Lost Stars

7 Capítulo 6 - Consequências


Notas iniciais
Hey :)

"Incapaz de perceber a tua forma, encontro-te em tudo o que me rodeia."

— A Forma da Água


Ariel encarava o horizonte pela janela do carro parecendo distraída, Lilah tagarelava sobre algo, mas a garota já não prestava atenção, apenas se limitava a assentir vagamente vez e outra, enquanto seguia com seus olhos vidrados na paisagem do lado de fora.

Palmeiras passavam rapidamente por seus olhos, enquanto escondiam precariamente a extensão de azul do mar do outro lado.

O litoral da pequena cidade de Paradiso era uma beleza à parte, areia branca e fina, águas claras que refletiam o azul limpo do céu, embora naquela época do ano o mar estivesse mais revoltoso do que Ariel gostava, ainda assim era um verdadeiro paraíso. E o lugar parecia ainda mais belo durante o crepúsculo. Banhando por toda aquela luz alaranjada do final de tarde, a areia tingia-se de um tom mais morno, o mar parecia mais escuro e misterioso, mas ao mesmo tempo o reflexo do sol sobre as águas turvas dava a ele uma luminosidade convidativa.

E havia o céu.

A garota sempre se encantara pelas cores que o céu assumia quando o sol estava se pondo. Um dégradé de azul, passando por um tom de violeta incomum e indo para um caloroso laranja-rosado...Mas nada era mais lindo do que ver aquela bola de fogo desaparecendo aos poucos ao tocar o mar.

Ariel fechou os olhos por apenas um instante.

E antes que percebesse o sonho chegou.

— Dizem que se você se fechar os seus olhos e se concentrar, é possível escutar o chiado do sol apagando o seu fogo ao tocar a água. — Ariel fitou o rosto belo que sorria para ela, um sorriso cálido e que causava dentro de si um misto de emoções as quais ela sabia que deveria conter, a mão bronzeada dele se ergueu lentamente e começou a brincar distraidamente com uma mecha de seu cabelo, torcendo-a entre seus dedos longos.

— Rafe... — o nome deixou seus lábios como uma leve repreensão, um aviso para que ele se afastasse. Olhos esverdeados a fitaram na esperança de que Ariel quisesse algo diferente do que seus lábios diziam, mas não aconteceu. Rafael deixou de tocar-lhe o cabelo, sabendo que não era o certo, mesmo que seu coração lhe dissesse o contrário.

— Apenas escute o pôr-do-sol, Ariel. — ele disse desviando o olhar do dela, como se olhá-la fosse uma tortura adicional ao seu tormento interno. Ariel o compreendia e foi por isso que ela apenas fechou os olhos atendendo ao seu pedido.

Por um momento pensou estar louca por sonhar algo tão vivido ainda estando acordada, mas depois, num impulso que ela não conseguira evitar, Ariel apenas fechara os olhos seguindo o que lhe havia sido dito. Se concentrou, tentando escutar o que a voz lhe dissera, mesmo sabendo que seria cientificamente impossível o sol apagar seu fogo ao tocar o mar...

— Merda de carro velho! — Lilah xingou quando parou seu carro no acostamento da praia e o motor do carro velho rugiu alto despertando Ariel da sua tentativa de escutar o sol se apagar no mar.

As duas desceram do carro e Ariel tirou a cabeça das nuvens voltando a realidade. Era uma sorte que a amiga tivesse uma velha caminhonete para ir a qualquer canto da cidade, já que o único meio de transporte que Ariel dispunha era uma bicicleta azul que já vira dias melhores, mas ainda era útil para ir do apartamento para o trabalho na biblioteca.

A primeira coisa que Ariel fez ao chegar à praia e avistar a areia branca foi tirar as sandálias, segurá-las em suas mãos e deixar que os pés afundassem na areia fofa. Não segurando o gemido de puro deleite que escapou de seus lábios.

— Eu nunca vou entender essa sua obsessão com a areia da praia.

— Há algo de relaxante em sentir a areia preenchendo os espaços entre os dedos. — disse simplesmente, mas a verdade é que nem mesmo Ariel sabia explicar o porquê de ela gostar tanto disso. Apenas sentia que ao fazê-lo, ela evocava uma emoção diferente, como se já tivesse feito isso outra vez há um longo tempo, e embora a lembrança lhe escapasse a memória, a emoção ainda era viva e forte dentro dela.

— Não. Há apenas a areia estragando um trabalho perfeito de pedicure. — refutou Lilah, ajeitando o que dava dos cabelos curto num rabo de cavalo no alto da cabeça, ao sentir o calor que a brisa fresca daquela noite não aplacava.

— Como eu fui ser amiga de alguém tão fútil? — Ariel brincou sabendo que a provocação não seria levada a sério pela melhor amiga que apenas revirou os olhos, afinal não se cultiva anos de amizade sem criar esse tipo de intimidade.

— Parece que a festa está mais cheia esse ano. — Lilah comentou animada olhando na direção da grande fogueira no meio da praia. Havia dezenas de jovens em volta dela, conversando, bebendo e parecendo se divertir. Alguns jovens corriam um atrás dos outros, numa brincadeira que seria considerada inocente anos atrás, mas que nos dias de hoje tinha uma conotação muito diferente.

Havia música ali também. Que festa de jovens não teria?

Mas o olhar de Ariel não foi atraído pela melodia suave de um violão que se perdia em meio a conversa alta e risos dos jovens. Não, o olhar de Ariel foi atraído para a direção oposta, para a parte vazia onde um homem que caminhava sozinho pela praia parecendo preocupado.

Não era um homem qualquer.

Era Rafe.

Professor Rafael. Corrigiu-se mentalmente, embora o título de professor soasse engraçado em sua mente, fazendo-a sorrir. Os passos da garota pareceram ganhar vida própria, e antes que pudesse perceber ou evitar eles já caminhavam na direção dele.

— A festa é para o outro lado! Você nem bebeu e já está confundindo as direções? — Por sorte Lilah segurou a mão da amiga, forçando-a a parar e a recuperar um pouco do bom senso que parecia desaparecer quando se tratava do professor.

— O que um professor está fazendo em uma festa de alunos? — Lilah olhou para a mesma direção que Ariel.

— Ele não veio para a festa. — Lilah estreitou os olhos. —Ele está apenas caminhando pela praia com seu jeito todo circunspecto e pensativo. Ele deve ser uma dessas almas solitárias e atormentadas que precisam de longas caminhadas sob luar para compreender a razão da existência humana. — Lilah dramatizou fazendo a amiga rir — É provável que ele escreva livros de autoajuda também, aqueles sobre como encontrar seu lugar no mundo.

— Dez passos para descobrir o seu verdadeiro eu. — Ariel nomeou entrando na brincadeira.

— Conectando sua mente e espírito com o cosmo.

A essa altura as duas já gargalhavam, enquanto seguiam nomeando novos títulos para livros.

— Mas sabe... até que entendo o apelo. Esse ar de "procuro respostas profundas" tem seu charme. Ela deu uma cotovelada na amiga. — E aí? Você quer ajudar o professor a encontrar as respostas... ou quer ser a resposta?

— Oh, cale a boca! — Ariel reclamou empurrando a amiga com o ombro.

— Apenas se você deixar de lado essa sua obsessão com o professor, vamos ser normais e nos juntarmos aos outros. Eu quero me divertir muito hoje. — puxou novamente a mão de Ariel para a direção oposta daquela que a garota realmente queria ir, mas ela achou melhor apenas se deixar levar. Era isso ou ficar observando Rafael tentando inutilmente compreender o porquê de ela querer tanto ser as respostas para as perguntas que rondavam a cabeça dele.

✶✶✶

Mesmo cercada pela música e pessoas, Ariel não conseguiu conter a vontade de procurar por Rafael do outro lado da praia mais uma vez. O que ele estava fazendo ali? Por que caminhava sozinho pela praia? E por que ela se importava tanto? Eram perguntas pertinentes em sua mente. Ela e Lilah reencontraram alguns colegas da faculdade e conheceram novos. Ariel fingiu socializar por um tempo, sorrindo e jogando conversa fora, fingindo beber do copo de cerveja barata e quente que ainda permanecia intacto em sua mão, mas seu olhar estava sempre fugindo dos colegas e indo em busca dele. Por fim ela inventou uma desculpa qualquer e se afastou do grupo, tentando ter uma visão melhor da praia. E não pode deixar de se sentir tola quando já não conseguia mais encontrá-lo.

— Lilah está certa, estou sendo obsessiva. — repreendeu a si mesma, girou em seus pés fazendo o caminho de volta para a amiga. — Oh, merda! — Ariel xingou quando alguém esbarrara com força fazendo-a derramar boa parte da bebida em si mesma.

— Me desculpe — O garoto se apressou em dizer. Ariel ergueu os olhos o fitando. Ele era alto, com cabelos escuros e espessos que lhe caiam sobre a testa em cachos grossos.

— Tudo bem — Ariel apenas deu de ombros, tentando inutilmente limpar a blusa que agora estava grudenta e fedia a cerveja.

— Calma, ruivinha. — A garota apertou os lábios e tentou segurar a vontade de revirar os olhos, mas falhando. — Será que eu não posso te compensar pela bebida? Eu posso pegar outra para você.

— Não precisa. — refutou, tentando se lembrar da direção em que Lilah estava.

— Espere! — o moreno bloqueou seu caminho antes que ela pudesse dar mais um passo. — Você é esquiva. Eu sou o Damian. — Estendeu a mão, bloqueando sua passagem com um charme calculado. — Agora que fomos apresentados, pode me dizer seu nome. A menos que prefira continuar sendo a "ruivinha". — Sorriu, exibindo uma fileira de dentes brancos e perfeitos.

— Eu não disse que o apelido me incomoda.

— Não com palavras. Mas o revirar de olhos foi bem eloquente.

— Ariel. — disse seu nome e apertou a mão dele rapidamente na esperança de poderem acabar logo com aquilo.

— Ariel? Por causa da pequena sereia? — Ariel forçou-se a sorrir e assentir, era sempre essa a primeira reação das pessoas ao descobrirem seu nome, e associavam imediatamente seus cabelos ruivos à princesa da Disney. — Adorável. Combina perfeitamente. Mas acredito que você odeia a comparação — Damian disse, tocando distraidamente uma mecha do cabelo de Ariel, o toque a lembrando do flash que tivera mais cedo, fazendo-a desejar que fosse outro a enrolar seu cabelo ao redor dos dedos — ficou claro para mim quando olhei para o seu sorriso forçado.

— Você sempre é tão irritantemente observador? — retrucou passando os cabelos para trás, se sentindo mal-humorada com o rapaz, principalmente com seus toques e sua mania de lê-la.

— Apenas com as que me interessam. — Damian olhou diretamente para Ariel, ele sabia que estava sendo intimidador e até mesmo atrevido, mas era como ele não se importasse nenhum pouco com isso. Talvez achasse que isso era charmoso, e talvez até fosse, mas não funcionava com ela.

— Aqui está você! — Lilah chegou levemente bêbada abraçando a amiga. — Você sumiu, não me disse que estava paquerando alguém, se eu soubesse não teria vindo procurá-la. — lançou um olhar de soslaio para Damian, o avaliando rapidamente — Honestamente eu pensei que estava sendo obsessiva demais com você-sabe-quem, para notar outra pessoa...

O garoto riu e Ariel soube que ele estava guardando a informação que Lilah jogara apenas para usar mais tarde.

Não que Ariel fosse permitir um mais tarde.

— Oh, eu sou a Lilah, à propósito. — Deu um sorriso amplo ao rapaz — Melhor amiga e guardiã de todos os segredos obscuros dela.

— Eu vou me lembrar disso. — devolveu deixando os nervos de Ariel ainda mais a flor da pele — Eu vou te buscar aquela bebida, não saia daqui. Ariel. — Damian a advertiu piscando com um dos olhos e dando uma entonação diferente ao nome da garota.

— Até que ele é bonitinho, todos aqueles cachos o fazem parecer bem fofo. Então, pode ir me contando tudo.

— Não há nada a contar.

— Ariel.

— Ele derrubou minha bebida e está indo buscar outra, não é grande coisa.

— Claro que é! Eu aposto que ele não derrubou sua bebida sem querer. Essa tática é tão velha, que o fez perder alguns pontos comigo.

— Ele também é irritante e insistente. — Ariel não gostava de julgar as pessoas apressadamente, mas havia algo em Damian, ela não sabia se era o fato de ele apenas a irritar ou porque ele sequer disfarçava seu prazer em fazer isso — Podemos ir antes que ele volte?

— Eu sinto muito, mas acho que não podemos. — Lilah cochichou para Ariel indicando com a cabeça que Damian estava retornando, e não voltava sozinho. — Ainda mais que acompanhante é um gato!

— Ei, garotas. Este é meu amigo, Rigel. — introduziu o jovem alto e forte, que parecia muito mais velho do que um estudante regular — Rigel, esta é Lilah e a ruivinha é Ariel. —Usou um tom provocante ao dizer “ruivinha” — Eu sinto muito, Ariel, eu não achei mais cervejas. Apenas garrafas vazias.

— Não tem problema algum, eu já havia dito que não precisava. — respondeu rapidamente, se sentindo aliviada — Na verdade Lilah e eu já estávamos de partida.

— Mas porque tão cedo? — Damian pareceu verdadeiramente desapontado.

— As coisas não estão divertidas, algum idiota derramou cerveja na minha blusa favorita. — devolveu.

— Você pode retirá-la. — provocou — garanto que não irei reclamar.

— Uau, isso está ficando muito interessante. — Lilah exclamou com um sorriso divertido — Aí. — seu sorriso desapareceu ao sentir a cotovelada de Ariel no meio das costelas.

— Que tal uma pequena brincadeira, antes de vocês irem? Apenas para deixar as coisas mais “interessantes”. — Damian tentou, mas para Ariel a noite já tinha chegado ao fim.

— O que tem em mente? — para desespero de Ariel a pergunta interessada veio de Lilah.

— Verdade ou consequência. Já tenho a garrafa. — falou erguendo a garrafa de cerveja vazia — E seria interessante ver alguns segredos serem revelados, não acham? — fitou Ariel com interesse.

— O que faremos a seguir? Sete minutos no paraíso? Me sinto com treze anos outra vez. — Lilah reclamou — Você só está propondo isso porque quer beijar a minha amiga aqui.

— Talvez. — falou sem demonstrar vergonha — Seria muito útil se eu girasse uma garrafa e condenasse Ariel a me beijar, mas eu preferia que fosse uma decisão dela.

— Vai sonhando. — Ariel rangeu os dentes ao dizer isso.

— Hum, eu gosto de você, Damian. — Lilah declarou, simplesmente porque era bom ter alguém tirando o controle de Ariel — Melhor irmos jogar no deque, porque será impossível girar uma garrafa na areia. — Lilah deu a sugestão, fazendo Damian sorrir de orelha a orelha.

— Essa é uma péssima ideia. — Ariel resmungou.

— Mas parece divertido, o que há de mau em um pouco de diversão, Ariel?

✶✶✶

A brincadeira não foi tão ruim quanto Ariel pensou que seria. Na verdade, estava até mesmo arrancando boas risadas. Talvez ela tenha interpretado Damian mal, ou talvez tenha sido apenas uma primeira impressão ruim. A verdade é que ela não se divertia assim há um bom tempo. A brincadeira em si, estava sendo mais inocente do que ela imaginava, cheia de perguntas bobas, mas nada que fosse muito longe do normal. Pelo menos até a garrafa ser girada mais uma vez, apontando de Damian para ela.

Ariel já havia usado todas as verdades permitidas no jogo, e ela não tinha outra escolha a não ser aceitar a consequência.

Damian sabia disso também.

E talvez fosse por isso que ele exibisse um sorriso vencedor nos lábios.

— Eu sei o que vai pedir Damian, e a resposta é um não. — Ariel cruzou os braços.

— Como sabe, aprendeu a ler mentes?

— Eu te desafio... — o garoto fez um suspense desnecessário — a pular no mar.

— O quê? — exclamou surpresa.

— Queria algo diferente? — ele estreitou os olhos e lançou um sorriso convencido para ela que apenas bufou.

— Mas a água vai estar gelada!

— Você pode me beijar se preferir... É sua escolha. — Damian deixou a proposta no ar com certo orgulho. Ele estava tentando forçá-la a voltar atrás em suas palavras, mas havia apenas uma coisa que ela odiava mais do que não manter uma palavra, e era correr de um desafio.

— Ao que parece eu vou pular. — decidiu, ficando de pé e retirando algumas pulseiras e a sapatilha. O restante do grupo ainda parecia descrente mesmo vendo a garota se preparando para isso.

— Você não vai pular, Ariel. — a amiga provocou — Sabe que é algo idiota de se fazer e que é mais fácil simplesmente beijar o Damian. — Ariel hesitou, ponderando por um momento. Ela não era de impulsos idiotas, sempre ponderava antes de tomar uma decisão fazendo uma longa lista de prós e contras.

— Estou surpreso, eu não esperava que você fosse o tipo de pessoa que toma o caminho mais fácil. — As palavras vieram de Damian.

— Ariel é meio covarde, ela sempre dá pra trás nas partes mais divertidas. — explicou a amiga.

Não sou covarde. Uma voz dentro de si protestou veemente, sentindo-se ofendida com aquela provocação.

Ariel lançou um olhar irritado para a amiga e caminhou até a borda do deque. As ondas se agitavam logo abaixo, escuras e inquietas, e então ela sentiu — mais do que viu — o peso de um olhar sobre si, virou-se para trás e encarou o grupo a encarando ainda duvidando de que ela fosse fazer isso, mas não era o peso desses olhares que ela sentia. Ela sentiu seus sentidos guiarem seus olhos para o lado oposto encontrando o olhar de outra pessoa. Rafael a observava não muito longe dali, seu olhar preso nela, parecendo atento e intrigado, esperando pelo o que ela faria a seguir.

Uma parte dela se sentiu envaidecida por sua atenção.

— Eu não sou uma covarde. — repetiu num tom alto e confiante, que veio acompanhado de um sorriso diferente direcionado para Rafael, não que ele pudesse ver àquela distância.

E então ela pulou.

✶✶✶

Por mais que parecesse que Rafael estava apenas caminhando pela praia, não era isso o que ele fazia. Os três anjos caíram por ali, ele andara pelo lugar a procura de partes em que a areia estivesse enegrecida, penas ou qualquer coisa que indicasse a presença de anjos caídos, mas nada encontrara. Talvez a maré já tivesse subido e limpado o lugar. Pensou.

Pelo que Gabe havia dito a ele, os anjos que caíram não eram bons. Traidores da própria espécie, mas ele gostaria de conversar com eles, mesmo que acreditasse na palavra de Gabe, ele gostaria de formar a própria opinião. Ou talvez apenas estivesse incomodado com a presença deles em Paradiso, não desejava que criassem qualquer tipo de confusão.

Não desejava que chegassem perto de Ariel.

Essa era a verdade.

Ele queria que aquele segredo continuasse a ser um segredo. Desejava que Ariel jamais se envolvesse naquela briga celestial, porque ela era apenas uma frágil humana, seria um alvo fácil caso a guerra recomeçasse. Gabe havia dito que ele seria o melhor guardião que ela poderia ter, mas como, se ele já não era um guerreiro e não possuía suas asas? O que isso realmente significava?

Gabe sabia que algo estava por vir, ele não via necessariamente o futuro em uma clara bola de cristal, mas era capaz de sentir as coisas como nenhum outro anjo.

Havia algo perigoso chegando.

Suas divagações foram interrompidas quando sentiu a presença tão familiar dela. Seu corpo retesou ao sentir o olhar de Ariel queimando sobre ele, olhou-a rapidamente, apenas porque não conseguiria evitar, ele sorriu para si mesmo ao ver a garota ser arrastada pela amiga em direção aos jovens que festejavam.

Ele ignorou a garota, caminhou para mais distante por um longo tempo. Não era prudente ficar tão próximo, ele sequer teria uma desculpa para se aproximar. Rafael não pertencia ao mundo dela, não mais.

Escutou um barulho que parecia vir de trás de uma das palmeiras, ele girou a cabeça e pensou ter visto alguém ali, o observando. Caminhou por mais algumas horas, e por fim desistiu de encontrar algo. Estava pronto para ir embora, quando algo lhe chamou a atenção.

Ele viu Ariel, na beirada do deque como se preparasse para pular às águas do mar.

A imagem imediatamente o lembrou da sua Ariel, do quanto ela amava se jogar de penhascos e deixar-se cair pela imensidão. Apenas para abrir suas asas um pouco antes de tocar o chão e ressurgir planando a sua frente.

Essa Ariel também sorriu para ele, o mesmo sorriso impetuoso que Rafael se lembrava de ter visto várias outras vezes, sempre que a amiga aceitava um desafio. Mas que para essa Ariel parecia ser algo totalmente novo e incomum. Ela nunca havia sorrido assim antes para ninguém, e no instante em que percebeu o lapso, ela parou de sorrir. Encarou o mar a sua frente com determinação e pulou de uma única vez.

Rafael congelou-se ao observar a cena.

Ela não tinha asas para ressurgir planando à sua frente, exibindo aquele sorriso despreocupado que a memória insistia em lhe devolver.

Então ela apenas caiu.

Ele meneou a cabeça, forçando-se a desviar o olhar e começou a caminhar indo para fora da praia. Era confuso demais estar próximo a Ariel e esperar tantas coisas dela, coisas que ela jamais poderia lhe dar, pois a garota desconhecia a sua importância para ele. Rafael caminhava a passos lentos pela areia até chegar a calçada, a perspectiva de voltar para o apartamento alugado nas proximidades da faculdade e passar mais uma noite preso em pensamentos, preocupado com o que aconteceria no dia de amanhã, não era algo animador.

Um grito agudo rompeu o som constante das ondas, seguido por uma agitação repentina. Rafael parou, o instinto alerta. Atrás dele, pessoas corriam em direção ao deque, transformando a festa em caos.

Ele segurou o braço de um garoto que passava correndo

— O que aconteceu?

— Uma garota mergulhou no mar e ainda não voltou.

O sangue de Rafael gelou nas veias. O mundo parou.

Ariel.

Não houve tempo para pensar, apenas reagir. Ele disparou em direção à arrebentação, rasgando a água escura com braçadas violentas, guiado mais pela percepção angelical do que pela visão.

Ele alcançou o corpo que começava a afundar, lutando fracamente contra a correnteza que tentava tragá-lo. Agarrou-a firmemente e puxou-a para a superfície, contra o peito.

Cabelos escuros colaram em seu rosto. Não eram ruivos.

A constatação trouxe um alívio egoísta e vergonhoso. Era a amiga.

Rafael arrastou-a para a areia.

— Ela está gelada, me deem algum casaco. — ele ordenou, a voz de comando cortando o pânico da multidão. Alguém jogou um agasalho de time sobre eles.

— Lilah! Fale comigo! Lilah! — Ela pressionou os dedos no pescoço da amiga, os olhos arregalados de terror. — Rafael... eu não sinto o pulso. Ela não está respirando!

Rafael abaixou-se acomodando Lilah deitada sobre um cobertor estendido próximo a fogueira, pousando ambas as mãos contra o esterno da garota. Ele não iniciou uma massagem cardíaca, em vez disso, fechou os olhos e concentrou sua vontade, enviando um pulso de energia vital diretamente para ela.

Foi rápido. Intenso. Invisível para os olhos humanos, mas exaustivo para ele. O calor fluiu de seus dedos para o peito frio de Lilah, um roubo deliberado de sua própria vitalidade para forçar os pulmões dela a funcionarem

Lilah engasgou violentamente, o corpo arqueando enquanto ela cuspia uma quantidade assustadora de água salgada.

Ariel recuou, levando a mão à boca, atordoada.

Rafael tombou para trás sentido a exaustão do que fizera atingindo-o de uma única vez.

— Eu tinha certeza... — sussurrou, encarando a cor que voltava magicamente às bochechas da amiga. — Eu tinha certeza de que ela estava morta.

— Ela não estava. Você estava em pânico e não checou direito. — Rafael cortou, ríspido. A mentira era necessária, mas saiu mais dura do que pretendia. Ele ainda sentia a adrenalina do medo — o medo de que fosse Ariel naquele lugar.

— Eu chequei! Eu sei o que eu senti! — Ariel protestou, a confusão dando lugar à defensiva.

Rafael finalmente olhou para ela. Seus olhos estavam escuros, tempestuosos.

— Você também está tremendo. Pode estar entrando em choque. Aproxime-se do fogo agora. — O tom não era de pedido, era uma ordem. — O que vocês fizeram foi de uma imprudência estúpida. O mar está revolto. Vocês podiam ter morrido.

Ariel sentiu o rosto queimar. Sabia que ele estava certo, mas a forma como ele falava — repreendendo-a como se ela fosse uma criança tola e irresponsável — fez a gratidão se misturar com revolta.

— O... o que aconteceu? — Lilah sussurrou, a voz rouca, olhando em volta sem entender nada.

— Você se afogou — Ariel respondeu suavemente, segurando a mão da amiga. — Mas vai ficar bem. O professor Rafael te tirou da água.

Lilah piscou, focando no homem alto e molhado acima dela.

— Obrigada...

— Não precisa agradecer. — Rafael ficou de pé, sua expressão voltando a se fechar naquela máscara impenetrável. Ele limpou a areia das calças encharcadas, a postura rígida. — Vão para casa. As duas. A noite acabou.

Sem esperar resposta, ele deu um aceno breve e seco, virando as costas e caminhando para longe da luz da fogueira, as mãos afundadas nos bolsos, sumindo na escuridão da praia.

— Por favor... — Lilah tossiu, a garganta ainda irritada, a voz saindo como um fiapo rouco. — ...me diz que o professor gato fez respiração boca a boca em mim.

Ariel soltou uma risada nervosa, aliviada por ouvir a amiga sendo ela mesma, mesmo naquelas condições. Negou com a cabeça, sentindo-se estranhamente satisfeita por Rafael não ter precisado chegar a tanto.

— Talvez eu devesse ter fingido um desmaio mais longo... — Lilah tentou brincar, mas o sorriso morreu nos lábios enquanto ela tremia de frio. Ela tentou se erguer, apoiando-se pesadamente em Ariel.

— Vamos para casa, Lilah. Você precisa descansar.

Ariel passou o braço pela cintura da amiga para sustentá-la, mas parou, surpresa. Conforme caminhavam até a caminhonete, a respiração de Lilah se estabilizou rápido demais. A fraqueza nas pernas dela parecia desaparecer a cada passo, como se a energia voltasse ao seu corpo de forma sobrenatural. Para alguém que acabara de ser resgatada da morte, Lilah parecia assustadoramente bem.

Ariel afastou o pensamento. Era apenas adrenalina. Tinha que ser.

Ao chegarem ao carro, Lilah já conseguia ficar de pé sozinha, encostada na lataria, buscando as chaves no bolso. Foi quando Ariel olhou para trás.

Ela o avistou sentado em um banco de madeira afastado, o rosto erguido para o céu noturno, parecendo perdido em uma exaustão silenciosa.

— Consegue entrar no carro e ligar o aquecedor? — Ariel perguntou. — É jogo rápido.

Assim que Lilah assentiu e entrou na cabine, Ariel caminhou a passos firmes pela areia até onde ele estava.

— Rafael?

O nome saiu naturalmente, sem o "professor" ou "senhor" que a hierarquia exigia. Ela quis se corrigir, mas ao ver os olhos dele se voltarem para ela, o título formal pareceu ridículo. Em seus sonhos, chamá-lo apenas pelo nome era o certo.

Ele não se moveu, apenas a observou com aquela intensidade indecifrável.

— Eu só queria dizer... obrigada. Por salvar a vida dela.

— Sempre que precisar. — Ele garantiu.

A voz dele era baixa, vibrando no ar noturno. Não soou como uma gentileza casual, mas como um juramento. Uma promessa feita muito antes daquela noite, em um tempo que ela não conseguia recordar, mas que seu coração reconhecia.

Sempre.

Ele estaria lá por ela.

Ela sabia que ele estaria.

✶✶✶

— Tem certeza disso, Gabriel? — a voz de Miguel era controlada, quase monótona, mas o interesse por trás dos olhos tão negros quanto carvão, era genuíno. O homem que fitava Gabriel estava sentado em uma grande cadeira de ferro, e tinha sobre o colo uma brilhante espada sobre a qual ele alisava os dedos distraidamente.

Ele costumava ser um guerreiro, o melhor entre todos, ele lutava por seus irmãos, lutava por justiça e paz. Ele era um daqueles heróis que tinham princípios e ideais, e apesar daquela guerra durar até os dias de hoje, Miguel já não era mais o mesmo idealista desde que aceitara o manto do poder. Ou, mais precisamente, desde que fora obrigado a vesti-lo para preencher o vácuo deixado.

Dizem que o poder corrompe, mas não era isso o que o poder havia feito com Miguel. O poder foi apenas a armadura fria que ele vestiu para suportar o abandono. Ele continuava a seguir os princípios, continuava a lutar pelos ideais de seus iguais. Mas aquele fogo dentro dele havia se apagado. E agora havia apenas responsabilidades, regras a seguir a fim de manter a ordem e o controle.

Miguel não era um líder ruim.

Ele apenas era um líder que havia perdido o amor pelo que fazia.

— É como eu já disse, Miguel, os anjos expulsos simplesmente desapareceram da face da terra. Eu já não sou capaz de sentir a alma deles em lugar algum. É provável que já não as tenham. — completou com pesar.

— Está me dizendo a verdade? — o arcanjo confrontou.

— Sabe que eu não sou capaz de mentir, nem mesmo se houvesse uma razão para fazê-lo. — Gabe respondeu, sem se sentir insultado com a desconfiança do irmão.

Já fazia algum tempo que Miguel era assim, não confiava em ninguém que não fosse em si mesmo. A traição de Ariel, o anjo que Miguel mais prezara o abalara completamente. Ele a amara, mais do que a todos os outros, Gabe desconfiava, e ela simplesmente o fizera de tolo.

E anjos são ainda mais vaidosos quando se tratam de seu orgulho ferido.

Ainda mais um anjo como aquele, com tanto poder em suas mãos e uma imagem a zelar.

A intransigência de Miguel se tornara ainda pior depois daquele episódio, e ele passara a reger os céus com punhos de ferro e sem demonstrar clemência aos próprios irmãos.

— Mas a verdade sempre pode ser contornada. — Ele estreitou os olhos para o anjo e seus cachos loiros, analisando-o atentamente, esperando encontrar alguma falha, algo que demonstrasse que ele lhe escondia algo. Mas Gabe sempre foi a epítome da perfeição, um anjo puramente bom.

O arcanjo apertou a mão sobre a lâmina da espada, se recordando de que não havia mais anjos puros e bons.

— É isso o que tem feito, Miguel? Contornando a verdade, impedindo a todos de saberem o que realmente aconteceu na noite em que Moriá foi roubada? — Miguel suspirou, apertando a espada em suas mãos ainda mais forte, o aço cortando a pele e o deixando mais alerta.

— É claro que isso você consegue ver. — soou sarcástico — Eu tenho tudo sobre controle. — garantiu-lhe rudemente.

— Não, você não tem. — Gabe disse com a voz calma e fluída, seu jeito sempre tão suave e complacente tirava Miguel do sério — Sabe que coisas ruins acontecerão e que esconder a verdade não é a solução.

— Eu sei? — devolveu — Está nos confundindo, irmão, é você quem detém o poder da visão do futuro, é você quem conhece as consequências da minha omissão.

— Sabe que não é assim que funciona. — O anjo balançou a cabeça, frustrado por não ser capaz de transpor aquela barreira invisível que cercava Miguel. — Eu apenas vejo o seu medo, e eu só o vi sentir um medo igual a esses tempos atrás.

— Eu não sinto medo. — negou cheio de orgulho — Depois você me diz que eu sou o cego. — O tom foi amargo e acompanhado de um simples gesto com a mão indicando que deveria ir.

Gabe apenas deu as costas.

Ninguém entendia completamente o seu dom. Ele não era capaz de prever o futuro, ele via os caminhos que a vida de cada um poderia tomar, dependendo de suas escolhas, das escolhas de outros. E sim, caminhos se entrelaçavam várias vezes, como os de Ariel e Rafael que se uniram novamente. Mas tudo era variável e nada era tido como certo. Grandes acontecimentos geram impactos na vida de todos, e Gabe sentia que a omissão de Miguel sobre algo tão importante poderia causar consequências desastrosas.

Principalmente para um anjo caído e uma garota com a alma de um.

Notas finais
Espero que tenha sido um bom capítulo!