auréola e tudo que tinha direito. Só que chegou a um momento em que ficou praticamente impossível de acompanhar o feed e, apesar de minha curiosidade insaciável e eu precisar saber de todos os detalhes, achei que era hora de tentar dormir
Mas mal fechei os olhos – ou assim me pareceu – e fui brutalmente despertada por mensagens compulsivas de Patrícia. A noite dela tinha sido um verdadeiro desastre.
Pat: ADPE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ou não.
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