Loucuras Em Barcelona
4 Capítulo 4 - RASCUNHO
Notas iniciais
Uma semana havia se passado e, por incrível que pareça não havia saído pra nenhuma balada e tenho até vergonha de contar o porquê.
O senhor Anselmo Lorenzo, meu pai, contratou seguranças para caso eu saísse não me deixassem beber. O motivo? Você deve imaginar. Maldita senhorita Miller linguaruda. Eu tentei reverter a situação de todas as formas possíveis, falei que pagaria o dobro do dinheiro que o meu pai havia pago, depois um emprego na empresa, no final até jurei de morte todos aqueles seguranças e nada, às vezes eu odeio profissionalismo exagerado.
Eu não entendia o que uma pessoa teria na cabeça para me obrigar a aceitar um cargo desse porte, ainda mais agora que ele contratou esses seguranças para evitar que eu bebesse ou usasse alguma droga. Maldita hora em que não cancelei aquela reunião, maldita hora em que vomitei naquela reunião. Maldita hora em que aceitei essa merda. Mas ele iria se arrepender. Estava tudo calculado em minha mente, meu pai iria arrepender-se amargamente do momento em que utilizou a hipótese de colocar seu filho à frente da empresa.
Era uma segunda-feira após um dos finais de semana mais tediosos da minha vida, eu havia acordado de péssimo humor. Estava disposto a provar ao meu pai que não estava apto para continuar nessa brincadeira estúpida que ele havia me colocado.
Eu não estava nem cinco minutos atrasado e já ouço a senhorita Miller batendo na porta do quarto achando que eu ainda estava dormindo. Eu tenho duvidas se ela foi contratada pra ser minha auxiliar administrativa ou minha babá, só faltava colocar papinha na boca. Abri a porta e passei por ela ignorando-a, segui rumo à saída lutando para não entender nada do que a minha babá, digo senhorita Miller dizia. Ao sair dou de cara com aquele homem alto, moreno junto com um homem de altura média, loiro, ambos fortes, eram meus seguranças. Eu fiquei furioso ao lembrar que sou rodeado por babás.
Não sei se foi o som, ou a situação em si que me fez notar o jardineiro olhando disfarçadamente e dando um sorriso debochado. Estressei com aquilo, um empregado rindo daquela situação é demais pra mim, apressei meu passo e fui amassando todas as flores do caminho até chegar a ele. Peguei-o pela manda de sua camisa xadrez e encarei enfurecido aqueles olhos.
- Então você se acha no direito de rir, seu empregadinho de merda... – Disse irado.
Os olhos do rapaz no começo estavam assustados, mas quando terminei de dizer notei que sua expressão mudou, seu olhar estava desafiador.
- Responde seu empregadinho de merda – disse ou gritei.
Ele deu um sorriso e disse por fim tirando minha mão de sua gola.
- É... Como o “senhor” pode perceber eu trabalho aqui, mas isso não lhe dá o direito de encostar sua mão em mim – Disse dando um sorriso educado.
Olhei para os meus seguranças que estavam sérios perto da porta e disse.
- Olhem e aprendam! – Disse pegando o braço do rapaz e torcendo fazendo-o ficar de costas a mim — É isso que acontece com empregado que não me respeita.
De certa forma o rapaz estava imobilizado, mas a expressão calma em seu rosto estava me matando por dentro.
- Senhor eu me demito! – Ele disse.
- Mas você já está demitido desde o momento em que pensou rir de mim – disse.
- Bom saber – Ele disse dando um movimento rápido. Não sei ao certo o que aconteceu, apenas senti meu corpo jogado ao chão e um murro na minha boca.
- Não suporto ver idiotas e não fazer nada – Ele disse sussurrando.
Os seguranças logo o pegaram, quando o mais alto arqueou o braço para direcionar um murro eu gritei.
- Espere! – disse me levantando.
Notei que no canto da minha boca escorria um pouco de sangue, mas não dei importância, cheguei bem próximo ao rapaz.
- Pelo que vejo você não precisa tanto desse emprego... – disse dando um meio sorriso.
- Estou terminando minha faculdade. Não vou precisar trabalhar pra idiotas como você – disse rindo.
Eu gargalhei com a inocência do rapaz, ele realmente não sabia com quem estava se metendo.
- Pois fique sabendo que você acaba de assinar seu inferno aqui na terra, apenas uma ligação que eu der o seu nome vai estar mais sujo que essa sua boca, não irá conseguir emprego nem como gari – disse por fim – Sua vida acabou.
A respiração do rapaz acelerou, suas sobrancelhas arquearam e acabou aquele olhar glorioso que ele estava há pouco tempo.
- Soltem o coitado, estou entrando para trocar este terno que você sujou. Quando eu sair não quero vê-lo – disse.
Ao entrar na casa notei os olhos da senhorita Miller assustados notando meus lábios sangrando. Troquei meu terno e limpei meu rosto.
Na empresa estavam me aguardando para a seleção do novo comercial de uma nova bebida, havia três publicitários na sala de reunião. Ouvi a proposta dos três, se eu fosse escolher alguma delas seria uma situação complicada, mas eu já estava decidido a não aceitar nenhuma antes mesmo do primeiro abrir a boca, pois seria nesse comercial que eu iria começar meu plano de acabar com a paciência do Senhor Anselmo Lorenzo.
- Muito obrigado pelas três propostas, tenho que concordar que realmente são criativas e contém todo o necessário para chamar a atenção do publico alvo dessa bebida. Mas estou com outros planos em vista. Agradeço a dedicação de vocês – Disse.
Peguei o telefone e direcionei a ligação para o setor de Betina, mas a mesma não atendeu, tive que ligar no celular dela.
- Senhorita Miller? – disse animado.
- Sim – ela disse entrando na sala enquanto falava comigo no telefone.
Sorri ao vê-la entrando enquanto falava comigo no celular.
- Precisamos sair agora para achar nossos atores – disse analisando qual seria a sua expressão.
- Atores? – disse ela espantada.
- Sim, Betina... Temos um comercial para dirigir! – Disse me levantando.
Os olhos dela estavam espantados.
- Porque esse espanto todo? Não confia na minha capacidade? – Perguntei.
- Não é isso, é que o senhor me chamou pelo meu primeiro nome. – Ela ruborizou ao dizer.
Dei um sorriso ao notar a importância que era pra ela minha atenção. Me aproximei da moça, pude sentir o corpo dela enrijecer ao perceber que eu estava mais perto de seu corpo como nunca estive antes, meus lábios aproximaram de sua orelha, disse baixo e bem devagar.
- Se você me ajudar nessa, será muito bem recompensada senhorita Miller, digo, [...] Betina – Disse distanciando novamente.
Não teve outra. Saímos daquele edifício, e estava muito calor, decidimos dar uma volta sem o carro mesmo, assim seria mais fácil encontrar alguém. Havia muitas pessoas na rua, se eu precisasse de pessoas bonitas para o meu comercial já teria encontrado muitas, mas precisava de alguém bizarro, alguém que ajudasse o comercial ser um fracasso!
Andando pelas ruas notei um homem que vestia uma roupa muito bizarra, devia pesar uns 140Kg, cabelo Black Power e branquelo.
- Achei meu ator – disse mostrando o homem para Betina.
Ela me olhou com uma expressão estranha, chegava a ser bizarro.
Conversei com aquele homem e após dizer o valor do cachê, ele aceitou todas as condições, marquei com ele na empresa no próximo dia.
Eu estava decidido a fazer aquele produto ser uma decepção para a empresa, e começaria pelo comercial, não tinha a menor idéia de como iria fazê-lo, mas faria questão de parecer muito amador.
Como disse, o produto era uma bebida alcoólica que não engorda, é uma bebida da Bélgica. Ao voltar pra empresa tive a idéia de inventar uma música tosca para colocar no comercial, a letra da musica teria que ser sem nexo.
Com o meu ânimo reforçado com as idéias, meu dia passou mais rápido, quando me dei por mim já era hora de voltar, na verdade eu não tinha mais compromissos naquele dia, voltei para casa, minha vontade era sair pra noite e beber todas, mas sabia que não seria assim, afinal dois armários daquele tamanho andando por onde eu andava.
Quando chego em casa, de certa forma estava estranho, não sabia ao certo o que era. Quando entrei notei que o jardineiro estava na sala, quando me notou ali, ele tirou o boné da cabeça e segurou com as suas mãos me olhando apreensivo, ali me pareceu ser tão humilde (de personalidade), mas mesmo sem conhecê-lo eu sabia que não era do feitio dele aquela demonstração de respeito que ele teve a me ver.
Fechei a porta para os seguranças não notarem que ele estava ali, estranhei minha preocupação em relação a isso, mas queria saber o que aquele rapaz alto, forte de sobrancelhas marcantes e barba rala fazia ali me encarando com seus olhos negros contrastando com sua pele branca.
- O que faz aqui? Não tem noção do perigo? – perguntei indo em sua direção.
- Desculpe aparecer assim, é complicado pular o muro – Ele disse – Eu vim me desculpar. Eu não devia ter feito aquilo, eu preciso desse emprego.
Me sentei no sofá, estiquei meus pés sobre a mesa de centro e gargalhei, eu estava muito feliz.
- Cadê aquele cinismo em sua voz? Está tão vulnerável agora por que? Medo de eu fazer aquelas ligações que mencionei? – Perguntei cruzando meus braços atrás da cabeça.
- Desculpe senhor, mas sem esse emprego não posso pagar meus estudo – Ele disse olhando o chão.
Por que ele estava encarando o chão? Para parecer um santinho acatado. Eu sabia que ele não era assim oras!
Me levantei e me aproximei do rapaz.
- E eu lá me importo com o que você faz ou deixa de fazer? Tô pouco me lixando para sua faculdade – disse.
Ele me olhou sério, um olhar respeitoso.
- Ah pára rapaz! Para de tentar parecer ser este santinho aí. Você é como eu, não vale uma moeda de dez centavos – Falei sério.
Ele me encarou por um tempo, eu não disse nada. Queria ver qual seria a reação dele após eu ter dito tudo aquilo.
Após algum tempo seu olhar mudou, para aquele tom desafiador, e ele disse por fim se dirigindo a porta.
- Ah cansei de me humilhar nessa porra! Não quer meu trabalho, então vai tom...
- Eu não disse que não quero... – Disse impedindo que ele continuasse a dizer o que premeditei ser um insulto.
Ele parou de imediato ao estudar o que eu disse, eu tinha um objetivo naquilo tudo e ele iria me ajudar.
- É sério? Você, digo, o “senhor” vai me aceitar de volta? – perguntou soltando um sorriso maroto (o que ser maroto?).
Gostei do que vi ali, achei interessante seus olhos brilharem ao sorrir.
- Mas existe uma condição, e você não deve discordar afinal nessa condição você até ganhará um extra – Disse já pensando no meu objetivo.
- O que é?
- Apareça amanhã as onze da manhã na empresa, peço pro motorista te buscar, não me pergunte o que é, apenas vá. – Disse seguindo para o meu quarto.
- Mas Rômulo... – Ele parou de tentar perguntar quando mandei um olhar sério.
Ele sorriu e colocou o boné saindo para o trabalho.
No outro dia fui cedo pra empresa, quando cheguei já havia algumas pessoas da área de propaganda da empresa me aguardando para o desajeitado e estrondoso comercial que iria ser gravado no estúdio da empresa. Em relação das pessoas que estavam ali, tinha que concordar que a senhorita Miller quando queria conseguia fazer seu belo trabalho. Havia comunicado a todas as pessoas necessárias para a gravação.
Mas isso não era o que eu queria, não queria diretor de arte nem nada para me ver trabalhar no comercial, esse comercial vai ser surpresa pra todos. Nem todos, afinal deixei o editor de vídeo e mixagem de som para me ajudar nas boicotadas necessárias. Mas os outros liberei para um dia de folga.
Betina Miller me aguardava em minha sala, ela estava com uma roupa mais, comparando com as outras roupas que ela usara, pode-se dizer – Descolada – Vocês devem pensar, “que termo antigo”, parece uma titia falando “descolada”, mas para a Senhorita Miller um termo ultrapassado se encaixa perfeitamente.
O grande closet do figurino possuía roupas belas, grandes variedades do mais alto gosto e qualidade, mas não era o que eu queria, eu precisava de algo bizarro, e após algum tempo achei.
Para o gordo havia achado uma espécie de maiô tamanho extra G com listras amarela e preta.
O telefone do escritório tocou, era a secretária informando que havia dois rapazes me aguardando na sala de espera.
Na sala estava o rapaz que irei chamar de “Sem nome”, e o Tony meu jardineiro com a cara amarrada.
- Bom dia, vejo que chegaram na hora marcada, pontualidade é algo que realmente prezo. Então vamos para o décimo terceiro andar afinal temos um comercial para gravar.
Segui o caminho, mas a mão direita de Tony me para.
- Que comercial? Você não me falou de comercial nenhum... – Ele falou assustado com o que ouviu.
Encarei aquele rosto, aquela barba mal feita e sorri, afinal era o que aqueles olhos surpresos causavam em mim (vontade de sorrir).
Forcei o Rômulo sério a aparecer e por fim consegui, minha expressão ficou a mais séria que pude naquele momento.
- Te disse que havia uma condição para conseguir seu emprego de volta – Disse seguindo.
Notei que iria dizer mais alguma coisa, mas deve ter desistido, afinal não iria mais dar atenção praquele jardineirozinho de merda.
No estúdio notei que não estava presente nem a senhorita Miller nem o diretor de áudio/vídeo. Algum instinto me fez dizer alto.
- Senhorita Miller? Está aqui?
Me senti idiota perguntando ao nada, mas de certa forma surgiu efeito, a porta do banheiro abre bruscamente e de lá sai a Betina pálida com seus olhos arregalados me encarando enquanto eu seguia em sua direção.
- Então, vamos logo senhor Lorenzo... – Ela disse bloqueando minha passagem.
- Com licença senhorita Miller – Disse empurrando-a e seguindo para o banheiro.
Lá estava o diretor fechando o zíper da calça, me olhando sem graça. Em meu estado normal de lucidez eu mandaria sem pensar duas vezes esses dois para o olho da rua, mas eu não estava ali naquele momento para melhorar aquela empresa, não era minha intenção.
- Agiliza aí, temos um comercial para gravar e você tem muito para fazer, depois vocês “brincam” mais. – Disse direcionando meus passos para o estúdio.
Analisei o estúdio de gravação, em si ele era grande, tomava quase o andar inteiro, uma pequena parte era tomado por um fundo neutro (verde), era o que eu iria utilizar para a gravação.
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Após analisarmos os ângulos da câmera, o áudio me lembrei que teria ainda, antes da gravação de vídeo que fazer a gravação do áudio, sem contar que a melodia ainda não existia, teria que ser feita ali na hora, seria algo amador.
- Não tenho a melodia da musica, senhorita Miller canta alguma musica ai. – Pedi.
- Senhor Rômulo, tenho vergonha, melhor não – Ela disse contraindo-se.
- Não pedi sua opinião. – Disse ríspido.
Ela começou a cantar
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