Lost: O Primeiro Herdeiro

1 LIVRO 1 — CAPÍTULO 01: SONHOS DE UM PASSADO ESQUECIDO


Sydney, Austrália — 2029

Aaron acordou em um solavanco naquela manhã de segunda-feira. Havia passado a noite toda fora, e o pouco que dormiu foi povoado por fragmentos perturbadores. Seus sonhos o levavam sempre a uma ilha desconhecida, um lugar de vegetação densa que ele não recordava, mas que parecia ecoar como uma lembrança de um passado não muito distante.

O rapaz sentou-se na cama, ofegante. Aqueles sonhos tornavam-se frequentes, sempre o despertando no exato momento em que parecia estar prestes a descobrir algo crucial. Caminhou até o banheiro e tomou um banho gelado, tentando lavar o cansaço e a ressaca da festa da noite anterior. Afinal, era segunda-feira e o trabalho o aguardava.

Aaron Littleton, no auge de seus 25 anos, era um jovem adulto que emanava uma presença cativante. Seu rosto expressava uma harmonia curiosa entre juventude e maturidade, moldado por cabelos loiros cortados em um estilo prático. Seus olhos, de um azul profundo como um céu claro, pareciam guardar segredos e reflexões interiores, adicionando uma camada de mistério à sua aparência. O físico, mantido com rigor na academia, completava o visual. A influência de sua mãe, Claire Littleton, era inconfundível em cada detalhe: os cabelos, o olhar, a essência.

Vestiu suas roupas de trabalho e desceu as escadas. Encontrou sua mãe no sofá, absorta no noticiário da manhã. Claire já não era a jovem garota de outrora; o tempo e os traumas deixaram marcas. Embora vivesse normalmente em sociedade, carregava traços leves de uma confusão mental, sequelas de um período de sua vida sobre o qual pouco falava.

— Bom dia filho. — Disse Claire para Aaron que passava de fininho por trás de sua mãe, com a intenção de sair sem incomodar.

— Desculpe, mãe. Estava indo trabalhar. — Comentou o rapaz, sem graça.

— Sem falar comigo primeiro?

— Vou tentar voltar antes do almoço para almoçar com a senhora.

— Vou te aguardar então.

Aaron caminhou até sua mãe e a beijou no rosto.

— Se cuida, tá? Vê se não arruma problema novamente. — Disse o rapaz.

— Pode deixar. — Comentou Claire, com seu sorriso no rosto.

Aaron saiu, pegou sua moto e partiu rumo ao centro da cidade. No caminho, parou em um sinal que ficava em frente ao fast-food Mr. Clucks, lanchonete americana de frango. Em uma rápida olhada viu um homem, acima do peso, cabelos ruivos, cacheados e bagunçados. Estava com um pacote de salgadinhos na mão. Ele acenou para Aaron. Era familiar, talvez de seus sonhos, mas Aaron não se recordava dele. Qualquer lembrança da ilha foi apagada de sua mente, e os sonhos, apesar de frequentes, não lhe davam pistas sobre tal lugar.

O rapaz virou-se rapidamente para frente, afinal, o sinal havia ficado verde, quando olhou novamente para o Mr. Clucks, ninguém estava mais lá, como se o homem misterioso tivesse sumido “do nada”. Aaron ficou perturbado com o que viu, mas decidiu seguir seu caminho.

Chegando na empresa, caminhou o mais rápido que podia até sua sala. Tyler, seu amigo de trabalho, aproximou-se sorrateiramente. Ele era um homem de pele escura, com cabelos encaracolados em um tom profundo de preto que formavam uma moldura natural ao redor de seu rosto. Seus olhos eram castanhos. Tyler tinha o dom de sorrir com facilidade e seu sorriso era contagiante iluminando até os momentos mais sombrios. Essa característica peculiar, no entanto, às vezes causava um leve desconforto em seu amigo, que nem sempre compreendia como alguém poderia manter um otimismo, mesmo naquele ambiente tão estressante. Ele se aproximou de Aaron.

— Bom dia, cara. Passou do ponto ontem de novo? — Disse Tyler, referindo-se a festa da noite anterior.

— Tudo que quero é não falar sobre ontem, Tyler.

— Você saiu correndo da festa sem falar com ninguém. O que está acontecendo contigo?

— Eu não quero falar sobre isso.

— São aqueles sonhos de novo? — Comentou Tyler, fazendo o rapaz revirar os outros. —Você anda atrasando os relatórios do chefe, se continuar assim, vai ser demitido.

— E qual a parte ruim nisso? — Perguntou Aaron, irônico.

— Você sempre fala isso, mas por que não pede demissão?

— Minha mãe que conseguiu esse trabalho para mim. É uma das maiores empresas do mundo e “bla bla bla”... Não quero decepcioná-la.

— Está brincando? Você não acha que você já tem idade para ter suas próprias escolhas?

— Escuta aqui Tyler... Você não tem nada melhor para fazer não? — Indagou Aaron, olhando fixamente para Tyler.

— Opa, calma cara. Mas você deveria dar um jeito na sua vida.

Neste instante Aaron chegou em sua sala, suspirou e fechou a porta, deixando Tyler para trás. O rapaz sentou-se em sua cadeia e começou a redigir os relatórios atrasados, mas os flashs de seu sonho vinham a sua cabeça a todo tempo, até que de repente, inconscientemente, Aaron digitou no computador o seguinte código: 4 8 15 16 23 42

De repente toda sua sala se parecia como um escritório dos anos 80. O computador em sua frente estava diferente. A visão de Aaron era de um ambiente parecido como um banker ou escotilha com componentes retro relembrando bastante aquela década, mas Aaron não reconhecia tal lugar, afinal, quando esteve lá em seus sonhos, ele era apenas um bebê. A música que tocava em sua visão era como uma música dos anos 80: “Make Your Own Kind Of Music” ressoava pelo ambiente. Ele se levantou rapidamente, assustado, bateu na parede a suas costas e a música se tornava mais alta. De repente, alguém tocou seu ombro e disse: “encontre-me, Aaron”, mas aquela voz não parecia familiar ao rapaz.

Aaron olhou para o lado completamente assustado e quando viu a pessoa que estava com a mão em seu ombro, era a auxiliar de serviços gerais.

— Aaron, tudo bem? — Perguntou ela.

O rapaz estava ofegante. Balançou a cabeça se afastando da moça. A visão de Aaron ainda era entre o seu escritório e aquela visão. Os túneis pareciam se fechar diante dele naquele corredor infindável. Ele começou a correr abandonando a mulher que tentava entender a situação.

Correu até o banheiro onde lavou seu rosto e tudo se dissipou como se nada tivesse acontecido. Tyler entrou no banheiro chamando pelo nome dele. Quando se aproximou de seu amigo, logo perguntou:

— Aaron, tudo bem?

Aaron se assustou ao ver Tyler e, com a mão em sua cabeça, apenas tentou acalmar a situação.

— Estou sim. Me deixa quieto. — Disse ele, saindo e deixando Tyler para trás.

Andando pelos corredores que antes passou às pressas, era observado pelas pessoas que o olhavam assustados. Desceu pelo elevador e sentou-se no banco que havia na calçada em frente a empresa. Ficou pensando na visão que teve. Todos os dias se tornaram torturantes para ele. De uma janela nos andares acima, alguém observava tudo, mas apenas a silhueta era possível ver, tornando difícil identificar quem observava Aaron naquele momento.

Quando o rapaz finalmente se recuperou, voltou para dentro da empresa. Todos o olharam com olhares preocupados. Aquilo não acontecia frequentemente, mas recentemente estava se tornando mais repetitivo.

Aaron decidiu não contar para ninguém o que viu. Em sua cabeça, como sua mãe era problemática, ele poderia ser também.

Mais tarde, o som metálico dos pesos batendo na academia deveria servir como distração, mas a mente de Aaron estava longe. Enquanto permanecia sentado no aparelho, com o olhar perdido no vazio, as visões da ilha continuavam a martelar sua cabeça, desconectando-o da realidade ao seu redor.

Ele estava tão absorto que não percebeu a presença constante de um homem do outro lado do salão. Era uma figura robusta, com cabelo grisalho e corte no estilo militar, com um olhar que carregava um peso intimidador. O estranho não apenas treinava; ele monitorava Aaron, irradiando uma aura de dureza calculada.

De repente, a sombra do homem cobriu Aaron. O rapaz, ainda preso em seus devaneios, não reagiu de imediato à aproximação, até que uma voz áspera e ameaçadora cortou o silêncio:

— Ei. Você pretende usar o aparelho ou vou ter que te tirar daí?

Aaron piscou, voltando à realidade. Ele não queria confusão, não com a cabeça daquele jeito. Levantou-se sem dizer nada e caminhou até o bebedouro. Enquanto se refrescava, Tyler que também frequentava o ambiente, aproximou-se, secando o suor com uma toalha.

— Qual é a desse cara? — perguntou Aaron, acenando discretamente com a cabeça na direção do estranho.

Tyler baixou o tom de voz, como se contasse um segredo de estado. — O nome dele é Roger Miles. É um ex-militar do exército britânico. Parece que foi expulso e está passando um tempo aqui na Austrália.

Aaron franziu a testa. — Como você sabe de tudo isso?

— A garota da recepção... digamos que ela é minha amiga.

— É assim que você chama ex-ficante agora? "Amiga"? — Aaron permitiu-se um leve sorriso.

— Foi só uma vez, cara — riu Tyler.

A conversa cessou quando perceberam que Roger havia parado o exercício e os encarava fixamente. Ele caminhou até eles, invadindo o espaço pessoal dos dois.

— Os dois bebês estão me encarando? — Roger perguntou, a voz grave e provocativa.

Tyler recuou um passo, intimidado. — Não, senhor. Já estávamos de saída.

Aaron sustentou o olhar do homem por um segundo. Seus treinos de luta lhe davam a confiança necessária para não temer um confronto físico, mas seu instinto dizia que aquele não era o momento. Ele seguiu Tyler para fora.

Minutos depois, na calçada, Aaron se despedia do amigo. Encostado em um carro preto do outro lado da rua, Roger observava a cena, o celular no ouvido.

— Alô — disse Roger, os olhos fixos em Aaron.

— Estarei em Sydney amanhã. Junte a tropa que conseguiu para a missão — ordenou a voz do outro lado da linha.

— Ok — respondeu Roger. — Tive o primeiro contato com o rapaz.

— E então?

— Tem certeza de que é ele? — Roger indagou, avaliando o jovem à distância.

— Aaron Littleton. Cabelos loiros, olhos azuis... Sem dúvidas.

A ligação foi encerrada. Roger guardou o celular no bolso e entrou no carro. Aaron, sentindo o peso daquele olhar, virou-se a tempo de ver o veículo preto partir cantando pneus, deixando para trás uma sensação incômoda de que aquele encontro não fora uma coincidência.

O dia seguinte amanheceu cinzento, refletindo o estado de espírito de Aaron. Decidido a ignorar o despertador e as responsabilidades, ele faltou ao trabalho. Uma força invisível, quase uma bússola magnética em seu peito, o guiou até o centro da cidade, especificamente para a frente do letreiro em neon do Mr. Clucks.

O cheiro de gordura e frango frito invadiu suas narinas assim que ele empurrou a porta de vidro. Aaron caminhou até o balcão, sentindo-se deslocado entre as famílias e trabalhadores em horário de almoço.

— Quero dois para viagem, por favor — pediu ele, a voz soando distante aos seus próprios ouvidos.

— Tudo bem. Qual o nome para o pedido? — indagou a atendente que mascava chiclete, entediada.

— Aaron. Aaron Littleton.

— Ok. Mais alguma coisa?

— Não, obrigado.

A caixa registradora apitou, um som agudo que pareceu ecoar dentro do crânio de Aaron. A garota estendeu a mão, entregando-lhe o recibo.

— Sua senha.

Aaron baixou os olhos para o papel térmico. O mundo ao seu redor silenciou. Não havia preço, nem lista de itens. Havia apenas uma sequência numérica, impressa em negrito, que parecia queimar suas retinas:

4 8 15 16 23 42

O ar faltou. O chão sob seus pés pareceu oscilar como o convés de um navio. Aaron sentiu as mãos tremerem e os papéis escorregaram de seus dedos, flutuando até o chão.

— Você está bem, brother?

A voz veio de trás, carregada de um sotaque escocês inconfundível. Uma mão firme pousou em seu ombro, puxando-o de volta à realidade.

Aaron balançou a cabeça, atordoado. Olhou para o chão: o recibo estava lá, mas exibia apenas o número do pedido, "23". Os números malditos haviam sumido.

Ele se virou lentamente.

Diante dele estava um homem de meia-idade, vestindo um terno de corte impecável que contrastava com o ambiente de fast-food. Seus cabelos, antes castanhos, agora estavam mesclados com fios prateados que caíam sobre os ombros. O rosto trazia marcas de expressão profundas, cicatrizes de uma vida vivida no limite, mas os olhos... os olhos brilhavam com uma inteligência e uma bondade que Aaron sentiu, inexplicavelmente, que já conhecia.

— Aaron? — disse o homem, sorrindo como se reencontrasse um velho amigo.

— Quem é você? — perguntou o rapaz, recuando um passo. A voz daquele homem ecoava em fragmentos de seus sonhos, sussurrada em meio ao som de sirenes e teclas de computador.

— Meu nome é Desmond. Desmond Hume. — Ele estendeu a mão, o sorriso se alargando, revelando um carisma natural. — Sou o CEO da empresa onde você trabalha. Ou onde deveria estar trabalhando agora.

Aaron sentiu o sangue gelar. — O CEO da Widmore? — Ele olhou para as roupas de trabalho que não vestiu naquele dia. — Olha, senhor Hume, eu... eu estou ferrado, não estou?

Desmond soltou uma risada rouca e calorosa. — Não, Aaron. Longe disso. — Ele fez um gesto convidativo em direção à saída. — Digamos apenas que o destino tem um jeito engraçado de reunir as pessoas. Eu vim a Sydney especificamente para te ver.

— Me ver? Eu sou apenas um assistente administrativo. Um péssimo funcionário, se quer saber a verdade.

— Você é muito mais do que isso, brother. — Desmond disse a última palavra com uma ênfase que fez um arrepio percorrer a espinha de Aaron. — Vamos caminhar? Tenho uma oportunidade para você. Uma que você não vai querer recusar.

Aaron hesitou, olhando para o homem estranho e magnético à sua frente. Havia algo nele — uma aura de quem já sobreviveu ao fim do mundo — que o impelia a confiar. Sem dizer mais nada, Aaron o seguiu para fora do restaurante, deixando para trás o cheiro de frango frito e a sensação de que sua vida comum tinha acabado de chegar ao fim.

Voltando à 2007, o silêncio que caiu sobre a ilha era ensurdecedor. Não havia mais tremores, nem o som mecânico e aterrorizante da fumaça negra. Apenas o vento balançando os bambus e o latido triste de um cachorro.

Hugo Reyes, o homem que todos chamavam de Hurley e quem Aaron viria a conhecer no futuro, abriu caminho por entre as hastes verdes, o coração martelando no peito. Ele sabia o que encontraria, mas rezava para estar errado. Quando chegou à clareira, suas pernas cederam.

Jack Shephard estava deitado de costas. Seus olhos estavam fechados, e uma expressão de paz, finalmente, suavizava seu rosto. Ao seu lado, fiel até o último segundo, estava Vincent, o labrador, lambendo a mão inerte do doutor.

— Acabou, Jack... — sussurrou Hugo, as lágrimas quentes riscando seu rosto sujo de terra e fuligem. — Você conseguiu.

Desmond Hume surgiu logo atrás, mancando, exausto. Ele olhou para o corpo de Jack e fez o sinal da cruz, baixando a cabeça em respeito. Benjamin Linus, sempre a sombra pragmática, observava a cena a alguns metros de distância, seu rosto ilegível.

— E agora, brother? — A voz de Desmond falhou. — O que faremos?

Hugo limpou o rosto com as costas da mão, sentindo o peso invisível da Ilha pousar sobre seus ombros. Jack havia lhe passado o cargo de Protetor. Não havia mais ninguém para dar ordens.

— Precisamos enterrá-lo — disse Hugo, a voz embargada, mas firme. — Ele não vai ficar aqui jogado. Ele merece descansar.

Enquanto Hugo e Desmond se aproximavam para levantar o corpo, Ben deu as costas e começou a caminhar na direção oposta.

— Aonde você vai? — perguntou Hugo.

— Vocês têm um funeral para realizar — respondeu Ben, sem se virar. — Eu tenho meus próprios demônios para enterrar.

— Ben! — Hugo chamou, fazendo-o parar. — Você disse que me ajudaria. Disse que seria meu número dois.

Ben virou a cabeça ligeiramente, um brilho estranho no olhar. — E eu irei. Você sabe onde me encontrar quando terminar de chorar.

Ben desapareceu na mata. Desmond e Hugo, sozinhos com o corpo do homem que os liderou por tanto tempo, começaram a longa caminhada.

Horas mais tarde, a terra fofa cobria o túmulo improvisado. Rose e Bernard, o casal que havia decidido viver em paz na ilha longe da guerra, juntaram-se a eles.

Não havia papel, nem caneta. Apenas palavras que precisavam ser ditas.

— Jack... — começou Hugo, olhando para a cruz de madeira torta. — Você foi um líder teimoso, um amigo difícil e o maior herói que já conheci. Você me ensinou que não precisamos ser perfeitos, só precisamos nos importar. Obrigado por consertar a gente.

O vento soprou forte, como se a própria ilha respondesse. Rose enxugou uma lágrima e Bernard colocou a mão no ombro de Hugo.

Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de um laranja violento, Hugo e Desmond caminharam pela praia. O avião da Ajira já havia partido horas atrás, levando os outros sobreviventes. Eles tinham sido deixados para trás.

— Eu não pretendo ficar preso nesta ilha para sempre, Hurley — disse Desmond, quebrando o silêncio. Sua mente estava do outro lado do oceano, em Penny, sua amada.

— Eu sei, cara. — Hugo chutou a areia, cabisbaixo. — Eu prometo. Vou fazer de tudo para te tirar daqui.

— Eu preciso voltar. Para a Penny... e para o Charlie.

Hugo parou. — Charlie?

— Meu filho — Desmond sorriu, um sorriso triste e cheio de saudade. — Dei a ele esse nome em homenagem ao Charlie.

Hugo sentiu um aperto no peito. Lembrar do velho amigo roqueiro doía, mas também aquecia. — Tenho certeza de que ele iria adorar. O Charlie amava crianças... — Hugo suspirou, olhando para o horizonte vazio.

— Hurley, estou falando sério — insistiu Desmond, parando à frente dele. — Não posso ficar aqui. Essa ilha já me tirou anos demais. Não vou deixar ela levar o resto.

Hugo olhou para Desmond. Ele via o desespero no amigo, mas também sentia o poder novo e assustador correndo em suas veias. Ele era o Protetor agora. As regras eram dele.

— Entendo, cara. Passarei o tempo que for preciso para te ajudar. Agora... acho que sou imortal, ou algo assim. Tenho que descobrir como isso funciona. Mas não hoje. Hoje, não.

— Como assim "hoje não"? — Desmond elevou a voz, a irritação do luto transbordando.

— Desculpa, cara. Não estou bem. — Hugo deu as costas, deixando Desmond falando sozinho na arrebentação das ondas. A morte de Jack tinha deixado um buraco que nenhum poder místico poderia preencher imediatamente.

Enquanto isso, no alto das falésias, longe do funeral e da tristeza, Benjamin Linus estava diante de um corpo estirado nas pedras. Era o corpo de John Locke ou melhor, a casca que o monstro fumaça havia usado. O homem que o atormentara, que o humilhara e que quase destruíra a ilha estava ali, quebrado, sem vida, apenas carne e osso.

Ben observou o cadáver do seu maior rival. O vento bagunçava seus cabelos. Um sorriso lento, frio e terrivelmente satisfeito curvou seus lábios.

— Eu venci — sussurrou ele para o vento. Puxou o corpo de Locke até soltá-lo em direção ao mar.

No presente, a caminhada foi silenciosa e desconfortável. Desmond guiava Aaron para longe do centro espelhado e moderno de Sydney, adentrando uma zona industrial decadente. O destino final era um galpão de tijolos vermelhos, com janelas quebradas e um letreiro desbotado onde mal se lia: WIDMORE CORPORATION — EST. 1990.

Aaron parou na calçada, o instinto de autopreservação gritando mais alto que a curiosidade.

— Widmore? — Aaron leu, incrédulo. — Por que estamos num prédio condenado?

— Aqui foi a primeira sede da Widmore na Austrália — explicou Desmond, olhando para a fachada com uma nostalgia indisfarçável. — Foi construída por Charles Widmore quando ele ainda tinha ambições... tangíveis.

— Isso é fascinante, Sr. Hume, mas o que estamos fazendo aqui? — Aaron deu um passo para trás, a mão tateando o celular no bolso. — Você disse "oportunidade", mas isso está parecendo cena de crime.

Desmond sorriu, percebendo o medo legítimo do rapaz. — Eu sei o que parece. Mas preciso de privacidade. O que tenho para te mostrar não pode ser visto nas câmeras de segurança da torre corporativa.

Ele empurrou uma porta de metal enferrujada que gemeu ao abrir. — Vamos?

— Nem ferrando — retrucou Aaron, plantando os pés no chão. — Você aparece do nada, diz que é meu chefe, faz truques mentais com recibos de lanche e agora quer me levar para um porão escuro? Eu não sou idiota. Vou voltar para casa.

Aaron virou as costas. Foi nesse momento que Desmond jogou sua cartada.

— E quanto aos sonhos, Aaron?

O rapaz congelou. O barulho do trânsito distante pareceu sumir. Ele se virou lentamente e indagou — O que você disse?

Desmond permaneceu na porta, a sombra ocultando metade de seu rosto. — A floresta. A chuva. Os sussurros que você não entende, mas sente que conhece. Você vai voltar para casa e fingir que não acorda suando toda noite, sentindo falta de um lugar que você já esteve e não se lembra?

Aaron sentiu a boca seca. — Como você sabe disso?

— Porque eu estive lá, brother. — Desmond abriu a porta totalmente. — A resposta está aqui dentro. Se quiser continuar dormindo mal, vá embora. Se quiser acordar... entre.

A curiosidade venceu o medo. Aaron, ainda tenso e pronto para correr a qualquer sinal de perigo, entrou.

O interior era um labirinto de corredores empoeirados, mas Desmond o guiou até uma sala nos fundos. Diferente do resto, aquela sala estava limpa. Havia apenas uma mesa de metal, duas cadeiras e uma pasta solitária sobre o tampo.

— Sente-se — disse Desmond.

— Vou ficar de pé. — Aaron cruzou os braços. — O que você é? Algum tipo de agente da CIA? Um guru?

— Sou apenas um homem que está tentando consertar os erros do passado. — Desmond tocou a pasta. — Há alguns meses, nossos satélites captaram uma anomalia. Uma ilha no Pacífico Sul. Ela não aparece nos mapas convencionais. Possui uma fonte de energia eletromagnética única.

A palavra "Ilha" atingiu Aaron como um soco físico. Uma pontada aguda de dor surgiu atrás de seus olhos, acompanhada pelo som fantasma de ondas quebrando.

— Ilha? — Aaron repetiu, a voz falhando. — O que tem nessa ilha?

— É isso que vamos descobrir. Estou montando uma equipe. Não de cientistas ou soldados, mas de pessoas... conectadas.

Desmond deslizou a pasta pela mesa. Aaron hesitou, mas a atração era magnética. Ele abriu o arquivo. Fotos, mapas, perfis.

— Você quer que eu vá para lá? — Aaron riu, nervoso. — Eu sou assistente administrativo. Mal sei usar o Excel.

— Você não vai pelas suas habilidades de escritório, Aaron. Você vai porque é filho de Claire Littleton. — Desmond o encarou com seriedade. — Você foi muito bem recomendado.

— Recomendado por quem? Minha mãe mal sai de casa.

— Pela própria Ilha. — Desmond disse aquilo com tanta naturalidade que soou assustador. — Eu preciso que você encontre os outros.

Aaron riu. Aquilo era ridículo. — Recomendado pela ilha?

— Eu disse algo engraçado? — Indagou Desmond, ainda sério.

Aaron se calou. Olhou para os nomes na lista. — Clementine Phillips... Yan Tedros... Eles estão nos Estados Unidos.

— O voo está pronto. O financiamento é ilimitado. — Desmond se aproximou. — Eu não posso fazer isso sozinho, Aaron. Preciso de alguém que entenda o que é sentir que não pertence a este mundo. Você aceita?

Aaron olhou para a pasta, depois para Desmond. A lógica dizia para fugir, mas seu instinto gritava que aquela era a chave para parar os pesadelos. Ou para entendê-los.

— Se eu fizer isso... você me conta como sabe sobre os meus sonhos?

— Eu te conto tudo, brother.

Aaron estendeu a mão. — Eu estou dentro.

Desmond apertou a mão do rapaz com firmeza. — É bom ver você crescido, Aaron.

No momento em que as peles se tocaram, o mundo de Aaron fraturou.

O galpão desapareceu. O cheiro de mofo foi substituído pela brisa salgada do mar. Aaron não estava mais em Sydney; estava em uma praia de areia branca. Ele viu uma mulher loira — sua mãe, mas muito mais jovem, selvagem, com o cabelo desgrenhado — segurando um bebê no colo. Ao lado dela, o próprio Desmond sorria. Também mais jovem. E havia outro homem, um sujeito loiro com ar de roqueiro, observando-os com carinho.

— Você tem que salvá-lo, Charlie! — gritou a mulher.

O som era abafado, como se estivessem debaixo d'água.

Aaron puxou a mão bruscamente, rompendo o contato. Ele cambaleou para trás, ofegante, de volta ao galpão empoeirado.

— O que... o que foi isso? — Aaron olhou para as próprias mãos, tremendo. — Nós já estivemos lá. Eu e você. Naquela praia.

Desmond, que não parecia surpreso, apenas ajeitou o paletó, um semblante de tristeza cruzando seu rosto. — Eu disse que te contaria tudo. Mas primeiro, precisamos reunir a equipe.

— Eu era aquele bebê? — Aaron insistiu, a voz subindo de tom. — Não minta para mim! Eu lembro... eu lembro do rosto da minha mãe. Ela estava diferente.

— Aaron, foque na missão. — A voz de Desmond era firme, mas havia compaixão nela.

— O que você está me escondendo? — Aaron avançou um passo, a raiva superando o medo.

Desmond abaixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar do rapaz. O peso do que aconteceu no passado parecia esmagar seus ombros.

O tempo na Ilha passava de forma diferente. Para o mundo, era 2017. Para os habitantes daquele lugar esquecido, era apenas mais um dia num ciclo interminável de sol e chuva.

Dez anos. Uma década inteira desde que o avião da Ajira partira, deixando Desmond Hume e os outros para trás.

Na orilha, longe do acampamento improvisado, Hugo e Ben conversavam em tom baixo. Hugo, agora com fios brancos na barba e um semblante mais pesado, olhava para o horizonte vazio.

— Como ele conseguiu sair? — indagou Hugo. A pergunta não mencionava nomes, mas o peso nela referia-se a alguém que havia deixado a ilha recentemente de forma inexplicável.

— Você sabe que não adiantaria mantê-lo aqui, Hugo. A Ilha o rejeitou — respondeu Ben, com sua calma pragmática habitual. — Ele nunca aceitaria o cargo.

Hugo suspirou, chutando a areia. — Sem um sucessor, a estabilidade da Fonte está em risco.

— Então não temos escolha — disse Ben, olhando de relance para a floresta. — Teremos que enviar o Desmond. Ele é o único que pode sair e trazer os novos candidatos.

Antes que Hugo pudesse responder, passos pesados e apressados surgiram da mata. Desmond emergiu, a aparência selvagem, o cabelo comprido e o rosto marcado por uma década de frustração. Ele não ouvira a conversa toda, mas a linguagem corporal dos dois era o suficiente para acender sua paranoia.

— Tudo bem, dude? — Indagou Hugo.

— O que tanto vocês cochicham aí? — Desmond gritou, a voz rouca. — Ultimamente vocês só vivem de segredos. Por que não posso ir para o lado sul?

— Desmond, por favor, se acalme — disse Ben, erguendo as mãos em um gesto pacificador que soava falso.

Desmond avançou, o dedo apontado para o rosto de Ben. — Não estou falando com você, seu psicopata. Você já mentiu o suficiente para uma vida inteira.

Ben apenas sorriu, aquele sorriso enigmático de quem sabe mais do que diz, e deu um passo atrás, deixando o palco para Hugo.

Desmond virou-se para o amigo, a mágoa transbordando nos olhos. — Escute, Hurley. Você me prometeu. Disse que no dia em que encontrasse uma forma de eu sair desta ilha, você me diria.

— Eu sei, Dess...

— Já se passaram dez anos! — A voz de Desmond quebrou. — Dez longos anos e nada. Simplesmente nada.

Hugo baixou os olhos, incapaz de encarar a dor do amigo. — Olha... existe um jeito.

O mundo de Desmond parou. O som do mar sumiu. — O quê? — Ele sussurrou, a esperança e a fúria lutando dentro dele. — Você sempre soube que existe um jeito e nunca me disse?

— Ben encontrou uma saída recentemente, na caverna do Templo — Hugo explicou, a voz trêmula. — Mas é perigoso, Desmond. A saída exige uma troca de energia. Se você sair, eu posso perder a conexão com a Fonte. Posso perder meu cargo de guardião.

Desmond soltou uma risada incrédula e amarga. — O quê? Você está me dizendo que o seu "carguinho" de Protetor da Ilha é mais importante que a minha família? — Ele avançou, agarrando Hugo pelos ombros. — O meu filho, o Charlie... ele deve ter mais de dez anos agora. Eu sequer o vi dar os primeiros passos. Eu perdi tudo, Hugo! Seu desgraçado!

Hugo não resistiu ao empurrão. Ele sabia que merecia. — Desmond, descobrimos isso agora, eu juro. Só não te contamos porque... porque a missão é suicida. E sabíamos que você iria aceitar qualquer coisa para sair daqui.

— Como eu poderia recusar? — Desmond gritou, as lágrimas escorrendo. — O que eu mais quero é sair deste inferno!

Hugo respirou fundo, assumindo a postura de líder que a Ilha exigia dele. — Tudo bem. Mas há um preço. É a mesma missão que nos trouxe a essa ilha anos atrás. Você seria responsável por trazer os substitutos. Os candidatos a ocupar o meu lugar.

Desmond limpou o rosto, focado. — Assim? Tão simples?

— Existe uma lista. Ben coletou os nomes através do Farol — explicou Hugo. — Você precisa ir lá fora, encontrá-los e trazê-los até mim. Se fizer isso... nunca mais precisará voltar.

A promessa de liberdade, de ver Penny e Charlie, era inebriante. — Perfeito. Quando começo?

— Espere, Desmond. — Hugo segurou o braço dele. — "Nunca mais" é sério. Lembre-se: a Ilha precisa de você. Você é a nossa constante, de certa forma. Se você sair e não trouxer os candidatos... se você falhar e não voltar... a luz pode se apagar. Pode ser o fim de tudo.

Desmond olhou para a praia, para a selva, para aquele lugar que lhe roubara tanto tempo. — Que a Ilha afunde no oceano. Eu não me importo. Eu aceito sua proposta.

— Então está feito. Vamos nos preparar. — Disse Hugo, com um peso no coração.

Ele fez um sinal para Ben, que aguardava ao longe. Desmond olhou para ambos, desta vez estava mais confiante.

De volta ao presente, na calçada da antiga sede da Widmore, o silêncio entre Aaron e Desmond era pesado, carregado com o peso da visão que acabaram de compartilhar. Aaron encarava o chefe, buscando qualquer sinal de que aquilo fora uma alucinação compartilhada, mas a expressão de Desmond era uma muralha intransponível.

— Não vai falar nada? — pressionou Aaron, a voz tingida de incredulidade. — O que acabou de acontecer?

Desmond ajeitou o paletó novamente, desviando o olhar para o horizonte de Sydney. — Essa missão é vital, Aaron. Apenas... execute-a como combinado. Confie em mim.

Sem dar espaço para mais questionamentos, Desmond virou as costas e caminhou em direção ao carro que o aguardava, deixando Aaron sozinho na calçada, com mais perguntas do que respostas.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, o cenário era de decadência.

Roger estacionou seu carro em um lote baldio coberto de cascalho. Diante dele erguia-se a carcaça de uma antiga fábrica automobilística cujo letreiro, agora apagado, mostrava o nome Paik Heavy Industries. O local, agora estava tomado pela vegetação e pelo esquecimento. Ele desligou o motor, mas não saiu imediatamente. Seus olhos, treinados por anos de serviço militar, varreram o perímetro. Havia algo errado. O silêncio era absoluto demais.

Ele saiu do carro, a mão direita pairando casualmente perto da cintura, pronto para qualquer eventualidade. Ao adentrar o galpão, o cheiro de mofo e óleo velho invadiu suas narinas. Seus passos ecoavam no concreto rachado, cada som amplificado pela vastidão vazia.

Clack.

O som de uma pedrinha sendo chutada. Não foi o vento.

Roger parou. Ele não precisou ver para saber que não estava sozinho. — Podem sair — disse ele, a voz calma e grave. — Sei que estão aí.

Das sombras das colunas e do mezanino enferrujado, figuras surgiram. Eram cinco homens. Não pareciam assaltantes comuns; moviam-se com coordenação tática. Mercenários.

— Onde está o contato? — perguntou Roger, mantendo a postura relaxada, embora cada músculo de seu corpo estivesse retesado como uma corda de violino.

Eles não responderam. O primeiro homem avançou com um soco direto.

Roger reagiu por instinto. Desviou a cabeça por milímetros e enterrou o punho no estômago do agressor, ouvindo o ar sair de seus pulmões. Mas não houve tempo para celebrar. Os outros quatro avançaram em uníssono.

A luta foi brutal e sem elegância. Roger lutava com a economia de movimentos de um veterano. Quebrou o nariz de um com uma cabeçada, chutou o joelho de outro, usando o ambiente a seu favor. Mas a idade e a desvantagem numérica começaram a cobrar seu preço. Um chute nas costelas o fez perder o ar. Um soco na têmpora turvou sua visão.

Ele foi derrubado, o gosto de sangue metálico enchendo sua boca. Mas Roger Miles não era homem de ficar no chão. Com um rugido de esforço, ele agarrou o colarinho do homem mais próximo e o usou de escudo humano, levantando-se cambaleante.

— Quem são vocês?! — gritou Roger, ofegante, o suor misturado com sangue escorrendo pelo rosto. — Para quem estão trabalhando?!

A resposta veio das sombras, mas não dos homens que ele enfrentava.

— Solte o garoto, Roger. Ele é apenas mão de obra barata.

Uma figura emergiu da escuridão, caminhando com uma calma irritante. Vestia um terno preto que parecia deslocado naquele lugar imundo, mas a postura desleixada e os olhos cansados eram inconfundíveis.

Roger soltou o mercenário, que caiu tossindo no chão. Ele semicerrou os olhos, reconhecendo o rosto das fichas que Desmond lhe mostrara anos atrás.

— Frank Lapidus — disse Roger, cuspindo sangue no chão.

— Em carne e osso — respondeu Frank, parando a uma distância segura. — Ouvi dizer que você é o novo cão de guarda do Desmond.

Roger tentou firmar as pernas trêmulas. — Ouvi falar de você. O piloto que trouxe os sobreviventes da Ajira. O homem que sobreviveu a morte. — Roger riu, um som seco e doloroso. — Já trabalhou para a Widmore. E hoje? De quem é a coleira que você usa?

Frank não mordeu a isca. Ele suspirou, parecendo genuinamente entediado com a violência. — Vou te dar um conselho de graça, Miles. E é um conselho de quem já viu mais coisas estranhas do que gostaria. Se você quer se manter vivo... se quer proteger quem você ama... fique longe dessa missão do Desmond.

— É uma ameaça?

— É um favor — retrucou Frank, o tom ficando mais duro. — Ir para aquela ilha não é uma opção. Você vai atrapalhar os planos de alguém que você definitivamente não quer ter como inimigo. Alguém que faz o Charles Widmore parecer um escoteiro.

— E se eu recusar?

Frank balançou a cabeça, como se lamentasse o que viria a seguir. — Então não diga que eu não avisei.

Ele fez um gesto sutil com a mão.

Os mercenários, que haviam recuperado o fôlego, avançaram novamente. Desta vez, Roger não tinha mais forças para reagir. O primeiro golpe o acertou no estômago, dobrando-o. O segundo, na nuca, o mandou para a escuridão.

A última coisa que Roger viu antes de apagar foi Frank Lapidus acendendo um cigarro, virando as costas para a brutalidade e caminhando de volta para as sombras, enquanto o som dos golpes continuava a ecoar pelo galpão vazio.

As horas se arrastaram, pesadas, até que a noite cobriu Sydney. Aaron chegou em casa exausto, carregando dois sacos de papel engordurados com o jantar. Encontrou a sala na penumbra, iluminada apenas pelo brilho azulado da televisão. Claire dormia no sofá, encolhida de um jeito que fazia parecer menor e mais frágil do que realmente era.

Ele se aproximou em silêncio e beijou a testa dela. — Mãe?

Claire despertou num sobressalto, os olhos arregalados de pânico por um segundo antes de reconhecerem o filho. Ela relaxou, mas a tensão nunca abandonava totalmente seus ombros.

— Oi, filho — murmurou ela, a voz rouca de sono.

— Oi, mãe. Trouxe lanche. Do Mr. Clucks.

Ela sorriu, um sorriso cansado. — Não precisava, querido. Eu já jantei.

— Tudo bem. Vou guardar na geladeira para amanhã. — Aaron foi até a cozinha, e Claire o seguiu, como se precisasse garantir que ele era real, que estava ali mesmo.

Enquanto Aaron tirava o casaco, o peso do dia e do encontro bizarro com seu "chefe" transbordou. Ele precisava contar.

— Mãe... hoje aconteceu algo muito estranho.

Claire parou no meio da cozinha, segurando um copo d'água. O instinto materno, sempre em alerta, disparou. — Pode falar, filho.

Aaron hesitou, buscando as palavras certas para não parecer loucura. — Um homem me abordou hoje. Ele se apresentou como meu chefe. Disse que o nome dele era Desmond Hume.

O copo escorregou dos dedos de Claire e se estilhaçou no chão. A água e os cacos de vidro se espalharam, mas ela nem piscou. Seu rosto drenou toda a cor, tornando-se uma máscara de terror puro.

— O quê? — A voz dela era um fio de sussurro. — Quem?

Aaron, assustado com a reação, ignorou a bagunça no chão. — Desmond Hume. Ele me fez uma proposta de trabalho. Disse que está reunindo uma equipe para uma expedição a uma ilha no Pacífico. É uma missão embarcada, muitas viagens internacionais... Eu aceitei, mãe. É a chance da minha vida.

— Não! — O grito de Claire foi visceral, ecoando pelas paredes da casa. Ela avançou sobre o filho, agarrando-o pelos ombros com uma força surpreendente. — Você não vai! Você me ouviu? Eu proíbo você!

— Mãe, calma! Você está me machucando. Por que essa reação?

— Aquele homem... Desmond... ele é perigoso, Aaron! Ele é instável! — Os olhos de Claire varriam o rosto do filho, desesperados. — Como ele conseguiu voltar? Meu Deus, como ele nos encontrou?

Aaron se soltou, confuso e agora com medo. — Voltar? Voltar de onde? Mãe, você está falando como se o conhecesse.

Claire recuou, encostando-se na pia, a respiração irregular. As barreiras que ela havia construído por mais de duas décadas estavam desmoronando. — É complicado, Aaron. É... complicado demais.

— Chega de "complicado"! — Aaron elevou a voz pela primeira vez. — Você tem agido estranho a vida toda, mas hoje... hoje foi demais. O que está acontecendo? Quem é esse homem e por que você tem tanto medo de uma ilha?

O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Claire olhou para o filho — o rosto dele, os olhos, tão parecidos com os dela, mas tão inocentes da verdade. Ela percebeu que não havia mais como fugir. O passado não tinha apenas batido à porta; ele a havia derrubado.

— Aaron... — Ela começou, as lágrimas brotando nos olhos. — Talvez eu não tenha sido muito sincera sobre o seu nascimento.

O mundo de Aaron parou. O zumbido em seus ouvidos voltou, o mesmo de seus sonhos. Ele olhou fixamente para a mulher que o criara, sentindo o chão desaparecer sob seus pés.

— O que você quer dizer com isso? — A voz dele tremeu. — Me diga a verdade, mãe. O que você escondeu de mim esse tempo todo?

Claire fechou os olhos, deixando uma lágrima solitária cair, e quando os abriu novamente, Aaron viu neles uma dor que ele jamais imaginara existir.

Notas finais
Por favor, ao ler, comente, siga e favorite. Ajuda muito. Qualquer dúvida pode perguntar nos comentários. Próximo capítulo: 28/03/2023 às 09:30