Loucuras do Amor
1 Como Tudo Começou...
Notas iniciais
Meu nome é John Kenny. Nasci em Miami, mas me mudei para o Canadá quando tinha dez anos de idade. Atualmente, moro em Ottawa. No início, não gostei da ideia. Desde quando era pequeno, acostumado com o calor excessivo da Califórnia, achava que o Canadá era o País do Gelo. O frio para mim não era algo legal, embora sempre quis ver neve. Talvez isso foi o que me fez aceitar mais facilmente a ideia de se mudar para outro país.
Se eu tinha alguma escolha? Realmente eu não tinha.
Meu pai trabalhava em um banco internacional, e após anos de serviço, foi promovido à gerente. Acontece que se quisesse o cargo, teria que trabalhar na sede da rede no Canadá, em Ottawa. Como a ideia de ainda mais dinheiro deixou os meus pais literalmente loucos, fomos para lá. Minha mãe agora poderia ficar em casa o tempo inteiro, o que era uma novidade para mim e para ela.
Quando nos mudamos, eu estava no período de férias escolares. Como o Canadá e famoso por ser o país que mais investe na educação, a primeira coisa que minha mãe fez foi me matricular em uma das melhores escolas da capital. Além de, em sua maioria, o idioma em Ottawa ser o inglês, o que iria facilitar em muito para mim.
Por sorte, nos mudamos no mês de julho, o mês mais quente do ano. A temperatura era quase idêntica a da Califórnia, não nos trazendo problemas. Fomos aos diversos parques da cidade e a alguns jogos do Ottawa Senators, o time de hóquei local. Meu pai trabalhava desde o começo do dia até às sete da noite, então a maioria do tempo eu ficava em casa com minha mãe, mexendo no computador ou fazendo passeios rápidos.
Não demorou muito e as aulas começaram novamente. O sistema educacional de Ontário era o mesmo ao qual estava acostumado. Minha mãe havia me colocado na escola particular mais próxima da nossa casa, embora houvesse outras públicas ainda mais perto e talvez até melhores. No primeiro dia ela me levou de carro até a escola para eu me acostumar ao caminho, embora já tivesse passado por lá uma sete vezes.
Os alunos usavam o mesmo uniforme e seguiam perfeitamente as regras impostas pela província de Ontário. Logo no começo percebi que não seguir totalmente as regras causaria sérios problemas para mim. Assim, sempre tentava ser pontual e ir com o uniforme.
Fiz amigos rapidamente e logo estava me sentindo em casa. Sentávamos juntos no recreio e íamos para lanchonetes depois da aula. O trânsito era pequeno. A maioria das pessoas que iam para o trabalho usavam os diversos trens da cidade. Tudo isso deixava as ruas poucos movimentadas, o que para nós representava poder correr e gritar.
Tudo estava indo bem até o inverno chegar. Eu esperava algo frio, mas não tão frio como aquilo. As temperaturas caíram de 25ºC para 0ºC e, dependendo do dia, para graus negativos. Pegamos gripe nas primeiras semanas, enquanto os outros alunos e pessoas saiam normalmente nas ruas, com seus casacos grandes e quentinhos, acostumados a tudo aquilo.
Fui bem durante os cinco primeiros anos, tirando boas notas e se acostumando aos poucos com o frio. Sempre quando a neve chegava eu ficava mais feliz. Os lagos e ruas ficavam congeladas, o que era totalmente novo para mim.
Meu pai continuou extremamente bem em seu emprego e seguimos com a nossa vida. Compramos uma casa maior e mais um carro. Conhecemos vizinhos confiáveis e vez ou outra dávamos festas para os amigos, onde eu convidava os meus primeiros colegas do colégio: Sophia e Jimmy.
Agora que tínhamos quinze anos não saímos berrando que nem loucos nas ruas, ou nos jogávamos na neve. Jimmy estava namorando, então a maioria das vezes que saímos era para dar uma volta nos parques ou comer algo rápido em uma lanchonete. Às vezes quando ele ia embora, eu ficava sozinho com Sophia, contando sobre minha antiga vida nos Estados Unidos, o que ela escutava com muita atenção e sempre pedia pra eu repetir.
Sophia era mediana. Tinha cabelos loiros e olhos azuis. Era bonita, e sempre tinha algum cara correndo atrás dela. No começo eu achava que estava me apaixonando por ela, mas depois percebi que não era isso que eu queria. Nossa amizade valia mais do que tudo, e eu não estava nem um pouco a fim de estragar isso. Ela morava há três quarteirões de minha casa, na área central de Ottawa. Aos finais de semana nossas famílias iam juntas passear no parque.
Jimmy era o cara do tipo engraçado, sempre com um quebra-gelo pra tudo. Tinha cabelos castanhos e olhos escuros. Era magro, mas forte. Ninguém se metia com ele. Quando conheceu sua namorada parou um pouco com as nossas saídas. Mas sempre que podíamos estavam reunidos rindo e colocando o assunto em dia.
Naquela manhã fria de março, eu me arrumava para ir para escola. Tomei meu café da manhã e andei apressadamente pelas ruas cheias de neve. Entrei no colégio com Jimmy e sua namorada e fomos até a nossa sala. Sophia não estava lá, o que era estranho. Ela sempre era a primeira a chegar.
A primeira aula passou e Sophia ainda não havia chegado. Achei que ela tinha se esquecido de colocar o despertador, como já havia feito algumas vezes.
As aulas passaram e o intervalo também. Jimmy despediu-se e disse que iria ligar para Sophia para ver o que havia acontecido. Desci as escadas e entrei no corredor principal. Estava escrevendo uma mensagem em meu celular quando bati com o braço esquerdo em alguma coisa. Escutei o baque pesado de livros caindo no chão e olhei para o lado. Eu havia batido em uma garota que mexia em seu armário.
– Desculpa – disse, agachando-se para pegar seus livros.
– Eu que peço desculpas. É que ainda estou confusa com tudo isso – ela disse, me ajudando a pegar seus livros.
– É nova por aqui? – perguntei, colocando os livros em seu armário.
– Sim. Vim de Nova York – ela respondeu.
– Legal. Eu também me mudei para cá há cinco anos. No começo fiquei um pouco perdido também, mas logo você se acostuma – disse, enquanto ela fechava seu armário.
– Obrigada – ela agradeceu, virando-se para mim. – Sou Gabriela Lispector.
– Sou John Kenny – disse. – Eu preciso ir. Se vemos por aí.
– Ok – ela disse.
Peguei meu celular e continuei escrevendo a mensagem para Sophia. Saí do colégio e segui a rua até o fim, onde minha casa aparecia ao longe. Alguns flocos de neve começaram a cair, enquanto meu pai estacionava seu carro em frente a nossa casa, chegando mais uma vez de seu trabalho.
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