Lost: O Primeiro Herdeiro
20 LIVRO 2 — CAPÍTULO 20: OS CANDIDATOS — PARTE 2
Los Angeles — Aeroporto Internacional (LAX) — Dezembro de 2007
O trem de pouso do Boeing 737 da Ajira Airways tocou o solo com um estrondo violento, levantando fumaça de pneus queimados. Dentro da cabine, não houve aplausos. Houve apenas o silêncio pesado de seis pessoas que deixaram suas almas para trás.
Frank Lapidus freou a aeronave na pista auxiliar, longe dos terminais principais. Ele desligou as turbinas, recostou-se na cadeira do piloto e suspirou, olhando para as mãos trêmulas. — Conseguimos — sussurrou ele. — Deus sabe como, mas conseguimos.
Na cabine de passageiros, Claire Littleton olhava pela janela. Concreto. Carros de bagagem. Civilização. Ela riu, um som baixo e maníaco. Ela estava suja, o cabelo loiro embaraçado como um ninho de pássaro, vestindo trapos da ilha. Mas ela estava em casa.
— Vamos — disse Richard Alpert, levantando-se. Pela primeira vez em séculos, ele tinha um fio de cabelo grisalho. A imortalidade havia ficado na ilha.
Eles desceram a escada de emergência apressados. Frank ficou para trás para lidar com as autoridades e inventar a mentira do século sobre o que acontecera com o resto dos passageiros.
Na pista de asfalto quente, Kate Austen parou. Ela olhou para o céu, chorando. James "Sawyer" Ford parou ao lado dela, o rosto marcado pela perda de Juliet e agora, de Jack.
— Nós o deixamos, James — disse Kate, a voz quebrada. — Deixamos o Jack para morrer.
— Ele escolheu ficar, Sardenta. — A voz de James era rouca, desprovida do charme habitual. — Ele tinha que consertar o que a gente quebrou.
— Poderíamos ter feito algo! — Kate virou-se para ele, furiosa. — Não foi justo!
James segurou o braço dela com força, obrigando-a a olhar para ele. — Escuta aqui. Eu sei que você amava o doutor. Eu sei. Mas ele se sacrificou para que esse avião decolasse. Se você ficar aí chorando, o sacrifício dele não vale nada. Eu estou aqui. Você está aqui. A Claire está aqui. Entendeu?
Kate puxou o braço, soltando-se com violência. Ela limpou as lágrimas com as costas da mão suja de fuligem. — Vá para o inferno, Sawyer.
Ela se afastou, caminhando até Claire, que parecia uma criança perdida no meio da pista.
Motel de beira de estrada — Algumas horas depois
O carpete do corredor do hotel era macio demais sob as botas gastas de Claire. Ela caminhava ao lado de Kate, segurando um esquilo de pelúcia encardido que trouxera da ilha — uma "lembrança" para Aaron.
Claire tremia. A maquiagem improvisada e as roupas limpas que Kate conseguira não conseguiam esconder o olhar selvagem de quem viveu na selva por três anos.
— Está tudo bem, Claire — disse Kate, parando em frente à porta do quarto 423. — Sua mãe está aí. E o Aaron também.
— E se ele não me reconhecer? — indagou Claire, a voz falhando. — Eu perdi tanto tempo, Kate. Eu fiquei... doente.
— Ele é seu filho. O sangue chama. — Kate forçou um sorriso encorajador, embora seu próprio coração estivesse se partindo. Ela criara Aaron como seu por três anos. Devolvê-lo era a coisa certa, mas parecia uma amputação.
Claire respirou fundo e bateu na porta.
— Já vou! — A voz de Carole Littleton soou do outro lado.
A porta se abriu. Carole, elegante e com os olhos vermelhos de quem chorou por anos, parou. Ela olhou para a mulher loira, magra e assustada à sua frente.
— Claire... — O nome saiu num suspiro. — Meu Deus! Claire!
Carole puxou a filha para um abraço esmagador. Claire desabou, chorando no ombro da mãe, sentindo o cheiro de perfume caro e realidade.
— Obrigada... obrigada... — Carole olhou para Kate por cima do ombro de Claire, os olhos cheios de gratidão eterna.
— Onde ele está? — perguntou Claire, afastando-se, ansiosa. — Onde está o meu bebê?
— Entre, querida.
Claire entrou na suíte. No tapete da sala, um menino loiro de três anos brincava com carrinhos. Ele usava um pijama de dinossauros. Era lindo. Era perfeito.
O coração de Claire parou. Todo o sofrimento, toda a loucura, toda a escuridão da ilha valeram a pena por este momento.
Ela se ajoelhou, estendendo os braços sujos, o "esquilo bebê" na mão. — Aaron? — chamou ela, a voz embargada. — Oi, meu amor. Sou eu.
Aaron levantou os olhos azuis. Ele olhou para aquela mulher estranha, intensa e chorosa. O medo cruzou o rosto do menino. Ele recuou, largando o carrinho.
— Não... — disse o menino, assustado.
— Sou eu, a mamãe — insistiu Claire, avançando um pouco, desesperada. — Mamãe voltou.
Aaron recuou até bater as costas no sofá, o lábio tremendo, prestes a chorar de medo da estranha.
Nesse momento, Kate entrou na sala.
O rosto de Aaron se iluminou como o sol. O medo sumiu instantaneamente. Ele correu, desviando de Claire como se ela fosse um obstáculo, e se jogou nas pernas de Kate.
— MAMÃE! — gritou ele, abraçando as coxas de Kate com força.
A palavra ecoou na sala como um tiro.
Claire ficou de joelhos, com os braços vazios estendidos. Ela olhou para o filho abraçando Kate. Ela viu o amor nos olhos dele. Um amor que deveria ser dela.
Algo quebrou dentro de Claire naquele momento. O "Esquilo" dentro dela rosnou.
Kate acariciou o cabelo de Aaron, as lágrimas escorrendo livremente agora. Ela sentiu o olhar de Claire queimando suas costas — não era gratidão, era traição.
— Ei, meu príncipe... — Kate se agachou, segurando o rostinho de Aaron. — Precisamos conversar.
— Você demorou, mamãe! — reclamou Aaron, fazendo bico.
— Eu sei. Me desculpe. — Kate olhou para Claire, que ainda estava congelada no chão. — Aaron, escute. Eu amo você. Eu te amo mais que tudo. Mas... lembra que eu te contei que sua mãe verdadeira tinha se perdido?
Aaron franziu a testa, confuso.
— Aquela é a sua mãe. — Kate apontou para Claire. — A Claire. Eu só... eu só cuidei de você para ela até ela voltar. Entendeu?
Aaron olhou para Claire, depois para Kate. — Não! Você é minha mãe! — Ele agarrou o pescoço de Kate, recusando-se a soltar.
Carole cobriu a boca, emocionada e triste.
Kate desprendeu os bracinhos dele com suavidade, mas com firmeza. Era a coisa mais difícil que ela já tivera que fazer. — Eu preciso ir agora, Aaron. Sua mãe e sua avó vão cuidar de você.
— Não vai! — Aaron começou a chorar alto.
Kate levantou-se, ignorando os gritos do menino, porque se ficasse mais um segundo, ela o roubaria de novo. Ela olhou para Claire. — Me desculpe, Claire. Por tudo. — Kate sussurrou. — Eu prometo que nunca mais vou me intrometer na sua vida.
Kate virou as costas e saiu correndo pela porta do quarto, deixando para trás os gritos de "Mamãe!" de Aaron, que não eram para a mulher que o deu à luz.
Claire permaneceu no chão. Ela olhou para a porta fechada, depois para o filho que chorava pela "outra". A alegria do reencontro fora envenenada. Kate Austen não tinha apenas salvado Aaron; ela o tinha roubado. E Claire nunca perdoaria isso.
A Ilha — Praia do Acampamento (Manhã)
O sol já estava alto, mas Aaron Littleton sentia frio. Ele estava sentado em um tronco trazido pela maré, com o diário de couro velho de Claire aberto em seu colo. As páginas estavam amareladas, manchadas de lágrimas secas e sujeira de vinte anos atrás.
Ele leu a última entrada, escrita dias antes do resgate da Ajira: "Eu sonhei com ele de novo. O Aaron. Ele estava grande, feliz... e ele não sabia quem eu era. Se eu tiver que ficar aqui para sempre para que ele tenha essa felicidade, eu fico. Eu aceito ser o esquilo, contanto que meu bebê seja livre."
Aaron fechou o caderno, sentindo um nó na garganta que nenhuma raiva podia desfazer. Ela não o abandonara. Ela se quebrara para protegê-lo.
Passos pesados na areia o fizeram erguer a cabeça. Hugo Reyes aproximou-se, deixando Roger e Bernard discutindo sobre nós de pesca na arrebentação. Hugo sentou-se ao lado de Aaron, o banco improvisado rangendo.
— Como você está, dude? — perguntou Hugo, suavemente.
— Eu acho que estou... entendendo. — Aaron passou a mão pela capa do diário. — Eu passei a vida toda com raiva dela. Achando que ela era louca, que não me amava o suficiente para ficar bem. Mas lendo isso... o que vocês passaram aqui... é inacreditável.
— É difícil julgar quem vive no inferno, Aaron. — Hugo olhou para o mar. — Sua mãe foi uma guerreira. Do jeito dela.
Aaron assentiu, o olhar perdido no horizonte. — Mas e agora, Hugo? Se eu aceitar... se eu virar o Guardião... eu nunca mais volto? Nunca mais vou ver um show, nunca mais vou beber uma cerveja com meus amigos? É uma sentença de prisão perpétua?
Hugo suspirou, pegando uma pedra e jogando na água. — Eu não vou mentir para você. É um sacrifício. Abandonei meus pais, não vi meu pai morrer e minha mãe me culpou por tudo e morreu sem saber da verdade.
— Então por que você ficou?
— Porque a alternativa é pior. — Hugo virou-se para ele. — Se a gente não segura a porta, Aaron, não existe "lá fora" para ninguém. Eu fiquei para proteger o mundo onde minha família vive. É uma troca. A sua liberdade pela segurança de todos eles.
Aaron olhou para Hugo. Pela primeira vez, não viu um sequestrador ou um louco. Viu um homem que carregava o peso do mundo nas costas e ainda conseguia sorrir.
— Eu julguei você errado, Hugo. — Aaron estendeu a mão. — Desculpe por ter sido um idiota.
Hugo sorriu e, em vez de apertar a mão, puxou Aaron para um abraço de urso. — Tudo bem, cara. Todo mundo surta na primeira semana. Bem-vindo ao clube.
A Ilha — Floresta Densa (Ao mesmo tempo)
Enquanto a paz reinava na praia, o caos silencioso tomava conta da mente de Walt Lloyd.
Ele parou no meio da trilha, fazendo Frank Lapidus e os soldados da Dharma estancarem. Diante de Walt, parado entre duas árvores banyan, estava John Locke. Careca, cicatriz no olho, olhando para ele com uma decepção paternal.
— Walt... — disse a figura.
— Você não é real — murmurou Walt, os olhos vidrados. — O Locke morreu. Eu sei que ele morreu. E você... você é o monstro que usou o corpo dele.
A figura de Locke sorriu. — Você é perspicaz. Mais do que o meu amigo que mal percebeu minha presença.
De repente, a pele de Locke começou a ondular como fumaça. O rosto derreteu e se reformou. O homem careca desapareceu, dando lugar a um homem negro de cabelos escuros, barba por fazer e roupas antigas, feitas de tecido rústico. Seus olhos eram poços de escuridão e cansaço.
— Interessante que você saiba quem eu sou — disse o homem, sua voz soando como pedras sendo moídas.
O cenário ao redor de Walt ficou branco. A floresta sumiu. Frank sumiu. Havia apenas ele e a entidade.
— Meu nome é Menn-Ut. Mas pode me chamar de Minut. — O homem abriu os braços. — E, assim como o meu amigo Han-baal... Hanbal, eu fui um Guardião desta ilha. Ou melhor... eu fui a outra metade da moeda.
— Hanbal? — Walt recuou no vazio branco. — Eu não sei quem é essa pessoa.
— Ah, você sabe, só não o conhece por esse nome ainda. — Minut riu, amargo. — Mas isso não importa. O que importa é que eu estou morto, Walt. O doutor Jack me matou quando tentei sair.
— Se você está morto, por que estou falando com você? — Walt tentou controlar o medo. — Então você é o Fumaça Negra?
— Essa era a minha forma de guerra. Mas esta... esta é minha alma. — Minut tocou o próprio peito. — Eu odiava este lugar, Walt. Eu passei milênios tentando sair. Eu manipulei, matei, menti... tudo para ver o mundo além do mar. E sabe o que eu descobri?
Minut aproximou-se, o rosto a centímetros do de Walt. — Que a minha existência depende desta ilha.
— O quê?
— Taweret nos deu poderes, mas nos prendeu à Fonte. Se a luz se apagar... se o Osíris vencer... a ilha morre. E se a ilha morrer, o "servidor" desliga. E eu, Walt... eu deixo de existir. Para sempre. O nada absoluto.
Walt engoliu em seco. — Você está com medo de sumir.
— Eu estou preservando o que restou de mim! — gritou Minut, e sua voz fez o vazio branco tremer. — Osíris, ou Alvar Hanso, como ele se chama agora... ele quer drenar a Fonte. Ele não se importa com a ilha, nem com o mundo.
— Alvar Hanso é o homem que me mandou aqui — disse Walt. — Ele disse que queria salvar o mundo da tirania dos Guardiões.
— Ele mentiu. — Minut revirou os olhos. — Ele é um parasita que troca de personalidade há séculos: Magnus, Tovard, Alvar... Ele quer o poder puro. E você, Walt, você abriu a porta para ele. No dia em que você fugiu pelo Templo e revelou a ele sobre minha morte.
A culpa atingiu Walt como um soco físico. — Eu só queria ir para casa... Eles me sequestraram.
— E agora, por sua causa, o fim de tudo está chegando. — Minut segurou os ombros de Walt. — Eu sou uma alma penada egoísta, garoto. Eu não ligo para a humanidade. Mas eu ligo para a minha existência. Se Osíris entrar, eu sumo. Então, eu preciso que você pare.
— Pare o quê?
— Pare de caçar o Aaron. Pare de ajudar o Wilbert. Junte-se ao Hugo. Ele é o único que pode consertar a bagunça que você fez.
Minut começou a desaparecer, voltando a virar fumaça. — O tempo acabou, Walt. Escolha o lado certo. Ou prepare-se para o escuro eterno.
A Ilha — Floresta (Realidade)
Walt puxou o ar com força, como se tivesse emergido de um afogamento.
A floresta voltou. O som dos insetos, o calor, o cheiro de mato. Ele estava de joelhos na trilha.
— Walt?! — Frank Lapidus estava agachado na frente dele, sacudindo seus ombros. — Garoto! Você está me ouvindo?
Walt piscou, focando no rosto preocupado do piloto barbudo. Os soldados da Dharma olhavam ao redor, nervosos com o transe do rapaz.
— Ele está bem? — perguntou um soldado.
— Eu... eu voltei. — Walt empurrou Frank e levantou-se, as pernas tremendo, mas o olhar focado.
— O que aconteceu? — perguntou Frank. — Você ficou parado aí, olhando para o nada, falando com ninguém por cinco minutos. Parecia uma estátua.
Walt olhou para a direção onde Aaron e Hugo tinham fugido. A raiva havia sumido, substituída por um terror frio e uma nova missão.
— Eu cometi um erro, Frank. — Walt limpou o suor da testa. — Um erro gigantesco.
— Do que você está falando? — Frank ajeitou o fuzil. — Vamos continuar a caçada ou não?
— Não. — Walt virou-se para os soldados da Dharma. — A caçada acabou.
— O Sr. DeGroot deu ordens claras... — começou um dos mercenários.
Walt estendeu a mão e, com um movimento brusco, pegou o fuzil do soldado ao seu lado e o arremessou longe.
— Eu disse que acabou! — gritou Walt. — Nós estamos do lado errado dessa guerra.
Ele olhou para Frank. — Precisamos encontrar o Hugo. Precisamos ajudar o Aaron. Antes que o Osíris chegue e apague todos nós.
Frank olhou para o garoto, depois para o fuzil jogado no mato. Ele suspirou, aliviado. — Achei que você nunca ia dizer isso, garoto. Vamos achar os mocinhos.
Nova York — Dezembro de 2007
A quadra de basquete no Brooklyn vibrava com o som de tênis cantando no asfalto. Walt Lloyd, vivendo sob o pseudônimo de "Keith Johnson", tentava ser apenas um adolescente normal de 13 anos. Ele driblou a bola, rindo de uma piada de um amigo, quando o mundo ao seu redor silenciou.
O ruído do trânsito de Nova York sumiu. O vento parou.
— Waaaaalt...
A voz não veio de fora. Ela ecoou dentro do crânio dele, úmida e urgente. Era a voz de seu pai.
Walt parou bruscamente no meio da jogada, a bola escapando de suas mãos. Ele olhou para o céu, onde um bando de pássaros voava. De repente, um dos pássaros parou no ar, despencou e caiu morto aos pés dele com um baque seco.
— Keith? — Um dos amigos parou, assustado. — Cara, você viu isso? O passarinho caiu do nada.
Walt não olhou para o pássaro. Ele olhava para o horizonte, seus olhos vidrados, focados em algo a milhares de quilômetros dali. — Ele está me chamando... — sussurrou Walt. — Ele precisa de ajuda.
— Quem? — perguntou o amigo. — Você tá legal?
— Esqueçam. — Walt pegou sua mochila, tremendo. A conexão tinha sido forte demais. — Vocês não entenderiam.
Ele saiu da quadra apressado, deixando os amigos confusos para trás.
Ao chegar em casa, Walt subiu as escadas correndo, ignorando a TV ligada na sala. Sua avó, que estava na cozinha, ouviu a porta bater.
— Keith? — chamou ela. — É você?
Nenhuma resposta.
Minutos depois, ela subiu com uma bandeja de jantar. Encontrou o neto deitado na cama, olhando para o teto. A janela do quarto estava fechada, mas Walt parecia ouvir algo do lado de fora.
— Você não comeu nada o dia todo, querido — disse ela, preocupada.
— Não estou com fome.
— O que aconteceu? A escola ligou semana passada, disseram que você estava distraído. E agora seus amigos dizem que você saiu correndo da quadra.
— Eu não quero falar sobre isso.
A avó suspirou, sentando-se na beira da cama. — Você tem tido aqueles sonhos de novo? Com a ilha?
Walt virou-se para ela, os olhos cheios de angústia. — Não são sonhos, vó. Ele está gritando. O meu pai. Ele diz que está preso. Que não consegue seguir em frente.
— Seu pai se foi, Keith. — A voz dela era firme, mas triste. — Michael fez escolhas ruins, mas ele não vai voltar. Você precisa aceitar isso.
— Ele não "se foi"! — Walt sentou-se na cama, irritado. — Eu sinto ele! É como se ele estivesse numa caixa escura, batendo nas paredes!
— Chega. — A avó levantou-se. — Eu não vou deixar você se perder nessas fantasias. Amanhã você tem consulta com a Dra. Diana no Santa Monica. E você vai.
— Eu não sou louco! E pare de me chamar de Keith Johnson! Esse não é meu nome!
— É o nome que te mantém vivo! — Ela saiu do quarto, fechando a porta com força.
Walt deitou-se novamente, cobrindo os ouvidos com o travesseiro, mas a voz de Michael continuava lá, sussurrando através do oceano: "...ajude-me, filho..."
Hospital Santa Monica, filial Nova York — Dia Seguinte
O consultório da Dra. Diana era silencioso demais. Walt estava sentado na poltrona, balançando a perna.
— Por que você acredita que seu pai está chamando você de volta, Keith? — perguntou a psiquiatra.
— Eu não "acredito". Eu ouço. — Walt respondeu, frustrado. — Ele me mandou embora daquela ilha num barco. Ele ficou para trás. Todo mundo diz que ele morreu, mas ninguém viu o corpo. E agora... agora ele fala comigo.
— Keith, o luto pode se manifestar de formas complexas. Às vezes, a mente cria vozes para não ter que lidar com o silêncio da perda.
— Você acha que eu sou louco. — Walt levantou-se. — Ninguém acredita em mim. Acham que sou uma criança traumatizada. Mas eu sou especial. Eu sempre fui.
— Sente-se, por favor.
— Não. Eu cansei de falar. — Walt caminhou até a porta. — Vocês não podem me ajudar. Ninguém pode.
Walt saiu do consultório, deixando a médica para trás. Ele caminhou pelo corredor do hospital, sentindo-se um alienígena. Ele se sentou em um banco na sala de espera, apoiando a cabeça nas mãos.
A porta de outro consultório se abriu. Um homem saiu, guardando uma receita médica no bolso da jaqueta jeans. Ele parecia cansado, os olhos varrendo o ambiente com a paranoia de quem espera um ataque a qualquer momento.
Walt levantou a cabeça. Aquele andar...
— Sawyer? — sussurrou Walt.
James Ford parou. Ele olhou para o garoto no banco. O reconhecimento demorou um segundo, mas então um sorriso genuíno quebrou a máscara de cansaço.
— Não pode ser... — James aproximou-se. — Pequeno Príncipe?
— Sawyer! — Walt levantou-se e os dois se abraçaram. Era um abraço desajeitado, mas cheio de alívio mútuo.
Minutos depois, eles estavam sentados num banco do lado de fora do hospital. James acendeu um cigarro, as mãos tremendo levemente.
— Ataques de pânico — explicou James, notando o olhar de Walt. — Quem diria, hein? Sobrevivi a fumaças assassinas e mercenários, mas a cidade grande me faz suar frio.
— Você está vendo alguém? — perguntou Walt.
— Um psiquiatra caro pago pela Widmore. — James soltou a fumaça. — Faz parte do acordo de silêncio. Eles nos mantêm confortáveis e dopados.
— E a Kate?
— Estamos... nos adaptando. Cada um no seu canto. — James olhou para o horizonte. — E você, garoto? O que faz num lugar desses?
— O mesmo que você. Ninguém acredita em mim, Sawyer. — Walt baixou a voz. — Eu sinto meu pai. Ele está me chamando de volta para a ilha. Ele diz que não consegue sair.
James ficou sério. Ele jogou o cigarro fora e olhou nos olhos de Walt. — Escuta aqui. Esqueça aquela ilha.
— Mas ele precisa de ajuda...
— Aquele lugar já tirou o suficiente da gente. Tirou seu pai, tirou a Juliet... — A voz de James falhou. — Se você voltar, a ilha vai te pegar de novo. Seu pai fez o que fez para te tirar de lá, Walt. Honre isso ficando longe.
Walt olhou para o amigo. Ele queria seguir aquele conselho. — Eu vou tentar.
— Bom. — James levantou-se. — Eu vou tentar consertar os erros do meu jeito. Preciso reencontrar minha filha também. Muita bagunça.
— Boa sorte, Sawyer.
— Foi bom te ver vivo, Walt. — James bagunçou o cabelo do garoto. — Fique longe de problemas.
Os dois se despediram. James seguiu seu caminho, tentando consertar o futuro com Clementine, sem saber que o destino da filha dele acabaria cruzando novamente com o garoto que ouvia vozes, e que "esquecer a ilha" era um luxo que nenhum deles teria.
A Ilha — Praia do Acampamento
Aaron Littleton fechou o diário de sua mãe. O couro gasto parecia quente sob seus dedos, pulsando com a história não contada de Claire. Ele olhou para o mar, para a linha do horizonte que ele talvez nunca mais cruzasse.
Ele se levantou, limpando a areia da calça. O medo ainda estava lá, mas a dúvida havia desaparecido. — Eu aceito, Hugo.
Hugo, que observava o mar com um olhar distante, virou-se rapidamente. — Tem certeza, dude? Você sabe que não tem volta. Uma vez que você beber...
— Eu sei. — Aaron olhou para a cicatriz no próprio braço. — Minha mãe ficou aqui para que eu pudesse viver. Agora eu vou ficar para que o sacrifício dela continue valendo a pena. O que precisamos fazer?
Hugo sorriu, um sorriso de alívio imenso, mas tingido de tristeza. Ele fez um sinal para Aaron segui-lo e caminhou até onde Roger e Bernard recolhiam as redes de pesca.
— Precisamos ir — disse Hugo, a voz grave cortando a tranquilidade doméstica do casal. — Não estamos seguros aqui. Temos que levar o Aaron para a Fonte.
Bernard franziu a testa, limpando as mãos. — O que houve, Hugo?
— O Walt está vindo. — Hugo olhou para a linha das árvores. — E ele está trazendo o exército da Dharma com ele.
— O Walt? — Bernard sorriu, incrédulo. — Aquele garoto doce? Hugo, ele deve estar confuso. Nós podemos conversar com ele...
— Aquele garoto não existe mais, Bernard. — Hugo foi duro, necessário para o momento. — O que está vindo aí é um homem desesperado liderando lobos. Não temos tempo para diplomacia. Peguem o que puderem carregar. Vamos para o Coração da Ilha.
Estação Orquídea — Subsolo Profundo
Quilômetros dali, Benjamin Linus descia para as entranhas da terra.
Ele atravessou a estufa abandonada da Estação Orquídea e pegou o elevador de carga até o nível inferior. O ar ficou mais frio a cada metro. O zumbido eletromagnético começou a pressionar seus tímpanos.
Ben entrou na câmara atrás da parede falsa. Ele conhecia aquele caminho. Ele já estivera ali anos atrás, quando girou a roda para esconder a ilha de Charles Widmore. Naquela época, o ato o expulsara para o deserto da Tunísia. Ele sabia que o preço seria alto novamente.
Ele caminhou pelos túneis de gelo, sua respiração formando nuvens de vapor.
— Sempre sobra para mim o trabalho sujo... — murmurou Ben, tremendo de frio.
Ele chegou à câmara final. A Roda Congelada estava lá, presa no eixo, emanando uma luz pálida e fria. Se ele a girasse, a ilha se moveria no espaço-tempo. Desorientaria os radares de Wilbert, confundiria o Walt e daria a Hugo tempo para iniciar Aaron.
Ben agarrou um dos raios da roda. O gelo queimou suas mãos. Ele fez força. A roda gemeu, antiga e teimosa.
— Vamos... — grunhiu Ben, empurrando com todo o peso do corpo. Não conseguiu de cara, então parou de empurrar para tentar ganhar fôlego novamente.
Estação Orquídea — Superfície (Estufa)
Do lado de fora, Clementine Phillips estava sentada em um caixote de madeira, abraçando os próprios joelhos. Ela olhava para os dois jovens que Hugo deixara ali de vigia: Zack e Emma.
Eles não pareciam soldados, nem sobreviventes comuns. Eles tinham uma calma inquietante, limpando armas e organizando suprimentos com uma eficiência silenciosa.
— Então... — Clementine tentou quebrar o silêncio desconfortável. — O Hugo disse que vocês também estavam no voo 815?
Emma, uma garota loira com olhar distante, assentiu sem parar de polir uma faca. — Nós estávamos na cauda. Caímos na água. Os "Outros" nos levaram na primeira noite.
— Emma e eu crescemos aqui — completou o rapaz, que tinha uma expressão dura para sua idade. — O Templo foi nossa casa. Depois a praia. Jacob cuidou de nós. Depois o Hugo.
— É estranho... — Clementine franziu a testa. — Vocês falam como se fosse normal. Ser sequestrado. Crescer numa ilha mágica.
— O que é normal? — Emma levantou os olhos. Eram olhos velhos num rosto jovem. — O mundo lá fora, com suas guerras e dinheiro? Ou aqui, onde a vida tem propósito?
Clementine sentiu um arrepio. Eles eram doutrinados. Eram filhos da Ilha.
De repente, o chão tremeu. Um tremor profundo, geológico, acompanhado por um som de moagem que parecia vir do centro da Terra. Os pássaros na floresta levantaram voo em pânico.
Clementine levantou-se num salto, assustada. — O que é isso? Um terremoto?
Zack nem se mexeu. Ele olhou para o chão, calmo. — É o Ben.
— O que ele está fazendo lá embaixo? — Clementine perguntou, a voz subindo uma oitava. — Ele disse que ia "ganhar tempo".
— Ele está movendo a ilha — disse Emma, como se estivesse comentando sobre a previsão do tempo.
— Esse papo de novo? — Clementine riu de nervoso. — Como assim "movendo"? Isso é impossível. Placas tectônicas não se movem sob comando!
— Não é tectônica. É tempo. — Zack olhou para Clementine com pena da ignorância dela. — Sugiro que você segure em algo.
Nova York — Dezembro de 2007
A chuva batia contra a janela do apartamento de luxo no Upper West Side, um imóvel pago pela Widmore Corporation como parte do "pacote de silêncio".
James Ford não tinha guarda-chuva. Ele chegou encharcado, cheirando a uísque barato e determinação, e esmurrou a porta de madeira maciça.
— Já vai! Calma! — O grito de Kate Austen veio de dentro, impaciente.
James ouviu o som da tranca girando. A porta se abriu. Kate estava vestindo um roupão de seda, o cabelo desgrenhado, os olhos inchados. Ela parecia uma rainha exilada em seu próprio castelo.
— O que você quer, Sawyer? — perguntou ela, bloqueando a entrada.
James apoiou a mão no batente, abrindo aquele sorriso torto que costumava desarmá-la na selva. — Por favor, me chame de James. Estamos na civilização agora, Sardenta. Vamos começar com o pé direito.
Kate cruzou os braços, sentindo o cheiro do álcool nele. — Você está bêbado.
— Estou "ajustado". — James suspirou, a máscara caindo por um segundo. — Ainda estou tentando entender como se vive sem ter que vigiar a linha das árvores a cada cinco segundos.
Kate o observou. Ela viu a dor nos olhos dele. A mesma dor que ela via no espelho toda manhã. A falta de Juliet. A falta de Jack.
— Não vai me convidar para entrar? — provocou ele.
Kate hesitou, mas deu um passo para o lado. James entrou, trazendo o frio da rua consigo. Ele tirou o casaco molhado e jogou no chão de mármore. Depois começou a desabotoar a camisa.
— O que você está fazendo? — Kate recuou, confusa.
— Parando de fingir. — James caminhou até ela. — Eu sei que você sente o mesmo vazio que eu. Eu sei que você não consegue dormir sem remédios.
— James, pare. — Kate colocou as mãos no peito dele, tentando empurrá-lo. — Eu não sou a Juliet. Eu não vou preencher o buraco que ela deixou.
— E eu não sou o Doutor. — James segurou os pulsos dela com firmeza, mas sem violência. — Mas o Doutor está morto, Kate. E a Juliet também. Só sobramos nós. Dois golpistas tentando fingir que são gente decente.
Kate olhou nos olhos dele. A verdade brutal daquelas palavras quebrou sua resistência. Ela estava sozinha. Tão sozinha que doía fisicamente.
— James... — sussurrou ela.
Ele não esperou. Puxou-a para si e a beijou, um beijo desesperado, com gosto de uísque e lágrimas. Kate cedeu, agarrando-se a ele como se fosse a única coisa sólida num mundo que desmoronara.
Horas depois, o quarto estava mergulhado na penumbra. Eles estavam deitados, os lençóis emaranhados, o silêncio pós-coito preenchido apenas pelo som da chuva.
— Eu vi o Walt hoje — comentou James, olhando para o teto. — No hospital. Ele está enorme. É estranho ver as crianças crescendo quando a gente parou no tempo.
— O Walt? — Kate virou-se para ele. — Ele está bem?
— Não. — James acendeu um cigarro. — Ele ouve vozes. A ilha não soltou ele, Kate. Assim como não soltou a gente.
Kate suspirou, apoiando a cabeça no peito dele. — Eu entreguei o Aaron para a Claire semana passada.
James sentiu a tensão no corpo dela. — Como foi?
— Horrível. — A voz de Kate falhou. — Ela me olhou com ódio, James. Não gratidão. Ódio. O Aaron não queria ficar com ela. Ele chorou por mim. Eu sinto que... eu sinto que roubei o filho dela e depois devolvi quebrado.
— A Claire passou três anos sendo manipulada pelo Locke careca maluco. A cabeça dela não está no lugar. — James acariciou o braço dela. — Dê tempo ao tempo.
— Eu não sei se tenho tempo. — Kate fechou os olhos. — Sinto que estamos vivendo hora extra.
— Vai ficar tudo bem. — James tentou soar convincente. — Nós temos dinheiro, temos identidades novas. Vamos construir algo, Sardenta. Eu e você.
Batidas na porta da sala cortaram o momento. Eram batidas secas, autoritárias.
— Droga... — James resmungou. — Ignora. Deve ser serviço de quarto ou algum vizinho reclamando do barulho.
— São três da tarde, James. Ninguém reclama de barulho. — Kate levantou-se, vestindo o roupão rapidamente. — Deixa que eu atendo.
James bufou, vestindo as calças enquanto a observava sair. Ele sentiu um arrepio na nuca. O instinto de sobrevivência, adormecido pelo uísque, acordou.
Kate abriu a porta.
No corredor, não havia serviço de quarto. Havia dois homens enormes de terno preto, com fones no ouvido. E entre eles, um homem idoso. Ele vestia um terno cinza impecável. Seus olhos eram de um azul gélido, antigo.
— Olá, Kate — disse o homem, com uma voz suave e culta. — Posso entrar?
Kate travou. Ela nunca vira aquele homem, mas ele exalava poder. — Quem é você? Como sabe meu nome?
James apareceu atrás dela, abotoando a camisa, a mão discretamente perto de onde ele escondera uma arma na sala (mas ele estava longe). — Algum problema, Sardenta?
O homem idoso sorriu ao ver James. — Sr. Ford. Excelente. Economiza uma viagem. — O homem fez um sinal, e os seguranças empurraram a cadeira para dentro, forçando Kate e James a recuarem. — Meu nome é Alvar Hanso. Estou atrapalhando o sono de beleza dos heróis?
— Hanso? — James franziu a testa. — Acho que ouvi seu sobrenome nos vídeos de orientação da Dharma. Fundação Hanso, isso...
— A fundação leva o nome da minha família. — Alvar posicionou a cadeira no centro da sala, dominando o ambiente. — Mas eu não estou aqui para falar de filantropia.
James e Kate sentaram-se no sofá, tensos. Alvar os observava como um colecionador avalia insetos raros.
— É impressionante — comentou Alvar. — Jacob sempre teve um fraco por almas quebradas. Ver que vocês saíram daquela ilha praticamente ilesos é... decepcionante.
— Como você sabe sobre Jacob? — indagou James, ficando sério.
— Eu sei de tudo, James. Eu assisto a esse jogo há milênios. — Alvar inclinou-se levemente. — Eu apostava em você. Sempre achei que o vigarista tinha mais potencial de sobrevivência. Mas a vaga de Guardião era do Jack, não era? Ele sempre foi o mártir perfeito.
James deu um sorriso sarcástico, escondendo o nervosismo. — O Doutor tinha complexo de herói. Eu só queria sair vivo.
— Por que você está aqui? — interrompeu Kate, irritada. — O que você quer?
Alvar ficou sério. O ar na sala pareceu esfriar. — Eu quero uma confirmação. Apenas me digam uma coisa: ele está morto?
— Quem? — perguntou James.
— Minut. — Alvar disse o nome com uma gravidade estranha. — Ou, como vocês talvez o conheçam... o Monstro. A Fumaça. O homem que usava o rosto de John Locke no final.
James e Kate trocaram um olhar. — Minut? — James riu, nervoso. — Desculpe, vovô. A gente chamava ele de "Smokey". E se você quer saber se ele morreu... bom, o Jack ficou lá para garantir isso. Nós voamos antes de ver o corpo esfriar.
— Então vocês não viram ele morrer. — Alvar apertou as mãos. — Vocês fugiram antes do fim.
— Olha, se você veio aqui para fazer perguntas sobre fantasmas, perdeu a viagem. — James levantou-se. — Se nos der licença, estamos num momento privado. A porta é serventia da casa.
— Insolente como sempre. — Alvar suspirou. — Se não podem me dar informações, ao menos me deem serventia. Trabalhem para mim.
— Não estamos distribuindo currículos. — James caminhou até a porta e a abriu. — Passar bem.
Num movimento rápido, um dos seguranças de Alvar sacou uma pistola com silenciador e a pressionou contra a testa de James.
— James! — gritou Kate.
James congelou, olhando para o cano da arma entre seus olhos.
— Eu não me importo nem um pouco em estourar seus miolos aqui e agora, Sr. Ford — disse Alvar, calmamente, ajustando o cobertor. — Você é dispensável. Existem outros que saíram naquele avião. A Claire... o Miles... o Richard. Alguém vai me dar as respostas.
Alvar fez um sinal sutil. O segurança baixou a arma e se afastou.
— Considere isso um aviso. — Alvar virou em direção à porta. — O mundo é grande, mas a minha paciência é curta. Aproveitem sua "liberdade", crianças. Enquanto ela durar.
Os homens saíram, deixando James e Kate tremendo na sala de estar luxuosa que agora parecia uma prisão.
— Quem diabos era aquele? — sussurrou Kate.
James fechou a porta e trancou, passando a corrente. — Eu não sei, Kate. Mas ele fez o Charles Widmore parecer um escoteiro. Não temos um minuto de paz.
— Pelo visto, a ilha veio com a gente.
Térreo do Edifício — Minutos depois
Alvar Hanso saiu do prédio, o vento de Nova York bagunçando seus cabelos brancos. Ele sorria, satisfeito. A ignorância deles era uma resposta por si só: se eles não sabiam se Minut estava morto, significava que a tranca estava provavelmente vulnerável. Mas ele precisava confirmar.
— Para onde agora, senhor? — perguntou o chefe da segurança, abrindo a porta da limusine.
— Temos mais uma parada — disse Alvar. — O nome dele é Ricardus. Mas hoje em dia ele atende por Richard Alpert. Ele viveu tempo demais servindo a Jacob. Tenho uma proposta de imortalidade real que ele não vai conseguir recusar.
A limusine partiu, deslizando pelas ruas molhadas, carregando o homem que esperara milênios para finalmente voltar para casa.
A Ilha — Trilha para o Centro
Hugo Reyes liderava o grupo, abrindo caminho na vegetação densa com seu facão. Atrás dele, Aaron, Ji Yeon, Jessy e Roger caminhavam em silêncio tenso. O ar estava pesado, carregado de estática.
De repente, a trilha foi bloqueada. Walt, Frank Lapidus e uma dúzia de soldados da Dharma emergiram da mata, cercando o grupo. Roger reagiu por instinto, levantando seu fuzil, mas viu os pontos de laser vermelhos dançando em seu peito. Eram muitos.
— Esperem! — Walt ergueu a mão, parando seus homens. — Não viemos aqui para um confronto.
Hugo, suando frio, deu um passo à frente, protegendo Aaron. — O que você está fazendo aqui, Walt?
— Que bom te ver também, Hugo. — Walt sorriu, um sorriso cansado e irônico. — Tive uma visão. Eu vi o John Locke. Ou o que sobrou dele. Uma entidade que se chamava Minut.
Aaron franziu a testa, confuso. — Minut? Quem é esse?
— É a Fumaça Negra? — perguntou Hugo, o medo antigo voltando.
— A alma dele. — Walt assentiu. — Ele me disse que eu cometi um erro. Que trazer o Osíris para cá é suicídio. Ele me alertou sobre o perigo.
Ji Yeon revirou os olhos, soltando uma risada incrédula. — Pronto. Mais um maluco ouvindo vozes.
— Ele não é maluco — defendeu Aaron, lembrando-se de Charlie. — Ele me disse a verdade sobre o Ben. Mas ele sequestrou a Clementine. Não podemos confiar nele.
— A Clementine está com o Ben — disse Walt, amargo. — Ela não está mais sob meu controle.
Roger respondeu de maneira irônica, sem baixar a arma: — Só trocou o vingativo pelo psicopata. Ela ainda corre perigo.
Hugo, ignorando o sarcasmo, focou em Walt. — Walt, o que exatamente esse "Minut" te disse?
— Ele disse que se Osíris vier, a ilha morre. E ele some. — Walt olhou para o céu. — Precisamos impedir isso.
Ji Yeon, impaciente, interrompeu: — Pessoal, por favor! Vocês não percebem o quão absurdo isso soa? Deuses, monstros de fumaça, entidades com nomes esquisitos... Parece que estamos vivendo em um conto de fadas ruim. Eu cansei.
Jessy olhou para os lados, nervosa. — Eu concordo que é loucura, Ji Yeon. Mas depois de tudo que vimos... fantasmas, mortes...
— Chega desse impasse! — gritou Hugo, tomando uma decisão. Ele sabia que Ben estava sumido e isso só podia significar uma coisa: o plano de emergência estava em andamento. — Quem não acredita, que vá embora. Quem acredita, siga-me para a Fonte. Agora.
— Pra mim, chega. — Roger baixou o fuzil e virou as costas. — Eu não vou participar de missa negra nenhuma de novo. Vou procurar um barco.
Roger deu dois passos, mas os soldados de Walt bloquearam o caminho, engatilhando as armas.
— Você não vai a lugar nenhum — afirmou Walt, com firmeza. — Ninguém sai.
— Não é necessário chegar a isso, Walt — tentou Hugo.
— É necessário. Ninguém sai até resolvermos isso.
— Pessoal... — Hugo suspirou, vendo que a diplomacia tinha acabado.
De repente, o chão teve um leve tremor.
— Sentiram isso? — Indagou Jessy. Todos ficaram trocando olhares assustados.
Estação Orquídea — A Roda Congelada
Quilômetros abaixo deles, na caverna gelada e profunda, Benjamin Linus estava diante da Roda antiga. O frio era absoluto, mas ele suava. Ele sabia o que precisava fazer. Girar aquela roda moveria a ilha no espaço-tempo, bagunçaria os radares de Wilbert e daria a Hugo uma chance.
Ben segurou um dos raios da roda novamente, sentindo o gelo queimar sua pele.
— Não faça isso.
A voz ecoou na câmara. Grave, autoritária.
Ben girou. Uma figura emergiu das sombras. Era um guerreiro, o rosto coberto por cicatrizes de batalhas antigas, vestindo uma armadura de couro e peles que parecia ter milênios.
— Você... — Ben recuou, confuso. Ele nunca tinha visto aquele homem, mas aqueles olhos azuis... havia algo perturbadoramente familiar neles. — Quem é você? Mais um fantasma para me assombrar?
— Não sou um fantasma, Ben. Só apareço para quem interessa conversar. — O guerreiro deu um passo à frente. — Sou o Primeiro Guardião.
— Então você existe? Então Hugo não é completamente maluco.
— O tempo não funciona como você pensa. — O homem apontou para a roda. — Se você girar isso, não sabemos o que vai ocorrer desta vez. Desde a morte do Homem de Preto, a estabilidade acabou. Você pode nos jogar para o inferno.
— Eu não tenho a habilidade do Hugo de ver mortos — retrucou Ben, desconfiado. — Quem garante que você não é outra manipulação? Como o fumaça me fez uma vez usando minha filha?
— Porque eu estou te avisando para não fazer algo que você quer desesperadamente fazer. — O guerreiro aproximou-se. — Pare de tentar ser o herói do seu jeito torto, Ben. A ilha não precisa da sua astúcia agora. Ela precisa da verdade.
— Você fala como se me conhecesse.
— Eu conheço seus erros melhor do que ninguém. — O homem suspirou. — Não toque na roda.
Ben olhou para o guerreiro, depois para a roda. A teimosia, o vício eterno de Benjamin Linus em estar no controle, venceu.
— Desculpe. Mas eu prefiro o caminho que eu conheço. — Ben agarrou a roda com as duas mãos e, com um grito de esforço, empurrou.
— BEN! — gritou o guerreiro.
O gelo estalou. A roda girou fora do eixo. A luz violeta explodiu, cegante e violenta. O guerreiro desapareceu da caverna instantaneamente com um a urgência palpável.
A Ilha — Superfície (O Impasse)
O chão tremeu. Um tremor profundo que fez Roger e os soldados perderem o equilíbrio. Um zumbido agudo, quase ensurdecedor, perfurou os ouvidos de todos.
— O que está acontecendo? — gritou Jessy, tapando os ouvidos.
De repente, o ar ao lado de Aaron cintilou e rasgou-se. O guerreiro marcado por cicatrizes materializou-se ali, vindo do nada.
— Quem é você?! — Aaron recuou, assustado com a aparição súbita.
Todos olharam. Hugo arregalou os olhos. — É ele... O Primeiro Guardião.
Ji Yeon apertou os olhos, notando algo nos traços do estranho. — Ele... ele se parece com o Aaron.
O guerreiro olhou para Aaron com uma tristeza infinita. — Eu não me pareço com o Aaron. — A voz dele era pesada como uma sentença. — Eu sou o Aaron.
Um silêncio chocado caiu sobre o grupo.
— Já faz anos que não uso esse nome — continuou o homem, que agora se revelava como Hanbal. — Meu nome agora é Hanbal. Ben moveu a ilha. O tempo vai se dobrar. Eu vou levar você comigo, Aaron, aproveitando o impulso magnético. Vou leva-lo para o tempo dos Aterianos. Para onde tudo começou.
— O quê? — Aaron balbuciou.
— Preparem-se, pois, a ilha vai viajar no tempo a partir de agora.
Antes que Aaron pudesse questionar, o céu ficou branco. O flash de luz engoliu a floresta, o mar, o navio onde Yan e Bianca lutavam contra as cordas, e o helicóptero onde Wilbert observava.
A ilha desapareceu do oceano, levando todos com ela para o abismo do tempo.
Novo México — Hospital Universitário de Alburquerque
No mesmo instante em que a ilha sumiu do radar, um monitor cardíaco em um quarto de luxo disparou.
Richard Alpert abriu os olhos, puxando o ar com força, acordando subitamente de um coma induzido. Ele sentou-se na cama, arrancando os acessos venosos, o coração martelando.
— Bem-vindo de volta, Ricardus.
Richard olhou para o lado. Alvar Hanso estava sentado em sua cadeira de rodas.
— Alvar... — Richard sussurrou, reconhecendo a aura de seu antigo dono. — Por que estou vivo?
— A gente poderia ter te deixado morrer naquele aeroporto, mas você foi socorrido a tempo. — Alvar sorriu. — E perder meu melhor escravo? Jamais. Jacob te salvou naquela época, mas agora, fora da ilha, você está em minhas mãos novamente.
— O que você quer? — Richard tentou se levantar, fraco.
— Saia dessa cadeira. — Richard olhou para as pernas do velho. — Eu sei que você não precisa dela.
Alvar Hanso sorriu. Ele jogou o cobertor de lado e levantou-se. Ficou de pé, imponente, a fragilidade da velhice desaparecendo.
— Quero que você se infiltre na Widmore e execute o projeto Gênesis — ordenou Alvar, caminhando até a cama. — Ajude Wilbert a projetar meu retorno.
— E por que eu faria isso? — desafiou Richard.
Alvar inclinou-se, seus olhos brilhando com poder antigo. — Porque eu sou um deus, Richard. E você me deve a vida, porque eu te trouxe de volta.
— Eu não pedi...
Alvar o interrompeu. — Você não teve escolha.
Alvar voltou para sua cadeira, sorriu friamente e disse:
— E não precisa mais fingir que você não sabe quem eu sou de verdade. Eu sou Osíris, o deus da ressureição e do submundo. O seu deus. Quem te trouxe de volta à vida.
Richard recostou-se no travesseiro, olhando para o homem que se declarava divino. Ele sabia que a verdadeira guerra tinha acabado de começar.
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