Lost and Found
1 Perdido e encontrado
Notas iniciais
Você quer muito uma coisa. Traça um plano na sua cabeça, imagina uma rota e diz para si mesmo “Ok, eu posso fazer isso. Eu vou conseguir”. E então, quando está no caminho que leva ao seu desejo, percebe que as coisas não são como imaginou.
Nem de longe.
É muito mais difícil do que esperava.
E já que não consegue chegar lá por sua conta, compra um mapa cheio de rotas alternativas e seguras. Caminhos retos e lisos, estradas de asfalto impermeável e brilhante.
Tudo parece perfeito para você. E por um tempo tudo parece ir bem. Você sabe o que quer e está indo para lá.
Mas aí você descobre que querer não é poder. Sonhar não é fazer. São coisas conectadas, não idênticas. Talvez, consequentes. Como teoria e prática. Uma introduz a outra, mas uma nunca será a outra.
E no meio disso tudo, também acaba descobrindo que você não era a pessoa que sempre achou que fosse. Ah, não mesmo.
Você percebe que a sua índole é apenas um esboço da obra que sempre idealizou. E isso te deixa frustrado e autodepreciativo. E isso é patético. E você sabe disso.
Mas não sabe o que fazer. Não mais.
A estrada por onde você anda agora não tem mais um ponto de partida e não te deixa ver o horizonte. O caminho é liso demais, previsível demais. E só aí você percebe que esteve andando em círculos. Um círculo que te aprisionou numa realidade paralela.
Uma estabilidade infinita. Um ciclo perfeito.
E você está girando nele. Cada vez mais rápido.
Girando e girando e girando. Rodopiando acima do espaço.
O mundo é um borrão, sua cabeça dói e você começa a ter medo de que ela exploda. Seus pés doem e se arrastam no chão e você quer desacelerar.
Mas você está preso dentro desse círculo e o tempo está parado. Está sozinho no centro da eternidade, e o mundo está lá fora seguindo sem você.
“Pare!”, você grita. “Eu quero sair!”
“Me tire daqui!”
Ninguém responde, e ninguém vai responder. O silêncio e estabilidade pelo qual você pagou tão caro finalmente estão a seu dispor. Você só está falando consigo mesmo como sempre fez. Só que agora isso não é confortável e não tem mais graça. Agora, isso te dá medo.
Há apenas o silêncio e isso te apavora. Você está assustado enquanto sua mente fica cada vez mais quieta e vazia.
E então você se lembra do mapa, do exato momento onde o comprou. Lembra das suas dúvidas, do seu receio de desbravar o caminho diante de si.
Lembra de como as coisas costumavam ser, quando você caminhava livremente sob o Sol. E tudo isso porque você queria que as coisas fossem perfeitas.
E para a sua própria surpresa, você descobre que odeia a perfeição.
A Perfeição é imutável. É eterna. E você já está cansado de coisas que duram para sempre, pois se lembra de que as melhores coisas da sua vida foram aquelas que duraram pouco.
E então você se dá conta de que nunca precisou daquele mapa. Ou do asfalto. Ou da estabilidade. E jamais vai precisar.
O mundo é o caos e você faz parte da bagunça. E isso nunca lhe pareceu tão natural.
Você fecha os olhos e para de andar. Respira fundo.
Sem mapa. Sem asfalto. Sem estradas.
Apenas o desconhecido. Apenas você.
E então você dá um último passo para o lado. Atravessa a borda.
E sai do círculo.
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