Love Me Like You
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Charlotte acordou com uma dor de cabeça terrível. Ela não se lembrava muito bem do que havia acontecido na noite passada e cada vez que tentava recordar de algo, sua concentração era desviada para a ardência em seus pulsos.
Ela virou-se na cama e com isso, pôde sentir o aroma do perfume do irmão no travesseiro. Sinceramente, Lottie não queria ser mais tratada como criança. Ela gostava da independência que a adolescência traria e queria disfrutar ao máximo. Porém, não podia esquecer o que passaram na infância, o quanto seu irmão a ajudou e tudo o que ele fez por ela era totalmente difícil de esquecer. Ela não iria deixar que a adolescência roubasse isso dela.
Naquele dia, Charlotte veria pela primeira vez seu psicólogo. Ela nunca tinha ido a um e achava que não precisava, mas os surtos de existência estavam ficando constantes e deixando ela maluca, e graças à Matthew, a menina ficou sem opção. Ou ela iria, ou ela iria.
Lottie levantou-se tirando o emaranhado de cobertores em volta do seu corpo e seguiu para o banheiro. Lá, ela encarou sua expressão de acabada, colocou o cabelo para cima e prendeu em um rabo de cavalo. Depois, esfregou o rosto com agua e sabão para ver se despertava. O que não aconteceu.
Charlotte calçou os chinelos e caminhou até a porta do seu quarto. Ela parou após ouvir a voz do irmão se aproximando no corredor. Matthew usava uma blusa de manga longa preta por baixo de uma jaqueta de couro da mesma cor, calças jeans e tênis. Ele observou a menina encostada no batente e foi até ela com um sorriso bobo estampado na face.
— As pessoas não costumam olhar assim para mim. — Lottie comentou.
— Você está bem? — Matt perguntou de imediato.
— Vou melhorar. — Ela explicou. — Por que está vestido desse jeito? Vai sair com a Zoe?
— Não vou sair com a Zoe. Vou sair com alguém mais especial que a Zoe. — Ele arqueou as sobrancelhas desafiando a menina.
— Não acredito que arranjou outra garota para ser seu capacho! — Charlotte disse irônica. Ela podia ser lerda, mas desta vez entendeu de quem o irmão havia falado.
— Você é muito besta. Sabe que é você. Papai não vai poder levá-la no psicólogo hoje, então ele deixou que eu te levasse! — Matthew abriu outro sorriso. Essa era a única reação que ele tinha ao ver os olhos da irmã brilhando a cada palavra que dizia.
— Me espera lá embaixo. Vou tomar um banho. — Ela entrou novamente no quarto.
Charlotte pensou em desistir de ir ao médico, esse pensamento havia passado pela sua cabeça milhões de vezes e ela nunca achava um real motivo para isso acontecer. Ela seguiu indecisa até a porta do armário, encarou suas roupas penduradas e pela primeira vez na sua vida, não demorou muito para escolher uma blusa verde-água, um shorts preto e tênis.
***
Matthew desceu rapidamente as escadas passando pela cozinha e copa. Ele contornou o sofá escuro e sentou-se no canto, pegou o controle remoto ao lado e passou pelos canais aleatoriamente. O garoto sabia que a irmã demoraria pelo menos o tempo dele ver um episódio completo de Orange is the New Black, ele já estava acostumado com a demora.
Mas desta vez foi diferente, após vinte minutos Lottie estava pronta.
— Acho que se você demorar mais um pouco, o doutor vai querer cobrar hora extra. — Ela protestou assustando o irmão com a repentina presença.
— Sua paciência me comove. — Matt disse fazendo Lottie rir.
Ele foi para próximo dela e pegou as chaves da sua picape na bancada de mármore da copa. Matthew as sacudiu a milímetros da face da irmã e foi para a porta de entrada.
— Vamos. — Ele disse por fim.
Ambos continuaram pelo caminho da clínica, calados. Charlotte não sabia o que pensar, como agir e nem se precisava dizer alguma coisa. A mente dela estava tão confusa quanto aos seus sentimentos que preferiu não protestar. Ela se sentia obrigada a algo que não queria fazer, mas que lhe faria bem, e ao mesmo tempo detestava o irmão por saber do que precisava. Ela tinha tanto a agradecer a Matt.
— Olá, viemos para a consulta o Dr. Chandler. — Matthew escorou-se no balcão para falar com a secretária. Ela o olhou e seus olhos brilharam em malícia.
— Seu nome, por favor? — Ela questionou sorrindo mais do que o normal.
— Matthew, mas a consulta é para minha irmã, Charlotte Jones. — Ele falou com a voz grave arrastando um pouco mais no fim do nome da irmã, apreciando cada letra que o compunha.
Ela deu alguns papéis para ele assinar por ser o responsável, e acabou recebendo um pequeno bilhete com um nome e um número de telefone. Seu nome era Valerie. Charlotte carregava a expressão mais mortificada que conseguira projetar, quando o irmão sentou-se ao seu lado.
— Por que a cara de enterro? — Ele comentou estendendo algumas balinhas que carregava no bolso.
— Você vem me trazer para o médico, e começa a paquerar. Queria que eu fizesse que cara? — Ela retrucou um pouco mais intensa do que gostaria de ter soado.
— Ciúmes? — Ele respondeu divertido.
— Nã...
— Srta. Charlotte Jones? — O médico a chamou da porta do consultório para entrar, e quando ela olhou em sua face, quase agarrou-se ao seu irmão. — Ele não parece o Doctor House?
— Não se preocupe. Ele será ótimo. Converse com ele e diga tudo que está sentindo, tudo. Ele é seu médico. Ele vai ajudá-la. — Matt beijou a face da menina e a guiou até a porta. – Daqui para frente está por sua conta.
— Matt?
— Sim?
— Obrigada. — Ela falou e entrou na sala sem esperar uma resposta.
O consultório tinha paredes claras, uma mesa de vidro e uma poltrona reclinável a sua frente. Do outro lado, o Dr, Chandler anotava algumas coisas na ficha que tinha a sua frente. A mesa estava repleta com fotos de família, potes de balas, pirulitos e chocolates, decorações excêntricas, e do teto pendiam enfeites de origamis das cores mais incomuns. De alguma forma, aquilo deixou Lottie mais confortável. Ela não conseguia absorver tudo que a sala informava, e bem, aquilo parecia representar seus sentimentos. Era tudo uma bagunça, mas que de alguma forma fazia sentido.
— Bom dia Charlotte. Não estamos aqui para falar do clima, então me conte, o que está se passando por sua cabeça nesse exato momento? — Ele falou tudo tão rápido que Lottie começou a rir.
— Você é legal. — Ela respondeu sentando-se na cadeira e reclinando-se logo após.
— Não sou não. Eu sou meio maluco, é o que dizem pelo menos. Conte, quem te obrigou a vir? Ninguém em sã consciência viria a um psicólogo. — Ele anotou mais algumas cosias.
— Meu irmão. Ele acha que não consigo lidar com meus sentimentos, e bom, eu não consigo. Por isso eu faço isso. — Ela retira as ataduras e mostra ao médico o pulso com as feridas ainda em carne viva.
— Entendo, e você está disposta a fazer isso funcionar? Somos quase um casamento. Você poderá me ligar a qualquer hora, discutir qualquer coisa, o horário que for. Você precisa confiar em mim e eu saber que posso confiar em você. Não poderá me trair. Você quer isso? Está disposta a fazer isso parar? – Ele apontou para os cortes. — Se não for de sua vontade, pode ir embora.
— Eu quero mudar. Não posso continuar machucando a mim e ao meu irmão. Não posso fazer isso com nós. Não depois de tudo que passamos. — Ela fala e tenta apagar as memórias mais terríveis que vinham a sua mente.
— Comece me falando do seu irmão. — O médico questionou.
Charlotte perdeu a hora de quanto falara sobre sua vida, sobre seus amigos, seu irmão, sobre sua adoção. Ela contara tudo a ele. Desde seus sentimentos mais profundos até coisas que aconteceram quando jovem. Samuel, como o doutor se auto nomeara, comentava algumas coisas e explicava a ela muitas coisas que haviam acontecido, e os motivos que ela não conseguia ver por trás deles. A consulta teve fim quando a enfermeira adentrou a sala e falou que já haviam se atrasado 45 minutos.
— Desculpe interrompermos nossa conversa assim. Marque a próxima consulta para daqui duas semanas e poderemos falar mais. Sinto que seremos amigos no futuro. — Ele deu-lhe um abraço e antes de sair ela voltou.
— Você parece o Dr. House. — Ela sorriu e ponderou ao analisar os cabelos brancos e os olhos azuis. — Até é bem maluco que nem ele. Gostei de você.
— Não é só você que me diz isso. É tão comum quanto dizerem a Harry Potter que ele tem os olhos de Lílian. — Ele responde sorrindo.
— Acho que seremos grandes amigos no futuro. — Lottie mostrou a pulseira de onde pendia o pingente das relíquias da morte.
— Com certeza. — Ele mostrou o mesmo símbolo tatuado na parte interna do antebraço.
Charlotte saiu do consultório muito mais feliz do que imaginara. Ela procurou pelo irmão na sala de espera e assim que não o encontrou, ficou preocupada. Ela foi até a secretária e questionou se ela sabia do paradeiro dele, e ela lhe respondeu dizendo que ele tinha mandado lhe avisar que iria até em casa buscar algumas coisas para lhe preparar uma surpresa. Ela cruzou os braços e esperou mais dez minutos até ele voltar.
— Demorou. — Ela resmungou adentrando a picape.
— Vejo que seu humor está maravilhoso como sempre. — Ele sorriu selando seus lábios a testa dela. — Vamos viajar.
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