Love Hate
1 Love Hate
Era uma manhã nublada e ligeiramente fria. Na rua principal da cidade de São Fernando se encontrava um quarteto. Debruçados um sobre os outros como se estivessem decidindo a tática do segundo tempo de um jogo de futebol americano. As mãos unidas enquanto um burburinho escapava de suas gargantas. Marisela, Lorenzo e Antonio escutavam as palavras do líder do grupo, Santos Luzardo.
– Ok, pessoal. – Ele disse, olhando-os brevemente. – Caras felizes. Sorrisos grandes. Vamos pegar eles. Espalhem o amor.
O burburinho ganhou força até se transformar em um grito de guerra e o grupo se separar. Marisela, Lorenzo e Antonio pegando caminhos diferentes. Santos, que ficou para trás, olhava para seu grupo orgulhoso. Jogando um soco no ar enquanto Marisela lhe lançava um sorriso.
– Vai, time!
Eles desapareceram em meio à multidão ficando Santos sozinho em seu lugar. Depois de alguns segundos, ele seguiu os passos de seus colegas e tomou um caminho.
Com sua camisa laranja berrante como a de seus colegas e uma prancheta em mãos, ele olhava para as pessoas que passavam ao redor. Marisela, com seu jeito de menina e meiga, saltitava no mesmo lugar, procurando alguém que caísse em seus encantos para começar seu trabalho. Lorenzo, com seu jeito divertido e despreocupando e sua habilidade de tornar-se amigo das pessoas já conversava com um casal animadamente.
Santos olhou para Marisela, ela se despedia acenando com a mão para um casal mais novo, que sorria e brincava com ela. Antonio aproximou-se de um senhor, ele não parecia muito interessado, dando leve batidas no peito do rapaz e continuando seu caminho, mas ele não desistia fácil, seguindo o velhinho.
– Posso lhe fazer uma pergunta? – Ele dizia.
Santos olhou para os próprios pés, um sorriso em seu rosto, ainda que fosse menor que o que ele dera mais cedo. Colocou a mão que não carregava a prancheta na cintura e olhou ao redor. As pessoas pareciam passar longe dele.
– Como você está indo? – Ele ouviu Antonio falar com outra pessoa, um rapaz de idade parecida.
Um pouco próximo de si, Lorenzo mexia em sua caneta, fazendo tics ressoarem pelo ambiente mesmo que movimentado. Antonio já partia para uma próxima abordagem.
– Olá! – Disse Santos quando viu alguém em potencial, um braço dando uma volta no ar em um cumprimento exagerado e alegre. – Uhm, você tem tempo para falar sobre a África?
O homem de meia idade estava vindo em sua direção, olhando-o nos olhos, assim que ouviu aquela frase, seu corpo inteiro assumiu uma postura que dizia claramente que estava desconfortável.
– Não, uhmm... Eu tenho... Tenho que...
Ele não chegou a dizer o que tinha que fazer, continuou andando até passar por Santos. Santos abraçou a prancheta, ligeiramente envergonhado, e continuou olhando para frente.
– Ok. – Ele disse baixo.
Marisela tinha sua prancheta no ar, a caneta próxima a ela enquanto olhava para a senhora com cara de pidona.
– Por favor, por favor, por favor. – Ela dizia.
Antonio conversava com um rapaz da sua idade, lhe explicando algumas coisas. Ao final, deu um aperto de mão e com um sorriso no rosto o rapaz foi embora.
– Uuuulll. – Lorenzo soltou, rindo, feliz. – Esse é meu dia de sorte!
Santos tentou de novo.
– Você tem dois minutos para falar...
– Não. – O homem respondeu, antes mesmo que ele pudesse terminar.
E de novo.
– Com licença, você tem...
– Não mesmo. – O rapaz disse, mal percebendo que Santos estava ali, seguindo seu caminho sem nem lhe lançar um olhar.
Ele até conseguiu com que um homem parasse e lhe escutasse, mas assim que ouviu “as crianças na África”, o homem virou a cabeça e continuou andando como se nada tivesse acontecido.
Um pouco a frente, Antonio conversava com uma mulher:
– Estamos falando de amor. Estamos falando de vidas. — Ela sorria e olhava para os panfletos interessada. – Como você se sente?
Santos olhava aquela cena, seu sorriso agora completamente desaparecido.
– Cara! – Lorenzo exclamou para um homem que passava como se fossem velhos amigos.
– Olá. – Marisela disse em sua voz alegre, sorrindo de orelha a orelha.
– Isso! – Antonio exclamou junto a um homem, enquanto eles batiam as mãos no ar, dando um high-five.
Santos esfregou os olhos, cansado.
A maioria das pessoas com que o grupo falava eram pessoas legais.
– Oi, gente, vocês tem dois minutos... – Santos começou seu discurso, educadamente, o mais alegre que conseguia.
– Vai tomar no cu! – Foi a resposta nem um pouco educada e extremamente rabugenta que recebeu.
Bem, talvez nem todos fossem legais
–--*---*---
Santos era o único esperando pelo barco para voltar à cidade onde morava, a pequena Progresso. Uma bolsa jogada em um dos ombros, um casaco cinza para esquentar, mas que não conseguia esconder a camisa laranja forte.
Santos gostava de pensar que era um cara legal. Sua ex-namorada, Luisana, costumava dizer que ele era uma pessoa genuinamente legal. Santos remexeu em seu bolso, tirando uma pequena foto de lá. Era sua ex-namorada. Ele sorriu, observando a curva de seu sorriso, seu nariz pequeno e os cachos vermelhos que adornavam seu rosto. Um vento forte soprou por ali, remexendo a roupa de Santos e provocando que a foto que tinha entre os dedos voasse para longe e caísse no rio.
Luisana já não lhe dizia aquelas coisas mesmo.
Ele olhou para baixo, curvando seu corpo ligeiramente para frente e imaginando se conseguiria recuperar a foto sem se molhar muito. Voltou ao seu lugar de origem, ajeitando a bolsa no ombro, uma expressão nada feliz em seu rosto.
– Seu desgraçado.
Ele ouviu uma voz feminina e não familiar atrás de si e voltou-se para ela, imaginando se estaria falando com ele. Era uma mulher muito bonita, vestida dos pés a cabeça em roupas pretas, a não ser pelo lenço vermelho que trazia no pescoço, segurava um guarda-chuva preto como se fosse a própria ceifa da Morte. Seu cabelo castanho estava amarrado em uma trança que caía pelo seu ombro direito, alguns fios selvagens fora de lugar e uma franja que quase tampava seus olhos azuis. Olhos azuis que estavam fixos nele. Isso e o fato de que eles estavam a sós, fez com que Santos percebesse que ela tinha sim falado com ele.
Ela deu um sorriso travesso, como se nada lhe desse mais prazer do que xingar estranhos em lugares vazios. Santos piscou atordoado, incapaz de parar de olhar para aquela criatura e incapaz de compreendê-la.
– Desculpe. – Ele disse. – Nós nos... Ahn, nós nos conhecemos?
– O que você acha? – Suas palavras vinham enlaçadas a algo que Santos não poderia compreender, mas que dava a impressão que tudo o que ela dizia era o óbvio. O sorriso travesso ainda estava em seu rosto.
Os olhos azuis da mulher estavam fixos aos seus, fixos como os de nenhuma das pessoas que ele abordou hoje tinham ficado. Santos desviou o olhar momentaneamente, buscando no fundo da memória de onde conhecia aquela mulher.
– Será que... – Ele começou, nervoso, procurando uma memória, procurando entender a pessoa parada a sua frente. – Você não é uma das... Eu esbarrei em você?
O que ele falava não fazia muito sentido e a mulher soltou uma risada divertida. Santos sorriu. Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes enquanto a risada acabava quase como se estivesse flertando. Santos olhou para outro lado. O barco estava chegando.
Ele olhou para ela, que continuava a encará-lo com um sorriso nos lábios. Ele sorriu rápida e nervosamente, ajeitando a bolsa e encarando o rio logo em seguida. O barco se aproximava. Santos deu outra olhadela e ela ainda o encarava. Ele sorriu rapidamente. Agora um pouco desconfortável.
O barco finalmente chegou.
–--*---*---
Sentado em seu lugar, Santos pensava na foto que havia perdido e observava sem realmente dar muita atenção às pessoas ocupando os lugares próximos ao seu. A mulher de preto da estação estava vindo em sua direção, então apesar de ele ficar um pouco desconfortável, não foi grande surpresa quando ela sentou, praticamente jogou-se, no lugar ao seu lado, acomodando seu guarda-chuva preto ao seu lado.
– Você ainda está naquela coisa de caridade, não é? – Ela perguntou.
– Ahn... – Santos ainda tentava lembrar-se de onde a conhecia. Por que ela parecia conhecê-lo. – Sim. É, isso mesmo.
Santos olhou para trás, quase querendo fugir daquela mulher estranha. Ela se apoiou em seu guarda-chuva para inclinar-se para frente, para mais perto dele, e disse:
– Você disse que ia largar esses otários anos atrás.
Santos estava alarmado, mas ela ainda tinha aquele sorriso no rosto, enquanto acomodava-se melhor na poltrona.
– Ahn, eu tenho certeza que não disse isso. Porque, bem, eu não acho que eles sejam otários.
Ele ia continuar, mas ela o interrompeu, um dedo apontado em sua direção.
– Verdade. – Ela pareceu pensar. – Eu acho que você disse que eles eram uns imbecis. – Aquele sorriso apareceu de novo. Santos começava a imaginar que aquele era o único tipo de sorriso que ela conseguia dar. – E aquele cuzão, qual o nome dele?
Ela colocou seus pés bem protegidos por uma bota preta de cano longo em cima do espaço vazio em frente a eles e Santos observou aquilo chocado, tanto com seus modos como com seu palavreado. Luisana jamais faria algo como aquilo.
– Ahnnn... O que... – Ele riu, de nervosismo e de sua própria falta de palavras. – Lorenzo?
A mulher estalou os dedos, apontando para ele em seguida.
– Bem, o que aquele imbecil precisa é um bom chute no saco. – Santos passou a mão pela testa, desconfortável e nervoso com o rumo que essa conversa estava tendo. – Preferivelmente.
Ela olhou para ele seriamente, depois sorriu; não um sorriso inteiramente debochado. Santos sorriu de volta. Ele olhou para fora, tentando não fazer contato visual com aquela mulher, tentando sair de perto dela o mais rápido possível.
– Foi... Foi ótimo... – Ele estava gaguejando levemente, suando. – Falar com você de novo. Obrigado. – Ela assentiu. Ele olhava para a estação que se aproximava. – A estação está chegando. – Ela tinha aquele sorriso de novo, brincando com seu guarda-chuva. – Essa é a minha parada então...
– A minha também! – Ela exclamou, com uma animação que parecia fora de lugar em uma mulher que vestia tanto preto.
Ela ergueu as sobrancelhas duas vezes de forma divertida e levantou. Santos continuou sentado, imaginando o que havia feito para merecer aquilo.
–--*---*---
Caminhando com a mulher da estação até a sua rua, Santos descobriu que ela tinha muitas opiniões para dar e quase todas elas envolviam pelo menos dois palavrões. Alguns que ele nunca teria a coragem de dizer e que o deixavam vermelho de escutar.
– Se eu fosse você largava esses filhos da puta. – Ela dizia, caminhando ao seu lado. – Fodam-se, é o que eu diria. Quero dizer, eu não sou da sua família, maaas... Que bando de...
– Desculpe. – Ela parecia prestes a entrar em um monólogo de palavrões novamente e Santos sentiu-se na obrigação de pará-la. Ela não pareceu se importar, tinha aquele sorriso e ainda andava tão confiante quanto antes. – Onde exatamente você mora?
– Ali, mais em cima na rua. Com seu guarda-chuvas ela apontou para o pequeno prédio onde ela supostamente morava. Santos olhou para lá e voltou a fita-la.
– Como assim, ali?
– É. Lá mesmo.
– Bem, é... – Ela continuava a olhar para ele daquela maneira, como se ele fosse importante. – Bem, ali é onde eu moro.
Ele riu nervosamente e ela acompanhou, como se realmente achasse graça. Ela fez aquilo com suas sobrancelhas de novo, como se dissesse que já sabia daquela informação. Santos arrumou sua bolsa e continuou caminhando.
–--*---*---
Santos entrou em seu apartamento o mais rápido que pode, mas antes mesmo que ele pudesse fechar a porta, ele ouviu sua voz.
– Você não vai me convidar para entrar?
Santos olhou para ela como se implorasse para que fosse embora, mas sorriu e abriu a porta para que ela pudesse passar. E ela passou rápida, olhando o apartamento como se morasse ali. Santos suspirou e fechou a porta.
–--*---*---
A mulher de preto olhava as coisas em sua pequena sala de estar. Cutucando as miniaturas de porcelana de animais na estante com um ar de quem não gosta nada do que via. Santos, com uma xícara em mãos, olhava ela avaliar sua sala com apreensão. O casaco preto tinha saído, mas não tinha muita importância porque a saia e a blusa que ela usava também eram pretos.
Santos limpou a garganta, chamando sua atenção e fazendo com que ela voltasse para si. Ele levantou a xícara.
– Desculpe, isso é tudo o que eu tenho. Eu não... Eu não bebo bebidas alcóolicas.
Ela pegou um porta retrato de cima da estante, uma foto de Luisana.
– Essa é sua namorada, não é? – Ela perguntou, olhando para a mulher na foto. – Nossa. – Seu tom era debochado. – Você sabe como escolher uma mulher.
Ele já havia perdido uma foto de Luisana hoje, não queria perder outra.
– Será que você poderia não...
Santos foi interrompido por ela, que parecia nem estar escutando de qualquer maneira.
– Roupa sem graça. Cabelo sem graça. Rosto sem graça. – Todo seu rosto dizia que ela desprezava Luisana mesmo sem nunca tê-la conhecido, mas mesmo assim, o sorriso travesso estava lá.
– Eu realmente gostaria que você não...
Ele estendeu uma mão e ela devolveu o porta retrato, logo se voltando para outras coisas na sala.
– Mas ela não está aqui, está?
– Na verdade, nós dois... – Ele colocou a foto de volta em seu lugar, apoiando-se na instante em seguida. Seu cotovelo escorregou, mas ele logo recuperou a postura. – Nós terminamos. Semana passada e...
– Ainda bem. Pelo menos agora você não tem mais que suportar todas as merdas que ela fez você comprar. – Ela olhava ao redor.
– Ela não me fez comprar nada. – Santos disse, defendendo sua ex-namorada. Ele olhou ao redor também. Para os animais de porcelana atrás de si. – Não é...
– Quero dizer, pra que serve isso? – Ela segurou uma máscara maia que Luisana havia comprado.
– Isso é na verdade uma peça muito rara.
Ela jogou a máscara no chão, que só não quebrou porque caiu em cima de seu tapete fofo.
– Olha pra você. – Ela disse, quase beirando a pena. – Olha o que aquela vagabunda fez com você.
Santos olhou para ela atônito. Ela era uma completa desconhecida, que até agora não fez nada além de xingar seus amigos, sua família, a decoração da sua casa e sua ex-namorada.
– Olha, eu vou pedir que você saia. – Ele disse, rapidamente, sem gaguejar. Aquela mulher já estava lhe dando nos nervos. Assim que disse aquilo, metade de sua coragem foi embora, mas ela ainda estava lá, parada em sua sala de estar, então ele insistiu. – Agora.
Seu sorriso travesso ficou ainda maior e Santos quase sentiu medo disso. Ele fez um gesto com a mão para que ela saísse. Ela sorriu.
Santos seguiu para a porta, abrindo-a e viu que a mulher tinha seguido. Ela foi para o lado de fora do apartamento e antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Santos fechou a porta com força. Talvez mais força do que gostaria. Ele olhou pelo olho mágico e ela ainda estava ali, o guarda-chuva em mãos, olhando fixamente para ele. Ela inclinou-se para frente e mandou um beijo.
Santos se afastou da porta. Ele voltou para sua sala de estar, que não tinha nada de errado por sinal, mas parou no mesmo instante em que chegou a porta. Ela estava ali. Sentada no sofá com as pernas jogadas na mesinha de centro, com um cigarro entre os dedos, como se estivesse ali há muito tempo, como se não tivesse acabado de ser expulsa daquela casa.
Ela olhava para ele como se esperasse que ele dissesse algo. Santos estava chocado demais para dizer qualquer coisa.
– Você. – Foi tudo o que ele disse. Ela sorriu. Santos olhou para a porta, muito bem trancada, e voltou a olhar para ela. — Quem é você?
– Você realmente não sabe?
Ele negou com a cabeça.
– Eu sou sua raiva. – Ela disse aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo, ao fim dando seu sorriso travesso.
– O que?
– Seu ódio. Sua repugnância. Seu descontentamento. Eu sou sua raiva. – Ela passou a mão que segurava o cigarro por cima do corpo, como se o mostrasse a Santos. – Em forma humana. Surpresa! – O sorriso que ela deu em seguida não era simplesmente travesso, era também diabólico.
Santos balançou a cabeça.
– Mas isso... Isso é... Isso é... Quer dizer. – Ele passou as mãos pelo rosto. – Isso é ridículo.
Ele olhava para ela sério, esperando que ela parasse com qualquer teatrinho que ela tivesse em mente. Ela tomou uma tragada de seu cigarro, sem dizer nada. Santos caminhou para longe dali.
Aquilo era ridículo. Não poderia estar acontecendo, não com ele. Santos apoiou-se na pia do banheiro, deixando a cabeça pender. Ele não era uma pessoa má. Ele era pensativo, caridoso. Ele era um cara legal.
Fumaça de cigarro atingiu seu pescoço e seu nariz e logo em seguida veio a voz dela:
– Talvez esse é o problema. – Santos virou-se para ela assustado.
– O que?
– Talvez você é legal demais. Tem muita coisa que você vem reprimindo.
Santos saiu do banheiro, caminhando para qualquer cômodo onde ela não estivesse, mas ela o seguia de qualquer maneira.
– Isso não é verdade, porque eu não consigo lembrar a última vez que eu senti qualquer tipo raiva.
– Ontem. – Sua voz preencheu seus ouvidos e ela apareceu na sua frente em um passe de mágica, deitada no sofá, ainda com o cigarro entre os dedos. – Supermercado. Você segurou a porta para uma mulher velha e ela nem olhou pra você.
– Aquilo não foi...
– Você quis bater nela com o melão.
– Ok. – Santos passou as mãos pelo rosto, tentando defender-se dessa mulher maluca.
– Duas horas depois, tinha uma criança gritando no barco e você quis jogá-lo no rio.
– É, eu quis. – Ela sorriu com sua confissão. – Mas eu não joguei. Não joguei. E ele gritava muito, muito, muito alto.
– Eu devo continuar?
E de repente ela estava olhando para um livro. Um livro provavelmente cheio de todas as vezes que Santos Luzardo já sentiu raiva. Ele suspirou, fechando os olhos, esperando que ela fosse desaparecer. Mas quando os abriu, ela ainda estava ali, sorrindo aquele sorriso de orelha a orelha.
–--*---*---
Santos tentou ignorá-la, se ela realmente era parte dele, produto de sua mente, ele poderia fazer com que ela fosse embora. Mas ali estava ele deitado em sua cama, as cobertas indo até seu queixo e ela estava sentada na cama do seu lado, fumando um cigarro e parecendo muito confortável.
– Ok. Então se você é minha raiva. – Ela bateu no cigarro, espalhando cinzas pelo edredom. Santos viu isso, mas preferiu ignorar. — Por que você é assim?
Ele olhou-a de cima a baixo e ela o imitou.
– Assim como? Fêmea? – Ela dobrou o lábio como se não fizesse ideia. – Você escolheu mulher, eu imagino.
– Mas... – Os olhos de Santos prenderam-se em suas coxas a mostra, uma bela visão. – Por que você é tão...
– Sabe, para algumas pessoas, raiva pode ser incrivelmente atraente.
Sua voz era sexy e até mesmo a bafora de fumaça que soltou foi sexy. Ela mandou um beijo discreto para ele. Santos virou de costas para ela.
– Isso não está ajudando. – Ele reclamou.
A mão dela, que estava apoiada na cabeceira da cama, caiu para sua cabeça, fazendo uma massagem rápida em seus cabelos. Uma corrente passou pelo corpo de Santos, parando em um lugar bastante específico. Ele fechou os olhos e tentou pensar em qualquer outra coisa.
–--*---*---
Santos acordou com o barulho estridente de seu telefone tocando. Não havia mais ninguém na sua cama e ele assumiu que tudo aquilo, a mulher de preto na estação e tudo o que ela havia dito haviam sido frutos da sua mente cansada e criativa. Ele abriu a porta do quarto para ir atender ao telefone, um sorriso começando a ser formar com a perspectiva de mais um bom dia pela frente.
O barulho de vidro quebrando chamou sua atenção, ele olhou para o lugar de onde vinha o barulho. Um pouco depois veio a voz da mulher que seria sua raiva:
– Cheguei!
Ela tinha um sorriso enorme no rosto, ainda vestia as botas pretas, mas agora usava calças pretas e uma blusa com estampa de leopardo, seu cabelo estava solto, caindo em cachos castanhos até a metade das costas, apenas um prendedor juntando alguns fios na parte de trás da cabeça. Ela tinha várias sacolas penduradas nos braços.
Quando Santos chegou à cozinha, ela retirava o conteúdo das sacolas. Garrafas e mais garrafas de bebidas alcóolicas.
– Ei, ei, ei, o que é isso? – Ele perguntou atordoado, olhando ao redor da sua cozinha e para as coisas que ela havia trazido. – Eu não preciso disso. Eu não bebo.
– Eu joguei um monte das suas coisas fora. – Ela começou a explicar, mas não parecia que ela estava se explicando, parecia que ela apenas estava lhe informando. – Era tudo uma merda.
Santos continuava a olhar ao redor, até parar em um lugar vazio na estante.
– Mas o que é isso? Cadê o meu som?
A mulher imediatamente largou suas sacolas de bebidas e carnes e voltou-se para ele como se ele fosse uma criança, pegando suas mãos e olhando-o nos olhos.
– Santos Luzardo, você odeia aquele som.
Ele olhava para ela sério e confuso. Não, ele gostava do som, por isso o comprou. Mas quem comprou o som foi Luisana. Talvez ele realmente odiasse.
– Eu odeio? – Ele perguntou.
–--*---*---
E foi assim que começou seu relacionamento com ela, Barbara como disse que se chamava. Aparentemente, ela não iria embora mesmo, então Santos começou a pensar que poderia tirar algum proveito daquilo.
Barbara havia pedido comida para eles e lhe estendido uma lata de cerveja. Eles jantavam em frente à televisão, ela com o controle remoto em mãos e passando de canal para canal enquanto tomava goles de sua cerveja.
– Merda. – Ela disse e passou para outro canal. – Merda. – Outro canal. – Merda.
Ela parou em um programa onde um cara afetado dizia coisas sem graça e fazia coisas mais sem graça ainda. Barbara tomou um gole de cerveja e suspirou alto.
– Olha esse cara. – Ela disse. – Um completo idiota.
Santos olhava para o homem e não pode deixar de concordar com ela.
– É, ele é bem irritante.
Barbara estava levando uma batata frita a boca quando ouviu isso. Ela parou e olhou para Santos como se ele fosse um parceiro no crime.
– Você não adoraria quebrar a cara dele? – Ela perguntou, comendo a batata.
Santos olhou para ela, aquela mulher tão bonita, tão diabólica. Ela deu seu sorriso travesso, seus olhos azuis brilhando, e ele não conseguiu conter-se. Sorriu também, o primeiro sorriso verdadeiro que ele lhe dava.
–--*---*---
Após um tempo, Santos percebeu que eles tinham muito em comum e antes que ele percebesse, ela já estava se sentindo em casa. Barbara trouxe suas coisas um tanto quanto peculiares dentro de uma caixa, ele que teve que carregar tudo, claro. Havia um chicote com a cabeça de um cavalo na ponta, vários livros, todos envolvendo ódio, guerra e destruição, e o item que mais amedrontou Santos, uma pistola prata.
Ela já considerava tanto aquela casa como sua que começou a fazer mudanças pelo lugar. Um dia, quando Santos chegou de mais um dia exaustivo de trabalho voluntário, ele encontrou sua sala de estar aos pedaços. Bem, não a sala de estar em si, mas toda a decoração que existia antes, tudo o que Luisana havia comprado.
Barbara estava no meio da sala, usando uma roupa colada, o cabelo solto, a franja jogada de lado tampando parcialmente seu olho direito, ao redor dela estavam todos os seus vinis, seus porta retratos, as miniaturas de animais de porcelana, a máscara, uma cadeira e até a mesinha de centro, tudo quebrado.
Em suas mãos estava o urso de pelúcia que ele havia dado a Luisana no aniversário de primeiro mês de namoro. Era um urso até feio, estava um pouco sujo e Santos compreendia porque a ex-namorada não o havia levado, mas mesmo assim, ele gostava do brinquedo e aquele olhar em Barbara só poderia significar que ela estava pronta para a destruição.
Ele colocou as mãos na cabeça, tentando agir com calma.
– Não. – Ele disse, lançando os braços no ar, tentando alcança-la, mas ainda parado. Barbara olhou para o urso sugestivamente e depois para ele. – Por favor, esse é o Pom Pom. Você...
– É melhor assim. – Ela disse com convicção.
– Por favor...
E antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa para salvar aquela lembrança, o corpo de Pom Pom estava separado da cabeça. Barbara jogou o brinquedo no chão com força, atingindo outras partes quebradas de sua sala de estar. Ela deu um suspiro de alívio. Santos continuava olhando para o urso de pelúcia, quase sentindo as lágrimas começarem a se formar nos seus olhos. Quando ele olhou para Barbara, ela abriu um sorriso enorme.
–--*---*---
Depois que Santos se acostumou com o jeito de Barbara e aceitou a nova decoração de seu apartamento, os dois viraram inseparáveis.
Eles estavam no parque, o lugar preferido de ambos, dando uma caminhada pela grama. O braço de Barbara estava entrelaçado ao seu e ela lhe contava alguma histórias divertida e ele ria. Um grupo de amigos tinha um piquenique mais a frente e Barbara e Santos caminharam para aquela direção.
Caminhando tranquilamente, eles passaram eu meio as pessoas, pisando na toalha do piquenique, espalhando as latas de refrigerante e a comida. Barbara soltou uma risada e Santos não pode esconder a satisfação de pisar em cima de uma torta, amassando-a completamente.
–--*---*---
Um casal estava sentado em um banco da praça, admirando a paisagem. Santos tinha seus olhos em Barbara, que estava alguns metros longe dele, do outro lado do casal. Ela tinha uma câmera em mãos e quando ela levantou o polegar, Santos assentiu e saiu correndo.
Ele deu um tapa na cabeça da mulher e do homem e continuou correndo. A adrenalina era tanta que ele começou a rir descontroladamente. Mais a frente estava Barbara com a mão estendida no ar. Eles deram um High-five e continuaram correndo. Santos virou para trás, mostrando a língua para o casal que estava tão chocado que nem conseguia expressar uma reação.
–--*---*---
Barbara estava novamente a alguns metros a sua frente, o que os separava dessa vez era uma senhora idosa, alimentando um monte de pássaros a sua volta. Santos arrumou o saco de papel que tinha em mãos, puxou o ar e começou a correr. Estando em frente à velha, soltou um grito e explodiu o saco perto dela, continuando a correr.
Os pássaros voaram para fora dali rapidamente e a senhora ergueu um punho no ar, esbravejando em direção a Santos e Barbara que corriam e riam da pobre senhora.
–--*---*---
Depois de expulsarem todas as crianças do parquinho, os dois estavam sentados em cima de um dos brinquedos, assistindo na câmera todos os idiotas que conseguiram pegar naquele dia. Barbara e Santos riam como crianças fazendo travessuras.
Santos não se sentia daquela maneira há muito tempo. Feliz, livre para fazer o que quisesse, tão dono de si. Ele abaixou a câmera e olhou para Barbara, mas ela já estava olhando para o horizonte, o riso ainda nos lábios. Apesar de ela ter o assustado e irritado bastante nos primeiros dias, agora Santos olhava para ela e só conseguia ver sua beleza, sua força, sua liberdade.
Ela era teoricamente ele, mas era tão ela, tão única e autêntica, que não conseguia vê-la dessa maneira. Barbara era toda uma mulher, uma mulher linda e diabólica, que era tudo o que ele gostaria de ser e não tinha tido coragem. A mulher que o completava.
– Eu acho que estou me apaixonando por você. – Ele declarou.
Barbara o fitou. O sorriso ainda nos lábios e seus olhos não entregavam muito o que ela sentia sobre isso, só que ela estava se divertindo. Quando as palavras finalmente pareceram atingir ela, Barbara olhou ao redor.
– Isso é estranho? – Santos perguntou.
Barbara sorriu e suas sobrancelhas pareciam zombar dele.
– É meio doentio, eu acho. – Ela disse por fim. Santos ainda sorria e ela sorriu ainda mais. – Mas eu gosto disso.
Santos sorria como um menino adolescente e Barbara o imitava. Seus olhos azuis caíram para sua boca e essa foi a deixa de Santos para se aproximar e plantar um beijo em seus lábios. Ele olhou em seus olhos e não conseguiu lembrar-se de ter estado assim tão feliz com Luisana.
–--*---*---
Algumas vezes eles não queriam sair para o parque e resolviam ficar só em casa, relaxando.
Um dos passatempos de dentro de casa preferidos de Barbara, e que ela logo fez com que fosse o seu, era jogar videogame. Com um joystick de arma em mãos, as luzes apagadas, apenas a luz da televisão os iluminando, os dois passavam horas jogando jogos de guerra.
– Morra! – Santos gritava. – Argh! Morra!
Barbara às vezes era surpreendentemente calada, mas Santos a compensava nesses momentos.
– Vamos lá, você quer me foder né? Não é? – Ele dizia, atirando em todos os soldados inimigos que entravam na sua frente. Até algumas semanas atrás, ele nem sabia que podia dizer palavrões. Quando o último inimigo caiu, com uma bala na cabeça, ele soltou o joystick e levantou os braços no ar. – Acertei, porra!
Barbara soltou um grito de vitória junto a ele. Ela o fitou, suado do nervosismo e mastigando um chiclete a sabe-se lá quanto tempo. Ela sorriu e voltou a fitar a televisão, esperando o nível começar.
–--*---*---
Santos e Barbara conversavam muito, mas do que ele já tinha conversado com qualquer outra pessoa. Talvez porque ele se sentia mais a vontade com ela do que com qualquer outro, afinal, ela era a outra metade dele. Eles gostavam de conversar a noite toda, fazendo planos para o futuro.
– Ok. – Ela começou a dizer. – Você manda no mundo. Quem você mata?
Naquele momento, os dois estavam na banheira, uma camada ainda grossa de espuma cobrindo-os. Santos olhava para Barbara do outro lado da banheira, fumando um cigarro já pela metade. Ele também tinha um em mãos, havia começado a fumar algumas semanas atrás. Barbara insistiu.
– Vai!
Santos pensou por um momento, balançando a garrafa de uísque em suas mãos.
– Nicholas Melendez. Diógenes Pernalete. Maurice Riquena. Meu professor no ensino médio. Celebridades que dizem proteger os animais. Pessoas que te chamam de “cara”. Pássaros?
– Merdinhas barulhentos. – Ela concordou.
Santos assentiu com a cabeça.
–--*---*---
Santos estava tão envolvido em Barbara, em todas as coisas que eles tinham em comum e todas as coisas que ele bravamente era capaz de fazer ao seu lado, que nem percebeu o quanto ela o estava mudando.
Um dia no trabalho, enquanto ele conversava com Barbara ao telefone e observava sua equipe chamando a atenção de estranhos como patetas, uma mulher com uma criança no carrinho se aproximou dele, coisa que as pessoas nunca faziam quando ele era alegre e de bem com a vida.
Santos deu uma olhada rápida nela, balançando o cigarro entre seus dentes e ajeitando sua jaqueta de couro preta.
– Oi. – Ela disse sorridente. – Eu queria assinar.
– O que? – Santos perguntou, sem dar muita atenção à mulher.
– Eu queria assinar. Pra ajudar as crianças na Áfri...
Santos não esperou ela terminar de falar, colocando o celular na mureta onde se apoiava e tomando uma posição irritadiça.
– Não, você não pode assinar essa porra! – O menino no carrinho olhava para ele com grandes olhos verdes. Santos tomou a bolinha de suas mãos e jogou para longe bruscamente. – Cai fora daqui!
A mulher saiu correndo horrorizada.
Santos distribuiu mais algumas maldições, deu uma tragada em seu cigarro e voltou a falar com Barbara como se nada tivesse acontecido. Ela entenderia. Ninguém no mundo o entendia melhor que ela.
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Não foi apenas sua posição no trabalho que mudou depois da chegada de Barbara, suas amizades e o modo como ele as viam também já não eram as mesmas.
Certo dia Marisela o convidou para uma festa. Era uma festa a fantasia que ela fazia todo ano no Halloween. Santos gostava dessas festas, gostava das pessoas que estavam lá e sempre se divertia bastante. Mas naquele ano, enquanto ele e Barbara, ambos vestidos em preto dos pés a cabeça, esperavam para que a anfitriã abrisse a porta de sua casa, ele não estava assim tão empolgado.
Marisela estava vestida de diabinha, uma diabinha muito sexy ele tinha que admitir, seu vestido vermelho curto deixava boa parte de suas pernas torneadas a mostra, mas ele ainda sim preferia a perfeição coberta por meias-calças pretas de sua namorada/ódio encarnado. As tranças e os chifres, no entanto, o irritaram de maneira que ele não sabia explicar.
Barbara revirou os olhos quando a viu.
– Santos! – Marisela exclamou, daquela maneira alegre e vivaz que era característico dela. Santos odiou. – Você veio.
Santos e Barbara soltaram um suspiro ao mesmo tempo. Marisela olhou de Santos para Barbara, um sorriso grande estampado em seu rosto.
– E vocês são... – Ela olhou de um para o outro novamente. Tirando o fato de que eles estavam vestidos de preto, suas roupas eram completamente normais. Marisela colocou uma mão no rosto. – Vocês não sabiam que era uma festa a fantasia?
– Sabíamos. – Santos respondeu, sem entusiasmo.
– Então, de que vocês vieram?
Marisela soltou uma risada, o casal em preto ficou olhando para ela com cara de poucos amigos. Santos talvez um pouquinho mais amigável que Barbara, que detestava Marisela.
– Adultos. – Santos respondeu.
Ele entrou na casa logo em seguida, Barbara logo atrás dele. Marisela estava confusa, mas ainda tinha um sorriso no rosto. Barbara odiava pessoas sorridentes demais e Santos estava esperando ouvir algo de sua namorada.
Barbara deu uma espécie de latido em direção à Marisela, quase mordendo seu nariz no processo. Marisela deu um grito, cobrindo a boca com a mão e derramando metade da bebida de seu copo. Mesmo assim, ela riu.
Santos revirou os olhos com a reação da garota, tomando a mão de Barbara e rindo maldosamente junto a ela.
Seus amigos perceberam a mudança nele, embora não conseguissem apontar exatamente o que era. Mas o mais importante para Santos foi as coisas que ele conseguiu ver em seus amigos naquela noite.
Sentado em um canto da sala, um cigarro em mãos e sua bela namorada no colo, falando todas as coisas que eles iriam fazer quando chegassem em casa, Santos olhava seus amigos dançando e se divertindo. Ele nunca tinha visto algo mais ridículo.
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Caminhando pelos corredores vazios de seu prédio, Barbara, como no resto do caminho, vinha lhe falando o que tinha achado da festa de Marisela. Depois de ter gasto uns bons minutos falando sobre como a anfitriã era sem sal, nojenta, hipócrita e que deveria ter algum tipo de retardo mental, ela pulou para falar de Lorenzo.
– Aquele Lorenzo é um filho da puta. – Ela começou, com um suspiro.
– Isso ele é. – Santos concordou. – Mas ele é meu melhor amigo.
– Ele tem um jeito engraçado de mostrar isso.
O tom de voz de Barbara era raivoso, sem um familiar toque de ironia ou brincadeira, e Santos fitou-a curioso.
– O que você quer dizer? – Ele perguntou.
– Ele me falou sobre o seu apelido na escolinha. Santos Caga nas Calças.
– Ele disse isso?
Santos estava incrédulo. Aquilo havia sido uma época terrível de sua vida, quando ele tinha cinco anos, e os dois amigos prometeram não tocar mais nesse assunto. Barbara assentiu, um pequeno sorriso se formando em seus lábios vermelhos pelo batom.
– E sobre a sua paixonite pela irmã mais nova dele. E sobre a vez que te pegaram masturbando no banheiro em uma viajam com o grupo. Até me mostrou umas fotos.
Santos a olhava atônito, com raiva de Lorenzo por dentro, mas sem saber o que fazer. Barbara olhava para ele atenta, ela mexeu a cabeça em negação para ele e Santos fitou a sua frente. Se visse Lorenzo Barquero mais uma vez, arrebentaria aquela cara odiosa.
Ele quase podia sentir o sorriso diabólico de Barbara ao seu lado.
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Barbara não queria que ele esperasse até a próxima vez que visse Lorenzo, ela também não queria que ele necessariamente batesse nele. Até porque se fosse imediato, não precisava ser grande coisa, segundo ela. Então assim que eles chegaram em casa, Barbara o sentou no sofá e estendeu a ele o telefone.
Santos o pegou nervoso.
Já estava chamando e durante os poucos toques que escutou, quase arrancou os cabelos de nervosismo. Alguém atendeu.
– Oi, Marisela. É, é o Santos. Eu fiz isso?
Barbara, sentada no braço do sofá, observava o desenrolar da cena com atenção.
– Desculpe por isso. – Santos continuava a falar no telefone. Ele deu uma olhada para Barbara, que levantou as sobrancelhas esperando que ele fosse logo ao assunto. – Eu estava pensando... Hun... O Lorenzo está? – Ele esperou um momento. – Obrigado.
Quase um minuto se passou enquanto Marisela procurava por Lorenzo, mas assim que o telefone chegou a ele e Santos ouviu sua exclamação alegre, ele disse:
– Sua mãe é uma puta.
E desligou logo em seguida. Barbara levantou os dois polegares dando um sorriso enorme para ele.
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Depois de saber o que seu “melhor amigo” falava sobre ele pelas suas costas, Santos já não podia confiar em ninguém. Então ele escreveu um e-mail nada educado e bastante desaforado e enviou para os seus contatos, aqueles que ele, até pouco tempo, considerava amigos.
No final, pediu educadamente que não tentassem falar com ele, que não entrassem em contato, que fossem se foder.
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Barbara deve ter ficado muito feliz com aquilo, porque assim que ela tirou as roupas da festa, ela pulou em Santos e fez coisas com ele que mulher algumas jamais tinham feito.
Ele a beijou e ajeitou-se para que pudesse ser a concha maior, quando Barbara fez mais uma revelação:
– Ah, eu quase esqueci. Seu velho amigo Lorenzo...
Santos riu, lembrando-se do papel ridículo que Lorenzo prestou durante a festa.
– O que tem ele?
– Ele me comeu no banheiro.
Santos estava de olhos fechados, mas assim que percebeu o que Barbara havia falado, ele os abriu.
– O que?
– No banheiro. Na festa.
Santos estava atônito pela segunda vez na mesma noite.
– Mas... – Ele começou a dizer.
– Mas foi praticamente um estupro.
Ela disse aquilo de forma tão sincera, tão inocente, mas ao mesmo tempo diabólica, do jeito que só Barbara sabia falar. Ele a fitava, mas ela olhava para o teto.
– Eu vou matar ele. – Santos declarou.
Barbara o fitou, virando-se totalmente de frente para ele, uma expressão séria e preocupada em seu rosto. Santos pensou que ela fosse dizer algo para impedi-lo, ao contrário, recebeu um:
– Eu acho que você deveria.
Ela inclinou-se, colocando seus lábios nos dele, sorriu e voltou a fitar o teto. Santos a imitou, mas sua expressão era séria, sua mente planejando como mataria aquele desgraçado.
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Na manhã seguinte Santos saiu de casa praticamente possuído pelo demônio, foi para São Fernando e dirigiu-se para o prédio de Lorenzo. O filho da mãe estava saindo de casa naquele momento, quando o viu, abriu um sorriso e os braços e gritou:
– Cara! – E quando percebeu a expressão de Santos: — O que tá acontecendo?
O rosto de Santos se contorceu e seu punho voou em direção ao rosto de Lorenzo. Mas antes que ele pudesse atingi-lo, Lorenzo segurou seu braço e jogou-o contra o muro. Seu rosto bateu contra ele e Santos caiu no chão no mesmo instante. Seu nariz doía tanto que deveria ter quebrado.
Lorenzo esperou para que Santos levantasse, mas como isso não aconteceu, ele caminhou calmamente para longe dali.
– Merda! – Santos exclamou, sentindo o sangue descer pelo nariz.
Barbara estava acima dele em um instante, seu cabelo preso em uma trança jogada de lado e seus olhos azuis faiscando com decepção e raiva. Santos estendeu uma mão para que ela o ajudasse a levantar, mas tudo o que recebeu foi um chute no meio das pernas.
Ele soltou um grito e voltou a encolher-se no chão. O que deve ter sido um erro porque recebeu outro chute nas costas.
– O que você tá fazendo? – Ele perguntou quando conseguiu falar novamente.
Barbara inclinou-se em sua direção e Santos levantou um braço instintivamente para defender-se.
– O que parece que eu estou fazendo? – Ela perguntou.
– Achei que você deveria ficar do meu lado.
Barbara tombou a cabeça para o lado.
– Bem, você nunca ouviu falar de raiva por si mesmo?
Ela ficou ereta e Santos levou o braço mais alto. Não que isso tenha impedido o chute no braço.
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Apesar de doloroso, aquele episódio ao menos serviu para que Santos percebesse que o relacionamento deles não estava funcionando. Um relacionamento entre ele e sua própria raiva, estava na cara que não daria certo desde o início. Ele tinha medo de Barbara quando a conheceu, ficou se perguntando que ideia maluca o tinha feito mudar de ideia em relação a isso.
Santos levou Barbara para um bar em São Fernando, em seguida ele estava planejando pedir seu emprego no grupo de caridade de volta. Ele esperava que seus companheiros pudessem perdoar o e-mail.
A cada três goles de sua cerveja, Barbara olhava para o braço enfaixado de Santos e ria com as palavras de baixo calão que ela mesma havia escrito ali enquanto ele dormia. Santos tinha ficado até impressionado que o chute de uma mulher tão pequena como Barbara pudesse ter deixado seu braço naquela situação.
Santos disse o que queria dizer rápido e sem rodeios, tirar o band-aid de uma vez só era melhor. Mas o sorriso dela não desapareceu.
– Não está funcionando? – Ela disse. – O que quer dizer?
– Ahn... – Santos passou os dedos pelo seu olho direito, o pequeno corte ao redor dele ainda estava vermelho. – Você não... Eu não acho que você tenha uma boa influência sobre mim.
– Boa influência? – Barbara parecia verdadeiramente intrigada. – Por que você quer ser bom?
Santos decidiu ignorar seu pequeno sorriso e continuar seu discurso.
– Você é briguenta, superficial, egoísta. – Ele lhe lançou uma olhada temerosa, mas Barbara escutava a tudo sorrindo. – Covarde, não é digna de confiança...
– E?
– Eu só acho... Que nós precisamos passar um tempo afastados.
E como num passe de mágica, o sorriso de Barbara desapareceu.
– Você tá terminando comigo?
– Não. – Santos foi rápido em responder, seus machucados latejando de repente. – Não.
– Seu idiota ingrato. Depois de tudo o que eu fiz por você.
– Sim, e eu realmente aprecio...
– Você acha que pode sair daqui e tudo vai estar terminado? – Barbara estava mais nervosa do que Santos jamais a tinha visto, com ele pelo menos; seu tom de voz aumentando. – Você não pode terminar comigo, imbecil! Eu sou você!
Barbara se levantou e Santos sentiu-se pequeno, mesmo que ele tivesse quase o dobro de seu tamanho.
– Eu... Eu sinto muito. – Ele pediu sussurrando.
– Você vai sentir. – Ela prometeu, um brilho maníaco em seus olhos azuis e foi embora.
Santos observou-a partir.
– Nós ainda pode ser amigos!
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As pessoas passavam pela rua principal de São Fernando, ocupados demais consigo mesmo para repararem no homem parado ali, prancheta em mãos, mesmo que ele estivesse usando uma camisa laranja berrante.
Quase um ano havia se passado desde todo o acontecimento com Barbara e Santos havia conseguido voltar a sua vida normal.
– Com licença, senhora.
– Não enche!
Seu eu normal.
– Tudo bem, sem problemas. Obrigado pelo seu tempo.
Conseguiu restaurar seu apartamento e deixa-lo mais parecido com o tempo antes de Barbara do que com o tempo durante Barbara. Após algumas semanas de seu término com ela, Santos reencontrou Luisana Riquena e eles acabaram voltando a namorar. Ela ajudou bastante a comprar as coisas novas para o apartamento.
Santos havia sentido falta dela. Ele nem sabia o quanto até eles estarem juntos novamente. Ela era uma dama, nunca dizia palavrões, não colocava os pés em cima dos móveis, não comia de boca aberta ou dizia qualquer tipo de obscenidades. E também não transava com seus amigos.
Ela era tão doce quanto ele se lembrava.
– Mas é claro que eu sinto sua falta. – Ele dizia para ela pelo telefone. – Você sente saudades de mim? Não, eu sinto mais. É. – Ele riu. – Eu sinto.
Ela era boa e doce e confiável.
– Tchau, amor. Tchau.
Talvez confiável demais.
Santos desligou o telefone quando chegou ao seu quatro. Encostou o objeto contra o peito e ergueu os olhos para ela.
Barbara estava sentada confortavelmente na cama, os cachos soltos espalhados pelo travesseiro em suas costas, uma garrafa de uísque quase vazia na mesinha de cabeceira e um cigarro em mãos, espalhando cinzas e fumaça pelo quarto todo. Ela olhava para Santos com aqueles olhos azuis brilhando, atenta a cada movimento seu.
Barbara o chamou com um dedo, Santos soltou um suspiro mas seguiu até sentar-se ao lado dela. Barbara tomou uma de suas mãos e guiou-a até o alto de sua barriga protuberante. Ela fez com que sua mão passeasse para cima e para baixo, sentindo-a. Ela sorriu e olhou para ele.
– Não vai demorar muito agora.
Santos olhou-a e voltou a olhar a barriga, sentindo-a sozinho, mesmo que a mão dela continuasse sobre a sua, enquanto Barbara dava uma tragada em seu cigarro. Quando ela voltou a olhá-lo, Barbara tinha aquele sorriso travesso, o mesmo que usava quando xingava pessoas inocentes. Santos sentiu algo abaixo de sua mão e voltou a fitar a barriga apreensivo. Quando o bebê finalmente se mexeu o suficiente para que ele pudesse sentir, seus olhos arregalaram-se.
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