Lost: O Primeiro Herdeiro
18 LIVRO 2 — CAPÍTULO 18: O PESO DA COROA
A Ilha – Outubro de 2017 – Dias após a partida de Desmond
O crepúsculo na Ilha não era apenas o fim do dia; era o momento em que a barreira entre o real e o impossível parecia derreter. A clareira próxima à Gruta da Luz estava mergulhada em um tom âmbar profundo. Hugo estava sentado em um tronco caído, observando o brilho suave que emanava do coração da Ilha, enquanto Benjamin Linus andava de um lado para o outro, seus passos esmagando folhas secas com uma impaciência rítmica.
— Eu já vi esse filme antes, Hugo — Ben começou, a voz carregada de um ceticismo ácido. — Nós damos uma missão a um homem, damos a ele esperança, e ele nos dá as costas na primeira oportunidade. O que te faz pensar que o Desmond não vai simplesmente desaparecer na Tunísia e nunca mais voltar?
Hugo suspirou, sem desviar os olhos da luz. — O Desmond não é como você, Ben. Ele não faz as coisas por estratégia. Ele faz por amor. E é por isso que ele vai conseguir.
Ben parou, seus olhos de inseto fixos no Protetor. — Amor é uma variável instável. E essa "emergência" sobre Osíris... foi conveniente demais. Quase teatral. — Ele deu um passo à frente, baixando o tom. — O que você não está me contando? Por que eu sinto o cheiro de um segredo, e ele está vindo de você?
Hugo hesitou, o olhar de culpa traindo-o instantaneamente. — Não tem segredo, cara. É só... pressão.
— Não minta para mim — Ben retrucou, com um sorriso frio. — Eu passei quarenta anos mentindo para pessoas que achavam que me conheciam. Eu sei quando o silêncio tem peso.
Hugo finalmente cedeu, passando a mão pelo cabelo cacheado. — Tá legal, você venceu. Eu sabia que o Osíris ia agir, Ben. Eu sabia antes do Desmond partir. Eu venho conversando com o Guardião há semanas.
Ben franziu a testa, confuso. — O Guardião? Você quer dizer o Jacob ou aquele fantasma do templo?
— O fantasma — Hugo apontou para uma pedra lisa e coberta de musgo a poucos metros deles. — Ele está sentado ali agora. Assistindo a gente discutir.
Ben olhou para a pedra. Estava vazia. O silêncio da selva parecia rir dele. Ele sentiu um arrepio de raiva e medo percorrer sua espinha.
— Já chega, Hugo. — Ben balançou a cabeça, a voz subindo de tom. — Eu aceitei ser o seu número dois porque achei que seríamos uma equipe. Mas esse papo de Osíris e Taweret... me parece o tipo de delírio que o Jacob usaria para nos manter na linha. Se isso fosse real, por que o Jacob nunca mencionou?
— Porque o Jacob só via o que ele pode ver, Ben — Hugo disse suavemente. — Ele era um candidato, como nós fomos. Ele não conhecia a história toda.
Ben soltou uma risada amarga e virou as costas. — Eu vou para o acampamento. Avise ao seu amigo invisível que, se ele quiser que eu acredite nele, vai precisar de algo melhor do que uma pedra vazia.
Hugo observou Ben desaparecer na densa vegetação. Quando os passos do antigo líder dos Outros cessaram, Hugo virou-se para a pedra.
— Você podia aparecer para ele, sabe? Acabaria com esse climão.
O ar acima da pedra ondulou como o calor sobre o asfalto. Lentamente, a luz se curvou, materializando uma figura imponente. O Guardião usava uma máscara de guerra antiga e vestes de combate que pareciam uma mistura de couro egípcio e tecnologia tática. Ele estava sentado, imóvel como uma estátua.
— Desculpe, Hugo — a voz do Guardião era um barítono profundo, carregado de séculos de poeira e batalhas. — Ainda não é o momento para Benjamin Linus ver a verdade. O coração dele ainda está muito cheio de ontem.
Hugo deu um pulo, os olhos arregalados. — Você... você fala inglês? No templo, você só falava aquela língua estranha!
— Eu precisava que você sentisse a gravidade da situação, Hugo — o Guardião disse, e houve um leve tom de pesar em sua voz. — Se eu falasse o seu idioma no Templo, você me veria como um homem comum. Eu precisava que você visse o destino.
Hugo sentou-se novamente, o coração martelando. — Tudo o que você me disse... sobre Osíris drenar a luz, sobre o Minut ser a Fumaça... é tudo verdade?
— Sim, Hugo. Tão real quanto a terra sob seus pés. — O Guardião levantou-se, e sua sombra pareceu crescer sobre a clareira. — Esteja pronto. Taweret está movendo as peças e deu à eles a proteção necessária para sobreviverem à Osíris. Em breve, os novos candidatos chegarão, e você entenderá que o fardo que carrega é apenas uma fração do que está por vir.
— Proteção necessária? — Indagou Hugo.
— Em outras palavras, qualquer um que esteja trabalhando para Osíris não poderá matá-los. Taweret não permitirá que aconteça nada com seus aliados até a batalha final. Esteja pronto Hugo. Isso só será possível se você reunir todos os candidatos.
Hugo ficou pensativo, sua cabeça baixa, foi quando ouviu um riso baixo vindo da máscara do Guardião. Hugo olhou para a máscara metálica, tentando ver os olhos por trás dela.
— Por que o mistério? Por que não posso ver quem você é?
— Porque se você visse o meu rosto agora, Hugo, você não veria um aliado — o Guardião respondeu, sua voz desaparecendo junto com seu corpo, que começava a se tornar translúcido novamente. — Você veria uma tragédia que ainda não aconteceu. Proteja a Luz. O resto... o tempo cuidará.
O Guardião sumiu. Hugo ficou sozinho na clareira, o peso de ser o Protetor parecendo, pela primeira vez, esmagador.
O Navio Elizabeth — Costa da Ilha – Presente
O sol sangrava no horizonte, pintando o mar de tons violentos de laranja e roxo, como um hematoma no céu. Mas no convés do Elizabeth, não havia beleza. Havia apenas o cheiro de sal, lona molhada e morte.
Yan Tedros terminou de costurar o último saco de corpo improvisado com vela de barco. Seus dedos estavam calejados e manchados de sangue seco. Ele era enfermeiro para salvar vidas, não para empacotá-las. Mas a Crise de Faraday fora implacável. Aqueles homens não morreram por vírus ou balas; morreram porque suas mentes se perderam no tempo, esquecendo como manter os corações batendo.
Yan fez o sinal da cruz sobre o corpo do imediato do navio e ajudou dois soldados sobreviventes a erguê-lo sobre a borda.
— Ao mar — comandou Yan, a voz rouca.
O corpo caiu na água escura com um baque surdo, afundando rapidamente para o cemitério que cercava a ilha.
O Capitão Juan Smith observava do passadiço, o boné amassado nas mãos, o rosto marcado por uma noite sem dormir. Ele desceu as escadas de metal, parando ao lado de Yan.
— Nunca perdi tantos homens sem disparar um único tiro — murmurou Juan, olhando para as ondas que engoliam sua tripulação. — Fomos enviados para cá como gado para o matadouro.
Yan limpou as mãos em um pano sujo. — Eles não sofreram no final, Capitão. A mente deles já não estavam aqui.
— E a nossa? Ainda está aqui? — Juan olhou para Yan com uma intensidade desesperada. — Você parece saber mais do que diz, garoto. Ontem, durante o caos, você chamou repetidamente o nome Jack Shephard. Quem diabos é ele?
Yan hesitou. A verdade parecia loucura, mas naquele lugar, a loucura era a única moeda corrente. — Eu tive uma visão, Capitão. Antes de tudo isso. Eu vi o homem que viveu nesta ilha. Ele era o ex-marido da minha mãe. Era um médico que sumiu no voo 815.
— Um médico que sumiu no voo 815? — Juan franziu a testa. — O que ele tem a ver com você?
— Eu acho que ele está tentando me dizer por que estamos aqui. — Yan olhou para a silhueta da ilha ao longe. — Não é uma missão de resgate, Juan. É uma herança. Estamos aqui para terminar o que eles começaram.
Juan franziu a testa incrédulo. Ele ia responder, mas um som mecânico e rítmico cortou o silêncio do funeral.
Tup-tup-tup-tup.
O som das pás de um helicóptero crescendo rapidamente.
— Contato aéreo! — gritou um dos mercenários no convés superior.
Juan sacou a pistola imediatamente. — Posições de combate! Se não for o nosso pássaro, derrubem!
O helicóptero pairou sobre o convés do Elizabeth. O vento das hélices levantou a lona que cobria os outros corpos. O aparelho pousou com precisão militar no heliponto de popa.
A porta lateral se abriu. Os soldados hesitaram em atirar, afinal, se tratava do helicóptero contratado pela Widmore.
Primeiro desceu um homem de terno cinza, impecável, segurando uma pasta de couro. Ele desceu com a arrogância de quem pisa no saguão de sua própria empresa, não em um navio hostil.
— Wilbert DeGroot... — sussurrou Juan, reconhecendo o rosto dos dossiês de inteligência. — O bastardo da Nova Dharma.
— Atirem! — gritou Juan. — Matem esse filho da puta!
Os mercenários de Juan ergueram os fuzis.
— NÃO! ESPEREM!
O grito veio de dentro do helicóptero. Três figuras pularam para o convés, colocando-se na frente de Wilbert. Marcel, Bianca... e Miguel.
Miguel levantou as mãos, protegendo Wilbert com o próprio corpo. — Capitão! Não atire! Ele tem as respostas!
Juan travou o dedo no gatilho, confuso pela traição. — Bryan? O que você está fazendo? Saia da frente do alvo!
Yan deu um passo à frente, olhando para o piloto que ele ajudara a tratar dias antes. — Bryan... por que você está com ele?
O piloto baixou os braços, mas não saiu da frente de Wilbert. Ele olhou para Yan com um pedido de desculpas nos olhos. — Desculpe, Yan. Meu nome não é Bryan. É Miguel. Miguel Cortez.
O silêncio no convés foi absoluto, quebrado apenas pelo motor do helicóptero desacelerando.
— Um espião... — Juan rosnou. — Você trouxe o inimigo para o meu navio.
— Ele trouxe a verdade — disse Wilbert DeGroot, ajeitando a gravata e contornando Miguel para ficar de frente para a tripulação armada. — Desmond Hume mentiu para vocês, Capitão. Olhe ao seu redor. Corpos na água. Mentes confusas. Vocês acham mesmo que isso é uma expedição científica?
— Me dê um motivo para não estourar seus miolos agora — ameaçou Juan.
Wilbert sorriu e jogou a pasta de couro aos pés de Yan. — Leia, Sr. Tedros. Veja o quanto a sua vida vale para a Widmore Corporation.
Yan abaixou-se e pegou a pasta. Ele a abriu. Fotos. Certidões de nascimento. Recibos de pagamento de faculdade. O nome dele. O nome de Aaron. Clementine. Ji Yeon. E uma lista com um título em negrito: PROTOCOLO DE SUBSTITUIÇÃO.
— O que é isso? — perguntou Yan, as mãos tremendo.
— Temos um aliado dentro da Widmore, e com isso, conseguimos reunir o máximo de informações. A Widmore não pagou sua faculdade de enfermagem por caridade, Yan. — A voz de Wilbert era veneno doce. — Eles estavam cultivando você. Como gado. Lealdade e corrente.
— Do que você está falando? — indagou Juan, aproximando-se para ver os papéis.
— Vocês são Candidatos — revelou Wilbert, abrindo os braços. — O motivo de Desmond ter trazido vocês aqui não foi para salvar o mundo. Foi para que um de vocês assuma o lugar de Hugo Reyes e fique preso nesta ilha para sempre, vigiando uma pedra mágica, enquanto os outros morrem tentando. Vocês são sacrifícios, Yan. Peças de reposição.
— Isso é mentira... — Yan recuou, sentindo náuseas.
— É? — Wilbert deu um passo à frente, focado em Yan. — Pense bem. Por que um médium tentou te impedir de vir?
Yan congelou. — Como você sabe sobre o médium?
— Miles Straume trabalha para mim, Yan. — Wilbert respondeu com a confiança de um sociopata. — Ele tentou te avisar em Los Angeles. Ele disse para você não embarcar. Porque ele sabia que Desmond estava te trazendo para o matadouro.
A lembrança de Miles no hospital, segurando seu braço, o aviso desesperado... tudo se encaixou na mente de Yan com um clique aterrorizante.
— A Widmore pagou seus sonhos com o único objetivo de preparar vocês para esse momento. Lealdade sem muitos questionamentos certamente trariam vocês até aqui e agora. Era o plano perfeito: a missão científica bancada por eles mesmo desde o momento que eles começaram a investir em vocês. — Wilbert mantinha um tom sério para tentar ganhar terreno. Yan explodiu.
— Não... Não pode ser. — Murmurou Yan.
Wilbert viu a dúvida no rosto do enfermeiro e atacou. — Eu posso tirar vocês daqui. Eu tenho os meios. A Widmore quer escravizá-los à ilha. A Dharma quer libertá-los. A escolha é sua, Yan. Você quer ser um Guardião mártir ou quer voltar para casa?
Yan olhou para o Capitão Juan, depois para os corpos cobertos de lona, e finalmente para Wilbert. O navio balançou suavemente, mas o mundo de Yan tinha acabado de virar de cabeça para baixo.
Enquanto isso ocorria no navio, a noite na ilha parecia interminável. Dentro da sala blindada, Clementine Phillips estava sentada no chão frio, abraçando os joelhos. Sua mente de cientista tentava processar a loucura: Candidata. Guardiã. Protetora. As variáveis não faziam sentido.
Walt Lloyd andava de um lado para o outro diante da jaula, como um tigre enjaulado. Ele emanava uma energia nervosa, estática, que fazia os pelos do braço de Clementine se arrepiar.
— Por que você está tão nervoso? — arriscou ela, a voz baixa. — O Aaron vai fazer o que você pediu.
— Eu tenho certeza que ele não fará. — rosnou Walt. Ele parou, olhando para o teto de concreto. — Ele está demorando. Ele está hesitando. Eu sinto a dúvida dele.
Walt virou-se bruscamente e saiu da sala, batendo a porta. Clementine suspirou, apoiando a cabeça na grade. Isso foi uma péssima ideia, pensou ela. Deveríamos ter ficado em casa.
Minutos depois, a porta se abriu com estrondo.
Walt voltou, acompanhado por dois soldados mascarados. Seus olhos estavam vidrados, decididos. Ele abriu a grade da jaula com violência e entrou, agarrando Clementine pelo braço e puxando-a para cima.
— Venha! — ordenou ele.
— O que está acontecendo? — Clementine tentou resistir, mas os soldados a imobilizaram, jogando-a de joelhos no centro da sala.
Walt sacou a pistola do coldre e destravou. — O Aaron não vai cumprir a missão. Eu sinto a fraqueza nele. Se eu não posso ter o Ben, vou eliminar a alavanca.
— O quê? — Clementine arregalou os olhos, vendo o cano da arma apontado para sua testa. — Não! Por favor! Eu não tenho nada a ver com isso!
— Aaron fez a escolha dele. — A voz de Walt era fria, desprovida de humanidade. — Eliminando você, eu elimino uma Candidata e enfraqueço a ilha. Desculpe, garota. Nada pessoal. Mas eu odeio este lugar.
Walt apertou o gatilho.
Click.
O som seco do percussor batendo no vazio ecoou na sala silenciosa. Clementine prendeu a respiração, esperando a dor. Nada.
Walt franziu a testa. Ele puxou o ferrolho, ejetando a bala intacta, e mirou novamente.
Click.
— Droga! — gritou Walt, batendo na lateral da arma.
— O que houve? — perguntou um dos soldados, confuso.
— Atirem vocês! Matem-na! — ordenou Walt.
Os dois soldados levantaram seus fuzis automáticos e miraram em Clementine.
Click. Click.
As armas travaram. Nenhuma faísca. Nenhuma explosão. Apenas o silêncio da tecnologia falhando diante de algo mais antigo.
Frank Lapidus apareceu na porta, atraído pela comoção. Ele viu a cena: Clementine tremendo no chão, três homens armados incapazes de disparar.
— O que diabos você está fazendo, Walt? — perguntou Frank, chocado.
Walt baixou a arma, um sorriso amargo e perturbador surgindo em seu rosto. — Por que eu não posso matá-la? — sussurrou ele.
— Como isso é possível? — Questionou um dos soldados.
— Não podemos matá-la. — Walt olhou para Clementine com um misto de ódio e respeito. — Aparentemente a ilha está protegendo-a.
Clementine tocou a própria testa, suando frio, percebendo que algo invisível acabara de salvar sua vida.
De repente, um som eletrônico rompeu o misticismo. O celular de Walt apitou.
Ele pegou o aparelho. Na tela, um ponto vermelho piscava sobre o mapa da Vila da Dharma. A mensagem dizia: LOCALIZAÇÃO CONFIRMADA.
Walt começou a rir. Uma risada alta e triunfante. — Excelente. — Ele guardou o celular e agarrou Clementine pelo braço, levantando-a. — Parece que o namoradinho decidiu colaborar afinal.
Ele virou-se para Frank e os soldados. — Preparem os jipes. Vamos caçar. E tragam a garota. Quero que ela veja o Ben morrer.
Vila da Dharma — O Playground
A noite estava quieta, quebrada apenas pelo rangido enferrujado de um balanço.
Aaron estava sentado no assento de borracha, balançando suavemente para frente e para trás. Ele olhava para a terra batida, o rosto banhado em culpa. Ele queria apenas uma vida comum. Queria formar uma banda de garagem, beber cerveja barata e esquecer que o mundo era complicado. Mas ali estava ele, segurando o destino de pessoas nas mãos.
Passos pesados amassaram a grama. Hugo Reyes aproximou-se e sentou-se no balanço ao lado. As correntes gemeram sob o peso dele.
— Desculpe te trazer para cá, Aaron — disse Hugo, a voz suave. — Eu sei que parece injusto.
— Não fale comigo, Hugo. — Aaron não levantou a cabeça. — Eu vou sair dessa ilha. Assim que eu salvar a Clementine.
— Você não está pensando direito, dude. — Hugo suspirou. — Eu sei que o Walt te ofereceu uma troca. Mas entregar o Ben... é um erro. O Ben é um mal necessário.
— Tarde demais — murmurou Aaron.
Hugo parou de balançar. — O que você quer dizer?
Aaron tirou o celular do bolso e virou a tela para Hugo. O aplicativo mostrava: ENVIADO.
— Eu mandei a localização. — Aaron disse, a voz falhando. — Eles sabem onde estamos.
Hugo arregalou os olhos. A cor fugiu de seu rosto. — Droga, Aaron! O que você fez?
— Eu não podia arriscar a vida dela! — Aaron gritou, levantando-se. — O Walt disse que ia matá-la!
— Ele não podia matar a Clementine! — Hugo levantou-se também, frustrado. — É regra da ilha, Aaron! Candidatos não podem ser assassinados por servos diretos da entidade enquanto ainda estiverem "no jogo". As armas teriam falhado!
— O quê? — Aaron recuou, atordoado. — Como eu ia saber disso? Ninguém me explicou as regras! Você só fala em enigmas!
— Regras de Taweret... — Hugo passou a mão pelo rosto, nervoso. — Se você tivesse confiado em mim... Agora você trouxe um exército para a nossa porta. E você violou a proteção do acampamento.
— Eu sou um violador de regras agora? — Aaron estava à beira do pânico. — E o que acontece comigo?
— Depois discutimos sua punição mágica. Agora temos que correr. — Hugo agarrou o braço de Aaron. — Eles vão estar aqui em minutos. Apesar de não poderem nos matar eles podem nos machucar... E muito.
Hugo olhou levemente para trás e observou que o primeiro guardião estava lá, de braços cruzados observando toda a movimentação. Deu um leve sorriso para Hugo.
— Agora não. — Disse ele se levantando junto a Aaron.
— O que foi? — Indagou Aaron.
— Nada. — Respondeu Hugo.
Eles correram para a casa principal. Ben, Jessy e Ji Yeon já estavam na varanda, alertados pelos gritos.
— O que houve? — perguntou Ben, vendo a expressão de terror de Hugo.
— O Aaron entregou nossa posição. — Hugo foi direto. — O Walt está vindo. Com tudo.
Ben olhou para Aaron. Não havia raiva em seu olhar, apenas uma decepção fria.
— Eu avisei que ele não estava pronto. Precisamos sair daqui. Agora! — Hugo começou a empurrar Jessy e Ji Yeon para os fundos da casa. — Vamos para a praia.
Ben permaneceu parado na varanda, segurando sua espingarda. — Vão — disse ele, calmamente. — Eu fico.
— O quê? — Hugo parou. — Está ficando louco, Ben? O Walt quer a sua cabeça!
— Exatamente. — Ben verificou a munição. — Eu sou o prêmio. Se eu correr com vocês, eles nos caçam e nos cercam. Se eu ficar... eu ganho tempo. O ódio do Walt por mim é maior que o interesse dele em vocês. Eu posso atrasá-los.
— Ele vai te matar, Ben — disse Aaron, sentindo o peso da culpa esmagá-lo. Foi ele quem trouxe a morte até ali.
Ben olhou para Aaron e sorriu, aquele sorriso enigmático de sempre. — Talvez. Mas eu sou difícil de matar, Aaron. E alguém tem que limpar a bagunça que você fez.
— Ben... — Hugo tentou argumentar.
— Vão! — gritou Ben, autoritário. — Leve os Candidatos para um local seguro, Hugo! Agora!
O som de motores rugindo ao longe confirmou a urgência. Os jipes de Wilbert estavam chegando.
Hugo assentiu, engolindo em seco. — Vamos.
O grupo correu para a escuridão da selva, deixando Benjamin Linus sozinho na casa, sentado no sofá, esperando o fantasma do passado vir cobrar sua dívida.
A Ilha – Outubro de 2025
O silêncio na Ilha era diferente de qualquer outro lugar; era um silêncio que parecia observar. Nas ruínas do Templo, a umidade das pedras milenares misturava-se ao cheiro de ozônio que emanava da passagem. Hugo Reyes segurava a bússola de latão, observando o ponteiro girar freneticamente antes de travar no norte magnético.
— Outra vez, Hugo? — Ben quebrou o silêncio, sua voz ecoando com uma amargura contida. — Outra vez abandonando o posto por causa de uma intuição? Da última vez que seguimos um dos seus "instintos", acabamos invadindo um hospital psiquiátrico para resgatar o Walt.
— Pomos um fim definitivo na Dharma e resgatamos o garoto. — Hugo não desviou o olhar da bússola. — O Walt precisava de nós. E agora, o Desmond precisa de um empurrão. Ele parou de se mexer, Ben. Eu sinto isso. As peças no tabuleiro não estão saindo do lugar.
Ben bufou, ajustando o casaco. — Desmond Hume é um homem de recursos, mas é movido por sentimentos. Sentimentos o tornam lento. O que garante que ele não está apenas vivendo uma vida pacata com a Penelope enquanto nós apodrecemos aqui esperando por Osíris?
— Não é só sobre o Desmond — Hugo finalmente olhou para Ben, e havia uma seriedade em seus olhos que raramente aparecia nos tempos da Oceanic. — O Guardião me avisou. A "Janela" vai abrir, Ben. E não é um buraquinho de fechadura desta vez. É um portal escancarado que se abre de trinta em trinta anos. Se não estivermos lá para direcionar o tráfego, Osíris vai atravessar antes de estarmos prontos.
— O "Guardião Fantasma" de novo... — Ben revirou os olhos, mas havia um traço de incerteza em sua expressão. — Jacob pelo menos deixava cinzas. Esse seu amigo deixa apenas charadas.
— Apenas me siga — disse Hugo, dando o primeiro passo em direção à fenda de luz que tremulava no arco do Templo. — A Ilha sabe onde precisamos estar.
Relutante, Ben seguiu o Protetor. Quando a luz os engoliu, o ar na câmara vazia pareceu se adensar. Do nada, como se fosse feito de névoa e vontade, o Guardião se materializou. Ele observou o lugar onde os dois homens sumiram.
— Boa sorte, meu amigo — sussurrou a voz metálica por trás da máscara. — Você vai precisar de mais do que uma bússola onde está indo.
Sydney, Austrália – Minutos depois
O impacto foi seco. Ben e Hugo foram "cuspidos" em um galpão industrial nos subúrbios de Sydney. O cheiro de maresia e óleo de motor substituiu o perfume da selva. No centro do pavilhão abandonado, sob uma lona empoeirada, estava a Kombi Volkswagen azul.
— Sydney... — Ben limpou o pó do ombro. — Pelo menos a bússola tem um senso de direção melhor do que o seu. Mas a Kombi da Dharma de novo? Sério, Hugo? Passamos despercebidos como uma banda de rock dos anos 70.
— É um clássico, Ben. Ninguém suspeita de um clássico. Se não gosta, deixa que eu dirijo desta vez. — Hugo sorriu, girando a chave na ignição. O motor tossiu, reclamou, mas pegou com um rugido familiar. — Vamos para o escritório do Desmond.
Enquanto cruzavam as ruas movimentadas de Sydney, o contraste era gritante. Hugo dirigia com uma calma quase transcendental, enquanto Ben olhava pela janela como se esperasse um ataque a qualquer momento.
— Você percebe o risco, não é? — Ben questionou, a voz baixa. — Deixar a Ilha sem proteção enquanto Osíris move suas peças... Se ele atacar agora, o Guardião não vai poder fazer nada. Ele é apenas uma projeção, Hurley.
— Eu já não tenho tanta certeza se ele é só um fantasma, Ben — Hugo comentou, desviando de um táxi. — Fantasmas não têm peso. E quando ele fala... eu sinto o deslocamento do ar. Ele é algo diferente. Algo que a Ilha criou para ser o nosso braço armado.
— Essa loucura precisa de um fim — Ben murmurou, recostando-se no banco de vinil.
Duas horas depois, a Kombi estacionou em frente à antiga sede da Widmore Corporation. O prédio de vidro e aço refletia o sol da tarde, imponente e frio.
— O Guardião disse que ele discute os assuntos da missão aqui — Hugo apontou para a entrada. — Se ele estiver certo, Desmond está lá dentro agora ou virá para cá, tentando decidir se continua sendo um herói ou se volta a ser um covarde.
— E qual é o plano brilhante? — Ben perguntou com sarcasmo. — Ficamos aqui sentados bebendo refrigerante até ele sair ou chegar? Devíamos ir para Londres. A diretoria da Widmore responde a quem tem o poder, e nós temos a Ilha.
— Você não é bem-vindo em Londres, Ben. Você matou o dono da empresa, lembra? — Hugo desligou o motor. — A bússola nos trouxe aqui. É aqui que o destino está se concentrando.
Ben olhou para o topo do prédio, seus olhos estreitados com uma determinação perigosa. — Tudo bem, Hurley. Vamos ouvir o que o "Brother" tem a dizer. Mas garanto uma coisa: depois dessa conversa, eu vou dar uma passadinha em Londres. Com ou sem bússola.
— Vai fazer o que em Londres? — Indagou Hugo.
— Não é do seu interesse. De qualquer forma, deveríamos entrar. Aqui fora parecemos dois espiões alados.
O Navio Elizabeth — Sala do Capitão — Presente
O sol ardia no céu enquanto o clima esquentava dentro no navio.
— Amarrem-nos. Todos eles. — A ordem do Capitão Juan Smith foi seca, sem margem para discussão.
Os mercenários agiram rápido, prendendo os pulsos de Wilbert, Miguel, Marcel e Bianca com cordas. Wilbert não ofereceu resistência; ele estendeu os braços com um sorriso sereno, como se estivesse permitindo que crianças brincassem de polícia. Miguel baixou a cabeça, derrotado, enquanto Bianca protestava, chorando.
Minutos depois, a Sala do Capitão parecia um tribunal improvisado. Yan Tedros folheava os documentos da pasta de couro que Wilbert trouxera com mãos trêmulas. O que ele lia ali não eram apenas relatórios de inteligência; eram as vidas deles dissecadas.
Yan parou em uma página com a foto de "Bryan". Ele levantou os olhos, encarando o piloto amarrado.
— É verdade, Capitão — disse Yan, a voz fria. — O nome dele não é Bryan. É Miguel Cortez. Procurado no México pelo assassinato de um senador.
Bianca arfou, olhando para o homem que a guiara pela selva.
— Miguel? — Ela recuou. — Eu confiei em você...
Miguel levantou o rosto, suado e pálido.
— Foi o Ben. Ben Linus me tirou da fronteira. Ele criou a identidade de Bryan. Ele me mandou me infiltrar na Dharma para espionar o Wilbert. Eu não tive escolha.
Juan Smith virou-se para Wilbert, esperando ver surpresa. Em vez disso, viu tédio.
— Você sabia, não sabia? — acusou Juan.
— É claro que eu sabia, Capitão. — Wilbert recostou-se na cadeira. — Eu sabia que Miguel era um rato do Ben desde o dia em que ele pisou em Guam ao meu convite. Mas ele é um excelente piloto. Por que eu recusaria um cara como ele para chegar até aqui? Além disso, um espião conhecido é mais fácil de controlar do que um desconhecido.
— Qual o motivo de tudo isso? — gritou Bianca, a voz estridente. — Eu sou uma geóloga! Eu estudo pedras! Eu não tenho nada a ver com assassinos, espiões ou corporações!
— Não confiamos em ninguém neste momento Bianca. Não sabemos quem está falando a verdade. — tentou acalmá-la Juan.
— Ah, nós sabemos sim. — Wilbert riu, um som seco. — A papelada que dei a vocês é bastante clara. A Widmore não contratou por competência, Srta. Torres. Ela contrata por sangue. Todos vocês, sem exceção, são ecos de pessoas que a Ilha já devorou.
Wilbert inclinou-se para frente, seus olhos brilhando com malícia intelectual.
— Vamos começar pelo nosso piloto. Miguel é primo de Ana Lucia Cortez. Uma policial que veio parar aqui no voo 815. O corpo dela apodreceu nesta ilha.
Miguel estremeceu, fechando os olhos.
— E você, Yan... — Wilbert apontou com o queixo. — O filho prodígio. Sua mãe, Sarah, foi casada com um homem chamado Jack Shephard. O grande herói. Você carrega o legado do homem que você nunca conheceu. É poético, não? O enteado vindo terminar o serviço do padrasto. Seu pai verdadeiro, o Haile Tedros a deixou porque não suportou ser sempre posto em segundo plano.
Yan sentiu as pernas fraquejarem. A visão na selva... o homem de terno... era Jack.
— E a senhorita Torres. — Wilbert olhou para Bianca. — Você veio estudar a geologia, certo? Talvez você encontre os ossos do seu tio, Paulo. Ele morreu aqui também.
Bianca cobriu a boca, horrorizada.
— E quanto a mim? — desafiou Juan Smith, aproximando-se de Wilbert. — Não tente jogar esse jogo comigo, DeGroot.
— Ah, sim. Capitão. Com você não é diferente. — Wilbert assentiu. — Você é irmão de David Smith, esposo da também falecida Libby.
— Elizabeth... — corrigiu Juan, ríspido. — Ela foi casada com meu irmão, David, a contragosto da família. Eu soube pelo Desmond que ela morreu aqui. Mas não tenho o sangue dela.
— Bom. — Wilbert sorriu. — Mas o que você talvez não saiba, Capitão, é que a Widmore não te contratou porque você é um bom marinheiro. Eles te contrataram porque, na mente doentia de Hugo Reyes, você é o substituto espiritual de David e Libby. Você é uma peça de reposição.
Juan travou o maxilar. Ele sabia da conexão familiar, mas a ideia de ter sido contratado apenas como um "peão místico" feria seu orgulho profissional.
Yan, tentando manter a sanidade, folheou os papéis novamente até o fim.
— Espere. As informações conferem com o que ele disse sobre nós. Ana Lucia, Jack, Libby, Paulo... mas não tem nada aqui sobre o Marcel.
Todos olharam para o francês, que estava sentado quieto no canto, observando a cena com uma calma enervante por trás dos óculos sujos.
— Onde está a sua ficha, Marcel? — perguntou Yan. — Quem é o seu parente morto?
Marcel levantou o olhar.
— C'est compliqué. — Ele deu de ombros, o mistério impenetrável. — Eu não sou importante agora.
Wilbert franziu a testa ligeiramente. A falta de informação sobre Marcel era a única variável que ele não controlava, mas ele disfarçou rapidamente.
— O ponto é... — Wilbert retomou o controle da sala. — Vocês são peças de um tabuleiro viciado. Desmond trouxe vocês aqui para serem sacrifícios. Candidatos a assumir o lugar de Hugo Reyes e ficarem presos nesta ilha para sempre, vigiando uma luz mágica enquanto o mundo segue em frente sem vocês.
— E o que você sugere? — perguntou Juan, a desconfiança ainda alta, mas a curiosidade crescendo. — Que a gente confie na Dharma?
— Eu sugiro uma aliança, Capitão. — Wilbert recostou a cabeça na parede, tranquilo. — A Widmore quer escravizá-los à ilha. Eu quero o oposto. Minha família foi destruída por este lugar. Eu quero destruir a ilha, quebrar a maldição e garantir que ninguém nunca mais precise ser um "Candidato".
— Vocês querem passar o resto da vida comendo manga e vigiando uma caverna? Ou querem me ajudar a afundar este lugar no mar e voltar para casa livres? — Indagou Wilbert.
Juan e Yan trocaram um olhar. Minutos atrás, Wilbert era o inimigo. Agora, diante da manipulação monstruosa de Desmond e da perspectiva de servidão eterna, a proposta do vilão soava tentadoramente racional.
Wilbert observou a dúvida nos olhos deles e sorriu internamente.
A Ilha — Perímetro da Vila da Dharma
A tensão no ar era elétrica, mais pesada que a umidade da selva. Walt Lloyd emergiu das sombras arrastando Clementine Phillips pelo braço, o cano de sua pistola pressionado contra a têmpora dela. Atrás dele, Frank Lapidus e um esquadrão de mercenários da Dharma mantinham as armas erguidas, varrendo o perímetro.
Os soldados leais a Ben, entrincheirados nas varandas e janelas, engatilharam seus fuzis. O tiroteio parecia iminente.
— Esperem! — gritou um dos homens de Ben.
— Ninguém atira! — berrou Walt, a voz falhando de ódio. Ele apertou a arma contra a cabeça de Clementine, fazendo-a gemer de dor. — Se eu me sentir ameaçado, eu estouro o crânio dela e pinto a grama de vermelho!
Ele olhou para a casa principal, os olhos vidrados. — Eu sei que você está aí! Apareça, Benjamin! Pare de se esconder atrás de crianças e enfrente o seu passado!
A porta da frente da casa 322 se abriu devagar.
Benjamin Linus saiu para a varanda. Ele não estava armado. Suas mãos estavam levantadas em sinal de rendição, mas seu rosto exibia aquela calma enervante de quem está no controle da situação, mesmo quando não deveria estar.
— Olá, Walt — disse Ben, descendo os degraus como se estivesse recebendo uma visita para o chá. — Você cresceu.
— E você continua o mesmo verme. — Walt cuspiu no chão. — Astuto. Manipulador.
— Eu prefiro "pragmático". — Ben parou no meio do pátio, a uma distância perigosa. — Não importa a mágoa que você carregue, Walt, entenda uma coisa: tudo o que fizemos, inclusive seu sequestro, foi para o bem seu e de seu pai. E te preparar.
— Me preparar para quê? Para ser um monstro como você? — Walt riu, um som quebrado. — Não importa mais. É simples, Ben: renda-se agora e venha comigo, ou a garota morre.
Ben olhou para Clementine. Ela estava pálida, tremendo, os olhos suplicando por ajuda. — Pode matar — disse Ben, com um dar de ombros indiferente. — Ela não significa nada para mim.
Clementine soltou um soluço, o choque da frase atingindo-a como um tapa. Em sua mente, a imagem de Ben como o "guia" desmoronou. Ele era exatamente o monstro que Walt descrevera.
— Você está blefando — rosnou Walt, mas a dúvida surgiu em seus olhos.
— Não estou. — Ben deu mais um passo à frente. — Vá em frente, Walt. Puxe o gatilho. Mate uma inocente na frente de todos. Mostre que você é melhor do que eu.
Walt bufou, frustrado. Ele jogou Clementine de joelhos na grama e apontou a arma para a nuca dela, o dedo tremendo no gatilho.
— Foi assim que a sua filha morreu, Ben! — gritou Walt, tentando feri-lo. — Vai deixar acontecer de novo?
A menção a filha de Ben fez um músculo na mandíbula de Ben contrair, a única falha em sua máscara. Mas ele usou a dor. Ele a converteu em tática.
Ben voltou a caminhar em direção a Walt, ignorando a arma. — O que você está fazendo? — Walt gritou, nervoso. — Não se aproxime! Eu vou atirar!
— Não, Walt. Você não vai. — A voz de Ben era hipnótica, suave. — Primeiro, porque as armas falham contra Candidatos, e você já percebeu isso. Segundo... porque você não é um vingador.
Ben parou a apenas um metro de distância. O cano da arma de Walt agora apontava para o peito de Ben.
— Você é o garoto que salvou o pai — continuou Ben, olhando fundo nos olhos marejados de Walt. — Você é especial, Walt. Você tem o dom. E pessoas com o dom não matam a sangue frio. Liberte-se dessa vingança. Ela não é sua.
Walt segurava a arma com as duas mãos, tremendo violentamente. O ódio lutava contra a natureza dele, e contra a manipulação magistral de Ben. — Eu... eu quero que pare — sussurrou Walt, as lágrimas escorrendo.
— Então pare. — Ben estendeu a mão e, gentilmente, abaixou o cano da arma de Walt.
Walt soltou o ar, derrotado, e deixou os braços caírem.
Ben agachou-se ao lado de Clementine. Com movimentos rápidos, ele desatou as cordas que prendiam os pulsos dela. — Você está bem, querida? — perguntou ele, num tom paternal que fez Clementine querer vomitar.
— Fique longe de mim — sussurrou ela.
— Bom garoto, Walt — disse Ben, levantando-se.
Então, o olhar de Ben mudou. A máscara caiu. O "pai compreensivo" desapareceu, e o líder dos “outros” assumiu.
Ben agarrou o braço de Clementine e a puxou para trás de si. — MATEM TODOS! — gritou Ben para seus soldados entrincheirados.
— O quê?! — Walt arregalou os olhos, traído.
O pátio explodiu em barulho. Os homens de Ben abriram fogo das janelas e do telhado.
— Abaixa! — gritou Frank Lapidus, placando Walt e jogando-o atrás de uma mureta de pedra segundos antes de as balas estilhaçarem o chão onde ele estava.
— Desgraçado! — berrou Walt, enquanto a terra voava ao redor dele. — Eu vou te matar, Ben!
— Corra! — Ben empurrou Clementine para a lateral da casa, onde uma trilha de fuga estava preparada.
O caos se instalou. Tiros cruzavam a noite, mercenários da Dharma avançavam e Frank tentava arrastar um Walt histérico para a segurança da mata. A guerra havia começado, e Benjamin Linus acabara de disparar o primeiro ato do jeito que ele mais gostava: jogando sujo.
Antiga sede da Widmore Corporation, Sydney, Austrália – Outubro de 2025
A chuva fina de Sydney transformava o vidro temperado da sede da Widmore em um borrão cinzento. Hugo e Ben caminhavam em direção à icônica Kombi azul estacionada no pátio, deixando para trás o rastro de uma conversa que ainda ecoava nos corredores de mármore do prédio.
Ben fechou o sobretudo, o rosto pálido contrastando com a elegância fria do ambiente corporativo. Ele subiu no banco do passageiro enquanto Hugo assumia o volante. O cheiro de estofado antigo da Kombi era um conforto estranho em meio a tanto vidro e aço.
— Você realmente acredita que ele vai cooperar agora? — indagou Ben, ajustando os óculos enquanto observava a fachada do prédio pelo retrovisor. — Agora que Desmond sabe que podemos sair a qualquer momento? Ele pode se questionar o porquê de não recrutamos os candidatos nós mesmos.
Hugo deu a partida. O motor tossiu antes de ganhar vida. — Ele precisa acreditar que o sacrifício dele tem um propósito.
— Propósito é uma palavra bonita para manipulação — retrucou Ben, com um sorriso seco. — Ainda acho que foi um erro virmos aqui pessoalmente. O toque humano costuma borrar a eficiência dos planos.
— Às vezes o plano precisa de um pouco de humanidade, cara — Hugo suspirou, manobrando para sair do estacionamento. — Chega de questionar. Já lançamos os dados. Agora é confiar. No Desmond, no Richard, no Aaron... em todos eles.
Ben recostou-se no banco, observando as luzes de Sydney começarem a brilhar. — Devo admitir... a estratégia da Widmore de investir na carreira desses candidatos antes de recrutá-los foi de uma elegância maquiavélica. Dar a eles o que mais desejavam, educação, estabilidade, sucesso, para que subam naquele navio por gratidão, e não por força. É genial.
Hugo apertou o volante, os nós dos dedos ficando brancos. — Eu não sei, cara. Eu me sinto... sujo.
— Sujo? — Ben arqueou uma sobrancelha, curioso com a súbita vulnerabilidade do Protetor.
— Poderíamos ter dito a verdade. A verdade nua e crua. Eu não gosto de brincar de marionetista, Ben. Não foi para isso que eu aceitei esse cargo.
Ben soltou uma risada curta, carregada de um cinismo antigo. — Às vezes eu me pergunto se você foi realmente a melhor escolha para ser o Guardião, Hugo. Você quer manter a consciência limpa enquanto o abismo está escancarado aos nossos pés? A moralidade é um luxo que quem salva o mundo não pode carregar no bolso.
Hugo ficou em silêncio por um longo tempo, o único som sendo o dos limpadores de para-brisa lutando contra a garoa. — Eu não sou o Jacob, Ben. E não sou você.
Para quebrar o peso do silêncio, Hugo mudou de tom. — Vou para os Estados Unidos. Preciso ver meus pais. Preciso de algo que seja... real, antes de tudo isso começar. E você? Vai para Londres fazer o quê?
Ben olhou para a própria mão, que descansava sobre o colo. — Como eu disse antes, Hugo, meus assuntos em Londres não constam no seu manual de Protetor. Mas, se quer tanto saber... estou indo visitar um legado.
— Um legado? Do que você está falando?
Ben virou o rosto para a janela, observando o reflexo das luzes da cidade. Sua expressão era indecifrável, um misto de melancolia e um alerta sombrio.
— Sinto que Osíris não será nosso único problema — murmurou Ben.
— Ben, você está me assustando. O que está acontecendo em Londres?
Ben deu um leve suspiro e apontou para a estrada à frente.
— Apenas dirija, Hurley. Deixe os fantasmas de Londres para quem sabe como conversar com eles.
Hugo encarou o asfalto, sentindo que, embora estivessem no mesmo veículo, ele e Ben estavam viajando para destinos completamente diferentes.
A Ilha — Trilha Norte — Noite
A fuga era silenciosa e brutal. Galhos batiam nos rostos, raízes tentavam derrubá-los, e a escuridão da selva parecia querer engoli-los.
Hugo Reyes ia à frente, abrindo caminho com um facão enferrujado, movendo-se com uma agilidade surpreendente para seu tamanho. Atrás dele, Aaron, Jessy e Ji Yeon tentavam acompanhar o ritmo, ofegantes e aterrorizados.
— Para onde estamos indo, Hugo? — Aaron quebrou o silêncio, puxando o ar com força. — Estamos correndo em círculos?
— Não, cara. — Hugo não parou. — Estamos indo para o lugar onde eu cheguei. Onde sua mãe chegou. Estamos indo para onde tudo começou.
Depois de mais vinte minutos de marcha forçada, Hugo parou em uma pequena clareira protegida por rochas. Ele se encostou em uma pedra, limpando o suor da testa.
— Por que paramos? — perguntou Ji Yeon, cruzando os braços, a roupa de grife agora suja de lama. — Eles têm jipes e armas. Nós temos um facão e falta de ar.
— Precisamos descansar. E conversar. — Hugo embainhou o facão e sentou-se num tronco caído. — Vocês não vão dar mais nenhum passo até entenderem por que estão correndo.
Aaron aproximou-se, a raiva misturada à curiosidade. Jessy sentou-se no chão, exausta, e Ji Yeon permaneceu de pé, impaciente.
— Diga de uma vez, Hugo. — Aaron cobrou. — O Walt falou em "Candidatos". Desmond em missão científica. Quem está mentindo?
— Ninguém. E todo mundo. — Hugo suspirou, olhando para o fogo no centro da roda. — Vamos lá. Versão resumida, porque não temos tempo para a versão estendida.
Hugo olhou para Aaron. — Essa ilha, Aaron... ela é a tampa de uma garrafa. Ela segura o mal. Mas ela também é um lugar de cura, de milagres. Tudo isso graças a uma energia que está aqui embaixo. Os antigos chamavam de "Luz". Os aterianos chamavam de Taweret, a deusa da fertilidade.
— Deusa da fertilidade? — Jessy franziu a testa.
— Sim. Ironicamente, por décadas, a ilha matava qualquer mulher que tentasse dar à luz aqui. Era um bug no sistema. — Hugo apontou para Aaron. — Até você nascer, Aaron. Você foi o primeiro bebê a sobreviver na ilha em anos. Você quebrou a maldição. Você mudou as regras do jogo.
— Eu sou um bug do sistema? — Aaron riu, nervoso. — Ótimo.
— Você é um milagre, dude. — Hugo ficou sério. — Jack Shephard, o padrasto do Yan... ele me escolheu como Guardião antes de morrer. A gente salvou a ilha de um monstro de fumaça preta. Achamos que tínhamos vencido.
Hugo baixou a cabeça, o peso da culpa curvando seus ombros. — Mas a gente não sabia de uma coisa. O Monstro de Fumaça... ele era mau, sim. Mas ele também era um cão de guarda. A presença dele assustava algo muito pior que vivia lá fora.
— Pior que um monstro de fumaça? — Ji Yeon levantou uma sobrancelha, cética. — O que pode ser pior?
— O dono dele. — Hugo olhou para a escuridão. — Existe uma entidade. Um homem que vive entre nós há milênios. Os antigos o chamavam de Osíris. Hoje, ainda não temos certeza de quem ele seja, mas suspeitamos que Wilbert trabalha para ele. Ele quer o poder da ilha. E por séculos, ele não podia entrar porque o Monstro e o Guardião serviam como uma tranca dupla.
— E vocês quebraram a tranca — concluiu Jessy, entendendo a lógica.
— A gente matou o cão de guarda. — Hugo assentiu. — E agora, a porta está destrancada. Eu tentei segurar sozinho, mas... eu falhei.
— Parece roteiro de filme B. — Ji Yeon bufou. — Deuses egípicios, monstros, trancas mágicas. A gente tem que ficar ouvindo esse gordo maluco?
— Ji Yeon, cala a boca — disse Aaron, ríspido. Ji Yeon se calou. Ele olhou para Hugo. — Continue. Onde o Walt entra nisso?
Hugo engoliu em seco. Essa era a parte difícil. — Eu sabia que não ia aguentar sozinho o peso de ser guardião. Então eu tentei trazer ajuda. Eu trouxe o Walt de volta. Achei que ele fosse o escolhido. Ele tinha poderes, ele era especial.
— E o que aconteceu? — perguntou Aaron.
— A ilha o rejeitou. E ele não aceitou o cargo. — Hugo fechou os olhos. — Ele fugiu, Aaron. Ele usou uma saída proibida. E quando ele saiu... ele levou o rastro da ilha com ele. Ele contou para o Osíris onde a gente estava. Ele disse que um dos cães de guarda estava morto.
Um silêncio pesado caiu sobre a clareira.
— Então é culpa sua — disse Aaron, sem rodeios. — O Walt, o Wilbert, a Widmore... eles estão aqui porque você errou.
— Sim. — Hugo abriu os olhos, cheios de lágrimas. — Esse erro me custou o direito de ser o Guardião. A ilha não confia mais em mim. Minha "bateria" acabou. Por isso eu precisei de vocês.
Hugo levantou-se e apontou para os três. — Eu precisei reunir uma nova lista. Pessoas que têm conexão com a ilha. Pessoas que a ilha já marcou. Vocês são os Candidatos. Um de vocês tem que assumir o meu lugar e fechar a porta na cara do Osíris. Ou o mundo acaba.
— E os outros? — perguntou Jessy, a voz trêmula. — Se um assume... o que acontece com os outros?
— Vocês são um time. — Hugo tentou sorrir. — Mas no final... só um pode beber da Fonte.
Ji Yeon riu, um som frio e sem humor. — Então é isso. Somos um reality show místico. Quem ganhar, vira o carcereiro eterno. Quem perder, morre ou volta para casa traumatizado.
— Eu sinto muito — disse Hugo, sincero. — Eu queria que vocês tivessem escolha. Mas a ilha... ela não dá opções. Ela dá destinos.
Aaron olhou para o facão na cintura de Hugo, depois para a escuridão da mata onde Ben ficara para trás. — É muita coisa para processar, Hugo. Deuses, monstros, destino. — Aaron respirou fundo. — Mas o fato é que tem gente tentando nos matar agora. E você é o único que sabe o caminho.
— Eu sei. — Hugo ajustou a mochila.
— Então nos guie. — Aaron tomou a liderança, surpreendendo a si mesmo. — Por enquanto, eu acredito em você. Não porque faz sentido, mas porque a alternativa é confiar no cara que quer matar a Clementine.
Hugo assentiu, aliviado. — Obrigado, dude.
— Não me agradeça ainda. — Aaron olhou para Ji Yeon e Jessy. — Se sobrevivermos a essa noite, vamos ter uma conversa muito séria sobre quem vai beber dessa sua fonte mágica.
Hugo sorriu, vendo em Aaron um lampejo da liderança de Jack. — Justo. Vamos. A praia não está longe.
Eles retomaram a caminhada, quatro almas perdidas carregando o peso do mundo, marchando em direção aos fantasmas do Voo 815.
Londres – Janeiro de 2026
O céu de Londres era uma bacia de cinzas derramando uma garoa gélida sobre as docas. O cheiro de salitre e ferrugem impregnava o ar. Benjamin Linus observava o cais, as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, enquanto o guincho levava a Kombi azul para longe.
Hugo estava parado à beira do cais, olhando para o nada. Seus ombros, antes largos e reconfortantes, pareciam curvados sob um peso invisível.
— Três meses, Hugo — Ben disse, sua voz cortante como o vento do Mar do Norte. — Três meses de silêncio absoluto. Eu revirei Londres, Sydney e Los Angeles. A Ilha ficou vulnerável. Se Osíris tivesse movido uma peça sequer... você tem noção do que o seu egoísmo quase causou?
Hugo não se virou. Sua voz saiu rouca, desprovida da habitual doçura. — Egoísmo, Ben? É assim que você chama querer segurar a mão da minha mãe enquanto ela morria?
Ben parou, o sarcasmo morrendo em sua garganta. — O quê?
— Ela passou os últimos dois meses em uma cama de hospital me chamando de "monstro" — Hugo finalmente virou-se, e Ben viu que os olhos dele estavam vermelhos e inchados. — Ela disse que eu a abandonei. Que eu deixei meu pai morrer sozinho para brincar de Deus em uma ilha que ninguém consegue encontrar. Ela me expulsou do quarto três vezes antes de perder a consciência.
Hugo soltou uma risada amarga que se transformou em um soluço seco. — Eu tive que usar os truques da Ilha, Ben. Eu tive que projetar sonhos na mente dela, mostrar flores que não existiam, só para que ela relaxasse os músculos e parasse de gritar comigo. Eu tive que manipular o fim da vida da minha própria mãe porque a verdade era insuportável para ela. E no fim... ela morreu sem saber quem eu realmente era.
— Hugo... eu não sabia. Eu sinto muito — Ben disse, e pela primeira vez em anos, não havia cálculo em sua voz. Era apenas um homem falando com outro.
— Não sinta. Você me avisou que o cargo exigia tudo, não avisou? — Hugo caminhou até a beira da água, onde um barco de pesca robusto e sem identificação estava atracado. — Mas agora eu olho para a lista. Aaron, Clementine, Yan... eles são jovens, Ben. Eles têm sonhos, relacionamentos, carreiras. E eu estou prestes a destruir a vida de cada um deles. Vou arrastá-los para aquele lugar e eles vão acabar como nós: fantasmas sentados em pedras, vigiando uma luz enquanto o resto do mundo envelhece e morre. Eu sou um sequestrador de destinos.
— Você é um salvador, Hugo — Ben rebateu, aproximando-se. — Se não fizermos isso, não haverá mundo para eles envelhecerem. O sacrifício de poucos pela sobrevivência de todos. Foi o que Jacob nos ensinou.
— Jacob era um péssimo professor — murmurou Hugo.
Ele subiu a prancha de madeira do barco. Ben o seguiu em silêncio. No convés, caixas de suprimentos e equipamentos eletrônicos da Widmore estavam cobertos por lonas. Hugo foi até o leme, mas não ligou o motor imediatamente. Ele tirou do bolso uma pequena foto gasta de sua mãe e de seu pai, tirada décadas atrás em frente ao Mr. Cluck's.
Ele a encarou por um longo tempo, depois a guardou no bolso interno, perto do coração.
— Vamos voltar para a ilha. — Disse Hugo, frio.
— E se o Desmond falhar em Sydney? — Ben perguntou, soltando as amarras do barco.
— Ele não vai. Eu vi nos olhos dele. Ele está com tanta raiva de nós que vai cumprir a missão só para ter o prazer de esfregar na nossa cara.
Hugo ligou o motor. O som pesado do diesel ecoou pelas docas desertas. Ele olhou para Londres uma última vez — as luzes da cidade, o trânsito distante, a vida normal que ele nunca mais teria.
— Adeus, mamãe — sussurrou ele, tão baixo que nem Ben ouviu.
Hugo empurrou a manete de aceleração. O barco cortou as águas escuras do Tâmisa, rumando para o mar aberto. Eles não precisavam de mapas ou GPS convencionais; a bússola de latão no painel começou a brilhar com uma tonalidade azulada, apontando para o ponto exato onde a realidade começava a dobrar.
Ben sentou-se no banco de popa, observando a silhueta de Hugo contra o horizonte escuro. Ele percebeu que o Hurley que conhecera na praia anos atrás tinha morrido naquele hospital em Londres. O homem que guiava o barco agora era o Protetor. Solitário, poderoso e irremediavelmente triste.
O barco acelerou, e antes que a costa inglesa desaparecesse totalmente, o nevoeiro subiu, espesso e sobrenatural, engolindo-os. Eles estavam voltando para casa. E a Ilha, faminta por seus guardiões, já os esperava com a primeira tempestade.
A Ilha — Presente
Hugo Reyes caminhava à frente do outro grupo. Aaron, Jessy e Ji Yeon seguiam seus passos, exaustos. Hugo mantinha os olhos fixos na linha das árvores, mas sua mente estava longe, em um hospital frio em Londres, ouvindo os gritos de rejeição de sua mãe.
“Sequestrador de destinos.” A frase que ele disse a Ben no barco anos atrás ecoava em seus ouvidos agora, enquanto ele olhava para as costas de Aaron e Ji Yeon.
Hugo parou por um segundo, observando o suor e o medo no rosto daqueles jovens. Ele se lembrou da foto do Mr. Cluck's no bolso de seu casaco. Ele os trouxera para cá para salvar o mundo, mas a que custo? Ele estava fazendo com eles exatamente o que sua mãe o acusara de fazer: roubando a chance de serem normais.
Aaron percebeu a hesitação de Hugo. — Tudo bem, Hugo?
Hugo forçou um sorriso, o mesmo sorriso bonachão que escondia um oceano de tristeza. — Tudo bem, dude. Só... garantindo que o caminho está limpo.
Ele voltou a andar, mas cada passo pesava como se ele estivesse carregando a própria Ilha nas costas. Ele sabia que Ben estava certo: para ser o Guardião, era preciso perder a humanidade. E Hugo sentia que a sua estava escorrendo pelos dedos a cada minuto que passava naquela trilha.
Na outra trilha, Benjamin Linus caminhava com passos rápidos e silenciosos, movendo-se pela mata como se fosse parte da vegetação. Clementine Phillips vinha logo atrás, lutando para manter o ritmo, suas botas escorregando no orvalho da manhã.
O silêncio entre os dois era pesado, carregado pelo eco dos tiros que haviam ficado para trás.
— Escuta... — Clementine quebrou o gelo, a voz falhando pelo cansaço. — Ben Linus, certo?
Ben não parou, nem olhou para trás. — Esse é o nome que meus pais me deram.
— Eu ouvi histórias. O tal do Walt disse que você não é uma boa pessoa. Que você é um monstro.
— É mesmo, é? — Ben desviou de um cipó com elegância. — Esse mesmo Walt tentou te matar logo ali atrás e eu estou te salvando dele.
— Não tente mudar de assunto. — Clementine apertou o passo, alcançando-o. — Eu vi o Walt lá atrás. Ele estava com uma arma apontada para a minha cabeça, gritando, chorando... ele parecia confuso, apenas. Mas você...
Clementine parou, obrigando Ben a parar também. Ela olhou nos olhos frios dele. — Quando você mandou seus homens atirarem... você não estava confuso. Você estava confortável. Você parecia um tubarão nadando em um tanque de peixinhos dourados.
Ben sustentou o olhar dela. Um leve sorriso, quase imperceptível, curvou o canto de seus lábios. — O mundo é um lugar perigoso, Clementine. Às vezes, para proteger os peixinhos, você precisa ser o tubarão.
— Eu não acredito em você.
Ben inclinou a cabeça, analisando-a com uma curiosidade clínica. — Você tem esse hábito irritante de questionar a autoridade e analisar o caráter alheio. O olhar desconfiado, a postura defensiva...
Ben deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Você se parece muito com o James.
Clementine congelou. O nome de seu pai biológico era um fantasma que ela raramente invocava. — Você conheceu meu pai?
— Claro que sim. — Ben soltou uma risada curta, nostálgica. — James Ford. Sawyer. O golpista. O homem mais irritante, teimoso e resiliente que já pisou nesta areia.
— O que ele era para você? — perguntou ela, buscando uma verdade que sua mãe nunca contara inteira.
— Ele era um sobrevivente. Se você tiver metade da astúcia dele, talvez sobreviva a esta semana. Mas não se engane... todos nós aqui somos apenas peças que o Hugo está movendo no tabuleiro.
Clementine silenciou, resignando-se ao fato de que estava presa na teia de histórias de seu pai. Ela ajeitou a mochila e seguiu Ben, percebendo que, naquela ilha, o passado não estava morto; ele estava apenas esperando na próxima curva.
No horizonte marítimo, o sol despontava, pintando o céu de tons violentos de laranja e sangue. O dia havia nascido, mas não trazia esperança, apenas clareza. A fase de recrutamento acabara. O vestibular místico começara.
Eles eram muitos. Mas a cadeira do Guardião era única. Hugo olhou para Aaron uma última vez antes de chegarem à clareira. Ele sabia que, para um deles subir ao trono, a vida que conheciam lá fora teria que morrer.
A Ilha estava sedenta para escolher seu novo rei — ou matá-los tentando. E Hugo, o homem que odiava segredos, era agora o arquiteto da destruição de seus futuros.
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