Lost: O Primeiro Herdeiro
9 LIVRO 1 — CAPÍTULO 09: TODOS A BORDO — PARTE 1
O porto de Sydney estava envolto na neblina matinal, com o som de gaivotas e o cheiro de sal e óleo diesel preenchendo o ar. O navio de pesquisa Elizabeth balançava suavemente no cais, uma embarcação robusta que parecia pequena diante da imensidão do oceano que iriam atravessar.
Charlie Hume estava encostado em uma pilha de caixotes de carga, fumando um cigarro com a displicência de quem não teme o câncer ou o futuro. Seus olhos varriam o convés, observando a tripulação de mercenários carregar os últimos suprimentos.
Ji Yeon aproximou-se. Ela usava um casaco longo de lã e óculos escuros, mesmo sem sol. Ela parou ao lado de Charlie, invadindo seu espaço pessoal, mas sem tocá-lo.
— Você está muito exposto — murmurou ela, olhando para frente.
— Estou apenas fumando, Ji. — Charlie soltou a fumaça para o lado, longe dela. — Relaxa.
— Seu pai não tira os olhos da gente. — Ela baixou o tom de voz. — Eu posso confiar em você?
Charlie deu um sorriso de canto, sem olhar para ela. — Confiança é uma espada de dois gumes, senhorita Kwon. A pergunta é: posso confiar em você também?
— Jogando sujo. Eu posso estar caindo em uma armadilha... — Disse Ji Yeon.
— Desmond acha que eu convenci você com charme e dinheiro. Ele não faz ideia de que você só está aqui pelas informações que eu tenho. — Disse Charlie, soltando fumaça.
— Se esse dispositivo não contiver a verdade sobre a morte dos meus pais, Charlie... — ela virou o rosto para ele, os olhos faiscando por cima dos óculos — ...eu jogo você no mar assim que voltar da ilha.
— Justo. — Charlie apagou o cigarro na sola do sapato. — Mas lembre-se: somos sócios. Se eu cair, você nunca vai conseguir desbloquear os arquivos. Precisamos um do outro.
— Não confunda necessidade com aliança. — Ji Yeon ajeitou a gola do casaco e se afastou bruscamente, deixando Charlie com um sorriso cínico nos lábios.
Clementine, que observava a cena de longe enquanto carregava sua mochila, interpretou mal a tensão. Viu a postura rígida de Ji Yeon e o sorriso de Charlie e assumiu que fosse uma briga de casal ou um fora. Tentando ser solidária, ela se aproximou de Ji Yeon no meio do caminho.
— Ei... — Clementine tentou um sorriso amigável. — Não liga para ele. Homens ricos acham que são donos do mundo. Não deixe ele te tratar mal.
Ji Yeon parou e olhou para Clementine de cima a baixo, como se a garota fosse uma mancha em seu sapato de grife. — Desculpe, eu te conheço?
— Sou Clementine. Estamos na mesma equipe...
— "Equipe"? — Ji Yeon riu interrompendo, um som seco e cruel. — Você é a acadêmica que a Widmore comprou, certo? Escuta, garota: não projete suas inseguranças em mim. E não se meta onde não foi chamada. Cuide das suas equações e fique fora do meu caminho.
Ji Yeon passou por ela, esbarrando no ombro de Clementine com força desnecessária, e subiu a rampa de embarque.
Clementine ficou parada, boquiaberta com a grosseria gratuita. — Que vaca... — murmurou ela para si mesma, ajeitando a mochila e bufando. A viagem seria longa.
Enquanto as tensões cresciam no cais, Aaron e Claire estavam sentados em um banco de madeira, um pouco afastados da movimentação. Claire segurava as mãos do filho, os nós dos dedos brancos de tanto apertar. Ela olhava para o navio com um terror mudo.
— Mãe... — Aaron começou, escolhendo as palavras com cuidado. — Eu conversei com aquele homem nos Estados Unidos. O James Ford.
Ao ouvir o nome, Claire estremeceu. — James... Ele está vivo?
— Sim. E ele me contou coisas. Sobre o acidente em 2004. Sobre você. — Aaron olhou nos olhos dela. — Ele disse que você sumiu na ilha. Que ele te procurou, mas você tinha desaparecido. E que foi por isso que a Kate me levou.
— Kate Austen... — O nome saiu da boca de Claire como veneno. — Aquela mulher roubou você de mim, Aaron. James pode dizer o que quiser, mas ela viu a oportunidade e pegou você. Eu nunca vou perdoá-la.
Aaron suspirou. Ele via a dor distorcida nos olhos da mãe, uma mistura de trauma e confusão. — Mãe, escuta. James disse que você não estava bem.
— Eu vi meu pai, Aaron! — Claire apertou a mão de Aaron com força, desesperada para ser acreditada. — Eu sei o que dizem, que o caixão estava no avião, que ele estava morto... mas eu o vi vivo na ilha, Aaron! Ele falou comigo. Ele me disse para te deixar. Ele disse que era a única forma de você sobreviver.
— Não está falando coisa com coisa, mãe. — Aaron sentiu que havia mais segredos que sua mãe não havia revelado. — Mãe, quem era o meu avô? Por que você nunca me falou sobre ele?
Claire hesitou, o olhar vagando para o mar. —Christian Shephard.
O nome atingiu Aaron como um soco físico. Shephard. O mesmo sobrenome de Jack. O mesmo sobrenome que assombrava Yan.
— Shephard? — Aaron repetiu, atordoado. — Ele era parente do médico? Doutor Jack Shephard?
— Jack... — Claire sorriu, um sorriso triste e quebrado. — Jack era meu irmão, Aaron. Eu só descobri depois. Seu tio morreu para nos salvar.
A revelação fez o mundo de Aaron girar. Yan estava lá por causa de Jack. Ele estava lá por causa de Claire. E todos eles eram ligados pelo sangue daquele cirurgião. Não era uma expedição; era uma reunião de família macabra.
Aaron abriu a boca para fazer mais perguntas — sobre a ilha, sobre a adoção, sobre o que aconteceu naqueles dias perdidos. Mas então ele olhou para o rosto da mãe. Ela estava pálida, tremendo, os olhos vidrados de pânico. Cada pergunta que ele fazia era como arrancar uma casca de uma ferida que nunca cicatrizou.
Ele percebeu, naquele momento, que não podia continuar torturando-a. Ele precisava das respostas, mas não podia obtê-las dela.
— Mãe... — Aaron soltou as mãos dela suavemente e segurou seu rosto. — Tudo bem. Não precisa falar mais nada.
— Mas você precisa saber, filho. Se você vai para aquele lugar...
— Eu vou descobrir. Por nós dois. — Aaron beijou a testa dela, sentindo o cheiro familiar de lavanda e medo. — Eu vou lá, vou entender o que aconteceu com a nossa família, e vou voltar. Eu prometo.
Claire olhou para ele, vendo não mais o menino que ela protegera, mas o homem que estava destinado a partir. — Se cuida, tá? — sussurrou ela, as lágrimas escorrendo. — Não confie naquela ilha. Ela engana.
— Pode deixar. Eu te amo, mãe.
Aaron se levantou, pegou sua mochila e caminhou em direção ao Elizabeth sem olhar para trás, sabendo que se olhasse, não conseguiria partir.
Claire ficou no banco, encolhida, abraçando a si mesma.
— Ele vai se cuidar, Claire. — A voz de Penelope surgiu atrás dela.
Claire enxugou as lágrimas rapidamente e se levantou, virando-se para a dona da Widmore. A fragilidade desapareceu, substituída por uma fúria protetora.
— Não venha com falsas promessas, Penelope. — Claire deu um passo à frente, encarando a mulher poderosa. — Eu sei quem seu pai era. Eu sei o que ele fez. Charles Widmore falsificou a descoberta do avião. Ele colocou corpos falsos no fundo do mar para que ninguém procurasse por nós.
Penelope manteve a expressão neutra, mas seus olhos mostravam cautela. — Isso foi há muito tempo.
— O crime não prescreve quando se trata de sequestro e conspiração. — Claire sibilou. — Se acontecer qualquer coisa com o Aaron... se ele tiver um arranhão sequer... eu vou a público. Eu conto tudo. Sobre o avião falso, sobre a ilha, sobre o que a Widmore esconde.
Penelope viu a seriedade na ameaça. Claire não era mais a garota perdida na selva; era uma mãe que não tinha mais nada a perder.
— Eu entendo — disse Penelope, respeitosamente.
Claire lançou um último olhar de aviso e se afastou, caminhando para longe do cais, deixando Penelope sozinha com o peso de mais um segredo que poderia destruir seu império.
Enquanto os preparativos finais eram feitos no convés, Yan Tedros observava a movimentação com o fascínio de quem nunca pisara em um navio de guerra — porque o Elizabeth podia ser um navio de pesquisa no papel, mas a tripulação o transformava em uma fragata.
Roger Miles gritava ordens para um pelotão de homens que carregavam caixas pesadas com a eficiência de formigas operárias. No meio daquela coreografia militar, um tripulante destoava. Ele tinha a pele morena, traços latinos marcantes e uma postura relaxada que contrastava com a rigidez dos outros.
O rapaz notou o olhar curioso de Yan nas movimentações e se aproximou, limpando as mãos na calça cargo.
— Primeira vez em alto mar? — perguntou ele, o sotaque carregado sugerindo origens distantes.
Yan piscou, surpreso por ser notado. — Está tão óbvio assim?
— É o jeito que você segura a grade. — O rapaz sorriu, um sorriso carismático. — Como se o chão fosse fugir de você. Sou Bryan. Piloto de helicóptero e faz-tudo nas horas vagas.
— Sou Yan. Enfermeiro e... — Yan hesitou, sem saber qual era sua função ali. — ...observador, eu acho.
— Bom, "Yan", é bom ver um rosto que não parece querer me matar. — Bryan riu, criando uma cumplicidade instantânea.
Yan riu, sentindo-se mais aliviado.
— Ei, soldado! — A voz de Roger cortou o momento como um chicote. O chefe de segurança estava no topo da escada, olhando para baixo com desaprovação. — Estamos aqui para trabalhar ou para fazer sala? Volte para a formação.
Bryan endireitou a postura. — Desculpe, senhor. — Ele se afastou, deixando Yan com a sensação talvez não devesse temer tanto assim aquela missão.
O Elizabeth zarpou ao meio-dia, deixando a silhueta de Sydney para trás.
Horas depois, o sol já estava baixo, pintando o oceano de dourado. Clementine estava debruçada na amurada de popa, observando a espuma deixada pelas hélices. O vento bagunçava seu cabelo, mas ela não se importava. Estava tentando organizar a raiva que sentia de tudo aquilo.
Aaron, que perambulava pelo convés tentando encontrar sinal de celular, a viu. A culpa pela discussão no bar na noite anterior ainda pesava. Ele respirou fundo e se aproximou.
— O balanço não é tão ruim quando se acostuma — disse ele, tentando soar casual.
Clementine não se virou. — O que você quer, Aaron?
— Eu... queria pedir desculpas. Por ontem. — Aaron coçou a nuca, desajeitado. — Eu estava bêbado. Falei besteira.
Clementine finalmente olhou para ele. Seus olhos eram duros. — Você disse que eu estava te "dando mole". Que eu vim por sua causa.
— Eu sei. Foi idiota. — Aaron tentou um sorriso conciliador, mas o nervosismo o fez falar demais. — O que eu quis dizer é que... você é uma garota bonita, inteligente... mas eu não estava insinuando nada. Você não faz meu tipo, de qualquer jeito.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Clementine olhou para ele, incrédula. A "desculpa" tinha sido pior que a ofensa.
— "Não faço seu tipo"? — Ela soltou uma risada de escárnio. — Sabe de uma coisa, Littleton? Você não é apenas um idiota. Você é um idiota com o ego do tamanho desse oceano. Faça um favor a nós dois: fique longe de mim.
Ela saiu pisando duro, deixando Aaron sozinho com o som das ondas e a certeza de que tinha acabado de estragar a única aliança possível.
Na ponte de comando, o clima era profissional, mas tenso. O Capitão Juan Smith debruçava-se sobre as cartas náuticas, o compasso na mão. Roger Miles estava ao lado dele, observando o horizonte infinito através do vidro.
Roger tinha visto a cena entre Aaron e Clementine lá embaixo. — O garoto é fraco — comentou Roger, sem tirar os olhos do mar. — Já arrancou dois foras da caipira. No próximo ele se ajoelha.
— Não subestime a teimosia dos jovens, Roger — respondeu Juan, traçando uma linha no mapa. — A garota também tem fogo nos olhos.
Roger bufou e mudou de assunto, focando no que realmente importava. — Quanto tempo até o alvo?
Juan endireitou-se, a expressão preocupada. — Essa é a questão. Estamos seguindo as coordenadas que o Sr. Hume forneceu, mas... — Juan tocou no mapa, num ponto azul vazio. — Olhe para isso. Estamos navegando para o nada. Não há ilhas, atóis ou rochas registradas nesse setor. É uma zona morta.
— Ou é uma ilha fantasma. — Roger cruzou os braços. — Desmond disse que ela não aparece nos mapas convencionais.
— Existe "não aparecer" e existe "impossibilidade geográfica". — Juan olhou para os instrumentos. — O GPS já está começando a oscilar. A bússola magnética está instável.
— Desmond não nos mandaria para um naufrágio — disse Roger, embora sua voz não tivesse total convicção.
— Não sei para onde estamos indo, militar. Mas se continuarmos nesse rumo... vamos sair do mundo conhecido. — Juan olhou para o mercenário. — Espero que seus homens saibam nadar.
Nos alojamentos inferiores, o luxo dos hotéis de Sydney era uma lembrança distante. Os quartos eram cubículos funcionais de metal.
Ji Yeon estava sentada em seu beliche, com uma caixa de sapatos aberta no colo. Dentro, havia recortes de jornais antigos, amarelados pelo tempo, todos em coreano. As manchetes gritavam sobre o desaparecimento do voo 815, os 6 da Oceanic e a tragédia da família Paik. Ela passava os dedos sobre a foto granulada de seus pais, rostos que ela conhecia apenas por imagens, tentando sentir alguma conexão.
A porta do camarote se abriu sem aviso. Clementine entrou, jogando a mochila no beliche oposto, ainda fumegando de raiva pelo encontro com Aaron.
Ji Yeon fechou a caixa rapidamente, escondendo sua vulnerabilidade sob a máscara de frieza habitual. — Ninguém te ensinou a bater? — perguntou Ji Yeon.
Clementine parou, olhando para a coreana. — Esse também é meu quarto, Princesa. A Widmore não reservou a suíte presidencial para você aqui.
— Escuta aqui. — Ji Yeon levantou-se, invadindo o espaço de Clementine. — Eu não estou aqui para fazer amigas, muito menos com uma caipira acadêmica que acha que sabe tudo. Mantenha suas coisas do seu lado, e não dirija a palavra a mim a menos que o navio esteja afundando.
Clementine sustentou o olhar, a raiva de Aaron encontrando um novo alvo. — "Caipira"? — Ela riu. — Olha só, eu não sei quem você pensa que é, ou que tipo de império você comanda lá fora. Mas aqui? Aqui você é só mais uma garota assustada olhando recortes de jornal velhos.
Ji Yeon recuou um passo, surpresa pela observação afiada. — Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que gente feliz não guarda obituários numa caixa de sapatos. — Clementine jogou o casaco na cama. — Não desconte seus traumas em mim. Eu não tenho medo de você.
— Deveria ter — sussurrou Ji Yeon, mas a ameaça soou vazia. Ela pegou a caixa e saiu do quarto, precisando de ar.
No corredor estreito do navio, Ji Yeon andava apressada, tentando recuperar a compostura, quando colidiu com alguém.
Era Bryan. Ele segurava uma chave inglesa, como se estivesse indo consertar algo.
— Opa. — Ele a segurou pelos ombros para firmá-la. — Cuidado por onde anda, senhorita. O chão é instável.
Ji Yeon soltou-se bruscamente. — Olhe por onde anda você.
Ela seguiu seu caminho. Bryan ficou parado, observando-a se afastar. O sorriso simpático desapareceu de seu rosto, substituído por uma expressão fria e calculista. Ele olhou para a chave inglesa em sua mão, depois para a porta da sala de comunicações no fim do corredor.
— Instável... — murmurou ele para si mesmo. — Vai ficar muito pior.
Dois dias se passaram em mar aberto. O Elizabeth cortava as ondas negras do Pacífico, uma ilha de metal e luz na vastidão escura. Era tarde da noite, e o convés estava silencioso, exceto pelo zumbido dos geradores e o vento salgado.
Bryan, o piloto de helicóptero, estava sentado na plataforma de pouso, as pernas balançando sobre o abismo escuro da água. A ponta de seu cigarro brilhava como uma estrela solitária.
Passos leves se aproximaram. Yan surgiu das sombras, abraçando o próprio corpo contra o frio.
— A noite é diferente aqui fora. — Yan sentou-se ao lado de Bryan, mantendo uma distância segura, mas convidativa. — Sem poluição luminosa. Parece que as estrelas vão cair na gente.
— É bonito, não é? — Bryan tragou o cigarro, soltando a fumaça para o vento. — Aceita?
— Não, obrigado. Meus pulmões agradecem.
— Certo. Você é o enfermeiro. — Bryan sorriu de lado. — O homem que vai me remendar se eu cair desse helicóptero.
— Temos uma médica, a Dra. Burke. — Yan corrigiu, mas retribuiu o sorriso. — Mas sim. Se você se quebrar, eu cuido de você.
Houve um segundo de silêncio carregado. Bryan olhou para Yan, os olhos escuros brilhando com divertimento. — Isso soou estranho, hermano.
Yan sentiu o rosto esquentar, agradecendo pela escuridão. Antes que pudesse responder, Aaron apareceu, quebrando o momento. Ele parecia inquieto, como se o navio fosse uma jaula.
— Tem espaço para mais um insone? — perguntou Aaron.
— Sempre. Senta aí, Chefe. — Bryan bateu no metal ao seu lado.
Aaron sentou-se, suspirando. — Não me chame de Chefe. Eu sou só o cara que assina os papéis que o Desmond manda.
— RH, Logística... tudo a mesma coisa. — Bryan riu. — Só tenho uma reclamação formal a fazer, Sr. Diretor. Por que tão poucas mulheres nessa missão? Vai ser uma viagem longa e solitária.
Os três riram, o som se perdendo no vento. Por um momento, pareciam apenas três jovens em uma aventura, alheios ao fato de que estavam navegando para fora do mapa.
Na ponte de comando, o clima era o oposto. Juan Smith olhava para o monitor do GPS com uma ruga profunda na testa. O ponto verde que representava o navio piscava erraticamente, saltando de coordenadas em coordenadas.
— Ei! — gritou Juan para o soldado na porta. — Chame o Roger. Agora.
Minutos depois, Roger entrou, ainda vestindo o colete tático. — Problemas, Capitão?
— Olhe isso. — Juan apontou para a tela. O sistema de navegação estava desenhando círculos impossíveis. — O norte magnético está girando. Segundo essa máquina, estamos navegando de ré.
Roger franziu a testa. — Equipamento defeituoso?
— Não. — Juan pegou uma bússola analógica do bolso. A agulha girava loucamente, sem encontrar o norte. — É o campo magnético. Estamos entrando em uma anomalia.
De repente, a porta da ponte se abriu com estrondo. Um dos mercenários de Roger entrou, pálido e suando frio.
— Senhor! — gritou o soldado. — Temos uma situação nos alojamentos. Os homens... eles estão perdendo a cabeça.
— Do que você está falando? — Roger rosnou, já sacando a arma. — Motim?
— Não, senhor. Loucura. Eles estão falando coisas sem sentido. Dizendo que não estão aqui.
Roger e Juan correram para os alojamentos inferiores. O corredor estava um caos. Homens gritavam, choravam ou batiam as cabeças contra as paredes de metal.
Um soldado corpulento agarrou Roger pela camisa, os olhos vidrados de terror. — Chefe! Temos que voltar! O prédio vai cair! Ainda tem gente lá dentro!
Roger tentou empurrá-lo. — Solte-me, soldado! Que prédio? Estamos num navio!
— As Torres! — O homem gritou, a voz quebrada. — O World Trade Center! A fumaça está vindo! Eu preciso pegar minha máscara!
Roger gelou. O homem estava revivendo o 11 de Setembro. Um evento de 28 anos atrás.
— Ele era bombeiro em Nova York... — murmurou Roger, o horror tomando conta. — Ele não sabe onde está. A mente dele voltou no tempo.
— Não é só ele. — Juan apontou para outro homem que estava encolhido no chão, chamando pela mãe como uma criança. — O que está acontecendo com a minha tripulação?
— Jessy! — gritou Roger. — Chamem a médica!
Dra. Jessy Burke chegou correndo, o kit de primeiros socorros na mão. Ela parou, chocada com a cena dantesca. Homens fortes reduzidos a cascas delirantes.
— O que houve? Intoxicação alimentar? Gás? — perguntou ela, ajoelhando-se ao lado de um paciente que convulsionava.
— É a cabeça deles. — Roger disse, sombrio. — Eles estão presos no passado.
— Precisamos contê-los. — Juan tentou segurar um homem que tentava abrir uma escotilha submersa. — Se continuarem assim, vão afundar o navio ou se matar.
— Tranquem todos aqui! — Roger ordenou. — Ninguém sai até sabermos o que é isso.
— Você está louco? — Jessy levantou-se. — Eles precisam de ajuda, não de uma cela! Isso é desumano!
— Você tem uma ideia melhor, Doutora? — Roger gritou, a paciência esgotada. — A menos que tenha a cura para viagem no tempo no seu kit, tranque a maldita porta!
Enquanto eles selavam o alojamento, ouvindo os gritos abafados do lado de dentro, Juan correu para a sala de comunicações. Precisava avisar Desmond. Precisava de ajuda.
Ele abriu a porta e parou.
Os equipamentos de rádio estavam destruídos. Painéis arrancados, fios cortados. Dois guardas estavam caídos no chão, inconscientes, com marcas de golpes na nuca.
— Sabotagem... — sussurrou Juan. O inimigo não estava apenas lá fora. Estava a bordo.
No convés superior, alheios ao inferno abaixo, Yan e Aaron ainda conversavam. Bryan havia saído para "buscar mais cerveja".
— Rapazes! — A voz de Juan veio do alto falante externo, urgente. — Saiam do convés! Entrem agora!
Yan e Aaron se entreolharam, confusos. — O que foi isso? — perguntou Aaron.
Antes que Yan pudesse responder, Aaron travou. Seus olhos se fixaram em um ponto vazio no mar. Sua respiração acelerou, transformando-se em um chiado de pânico. O suor brotou em sua testa instantaneamente.
— Aaron? — Yan tocou no ombro dele. — Você está bem?
Aaron gritou e se jogou para trás, escondendo-se atrás de um barril de óleo, tremendo violentamente.
— Quem são vocês?! — gritou Aaron, a voz aguda, infantil. — Eu quero a minha mãe! Cadê a minha mãe?!
— Aaron, sou eu, o Yan. Sua mãe está em Sydney. — Yan tentou se aproximar, assustado.
— Não! — Aaron encolheu-se, cobrindo a cabeça com as mãos. — Eu quero a minha mãe. Onde ela foi?! Minha mãe é a Kate moço. O que está acontecendo? Minha cabeça dói.
Yan recuou, chocado. Aaron não estava apenas confuso. Ele estava regredindo.
Bryan apareceu na porta, segurando as cervejas, e parou ao ver a cena. Seu rosto não mostrava surpresa, apenas uma satisfação fria.
Juan desceu as escadas correndo. Ele viu Aaron encolhido e entendeu imediatamente. A "doença" tinha chegado ao comando.
— Calma, rapaz. — Juan se aproximou devagar, com as mãos erguidas. — Você está seguro.
— Eu não conheço você! — Aaron chorava, um choro de criança no corpo de um homem. — Eu tive um sonho ruim... um navio... pessoas estranhas... eu estou com medo.
Juan olhou para Yan, o medo refletido nos olhos do enfermeiro. — O que está acontecendo, Capitão? — perguntou Yan.
— Não sei. — Juan olhou para o horizonte escuro, onde a bússola girava sem parar. — Mas acho que acabamos de cruzar a linha. Não estamos mais no mundo real.
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