Lost: O Primeiro Herdeiro

28 LIVRO 3 — CAPÍTULO 28: A ANATOMIA DE UM ECLIPSE



Nova York — Apartamento de Kate (Outono de 2023)

O horizonte de Manhattan brilhava através da janela do chão ao teto, mas a verdadeira estrela da noite estava refletida no espelho do quarto.

Kate Austen alisou o tecido de seda do vestido vermelho carmesim. Ele caía sobre suas curvas como uma segunda pele, elegante e perigoso. Ela prendeu uma mecha de cabelo solta, avaliando o próprio reflexo. Havia linhas finas ao redor de seus olhos agora — marcas de uma vida passada fugindo e de uma vida presente tentando esquecer —, mas naquela noite, ela parecia invencível.

Ela ia a um evento de gala da Fundação Widmore com Edward. Era a noite em que ela, finalmente, permitiria a si mesma seguir em frente de verdade.

Toc. Toc. Toc.

Três batidas firmes na porta da frente quebraram o silêncio do apartamento.

Kate franziu a testa, checando o relógio. Edward estava adiantado? Ou talvez fosse o serviço de quarto com o champanhe que ele prometera enviar.

— Já vai! — gritou ela, pegando a bolsa de mão e dando uma última olhada no espelho. — Espero que você tenha trazido guarda-chuva, o tempo virou...

Ela destrancou a porta e a abriu com um sorriso ensaiado.

O sorriso morreu instantaneamente.

Não era Edward. Não era um entregador.

Parada no corredor, com uma postura desafiadora e mãos nos bolsos de uma jaqueta de couro desgastada, estava uma jovem mulher. Ela tinha cabelos loiros ondulados e olhos que Kate reconheceria em qualquer lugar do mundo — olhos que analisavam, calculavam e encantavam ao mesmo tempo. Eram os olhos de James Ford.

A garota, com cerca de dezoito anos, mas com a aura de quem já viveu o dobro, mastigava um chiclete com indiferença. Ela percorreu Kate de cima a baixo, demorando-se no vestido vermelho.

— Uau. — A garota soltou um assobio baixo, apreciativo. — Esse vestido é matador. Vermelho sangue. Audacioso.

Kate piscou, confusa e defensiva. A familiaridade da estranha era desconcertante. — Obrigada... — Kate segurou a porta com mais firmeza. — Posso ajudá-la? Você está procurando alguém?

A garota parou de mascar o chiclete e sorriu. Um sorriso de canto de boca, cheio de covinhas. O fantasma de Sawyer sorrindo para a Sardenta.

— Na verdade, estou. — A jovem deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Kate com uma confiança assustadora. — Eu queria ver com os meus próprios olhos a mulher que assombra o meu pai há uma década.

Kate sentiu o chão sumir. O ar saiu de seus pulmões. — O quê?

A garota estendeu a mão. — Eu sou Clementine Phillips. Filha do James. — O sorriso dela vacilou, revelando uma curiosidade vulnerável por trás da bravata. — É um prazer finalmente conhecer a mulher mais importante para meu pai, agora finalmente podemos conversar porque não sou mais uma criança.

Kate ficou imóvel, olhando para a mão estendida daquela jovem. A última vez que a vira, Clementine era uma criança chorando no colo de Cassidy em uma rua escura de Albuquerque. Agora, ela era uma mulher, parada em sua porta em Nova York, trazendo o passado de volta com a força de um furacão.

A Ilha — Acampamento da Praia (Noite)

O rugido do mar era constante, mas não conseguia abafar o som da paranoia na mente de Clementine. Ela se revirava em seu saco de dormir, os olhos fixos na escuridão onde Walt — o "monstro" — supostamente montava guarda. Cada estalo de galho parecia um passo dele vindo buscá-la.

Incapaz de suportar a solidão, ela se levantou, arrastando seu cobertor pela areia fria até chegar perto da fogueira quase extinta.

Aaron estava deitado ali, não em uma barraca, mas sob o céu aberto, com a espada embainhada ao alcance da mão. Ele dormia com a leveza de um soldado. Assim que Clementine se aproximou e se deitou a um metro dele, os olhos de Aaron se abriram.

Ele não se moveu, apenas virou a cabeça.

— Clementine? — A voz dele era grave, arranhada pelo sono e pelos anos no deserto.

— Oi... — murmurou ela, encolhendo-se sob o cobertor. — Desculpe te acordar. Eu... eu não conseguia dormir lá. Estou com medo de que o Walt apareça.

Aaron apoiou-se no cotovelo, observando-a à luz das brasas. Um sorriso lento, carregado de uma memória antiga, curvou seus lábios sob a barba grisalha.

— Se você quisesse me chamar para transar, Clem, poderia ser pelo menos mais criativa na desculpa.

Clementine engasgou, o rosto queimando instantaneamente. — O quê? Sério?!

Aaron riu, um som baixo e rouco. — Você me disse exatamente essa frase há muito tempo aqui na ilha.

Clementine relaxou um pouco, soltando um riso nervoso. — É... eu disse. Parece que foi ontem.

— Para você, foi — disse Aaron, o sorriso desaparecendo um pouco. — Para mim... foi em outra vida.

O silêncio caiu entre eles, mas não era desconfortável. Era carregado. Clementine observou o perfil dele. As cicatrizes, as rugas ao redor dos olhos, a força bruta que ele emanava agora. O garoto músico inseguro tinha desaparecido, substituído por esse guerreiro perigoso e fascinante.

— Você está... diferente — comentou ela, tateando o terreno. — Mais bonito, eu acho. O estilo "Mad Max" combina com você.

— Obrigado. Acho que a areia do deserto faz bem para a pele. Esfoliação natural. — Ele tentou manter o tom leve.

Clementine mordeu o lábio, decidindo tocar na ferida. — O Hugo me contou. Disse que você se casou lá no passado. Que teve uma filha.

Aaron olhou para o fogo. A menção à sua família perdida trouxe uma sombra ao seu rosto. — Hannah. O nome dela era Hannah. É bizarro até para mim, Clem. Imaginar que eu vivi uma vida inteira, amei, perdi... e agora estou aqui de volta, conversando com você como se nada tivesse acontecido.

— A ficha ainda não caiu, né?

— A verdade? — Aaron suspirou. — Acho que nunca vai cair. Eu sou um homem fora do tempo.

Clementine sentiu o peso da tristeza dele e, impulsivamente, esticou a mão para tocar o braço dele. A pele era quente e áspera. — É muito tarde para nós, Aaron?

A pergunta pairou no ar, frágil e perigosa.

Aaron virou-se para encará-la. Ele viu a esperança nos olhos dela, a juventude vibrante que ele não possuía mais. Ele se lembrava de como a amava, de como aquele sentimento fora o combustível para sobreviver aos primeiros anos em Igherm-Ater. Mas agora...

— Clem... — Ele cobriu a mão dela com a sua, mas não a puxou para perto. — Você sabe que eu sou, biologicamente e mentalmente, uns vinte anos mais velho que você agora, certo? Eu sou um velho cansado.

— Eu não ligo para a matemática — insistiu Clementine, teimosa, com a mesma determinação do pai. — Eu sei o que eu sinto. Eu não consigo tirar você da minha cabeça, não importa se você tem vinte ou quarenta anos.

Aaron olhou profundamente para ela. O amor era mútuo; ele podia sentir o eco do seu próprio coração batendo forte. Mas ele também tinha a sabedoria que o tempo lhe dera. Ele sabia que arrastá-la para a sua bagagem emocional, para a sua guerra e para a sua idade, seria egoísmo.

Ele soltou a mão dela suavemente e virou-se de costas, olhando para a escuridão onde o mar encontrava o céu.

— Durma, Clementine — disse ele, a voz firme, encerrando o assunto. — Amanhã temos uma guerra para lutar. E você precisa estar focada, não apaixonada.

Clementine ficou olhando para as costas largas dele, sentindo o rejeição arder. Para ela, a diferença de idade era um detalhe; para Aaron, era um abismo intransponível. Mas enquanto fechava os olhos, Clementine prometeu a si mesma que, se sobrevivessem, ela encontraria uma maneira de construir uma ponte sobre aquele abismo.

Nova York — Apartamento de Kate (Outono de 2023)

Kate Austen ficou parada na soleira da porta, a mão ainda segurando a maçaneta com força excessiva. Diante dela estava a prova viva de seu passado: a filha de James Ford e Cassidy Phillips.

Clementine tinha a postura desafiadora do pai e os olhos inteligentes da mãe. Ela não recuou diante do silêncio de Kate.

— Você vai me deixar entrar ou vamos discutir a vida amorosa do meu pai no corredor? — Clementine ergueu uma sobrancelha, mascando o chiclete com um estalo suave.

Kate piscou, saindo do transe. — Entre. — Ela abriu espaço, tentando recuperar a compostura que o vestido de gala exigia.

Clementine entrou no apartamento com a confiança de quem já possui o lugar. Ela caminhou pelo piso de madeira nobre, passando os dedos por uma escultura moderna, absorvendo o luxo.

— Uau. — Ela parou diante da enorme janela que emoldurava o horizonte iluminado de Manhattan. — Vocês dois moravam aqui? É... impressionante. Muito diferente dos motéis onde ele costumava ficar.

Kate fechou a porta e cruzou os braços, a seda vermelha do vestido farfalhando. — O que você está fazendo aqui, Clementine?

A garota girou nos calcanhares, abandonando a apreciação da vista para focar no alvo. — Eu vim fazer uma pergunta. Direta. Sem rodeios.

— Estou ouvindo.

— Você ainda ama o meu pai?

A pergunta pairou no ar, crua e inesperada. Kate sentiu o rosto esquentar. — O quê?

— Talvez seja cedo demais para perguntar? — Clementine inclinou a cabeça, analisando a reação de Kate como se fosse um experimento científico. — Eu deveria ter perguntado sobre o tempo primeiro?

— Garota, escute aqui... — Kate deu um passo à frente, a paciência esgotando. — Se o James te mandou aqui para fazer o trabalho sujo dele, saiba que...

— Não! — Clementine cortou, a voz subindo uma oitava. — Ele não sabe que estou aqui. Ele me mataria se soubesse. Eu descobri seu endereço por conta própria. Eu me lembro vagamente de você. Quando eu era criança... você é a tia Kate.

Kate parou, surpresa. — Bom saber que se lembra... Então sabe que eu descobri o “esqueminha” do seu pai com sua mãe e o larguei.

— Isso faz muito tempo. — Clementine deu de ombros, mas logo sua expressão ficou séria. — Olha, Kate... meu pai está passando por um momento difícil. Ele está enfiado naquele rancho em Las Cruces, bebendo até esquecer o próprio nome, fingindo que é um caubói solitário. Ele está se autodestruindo.

— E você espera que eu resolva os problemas dele? — Kate soltou uma risada amarga. — O maior problema do seu pai, Clementine, é ele mesmo. Ele é um especialista em sabotar a própria felicidade.

— Eu sei disso! — Clementine se aproximou, os olhos brilhando com uma urgência desesperada. — Mas ele só ficou assim depois que você foi embora. Pelo menos considere perdoá-lo. Eu entendo que traição é uma merda, é complicada... mas eu amo demais meu pai para vê-lo definhar daquele jeito. Ele precisa de uma âncora. E a âncora é você.

Kate olhou para o relógio na parede. Edward chegaria a qualquer minuto. Ela não podia lidar com isso agora. Não com aquele vestido, não naquela noite.

— Já terminou? — perguntou Kate, fria.

— Por favor, me ouça...

— Olha, eu admiro seu gesto. De verdade. — Kate caminhou até a porta e a abriu, um gesto claro de expulsão. — Mas não estou interessada em falar sobre ele. Ou com ele. Tenho um compromisso. Se puder se retirar...

Clementine olhou para a porta aberta, depois para Kate. A garota murchou visivelmente. A bravata de "filha de Sawyer" desapareceu, restando apenas uma filha preocupada.

— Tudo bem. — Clementine baixou a cabeça. — Desculpe incomodar.

Ela passou por Kate, o cheiro de chiclete de morango contrastando com o perfume caro de Kate. Clementine saiu para o corredor e caminhou em direção aos elevadores.

Kate fechou a porta.

O silêncio voltou ao apartamento. Kate encostou a testa na madeira fria da porta. Ele está se autodestruindo.

A imagem de James sozinho, naquele rancho que ele comprara para eles, bebendo para esquecer... aquilo doeu mais do que a traição. Kate olhou para o próprio reflexo no espelho do hall. O vestido vermelho parecia, de repente, uma fantasia. Uma armadura que não protegia nada.

Droga.

Sem pensar, Kate abriu a porta novamente e correu para o corredor.

Clementine estava parada em frente ao elevador. As portas de aço escovado se abriram, revelando um casal de vizinhos que conversava animadamente. A garota fez menção de entrar.

— Espere! — gritou Kate.

Clementine parou, um pé dentro do elevador. Ela se virou, surpresa.

Kate estava parada no meio do corredor, descalça (tinha tirado os saltos sem perceber), com a maquiagem impecável mas o olhar vulnerável. Um sorriso relutante apareceu nos lábios de Kate.

— Talvez... — Kate respirou fundo. — Talvez possamos conversar um pouco mais. Eu tenho vinho. E sorvete.

Os olhos de Clementine se iluminaram. Um sorriso idêntico ao de James Ford se abriu em seu rosto. — Mas você não tinha um compromisso importante agora? O tal Edward?

— Sim, eu tinha. — Kate deu de ombros, sentindo um peso sair de seus ombros. — Mas ele pode esperar.

Clementine não hesitou. Ela recuou do elevador. As portas se fecharam diante do casal de vizinhos, que bufou impaciente com a demora, levando-os para baixo.

Clementine caminhou de volta para o apartamento, e pela primeira vez em anos, Kate sentiu que talvez, apenas talvez, o passado não fosse algo do qual ela precisasse fugir, mas algo que ela precisasse, finalmente, enfrentar.

Londres — Pub "The Blackfriar" (Noite)

O interior do pub era quente, cheirando a cerveja stout e madeira envernizada, um refúgio acolhedor contra a garoa fria de Londres. Kate Austen girava o copo de gin tônica, mas seus olhos estavam focados em algum ponto distante, revisitando a discussão humilhante no hangar.

Edward Widmore cobriu a mão dela com a dele. O toque era gentil, seguro. — Por que essa carinha triste? — perguntou ele, suavemente. — O uísque está ruim?

Kate suspirou, balançando a cabeça. — Não é a bebida. É... tudo. Não sei o que deu na minha cabeça, Ed. Como eu poderia ser tão ingênua a ponto de achar que a Claire aceitaria numa boa? Eu criei o filho dela por três anos. Para ela, eu sou a sequestradora, não a salvadora.

— Aquela mulher... — Edward franziu a testa, tomando um gole de sua ale. — Ela não me parece muito sã, Kate. O olhar dela... é selvagem.

— Parte da culpa é nossa — murmurou Kate, a culpa antiga borbulhando. — Ao invés de ficarmos na Ilha para procurá-la, fugimos no helicóptero. Deixamos ela para trás na selva. Fugimos como covardes.

— Não havia muito o que fazer, meu amor. — Edward tentou racionalizar, como sempre fazia. — O helicóptero estava sem combustível, a Ilha tinha desaparecido... Pelos relatos do piloto, ela viajou no tempo. Vocês teriam morrido se tivessem ficado.

Kate soltou uma risada curta, sem humor. — Confesso que, mesmo depois de tantos anos, ainda é difícil acreditar nessa loucura toda. Viagem no tempo, ursos polares... parece um delírio coletivo.

Ela olhou para o fundo do copo. — Mas eu queria saber se o Aaron está bem. Queria poder vê-lo novamente. Quando ele me ligou, antes de sumir... a voz dele parecia tão angustiada. Ele era meu filho, Ed. De alguma forma distorcida, ele era meu filho.

Edward apertou a mão dela. Ele sabia que competia com fantasmas. — Você o ama. Eu entendo. Instinto materno não precisa de biologia.

Kate olhou para o marido, e uma tristeza diferente tomou conta de seus olhos. — Eu tenho sido tão injusta com você, Ed. Eu fico aqui chorando por um filho que não é meu... e nem sequer consegui te dar um nosso.

— Ei. — Edward ergueu o queixo dela. — Pare com isso. Esqueça o passado e o que não aconteceu. Vamos viver o agora. O que você pretende fazer? Vai desistir da missão?

— Realmente não sei — admitiu Kate, encostando a cabeça no ombro dele. Edward a abraçou, beijando seus cabelos.

Do outro lado da rua, protegido pela sombra de uma cabine telefônica vermelha, James Ford observava a cena através da janela de vidro fosco do pub.

Ele viu o abraço. Viu a intimidade fácil, a segurança que aquele homem oferecia a Kate — tudo o que James nunca conseguiu dar.

Seu coração falhou uma batida, depois acelerou violentamente. O ar de Londres parecia subitamente rarefeito. James puxou o colarinho da jaqueta, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. O peito apertou, como se uma mão invisível estivesse esmagando seus pulmões.

Não agora. Não agora, droga.

Era um ataque de pânico. O velho "Sawyer", o homem que enfrentava armas e monstros, estava sendo derrubado por ver a mulher que amava nos braços de outro.

James recuou, tropeçando na calçada molhada. Ele não podia entrar lá. Não podia bancar o herói ou o vilão. Ele precisava fugir.

Ele virou as costas para a janela iluminada e caminhou rápido na direção oposta, sumindo na neblina de Londres, tentando respirar, tentando esquecer.

A Ilha — Praia Rochosa (Amanhecer)

O sol nascia pálido sobre o oceano, iluminando as ondas que quebravam ritmicamente contra as pedras negras. Walt Lloyd estava sentado no ponto mais alto de um rochedo isolado, longe do acampamento principal.

Ele olhava para o mar, mas seus pensamentos estavam em uma caixa de metal enterrada anos atrás, e no homem careca que lhe ensinara a jogar gamão.

— John... — Walt sussurrou para o vento. — Eu queria que acontecesse um milagre comigo também. Como aconteceu com você.

Ele olhou para as próprias mãos, lembrando-se das cicatrizes sob a camisa. — Mas milagres não existem, não é? O que existe aqui é troca de favores. Comércio. Você recebeu a cura das suas pernas, John. E quando deixou de cumprir seu dever, quando fraquejou... a Ilha te descartou como lixo.

Walt pegou uma pedrinha e a jogou no mar. — Ela cobra juros altos.

— O John foi muito importante, cara.

Walt pulou de susto. Hugo estava sentado ao lado dele na pedra, com aquela capacidade irritante de se mover silenciosamente apesar do tamanho.

— Ele não foi descartado — continuou Hugo, olhando para o horizonte com serenidade. — Tudo o que aconteceu com ele... foi para que chegássemos aqui. Somos apenas peças nesse grande quebra-cabeça, Walt. Eu demorei muito tempo para entender isso, lutei contra isso... mas estamos fadados a um destino quase imutável.

Walt bufou, recuperando a postura defensiva. — Você tem que parar de aparecer do nada, Hugo. É assustador.

— É, eu sei. — Hugo riu, coçando a barba. — Ainda não consigo controlar direito. Às vezes eu só... penso em estar num lugar e estou.

Walt olhou para baixo, em direção à praia de areia branca. Distantes, perto da linha das árvores, Rose e Bernard caminhavam de mãos dadas. Bernard parou, olhou para o rochedo onde Walt estava, e disse algo para Rose. A linguagem corporal dele era rígida, hostil.

— Eles nunca vão me perdoar, não é? — perguntou Walt, a voz pequena.

Hugo seguiu o olhar dele. — O Bernard é um homem bom, mas é um marido protetor. Você feriu o mundo dele.

Hugo levantou-se, limpando a areia da calça. Ele colocou a mão pesada e quente no ombro de Walt. — Dê tempo ao tempo, cara. A confiança é como um osso quebrado; demora para colar, mas pode ficar forte de novo. Você tem um álibi por ter confessado e não ter machucado a Rose de verdade. Isso conta.

— Conta? — Walt olhou para Hugo, cético.

— Para a Ilha, conta — afirmou Hugo. — E para mim também.

Hugo deu dois tapinhas no ombro dele e desceu a pedra com cuidado, deixando Walt sozinho novamente com o som do mar e a certeza incômoda de que, naquela Ilha, o perdão era o recurso mais escasso de todos.

A Ilha — Acampamento da Praia (Manhã)

O sol estava alto, e por um momento breve e ilusório, parecia que eles eram apenas náufragos comuns, e não peões em um tabuleiro de xadrez divino.

Na beira da água, Aaron, Yan e Hugo tentavam pescar com lanças improvisadas de bambu. Aaron movia-se com uma fluidez que denunciava sua experiência, enquanto Yan e Hugo eram desajeitados.

— Confesso que faz muitos anos que não pesco assim — comentou Aaron, os olhos fixos em um cardume prateado.

— É, cerca de uns cinco mil, não é? — brincou Yan, errando uma estocada na água.

Aaron sorriu, sem desviar o olhar. — Eu não vivi cinco mil anos lineares, Yan. Mas a Ilha... o tempo aqui respira diferente. Eu vivi cerca de vinte anos em Igherm-Ater, mas vi a história passar como um rio rápido. Jacob viveu dois milênios. A minha filha, Hannah... ela viveu mais do que ele.

— Deve ter sido entediante de qualquer jeito — comentou Hugo, rindo enquanto desenrolava uma linha de nylon velha que encontrara. — Sem TV, sem frango frito...

— O tédio era o menor dos problemas. — A expressão de Aaron endureceu por um segundo. — Nós vimos a ascensão e queda de impérios. Toda a história da humanidade... vista de camarote, mas sem poder interferir.

— Do que adiantava ver tudo se eles estavam presos aqui? — indagou Yan.

— Os Guardiões têm livre acesso ao mundo. — Aaron lançou a lança com precisão cirúrgica, empalando um peixe grande. — Apesar da responsabilidade, podemos sair. Jacob saía. Eu saía.

— É... — Hugo suspirou, nostálgico. — Era engraçado quando era eu quem parecia um fantasma para você. Agora o jogo virou.

Yan olhou para o peixe se debatendo na lança de Aaron. — Cara, como vocês podem simplesmente ter superpoderes e achar isso normal? "Ah, eu sou imortal", "Ah, eu falo com mortos". Isso é insano.

— Na verdade, esses poderes não são meus. São de Taweret. — Aaron retirou o peixe e o jogou na areia. — Sou apenas um canal. Ou costumava ser o canal principal.

Hugo parou o que estava fazendo e olhou para Aaron com desconfiança. — Aaron... você me disse que Taweret te puniu no passado. Que você foi destituído por deixar o Minut se corromper e teve que passar o cargo para sua filha.

Hugo deu um passo à frente, baixando a voz. — Se você foi "demitido" do cargo de Guardião Supremo... por que ainda tem os poderes? Por que ainda é o General?

Aaron limpou as mãos na calça, evitando o olhar de Hugo. Um sorriso enigmático curvou seus lábios. — A Ilha não toma de volta seus presentes tão facilmente, Hugo. Nem tudo precisa de uma explicação lógica agora. Vamos apenas seguir o roteiro e garantir que tenhamos almoço.

Hugo e Yan trocaram um olhar. Aaron estava escondendo algo grande.

Um pouco mais longe, perto da fogueira, o clima era menos filosófico e mais fofoqueiro. Clementine cortava frutas tropicais com uma faca de caça, enquanto Bianca e Jessy tentavam improvisar um guisado com latas da Dharma.

Os olhos de Clementine, no entanto, não estavam nas frutas. Eles seguiam cada movimento de Aaron na arrebentação.

— Você vai acabar cortando o dedo se continuar secando ele desse jeito — comentou Jessy, rindo.

— O quê? Claro que não. — Clementine corou, voltando a atenção para a tábua de corte.

— Amiga, por favor, não precisa mentir para nós — provocou Bianca. — Está escrito na sua testa. "Propriedade do Hanbal".

— Gente, parem. — Clementine suspirou. — Mesmo que eu gostasse... aquele não é o mesmo Aaron que veio com a gente no avião. O garoto que tocava violão sumiu.

— Eu sei. — Bianca mordeu o lábio, olhando para a praia. — Ele está bem "diferentão" mesmo. Mais másculo. Aquelas cicatrizes...

— E mais velho — completou Clementine, a insegurança vazando na voz. — Ele tem a idade do meu pai agora. Basicamente.

— Isso te apavora? — indagou Jessy.

— Me confunde.

— Não sei o que vocês estão cochichando aí, mas se for sobre o "General Gostosão", me interessa.

A voz veio de trás delas, carregada de arrogância. Ji Yeon estava parada ali, os braços cruzados, parecendo irritantemente limpa e composta para alguém que vivia numa selva.

Clementine revirou os olhos. — Se manca, Ji Yeon. Ninguém te chamou.

— O que foi? Tá com ciúme, caipira? — Ji Yeon sorriu, venenosa. — O Aaron é muita areia para o seu caminhãozinho de trailer park.

— Garota, você não tem nada inútil pra fazer não? — disparou Bianca, defendendo a amiga. — Tipo lixar as unhas ou reclamar do serviço de quarto inexistente?

— Eu não queria atrapalhar o "Clube da Luluzinha", mas eu queria saber de algo útil. — Ji Yeon ignorou Bianca. — Aquele tal de Roger. Será que ele conseguiu sair da Ilha?

— Por quê? A patricinha quer carona? — indagou Clementine.

— Digamos que meu trabalho aqui acabou. — O rosto de Ji Yeon ficou sério por um instante. — Já sei onde estão meus pais. Estão mortos. Enterrados no fundo do oceano. Agora tenho que voltar ao continente e assumir as Indústrias Paik. Não tenho tempo pra brincar de batalha medieval com vocês e com o Deus Ex-Machina ali na água.

Ela deu as costas para sair.

Clementine largou a faca e andou até ela, puxando-a pelo ombro com força. — Ei! Ninguém te arrastou para cá sem seu consentimento, garota. Você veio porque quis. Se não gosta da gente, vai em frente. Entra na floresta e ache o Roger. Vamos ver quanto tempo leva para uma patricinha mimada durar no matagal com o Walt e o Wilbert soltos por aí.

Ji Yeon sacudiu o ombro para se soltar. — Eu não deveria ter me juntado a perdedores como vocês.

Ela girou para sair e quase bateu de cara em um peito largo e firme.

Aaron estava parado ali. Ele chegara sem fazer ruído na areia.

— Como você fez isso? — indagou Ji Yeon, recuando um passo, assustada, mas logo recuperando a postura altiva.

— Não importa se você acredita ou não na nossa guerra, Ji Yeon. Mas você não vai a lugar nenhum sozinha. — Aaron cruzou os braços, a água do mar pingando de seus músculos. — É perigoso.

Ji Yeon olhou para ele, de cima a baixo. O medo em seus olhos foi substituído por algo calculado e provocante. — Sou treinada em artes marciais desde pequena. Não tenho medo de nada. — Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — A não ser que você queira ser meu guarda-costas pessoal. Eu pagaria muito bem... e adoraria sua companhia.

Ela tocou o peito nu de Aaron com a ponta do dedo indicador, desenhando uma linha imaginária sobre uma cicatriz.

— Nojenta! — gritou Clementine, sentindo o sangue ferver.

— Não se preocupe, querida. Não vou roubar ele de você. — Ji Yeon olhou para Clementine por cima do ombro, depois voltou a focar em Aaron, mordendo o lábio inferior. — Só vou pegar emprestado para um... test drive.

Aaron segurou o pulso de Ji Yeon antes que ela pudesse descer a mão. Seu aperto foi firme, quase doloroso.

— O que deu em você? — perguntou Aaron, sério. Ele não via desejo nos olhos dela; via desespero mascarado de luxúria.

Ji Yeon gemeu baixo, mas não recuou. — Nada. — Ela puxou o braço com força, libertando-se. — Só estou de saco cheio de ficar aqui esperando a morte com vocês. Me solta.

Aaron a soltou.

Ji Yeon caminhou até a orla da floresta. Ela parou, virou-se e gritou para o grupo atônito: — Vou arrumar um jeito de sair daqui. O barco do Wilbert deve estar em algum lugar. Alguém está comigo?

O silêncio foi a única resposta.

Ji Yeon soltou uma risada amarga. Ela ergueu o dedo médio para todos eles. — Fodam-se vocês, então. Eu vou embora.

Ela desapareceu na mata.

Aaron ficou parado, olhando para onde ela sumira. Sua expressão era ilegível, mas havia uma tensão em seus ombros.

Clementine observava Aaron. Ela viu como ele olhou para Ji Yeon — não com desejo, mas com uma intensidade que a excluía. Ela sentiu uma pontada no peito, uma mistura de ciúme e medo de perder o lugar que achava que tinha.

O sangue drenou do rosto de Clementine. Ela cambaleou levemente.

— O que houve, Clementine? — Jessy correu para ampará-la. — Você está pálida.

Aaron virou-se rapidamente, a preocupação de soldado desaparecendo para dar lugar à preocupação de homem. — Clem?

— Nada... — respondeu ela, a voz fraca. Ela olhou para Aaron, depois baixou a cabeça, incapaz de encarar o homem que ela amava e a mulher que ela temia não ser. — É só o calor. Eu estou bem.

Nova York — Mr. Cluck’s Chicken Shack (Outono de 2023)

O letreiro neon da franquia de fast-food zumbia sobre suas cabeças, tingindo a mesa de plástico de amarelo e vermelho. Era um lugar estranhamente mundano para duas mulheres ligadas por uma ilha mística e um vigarista charmoso.

Clementine mordiscava uma batata frita, observando Kate com uma intensidade que desarmava. Kate, ainda vestida com seu traje de gala coberto por um casaco pesado, parecia deslocada naquele ambiente engordurado.

Kate limpou as mãos em um guardanapo de papel e foi direto ao ponto. — O que você espera de mim, Clementine? De verdade.

Clementine suspirou, largando a batata. — Eu realmente não sei. Talvez um milagre? — Ela deu de ombros. — Minha mãe nem sabe que estou aqui. Meu pai deixou um fundo fiduciário no meu nome com uma quantia generosa para a faculdade. Eu estou torrando parte dele nessa viagem. Estou aqui por conta própria.

— Você é corajosa. Ou imprudente. — Kate tomou um gole de refrigerante. — Você sabe que seu pai me traiu, não sabe? Não importa como a sua mãe pintou a história. Ele quebrou os votos.

— Entendo que você veja desse jeito. — Clementine inclinou-se para frente. — Mas não é preto no branco, Kate. A vida com o meu pai nunca é. É complicado. Ele fez uma escolha estúpida por um motivo nobre. Ele queria ser pai.

— Eu o amava demais, Clementine. — A confissão escapou dos lábios de Kate antes que ela pudesse filtrá-la. A voz dela embargou, carregada de anos de saudade. — Eu entreguei tudo a ele.

Clementine observou a vulnerabilidade no rosto da mulher à sua frente. Ela viu a rachadura na armadura. — E ainda o ama, não é?

Kate não respondeu. Ela olhou para a rua movimentada através da vitrine, para as luzes da cidade que nunca dorme, tentando encontrar uma negação honesta. Não encontrou. A resposta era óbvia no silêncio.

Clementine continuou, suavemente: — Por que não dá uma nova chance para ele?

— Porque eu estou cansada de me machucar nessa vida, garota. — Kate voltou-se para ela, os olhos marejados. — Seu pai não é um porto seguro. Ele é uma tempestade. Ele é como uma ferida que nunca fecha; sempre que eu tento tratar, me machuco mais. Eu tenho uma vida agora. Uma vida calma. Segura.

— Ele está morrendo aos poucos, Kate. — Clementine foi brutal. — Ele está em depressão profunda. Tem crises de ansiedade constantes. Ele acorda gritando no meio da noite. Quando ele não está bêbado, ele não para de falar o quanto errou com você. Ele te ama, mais do que tudo. Mais do que a si mesmo.

O peso daquelas palavras esmagou Kate. Saber que James estava sofrendo não lhe trazia a satisfação de vingança que ela esperava; trazia apenas dor.

O celular de Kate vibrou sobre a mesa, iluminando-se com uma foto sorridente.

Ed chamando...

Kate olhou para a tela. Edward. O homem seguro. O homem que nunca a trairia. O homem que ela não amava com a mesma intensidade perigosa.

Ela não atendeu. Virou o celular com a tela para baixo.

Diante daquelas declarações, e da escolha silenciosa que acabara de fazer ao ignorar o marido, Kate sentiu que precisava sair dali antes que desmoronasse.

Ela se levantou abruptamente, pegando a bolsa. — Vou indo. Preciso... preciso me encontrar com alguém.

— Kate, por favor. — Clementine levantou-se também, desesperada. — Ao menos considere o que eu disse. Não deixe ele afundar.

Kate parou. Ela olhou para a filha de Sawyer, vendo nela a mesma teimosia que um dia a fizera pular de um helicóptero no meio do oceano.

— Me empresta seu celular — pediu Kate.

Clementine piscou, confusa, mas desbloqueou o aparelho e o entregou.

Kate digitou rapidamente um número, salvou o contato e devolveu o telefone. — Esse é meu número pessoal. Não o do trabalho, não o de casa. O meu.

Clementine olhou para a tela. — O que isso significa?

— Me ligue durante essa semana. Marcamos de nos encontrar de novo. Talvez um lugar com comida de verdade. — Kate ajeitou o casaco, assumindo uma postura séria. — Não prometo que voltarei com seu pai. Não prometo nada. Mas... estou disposta a ajudá-lo. Se ele quiser ser ajudado.

Um sorriso radiante, cheio de esperança, iluminou o rosto de Clementine. — Mesmo?

— Sim. — Kate permitiu-se um sorriso pequeno, triste, mas genuíno. — Agora preciso ir.

Kate saiu do restaurante, entrando na noite fria de Nova York, deixando para trás o cheiro de frango frito e levando consigo a certeza incômoda de que acabara de reabrir a porta que passara anos tentando trancar.

Clementine ficou olhando pela vitrine enquanto Kate desaparecia na multidão, sorrindo como quem acabou de ganhar a loteria.

A Ilha — Acampamento de Wilbert (Cela Improvisada)

O sol da tarde castigava o teto de zinco da cela improvisada — a mesma jaula de bambu e metal onde Aaron e Clementine haviam sido mantidos dias atrás. Agora, o espaço estava apertado e cheirava a suor e raiva.

Roger Miles estava sentado em um canto, limpando o sangue do lábio. Marcel (Daniel) estava encolhido no outro, murmurando em francês, ainda traumatizado pelo encontro com a irmã. Juan, o ex-capitão, estava de pé, segurando as grades, olhando para fora.

Do lado de fora, Frank Lapidus estava encostado em uma árvore, fumando um cigarro amassado, com a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar do universo.

Roger levantou-se e caminhou até as grades, parando perto de Frank. Ele sorriu, um sorriso cheio de dentes e escárnio.

— Eu quase acreditei em você, sabia? — sussurrou Roger. — Por um segundo, na floresta, achei que você tinha culhões. Mas no fim, você só nos pastoreou direto para o matadouro.

Frank soltou a fumaça, evitando o olhar de Roger. — Roger, eu juro que não imaginava que o Wilbert estaria lá. Foi uma emboscada para mim também.

— Já chega, piloto. — Roger cuspiu no chão. — Poupe suas desculpas para o espelho. Estou cercado de traidores.

Miguel aproximou-se da cela, verificando o cadeado. Ele olhou para Roger com uma pitada de simpatia. — Não esperava que as coisas chegassem a esse ponto, Roger. Sinto muito.

— Olha só se não é o Bryan... ou devo dizer, Miguel? — Roger riu, ácido. — Quantos nomes mais você tem na manga? Quantas máscaras vocês usam para dormir à noite?

— Roger, já chega. A situação já está tensa o suficiente sem você provocar os guardas — disse Juan, virando-se para ele.

Roger focou sua fúria no ex-capitão. — Você... — Roger apontou um dedo trêmulo. — De todos aqui, você é o mais errado. Você jurou lealdade ao Desmond. Você liderava homens. E agora? Lambe as botas de um fanático da Dharma?

— Eu escolhi o lado que tem um plano! — gritou Juan, perdendo a paciência. — Desmond nos jogou aqui sem mapa, sem ordens! Wilbert sabe o que está fazendo!

— Você não tem honra, capitão. É um covarde.

Juan avançou. Foi rápido. Ele desferiu um soco no rosto de Roger, fazendo-o cambalear. Mas Roger, movido pelo ódio, revidou com uma cabeçada brutal. Os dois rolaram no chão de terra, trocando socos e insultos, a frustração de dias explodindo em violência física.

— Ei! Parem com isso! — gritou um dos guardas, batendo o fuzil nas grades.

Roger conseguiu chutar o estômago de Juan, afastando-o. Ele se levantou, ofegante, e cuspiu sangue e saliva no ex-chefe. — Você se uniu ao inimigo sem pensar duas vezes! Você é patético!

Juan levantou-se, limpando o rosto, e recuou para o canto oposto. — Seu "amigo" Desmond nos mandou para a morte, Roger! Estou surpreso que você ainda seja leal a um fantasma!

A briga cessou, mas a tensão permaneceu vibrando no ar.

Frank jogou a bituca do cigarro no chão e pisou nela. Ele se aproximou das grades uma última vez. — Eu não menti sobre a minha família, Roger. — A voz de Frank era baixa e séria. — Eles pegaram minha ex-mulher e minha filha. Se eu pudesse, desistia de tudo agora e fugiria dessa ilha com você. Mas eu não tenho esse luxo.

Ao dizer isso, Frank ajeitou a camisa e saiu, incapaz de encarar o julgamento nos olhos de Roger. Miguel suspirou e seguiu o piloto, deixando os prisioneiros sozinhos com seu ódio.


A Ilha — Tenda de Comunicações

Wilbert DeGroot estava debruçado sobre um terminal de satélite robusto. O sinal oscilava, mas a luz verde finalmente estabilizou. A Ilha estava parada no tempo, o que permitia a conexão.

Ele pegou o telefone via satélite e discou o número criptografado.

Estação A Linha. — A voz do outro lado soou com estática, vinda do outro lado do mundo e de outra década.

— Wilbert falando. Preciso falar com o Senhor Alvar. Código Vermelho.

Aguarde. Vou transferir.


Alexandria, Egito — Estação "A Linha" (Sala de Alvar)

Alvar Hanso estava de pé, admirando o trabalho de Miles. O corpo de Zack jazia no tapete persa, os olhos abertos e vidrados, uma mancha vermelha crescendo no peito.

O assistente entrou na sala, empalidecendo ao ver o cadáver, mas manteve o profissionalismo. — Senhor... é o Wilbert na linha. Ligando da Ilha.

— Ah. Excelente. — Alvar pegou o telefone da mesa, passando por cima do corpo de Zack como se fosse um móvel. — Wilbert? Quais as novidades do fronte?

Senhor, — a voz de Wilbert crepitou — capturamos Roger Miles, Juan e o intruso francês. O grupo de Hugo Reyes está consolidado na praia. E... a melhor notícia: Walt Lloyd está com eles. Infiltrado.

— Perfeito. — Alvar sorriu. — A peça chave está posicionada. Mantenha a vigilância. Não interfira até que a anomalia temporal esteja totalmente corrigida. Em alguns anos... ou talvez dias, dependendo da perspectiva... nos encontraremos pessoalmente.

Sim, senhor. Câmbio e desligo.

Alvar colocou o telefone no gancho. Ele olhou para Miles e para o assistente. — Tragam-me Benjamin Linus.

Miles olhou para o corpo no chão. — Senhor... e quanto ao Zack? O cheiro vai começar a ficar ruim.

— Coloquem o corpo dele na câmara criogênica do Setor 4. — Alvar ajeitou as abotoaduras. — No momento certo, trarei ele de volta. A morte é apenas uma pausa técnica para o que tenho em mente.

Miles e o assistente assentiram e saíram.

Minutos depois, a porta da sala se abriu novamente. Miles e Omer arrastaram Benjamin Linus para dentro. Ben estava mais pálido do que nunca, mancando, os olhos semicerrados pela luz forte do escritório.

Eles o jogaram no chão, sem cerimônia. Ben caiu de joelhos e suas mãos tocaram algo úmido.

Ele olhou para baixo. Sangue.

Ben levantou o olhar e viu o rosto congelado de Zack a menos de um metro de distância. O garoto que ele vira crescer no Templo. O garoto que ele tentara proteger (do seu jeito distorcido).

— Você... — Ben olhou para Alvar, que estava em pé diante de uma parede coberta por uma tapeçaria antiga. — Você o matou?

Alvar virou-se, impassível. — Isso não é importante, Benjamin. Zack é reciclável.

Alvar caminhou até a tapeçaria e puxou uma corda de veludo. O tecido pesado caiu, revelando uma parede de vidro que dava para um laboratório subterrâneo imenso, iluminado por luzes azuis pulsantes.

— Levante-se, Ben — ordenou Alvar. — A morte de um garoto é irrelevante. Tem algo muito maior que eu quero te mostrar. Algo que vai fazer você entender por que a sua "proteção" da Ilha foi, na melhor das hipóteses, uma piada infantil.

A Ilha — Trilha Secundária (Tarde)

Clementine caminhava pela trilha coberta de folhas secas, tentando afastar a sensação de claustrofobia que o acampamento lhe causava. A floresta era densa, úmida e cheia de sons que ela não conseguia identificar.

De repente, uma sombra se moveu à sua frente.

Clementine estancou, o coração disparando contra as costelas.

Walt Lloyd estava parado no meio do caminho, como uma estátua de dor. Ele não fez menção de avançar, mas sua presença ali, longe da orla onde fora banido, era uma ameaça por si só.

— Não tenha medo — disse Walt, a voz rouca, sem levantar os olhos do chão.

Clementine recuou um passo, a mão buscando instintivamente uma pedra ou galho. — O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, tentando manter a voz firme, mas falhando. — Você foi banido do perímetro.

Walt olhou ao redor, para as árvores antigas. — Eu costumava brincar com meu cachorro por essas bandas... quando eu era criança. Antes de tudo dar errado. É o único lugar onde o barulho na minha cabeça diminui um pouco.

Clementine estreitou os olhos. — O Aaron me contou. Ele disse que há trevas habitando dentro de você. Que as coisas que você faz... geralmente não é você quem está no comando.

Walt fechou os olhos com força, como se sentisse uma dor física aguda. O rosto dele se contorceu, e para a surpresa de Clementine, lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas sujas.

— Eu não suporto mais tudo isso, Clementine... — sussurrou ele, a voz quebrando. — É como estar preso no banco de trás do próprio corpo, assistindo a um acidente de carro em câmera lenta.

A cena era patética e triste, mas Clementine aprendera a desconfiar. Ela cruzou os braços, mantendo a distância. — Não vai me convencer com lágrimas, Walt. Você sequestrou a Rose. Você tentou me matar.

Walt abriu os olhos. Ele limpou o rosto com as costas da mão deformada, recuperando a compostura. — Eu entendo. Você está certa em não acreditar.

Ele deu um passo para o lado, saindo da trilha para dar passagem a ela. — Escuta... eu não pretendo te machucar. E vou evitar contato com vocês. Só... tenha cuidado.

Sem dizer mais nada, Walt virou as costas e sumiu na vegetação densa, carregando sua culpa como uma segunda pele.

Clementine soltou o ar que prendia nos pulmões. Ela girou nos calcanhares para voltar para a segurança da praia, mas parou bruscamente.

Yan estava encostado em uma árvore a poucos metros de distância, os braços cruzados, observando a cena com uma expressão ilegível.

— Há quanto tempo está aí? — indagou ela, o susto se transformando em irritação.

Yan desencostou da árvore, caminhando até ela. — O tempo suficiente. Eu estava passando e vi vocês dois conversando. Achei melhor ficar por perto, caso ele tentasse algo.

— Eu não preciso de guarda-costas, tá legal? — Clementine passou por ele, ríspida. — Eu sei me cuidar. Sou uma Phillips, lembra?

Yan deu um sorriso de canto, sem se ofender. — Claro que sabe. Mas até as Phillips precisam de reforço às vezes.

Ele gesticulou para que ela seguisse em frente, mantendo-se a uma distância respeitosa, mas vigilante. Clementine bufou, mas no fundo, sentiu-se aliviada por não estar sozinha.

Ela caminhou de volta em direção ao acampamento, mas desviou o caminho antes de chegar à areia. Seus pés a levaram para uma clareira mais isolada, perto das rochas.

Lá estava ele.

Aaron estava sentado na posição de lótus, de costas para ela, de frente para o mar. Ele não se movia. A espada estava deitada sobre os joelhos. Ele parecia uma parte da paisagem, antigo e imóvel como as pedras.

Clementine escondeu-se atrás de um arbusto de hibisco. O coração, que batera de medo com Walt, agora batia com uma ansiedade diferente. Ela ficou ali, observando os ombros largos dele. Sentindo aquele amor impossível e doloroso apertar seu peito.

Las Cruces, Novo México — Rancho Ford (2023)

O sol do deserto não perdoava. O calor fazia o ar tremeluzir sobre a estrada de terra batida enquanto Kate Austen caminhava em direção à única casa num raio de quilômetros.

O "rancho" que James comprara não era o paraíso que ele descrevera em Nova York. Era uma propriedade decadente, com cercas quebradas e uma varanda que rangia sob o peso do abandono.

Kate parou diante da porta de tela, o coração batendo na garganta. Ela estava ali como "amiga". Era o que ela dizia a si mesma.

— James?! — gritou ela, a voz competindo com o vento seco.

Houve um barulho de coisas caindo lá dentro. Segundos depois, a porta se abriu.

James Ford apareceu. Ele não era o homem de terno que a visitara na cidade. Ele vestia uma camiseta branca encardida, jeans rasgados e estava descalço. A barba estava por fazer há dias, e o cheiro de uísque barato e cigarro emanava dele como uma aura tóxica.

Mas quando ele a viu, aquele sorriso torto — o sorriso que a desarmava há vinte anos — apareceu.

— Kate... — Ele piscou, como se visse uma miragem. — Quanto tempo. Que bom te ver.

— Realmente... — Kate engoliu em seco, tentando não demonstrar o choque. — É bom te ver, James.

— Não vai entrar? — Ele abriu a porta, fazendo um gesto galante que destoava de sua aparência.

Kate entrou. O interior da casa era um mausoléu de memórias. Garrafas vazias se acumulavam nos cantos. Mas o que chocou Kate foi a parede da sala.

Dezenas de recortes de jornal, amarelados pelo tempo, estavam colados com fita adesiva. Manchetes de 2004. Listas de passageiros.

— O que houve com você? — sussurrou Kate, caminhando até a parede. — Isso ainda te atormenta?

James foi até a cozinha, o passo ligeiramente trôpego. — Como não atormentaria, Sardenta? Foi o dia que a minha vida começou. E o dia que ela acabou.

Ele voltou com duas cervejas, oferecendo uma a ela. — Foi o evento em que eu te conheci. — Ele disse aquilo com uma simplicidade que doeu.

Kate pegou a cerveja, mas não bebeu. Ela olhou para ele, tentando erguer suas defesas. — James, espero que entenda que estou aqui como uma amiga. Clementine me disse que você precisava de ajuda.

— Sim, Sardenta, eu entendo perfeitamente. — Ele deu um gole longo, os olhos fixos nela, despindo suas intenções. — "Amigos".

Kate olhou ao redor, para a poeira, para a solidão. — Sua filha me procurou em Nova York. Ela estava desesperada. Quando você disse que queria comprar um rancho, eu imaginei cavalos, cercas brancas... não pensei que seria tão deplorável.

— Nada comparado à sua cobertura em Manhattan, eu sei. — James sorriu, autodepreciativo. — Mas aqui o aluguel é barato e os vizinhos não fazem perguntas.

Kate baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar dele. O silêncio se estendeu, pesado e elétrico.

— O que foi? — indagou ele, aproximando-se.

— Por quê? — A voz dela falhou.

— Por que o quê?

Kate levantou o rosto, e havia lágrimas de raiva em seus olhos. — Por que eu não consigo parar de pensar em você? Eu tenho uma vida perfeita, James. Um marido perfeito. E eu estou aqui, no meio do nada, com você. Eu te odeio por tudo que você fez eu passar. Nós nos casamos, Sawyer... e você destruiu tudo com a sua covardia!

James colocou a cerveja na mesa, o barulho do vidro ecoando na sala vazia. — Eu sei. — Ele deu mais um passo, invadindo o espaço dela. — Eu tenho esse dom maldito de destruir tudo o que toco. Mas eu te peço... me dê uma chance de consertar.

— Consertar? Está brincando? — Kate recuou até bater as costas na parede dos recortes. — Eu não posso me envolver com você de novo. É tóxico. É errado.

James apoiou as mãos na parede, um de cada lado da cabeça dela, prendendo-a. — Nunca deixei de te amar, Kate. Nem por um segundo. Nem quando estava com a Cassidy, nem quando estava sozinho nessa casa maldita. Eu fiz tudo aquilo pela Clementine, mas o meu coração... ele sempre ficou na Ilha com você. Por favor... me perdoe.

A respiração de Kate acelerou. O cheiro dele, misturado com o álcool e o suor, era inebriante. Era o cheiro do perigo que ela amava.

— James... eu te perdoo — sussurrou ela, rendendo-se.

Ele se aproximou, o rosto a centímetros do dela. — Então não lute contra isso.

— Não faça isso comigo... — pediu ela, as mãos tremendo, pousando no peito dele.

— Apenas deixe acontecer.

Ele a beijou. Não foi um beijo gentil. Foi um beijo de fome, de desespero, de dois náufragos se agarrando no meio da tempestade. Kate correspondeu com a mesma intensidade, e ali, cercados pelas notícias de sua tragédia compartilhada, eles caíram na cama desfeita.


Manhã Seguinte

A luz crua da manhã entrava pela janela sem cortinas. Kate estava vestindo a camisa dele, sentada na beira da cama, observando a poeira dançar no feixe de luz.

James acordou, espreguiçando-se, parecendo dez anos mais jovem do que na noite anterior. — Bom dia, Sardenta.

Kate olhou para ele. O peso da culpa (por Ed) e o alívio (por estar com James) guerreavam dentro dela. — Você nunca vai me deixar em paz, não é?

James riu, puxando-a para um abraço. — Desculpa. Talvez não precisemos ser um "casal" tradicional. Sem rótulos, sem pressão. Mas podemos ser isso. Sempre que você quiser fugir da sua vida perfeita... eu estarei aqui.

Kate sorriu, triste, mas aceitando o pacto. — Seu idiota.

— Estou feliz por estar aqui com você. — Ele beijou o ombro dela.

— Por favor, James... não me decepcione de novo. — Ela se levantou, começando a se vestir. A realidade a chamava de volta.

Horas depois, com o som do carro de Kate desaparecendo na estrada de terra, James pegou o celular. Suas mãos não tremiam mais.

Ele discou o número.

— Alô? — A voz jovem atendeu no segundo toque.

— Oi, Clem.

— O quê? — O tom de Clementine mudou instantaneamente para uma empolgação conspiratória. — Vocês transaram?

James riu, balançando a cabeça. — Olha a boca, garota. — Ele olhou para a cama desfeita. — É... eu só tenho que te agradecer, filhota. Obrigado. Você salvou o seu velho.

— Não há de quê, pai. Eu sabia que ela só precisava de um empurrãozinho. — Clementine parecia orgulhosa de sua manipulação. — Agora preciso ir. Estou no intervalo da escola. E a mamãe não pode nem sonhar que falei com você.

— Vai lá. Boa aula, meu amor.

James desligou, sentindo-se vivo novamente. Ele não sabia, ou não queria ver, que ao usar a filha para consertar seus erros, estava ensinando a ela que o amor é um jogo onde vale tudo — uma lição que cobraria seu preço anos depois, em uma praia distante.

A Ilha — Clareira Próxima à Praia (Presente)

Clementine estava sentada sobre uma raiz grossa de figueira, os olhos perdidos na folhagem, mas a mente viajando por memórias dolorosas. Ela estava tão absorta tentando decifrar seus sentimentos que não ouviu o som de passos — ou melhor, a falta deles.

Ela procurou Aaron com os olhos onde ele estava meditando minutos atrás, mas o local estava vazio.

— O que você faz aqui, escondida?

A voz veio de trás, grave e próxima ao ouvido dela.

Clementine deu um pulo, o coração saindo pela boca. Ela girou, encontrando o peito largo de Aaron a centímetros de distância. Ele se movia como um fantasma na selva.

A menina levantou-se, limpando a roupa, tentando recuperar a dignidade. — Desculpe... Eu... eu estava procurando frutas. Goiabas. E acabei me distraindo.

Aaron ergueu uma sobrancelha, um sorriso irônico curvando os lábios sob a barba grisalha. — Se distraiu comigo? Sou uma fruta agora?

Clementine revirou os olhos, cruzando os braços para esconder o tremor nas mãos. — Você continua o mesmo idiota de sempre. Mesmo sendo um general de mil anos.

O sorriso de Aaron desapareceu lentamente. Ele olhou para ela, não como um soldado olha para um civil, mas como um homem olha para algo precioso que perdeu.

— Tem algo que eu não te contei, Clem. — A voz dele baixou o tom, tornando-se íntima.

— O que seria? — indagou ela, sentindo um frio na barriga.

Aaron deu um passo à frente, mas manteve as mãos para trás, como se tivesse medo de tocá-la. — Eu nunca deixei de gostar de você.

Clementine prendeu a respiração.

— Mesmo tendo passado vinte anos para mim... mesmo vivendo guerras e vendo impérios caírem... — Aaron olhou para o chão, vulnerável. — A sua imagem nunca saiu da minha cabeça. E eu não entendo como pode ser possível uma pessoa amar alguém por tanto tempo, através do tempo e do espaço, mesmo sabendo, com toda a certeza do mundo, que não pode ter aquela pessoa nunca mais.

Ele levantou os olhos, cheios de uma resignação triste. — É uma tortura, Clementine. Estar aqui, velho, quebrado... e ver você, exatamente como eu me lembrava.

Clementine sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ela conhecia aquele olhar. Ela conhecia aquela dor. Ela a vira no rosto do homem que mais amava no mundo.

— É... — sussurrou Clementine, a voz embargada. — Eu entendo isso muito bem.

Las Cruces, Novo México — Centro da Cidade (2028)

O apartamento cheirava a tinta fresca e caixas de papelão. Era 2028, cinco anos após o início do caso entre James e Kate, e poucas semanas após o funeral de Cassidy Phillips.

Clementine, agora uma jovem mulher marcada pelo luto da mãe, tentava organizar sua nova vida. Ela se mudara para o centro para ficar perto do pai, sabendo que ele precisava de vigília constante.

A campainha tocou.

Ela abriu a porta. James Ford estava parado no corredor. Ele parecia mais velho, mais magro. O charme de "Sawyer" estava lá, mas parecia uma roupa que não servia mais direito.

— Oi, meu amor. — Ele abriu os braços, forçando um sorriso.

— Pai. — Clementine o abraçou forte, sentindo o cheiro de tabaco e a fragilidade nos ossos dele. — Você sabe que eu não iria morar com você naquele rancho, né? Muitas lembranças ruins.

— Tudo bem. Eu entendo. — James soltou-a e entrou, olhando ao redor. — Pelo menos você está perto. É um bom lugar. Seguro.

Ele caminhou até a janela, evitando o olhar dela. Clementine observou as costas do pai. Ela sabia a verdade. Ela sabia por que ele parecia tão derrotado. Não era só a morte de Cassidy.

— Ela foi embora de vez, não foi? — perguntou Clementine, suavemente.

Os ombros de James tensaram. Ele não precisou perguntar de quem ela falava. — A Kate... ela voltou para Nova York. Ontem à noite.

— Sinto muito, pai. — Clementine sentiu um aperto no peito. — Eu sinto muito que vocês não tenham dado certo de novo. Eu torci tanto...

James soltou um suspiro trêmulo. — Ela estará melhor lá, Clem. Com o marido. Com a vida segura. Não há nada para ela aqui. Só poeira, fantasmas e um velho vigarista.

— Você não é um nada, pai. — Clementine caminhou até ele e virou-o de frente.

Os olhos de James estavam vermelhos, marejados. A máscara caiu. — Você é meu tudo, meu amor. Obrigado por vir para cá. — A voz dele quebrou. — Mas a verdade... a verdade é que eu a amo demais. E dói saber que eu sou a tempestade da qual ela precisa se proteger. Eu não consigo viver sem ela, mas tenho que viver.

Ele começou a chorar, um choro silencioso e doloroso. Clementine o abraçou, segurando o peso do pai, percebendo com terror que o amor não era um conto de fadas; era uma doença crônica.

— Eu entendo, pai. — Ela acariciou as costas dele. — Mas você precisa superar. Por você. Por mim.

James respirou fundo, limpando o rosto com a manga da camisa, recompondo a postura de durão que usava para sobreviver. — Eu sei, meu amor. Eu sei.

Ele fungou, bateu palmas uma vez e colocou um sorriso falso no rosto, aquele sorriso que enganava todo mundo, menos a filha dele.

— Chega de choradeira. Que tal continuarmos a mudança? — sugeriu ele, tentando soar animado. — Cadê as caixas pesadas? O velho aqui ainda aguenta o tranco.

— Sim, boa ideia. — Clementine forçou uma risada, entrando no jogo. — As malas estão lá embaixo, no carro.

Alexandria, Egito — Estação "A Linha" (Nível Subterrâneo -4)

Os corredores de concreto bruto pareciam se fechar sobre Benjamin Linus à medida que desciam. Ele mancava, escoltado por dois mercenários armados, enquanto Alvar Hanso caminhava à frente com uma vitalidade que desafiava sua idade.

O ar cheirava a produtos químicos e ozônio, um odor clínico que Ben associava a laboratórios da Dharma, mas numa escala muito mais sinistra.

— Quem poderia imaginar... — murmurou Ben, a voz ecoando no túnel. — A Dharma sempre foi compartimentada, mas uma estação desta magnitude no Egito? Além da estação em Guam que servia de entreposto?

Alvar parou diante de um elevador de carga industrial e digitou um código longo no painel. — A Iniciativa Dharma foi apenas a ponta do iceberg, Benjamin. Uma fachada pública, científica e hippie para algo muito mais antigo. — Alvar sorriu, o brilho malévolo nos olhos. — Lembra dos escândalos da fundação Hanso em 2006?

As portas do elevador se abriram com um silvo hidráulico.

— Eu me lembro — disse Ben, entrando cautelosamente. — Você foi exposto. Desmoralizado.

— Eu fui ocultado. — Alvar apertou o botão para o nível mais profundo. O elevador começou a descer rápido. — Eu orquestrei minha própria queda, Ben. Fiz o mundo acreditar que a Fundação Hanso tinha acabado, que eu era apenas um velho excêntrico vendendo barras de chocolate Apollo e prolongamento de vida falso. Enquanto o mundo ria da minha "farsa", eu trabalhava nas sombras, sem interferência, construindo isto.

O elevador parou. As portas se abriram para uma onda de ar gélido que fez Ben tremer visivelmente.

Eles entraram em uma câmara vasta, iluminada por luzes azuis frias. O zumbido de máquinas de suporte de vida era ensurdecedor. Fileiras e mais fileiras de gavetas de aço inoxidável revestiam as paredes, estendendo-se até onde a vista alcançava. Parecia um arquivo morto, mas o conteúdo era muito mais valioso que papel.

Alvar caminhou por entre as fileiras, passando a mão carinhosamente pelo metal gelado. — Bem-vindo ao "Arquivo Akáshico", Ben. Onde o passado espera para se tornar futuro.

Ele parou diante de uma gaveta específica. A etiqueta digital brilhava com um nome que fez o sangue de Ben congelar: ELOISE HAWKING.

Alvar acenou para um dos soldados. O homem puxou a gaveta.

Ben aproximou-se, hipnotizado. Deitada ali, sob uma cúpula de vidro fosco, envolta em névoa de nitrogênio, estava Eloise. Ela não parecia morta; parecia estar apenas dormindo. A pele estava corada, preservada com uma perfeição que desafiava a biologia. Não havia sinal do tiro, da idade, da decomposição.

— Ela está... perfeita — sussurrou Ben, tocando o vidro. — Por que você a mantém aqui? Eloise morreu. Eu sei que morreu.

— A morte é um conceito relativo quando se tem a tecnologia certa e a vontade de Taweret engarrafada. — Alvar fez um sinal, e a gaveta foi fechada, selando a matriarca novamente.

Alvar virou-se para Ben, a expressão triunfante. — Você acha que protegeu a Ilha, Ben. Mas você nunca entendeu o jogo. Nós não descartamos as peças importantes. Nós as guardamos. Guardiões, Líderes, Variáveis... todos acabam aqui.

Passos ecoaram no fundo da sala, ritmados, pesados. O som de sapatos de couro italiano batendo no metal.

Ben ficou tenso, virando-se para a escuridão do corredor entre as gavetas. — Quem está aí?

Uma figura emergiu da névoa fria. Ele vestia um sobretudo de lã escura, as mãos enfiadas nos bolsos com uma elegância aristocrática que Ben conhecia — e odiava — há décadas.

O homem parou sob a luz azul. Ele parecia mais velho, talvez com algumas cicatrizes a mais, mas era inconfundível.

— Olá, Ben.

Benjamin Linus recuou, batendo as costas em uma gaveta. Sua respiração ficou presa na garganta. Ele se lembrava do cheiro de pólvora. Lembrava-se de disparar três tiros no peito daquele homem. Ele vira a luz sair daqueles olhos.

Mas ali estava ele.

Charles Widmore.

— Charles?! — Ben engasgou, a realidade se fraturando ao seu redor. — Não... eu matei você. Eu vi você morrer na ilha. Como você pode estar aqui vivo?

Widmore tirou a mão do bolso e ajeitou a gola do sobretudo, um sorriso cruel nos lábios. — Você tentou, Benjamin. Mas como o Sr. Hanso disse... ninguém realmente sai do jogo a menos que ele permita.

Alvar Hanso colocou a mão no ombro de Ben, apertando com força. — Você perguntou por que eu o mantive vivo, Ben? — sussurrou Alvar no ouvido dele. — Porque eu preciso que você veja. Eu não estou apenas tomando a Ilha. Eu estou desfazendo a morte.

Ben olhou de Widmore para Hanso, e pela primeira vez em sua vida miserável, percebeu que estava diante de algo que nem suas mentiras poderiam combater. O inferno estava vazio, e todos os demônios estavam ali, naquela sala fria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.