Lost: O Primeiro Herdeiro
10 LIVRO 1 — CAPÍTULO 10: TODOS A BORDO — PARTE 2
Subúrbios da Califórnia, Los Angeles — 2007
A manhã na casa de Kate Austen transbordava uma paz que ela passara anos a tentar conquistar. O sol da Califórnia filtrava-se pelas janelas, iluminando a cozinha onde o cheiro de torradas e café fresco era o único lembrete do mundo exterior. Aaron, com apenas três anos, estava sentado à mesa, os seus olhos azuis fixos na pequena televisão de balcão.
— Trenzinho túnel! — exclamou o pequeno Aaron, apontando para o ecrã com um sorriso radiante.
Kate parou por um momento, observando o filho com uma adoração que beirava a dor. Ela sabia quão frágil era aquela bolha de normalidade. Aproximou-se com a tigela de cereais, entrando na brincadeira.
— Aah, eu acho que o trenzinho é mais esperto que isso, Goober — disse ela, imitando uma voz misteriosa enquanto colocava o pequeno-almoço à frente dele. — Se ele passar por aquele túnel, não volta mais.
Ela fez-lhe cócegas no pescoço, arrancando uma gargalhada pura do menino. Mas, como se o destino estivesse à espera daquele exato momento de felicidade para atacar, a campainha tocou. O som cortou a sala como uma lâmina fria.
Kate sentiu um aperto instantâneo no peito. A sua mão instintivamente procurou a bancada para se equilibrar.
— Assiste o teu desenho, amor. A mamãe já volta — murmurou ela, forçando um tom leve enquanto caminhava para o hall.
Ao abrir a porta, a luz do dia revelou dois homens. Não eram vizinhos nem vendedores; eram homens de terno escuro, com a postura rígida de quem carrega ordens de cima.
— Senhora Austen? — indagou o homem da frente, com um olhar clínico.
— Sou eu — respondeu Kate, a sua voz endurecendo enquanto ela bloqueava a entrada com o corpo.
— Olá. O meu nome é Dan Norton, do escritório de advocacia Agostini & Norton. Posso tomar um pouquinho do seu tempo? — Norton estendeu um cartão de visitas. Kate nem sequer olhou para o papel. O seu foco estava no homem silencioso logo atrás dele.
— E quem é você? — perguntou ela, ríspida.
— É o meu sócio — respondeu Norton, com uma polidez mecânica. — Se eu pudesse entrar, eu poderia explicar...
— Não. Você pode explicar aqui — interrompeu Kate, fechando um pouco mais a fresta da porta.
Norton não se abalou. Ele suspirou como se estivesse apenas a cumprir uma formalidade burocrática. — Tudo bem. Senhora Austen, estamos aqui para obter uma amostra de sangue sua e do seu filho, Aaron.
O mundo de Kate pareceu inclinar-se. O segredo que ela carregava desde que saíra daquela Ilha estava a ser alvo de um bisturi legal. — Como é que é?
— Tenho uma ordem judicial, assinada por um juiz, para que a senhora ceda o seu sangue assim que assinar estes papéis — continuou Norton, retirando um envelope pardo da pasta.
— Por quê? — a voz de Kate tremeu de fúria e medo.
— Para determinar o seu parentesco com a criança.
Kate sentiu o chão fugir-lhe sob os pés, mas a sua faceta de fugitiva, a mulher que sobrevivera a anos de caça, assumiu o controlo. Ela fingiu uma confusão ultrajada. — Desculpe... eu não entendo. Quem é que...
— Eu não tenho a liberdade de divulgar a identidade do meu cliente — cortou Norton.
— Seu cliente?
— Por favor. Será que podemos entrar?
— Saia da minha propriedade — sibilou Kate, os olhos faiscando.
Norton deu um passo atrás, mas o seu tom tornou-se ameaçadoramente calmo. — Se a senhora não concordar, vou ter de voltar com um delegado.
— Então volte com um delegado! — retorquiu ela, batendo a porta com força.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Kate ficou encostada à madeira da porta, a respiração ofegante. Olhou para a cozinha e viu Aaron. Ele não estava mais a ver o desenho animado. Ele estava a olhar para ela, imóvel, com os olhos arregalados de quem acabara de perceber que o "trenzinho" tinha realmente entrado no túnel.
O pânico tomou conta. Kate correu para o quarto, abrindo malas e gavetas. Ela não pensava; apenas agia por instinto. Roupas, maços de dinheiro escondidos, passaportes falsos... tudo foi jogado para dentro de uma mala de mão. Por fim, abriu o cofre do armário e pegou na pistola, sentindo o peso frio do metal na palma da mão antes de a esconder na bolsa.
— Para onde você vai, mamãe? — a voz de Aaron surgiu na porta do quarto. Ele estava abraçado ao seu urso de peluche, o rosto transfigurado pelo medo.
Kate parou por um segundo, olhando para o filho. Naquele instante, ela soube que a vida de paz tinha acabado. Eles eram fugitivos novamente.
— Vamos sair de férias, meu amor — mentiu ela, a voz embargada enquanto o pegava rapidamente ao colo. Ela sentiu o coração dele bater acelerado contra o seu peito. — Diz tchauzinho, bebê!
Ela fechou a porta de casa com um estrondo, sem olhar para trás, carregando Aaron para o carro enquanto o destino começava a fechar o cerco à volta deles.
À bordo do navio Elizabeth – Presente
Aaron encontrava-se trancado em uma sala fria e estéril, semelhante a uma cela de interrogatório. Ele havia desmaiado em meio ao caos e, ao despertar repentinamente, o medo tomou conta de seus olhos. Não havia reconhecimento em seu olhar, apenas o pânico instintivo de estar em um lugar estranho.
Jessy entrou logo em seguida, fechando a porta para abafar os gritos do corredor. Ela puxou uma cadeira de metal e sentou-se de frente para ele, tentando manter a calma profissional.
— Olá, Aaron. Meu nome é Jessy Burke — disse ela, suavemente.
Aaron encolheu-se na cadeira, balançando as pernas que não alcançavam o chão em sua mente. — Oi — respondeu ele, a voz fina e infantil.
— Você sabe onde está? Quantos anos você tem? — perguntou Jessy, testando a orientação dele.
Aaron levantou a mão, esticando três dedos com dificuldade motora. — Tenho três anos.
Jessy sentiu um frio na espinha, mas continuou. — E qual é o seu nome completo?
— Aaron Austen — disse ele, com a certeza absoluta de uma criança.
— E quem é sua mãe?
— Kate Austen. — Os olhos dele se encheram de lágrimas. — Eu quero a mamãe.
Jessy recostou-se na cadeira, espantada. Aquilo não era apenas amnésia ou choque; a identidade dele havia sido reescrita. Sem saber como lidar com aquela regressão impossível, ela saiu da sala apressada, rumando para a ponte de comando.
No corredor, ela quase colidiu com Clementine, que se segurava no corrimão enquanto o navio balançava.
— O que está acontecendo? — perguntou a garota, a curiosidade lutando contra o medo evidente em seu rosto.
— Não se preocupe agora, Clementine. Vai ficar tudo bem — respondeu Jessy, tentando dispensá-la para proteger a garota da verdade.
— Como vai ficar tudo bem? — Clementine retrucou, apontando para o corredor onde tripulantes gritavam. — Olha a loucura que está neste navio!
Enquanto isso, no refeitório, o clima era de tensão contida. Yan e Bryan estavam sentados, observando o nada, tentando processar o inexplicável.
— Nunca vi algo como isso antes. Nem mesmo na faculdade ou na emergência — comentou Yan, a impaciência transparecendo em sua voz.
— Isso é bizarro — concordou Bryan, girando um isqueiro entre os dedos.
— E se acontecer o mesmo conosco? — Yan olhou para as próprias mãos. — Pode ser contagioso.
— Não fala besteira, cara. É coisa da cabeça deles.
A porta se abriu e Bianca entrou, trazendo consigo um tablet e uma expressão preocupada. O olhar de Bryan acompanhou a geóloga, um sorriso de canto aparecendo.
— Oi, rapazes — disse ela, sentando-se pesadamente.
— Bianca, né? — comentou Bryan.
— Isso mesmo.
— Temos somente quatro mulheres a bordo num navio cheio de mercenários. Não se sente desconfortável? — provocou Bryan.
Bianca sorriu, um gesto de confiança que iluminou a mesa sombria. — Sou filha única de três irmãos homens. Na verdade, não. Estou acostumada com testosterona em excesso.
Os rapazes ficaram momentaneamente sem resposta. O sorriso dela dissipava, por um segundo, a escuridão ao redor. Mas a realidade logo voltou.
— O que você acha que está acontecendo aqui? — perguntou Yan, buscando uma explicação lógica.
— Sou geóloga, então... — Bianca gesticulou, indicando o navio. — As leituras não fazem sentido. Não faço ideia do que está acontecendo magneticamente.
— Por que alguns são afetados e outros não? — Yan insistiu, frustrado. — Não faz o menor sentido biológico.
Os três trocaram olhares, mas ninguém tinha a resposta.
Na ponte de comando, o clima era hostil. Juan Smith e Roger Miles tentavam manter a ordem quando Jessy entrou, seguida de perto por Clementine, que se recusara a ficar para trás.
— E então? — perguntou Juan, virando-se para a médica.
— Ele acha que é uma criança de três anos — relatou Jessy, a voz trêmula. — Pensei em amnésia traumática, mas não me parece ser só isso. Ele mudou... a personalidade, a voz.
Clementine, que ouvia atentamente, sentiu um estalo em sua mente. As peças do quebra-cabeça acadêmico se encaixaram com a realidade aterrorizante.
— A Crise de Faraday — sussurrou Clementine.
— Como é? — indagou Jessy.
— Eu não tenho um nome melhor para isso, mas vamos lá... — Clementine começou, falando rápido. — Digamos que viagem no tempo seja possível, mas não a viagem material, mas sim, a mental...
Todos a olharam espantados. O silêncio na sala era pesado. Clementine percebeu que parecia louca. — Droga, não sei explicar direito sem os cálculos.
— Do que você está falando, garota? — indagou Juan, sem nenhuma delicadeza. — Seja clara.
— Digamos que a mente das pessoas está viajando no tempo, soltando-se do presente e indo para um ponto no passado — explicou Clementine, ganhando confiança. — Bom, eu só fiz esse experimento com ratos de laboratório, então...
— Que maluquice é essa? Por que nunca ouvi falar disso na medicina? — questionou Jessy.
— Porque isso vai além da medicina. É física. — Clementine olhou para eles, os olhos brilhando com a compreensão. — Agora eu entendo porque fui escolhida para essa missão. Eu tenho a solução.
Jessy parecia cética, mas o desespero pedia qualquer alternativa. Clementine continuou: — Precisamos prender a mente das pessoas no presente. Para isso, precisamos de uma Constante. Algo ou alguém que seja comum no presente e no passado da pessoa. Alguém que ela ame e se lembre nos dois tempos.
— Isso não faz sentido — rebateu Jessy.
— Não me importo com essas baboseiras científicas, garota — cortou Juan, pragmático. — Apenas resolva isso logo.
Roger deu um sorriso de escárnio, duvidando que aquilo funcionasse, mas não impediu.
Clementine saiu da sala, puxando Jessy consigo. A empolgação acadêmica de Clementine, no entanto, morreu assim que elas entraram no corredor dos alojamentos. Homens gritavam, choravam e se debatiam no chão. O cheiro de sangue e medo era insuportável.
— Não esperava ver essas reações nos seres humanos — disse Clementine, horrorizada.
— Como assim nos seres humanos? — indagou Jessy.
— Os ratos morriam. O cérebro entrava em curto. — Clementine olhou para os soldados caídos. — Se não agirmos rápido, todos esses homens irão morrer. E o pior é que acho que não conseguiremos salvar todos. Precisamos focar em quem podemos salvar.
As duas saíram dali e fecharam a porta pesada, abandonando aqueles homens à própria sorte para tentar salvar o líder da missão.
— Escuta, podemos começar com o Aaron — sugeriu Jessy.
— Aaron também foi afetado? — Clementine paralisou. A notícia a atingiu com força. — Em que época ele acha que está? — indagou, tentando manter a calma.
— Ele diz que tem uns três anos de idade. A julgar pela idade dele agora, eu diria que a mente dele está em 2007.
— Meu Deus — sussurrou Clementine, angustiada.
Elas correram até a sala onde Aaron estava. Ao entrarem, o encontraram caído, aparentemente desacordado. Desesperadas, correram até ele, batendo levemente em seu rosto e gritando seu nome, tentando trazê-lo de volta antes que fosse tarde demais.
Los Angeles – 2007
O interior do carro parecia pequeno demais para o tamanho do pânico de Kate. Suas mãos apertavam o volante com tanta força que os dedos estavam dormentes. Ela dirigia sem destino, olhando constantemente para o espelho retrovisor, esperando ver as luzes da polícia ou os carros pretos da Widmore a qualquer segundo. No banco de trás, a única coisa que importava — e a única coisa que ela não tinha o direito de ter — observava o mundo passar.
— Mamãe, estou com sede. Quero leite — disse Aaron, a sua voz infantil cortando o silêncio tenso.
Kate hesitou. Parar significava tornar-se um alvo estático. Mas o olhar de Aaron, tão puro e alheio à rede de mentiras em que estava envolto, desarmou-a. Ela precisava de leite. Precisava manter a fachada de normalidade até conseguir desaparecer.
Alguns minutos depois, eles entraram no supermercado. As luzes fluorescentes pareciam brilhar demais, expondo o seu rosto a cada câmera de segurança. Kate puxou o boné para baixo e segurou a mão pequena de Aaron com firmeza, caminhando pelos corredores como se estivesse a atravessar um campo minado.
— Quer leite achocolatado ou normal? — perguntou ela, a voz trêmula.
— Suco — respondeu a criança, mudando de ideia com a rapidez típica da idade.
Kate parou, mexendo nervosamente no cabelo, os olhos varrendo o perímetro. A indecisão de Aaron irritava os seus nervos já em frangalhos. — Não quer leite mais?
— Suco — insistiu ele, puxando a mão dela em direção ao corredor seguinte.
Kate avistou um funcionário a organizar uma prateleira e forçou um tom de voz civil. — Com licença. Onde ficam os sucos?
— Corredor cinco — respondeu o homem, mal levantando os olhos do trabalho.
— Muito obrigada.
Ela seguiu com Aaron, mas o seu telemóvel começou a vibrar no bolso. O visor mostrava o nome de Jack Shephard. Kate sentiu uma onda de ressentimento. Foi por causa de Jack, por causa da obsessão dele em "voltar", que os advogados apareceram. Ela ignorou a chamada, mas aquele segundo de distração foi o suficiente.
Quando olhou para baixo, a mão de Aaron não estava mais lá.
O vazio ao seu lado pareceu expandir-se. Kate olhou para trás, para frente, para os lados. O corredor de cereais estava deserto. — Aaron? — chamou, primeiro num sussurro, depois mais alto. — Aaron!
O desespero, frio e cortante, atingiu-a. Ela correu de volta para o funcionário. — Você viu o meu filho?
— Perdão?
— Um loiro, de três anos! — gritou ela, já a correr em direção à frente da loja.
Kate invadiu o balcão de informações, o rosto pálido e banhado em suor. Agarrou o braço do homem que controlava o sistema de som. — Com licença. Perdi o meu filho. Um loiro de três anos.
— Não se preocupe, senhora. Vou anunciar...
— Não! Precisa fechar a loja! — retorquiu Kate, a paranoia de que ele tivesse sido levado por Norton e os seus homens atingindo o pico.
Ela virou-se bruscamente e parou. No fim do corredor, uma mulher loira caminhava de costas, segurando a mão de uma criança pequena. O coração de Kate parou.
— Aaron! — ela gritou, correndo desesperadamente.
A mulher parou e virou-se. Ela era loira, de traços suaves, e o sol que entrava pelas janelas altas criava uma aura ao seu redor que, por um segundo terrível, fez Kate acreditar que estava a olhar para Claire.
— Esta é a sua mãe? Querido, esta é a tua mãe? — perguntou a mulher, baixando-se com gentileza para falar com Aaron enquanto via Kate aproximar-se como um furacão.
Kate ajoelhou-se no chão frio do mercado e puxou Aaron para um abraço sufocante, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Eu o encontrei na seção de frutas — disse a mulher, com um sorriso compreensivo. — Ele parecia perdido. Estava quase a anunciá-lo.
Kate olhou para a mulher. A semelhança física com Claire Littleton era uma coincidência cruel, um lembrete vivo de que aquele menino nos seus braços era um órfão que ela tinha roubado de uma mãe que ela mesma deixara para trás na selva.
— Está tudo bem, querido. A mamãe está com você — sussurrou Kate, mais para si mesma do que para ele.
Ela levantou-se e saiu da loja rapidamente. No carro, enquanto Aaron "dormia" exausto pela agitação, Kate olhava para ele através do espelho. O alívio de o ter encontrado era temperado por uma culpa que ela não conseguia mais ignorar. Pela primeira vez, a ideia de devolver Aaron deixou de ser um medo e passou a parecer uma necessidade.
À bordo do navio Elizabeth – Presente
O corredor do lado de fora da sala de detenção parecia mais frio do que o resto do navio. Clementine andava de um lado para o outro, roendo as unhas, hesitando em entrar. A porta se abriu com um rangido metálico e Jessy saiu, limpando o suor da testa com as costas da mão.
Ela olhou para Clementine, um misto de alívio e preocupação no rosto. — Ele acordou. — O comentário fez um sorriso fraco surgir nos lábios de Clementine, mas Jessy bloqueou a passagem. — Olha, Clementine, talvez seja melhor você não entrar. Não é bonito de ver.
— Não. — Clementine endireitou a postura, a determinação superando o medo. — Eu preciso vê-lo. É a minha teoria. Eu preciso saber se estou certa.
Jessy suspirou e deu passagem. Quando Clementine entrou na sala, o ar parou em seus pulmões. Aaron não estava apenas sentado; ele estava no chão, encolhido contra a parede, o olhar fixo em um ponto inexistente no vazio. Seu corpo tremia com espasmos sutis, como uma televisão fora de sintonia.
— Está acontecendo... — sussurrou Clementine, os olhos enchendo-se de lágrimas. — A consciência dele está se desancorando.
A porta se abriu novamente com violência. Roger Miles entrou, trazendo consigo o cheiro de ozônio e morte. Ele parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos.
— Perdemos mais três. — A voz de Roger era grave, sem emoção. — Entraram em choque, começaram a sangrar pelo nariz e simplesmente... apagaram. Corpos saudáveis, mentes destruídas.
— O Aaron terá o mesmo destino se não estabilizarmos essa conexão agora. — Jessy avisou, checando o pulso errático do rapaz.
— Precisamos da Constante. — Clementine virou-se para eles, a urgência em sua voz. — Precisamos descobrir quem ou o que é a âncora dele. Sem isso, o cérebro dele vai fritar tentando estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Jessy e Roger trocaram olhares pesados. Eles não tinham outra opção a não ser confiar na física da garota.
— Você disse que a Constante seria alguém que o faria lembrar... alguém que existe no presente e no passado dele. — Jessy franziu a testa, lembrando-se do delírio. — Bom, ele não parava de chamar pela mãe. Mas não a Claire. Ele disse que a mãe dele era uma tal de Kate Austen.
Clementine congelou. O nome atingiu-a como um soco físico. — Espera. Kate Austen? — Ela olhou para Jessy, incrédula. — Você tem certeza?
— Conhece esse nome? — Roger indagou, estreitando os olhos.
— Se eu conheço? — Clementine soltou uma risada nervosa, quase histérica. — Meu pai foi apaixonado por ela. Eu fui até Nova York encontrá-la anos atrás. Então, esse Aaron seria o filho dela. Eu lembro quando eu era criança a Kate tinha um filho. Meu Deus, então...
Roger a encarou, processando a informação. — A ex do seu pai?
— Faz todo o sentido... — Clementine murmurou, as peças do quebra-cabeça se encaixando com um clique audível. — Se ele acha que ela é a mãe dele no passado, e ela está viva no presente... ela é a âncora perfeita. Não é à toa que fomos escolhidos a dedo, Roger. Estamos todos emaranhados nessa teia.
— Ótimo. Temos um nome. — Jessy levantou-se. — E agora? O que fazemos?
— Só precisamos fazer uma ligação. — Clementine sacou o celular do bolso com mãos trêmulas, procurando freneticamente nos contatos. — Eu tenho o número dela. Eu tenho... Droga!
— O que houve? — perguntou Roger.
— "Sem serviço". — Clementine olhou para a tela inútil, frustrada.
Roger bufou, impaciente. — Não sei se você percebeu, garota, mas estamos no meio do Oceano Pacífico, navegando para uma ilha que não existe no mapa. Acha mesmo que ia ter sinal de rede?
— Precisamos de um jeito de ligar para a Kate daqui do navio. — Clementine ignorou o sarcasmo, focada na solução. Ela olhou para Aaron, que gemia baixinho no chão. — Temos que levá-lo.
— Levar para onde? — indagou Jessy.
— Para a sala de comunicações. O navio tem transmissores via satélite, não tem? — Clementine olhou para Roger.
Roger e Jessy se entreolharam. Era arriscado, mover alguém naquele estado, mas ficar ali era uma sentença de morte.
— Tudo bem. — Roger guardou a arma no coldre e se abaixou. — Peguem as pernas. Vamos levar o garoto para fazer um interurbano.
Com esforço, eles ergueram o corpo inerte de Aaron e saíram para o corredor, correndo contra o tempo e contra a própria realidade que se desfazia ao redor deles.
Los Angeles – 2007
A decisão de Kate estava tomada: ela voltaria para a Ilha. O fantasma de Claire Littleton a perseguia nos seus silêncios, e a única forma de silenciá-lo seria trazendo-a de volta. Naquela tarde, ela encontrava-se num hotel de luxo na Califórnia, um ambiente cujas paredes de seda e carpetes macios contrastavam com a natureza selvagem que ambas haviam deixado para trás.
Aaron dormia profundamente no sofá, um pequeno náufrago em terra firme. Kate servia o chá com mãos que ainda guardavam a tensão da fuga do supermercado.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou Kate para Sun, enquanto o líquido fumegante preenchia a xícara.
— Só alguns dias. Tenho negócios para resolver. Mas eu queria vê-la — respondeu Sun, com uma calma que parecia nova, quase fria. Ela deslizou uma fotografia pela mesa. — Aqui está. O nome dela é Ji Yeon. Uma foto dela pequena.
Kate pegou na foto, observando os traços da menina. — Ela é linda.
— Obrigada. Ela está com a vó em Seul. Espero que algum dia a conheça. Seria bom ela e o Aaron brincando juntos.
— É — murmurou Kate, baixando os olhos e mexendo mecanicamente na xícara. O peso da melancolia em seu rosto era impossível de esconder.
Sun inclinou a cabeça, observando a amiga com uma perspicácia cirúrgica. — Kate? Você está bem?
— Estou muito bem — respondeu Kate apressadamente, tomando um gole do chá como se pudesse engolir a própria angústia.
— Está mesmo? — a pergunta de Sun pairou no ar, carregada de desconfiança.
Kate não aguentou. O semblante desmoronou. Ela virou-se para trás, certificando-se de que Aaron continuava mergulhado no sono antes de voltar o olhar para Sun.
— Sabem que estamos mentindo — disse Kate, a voz baixa e rouca.
Sun empertigou-se na cadeira, a preocupação vincando-lhe a testa. — O quê?
— Uns advogados me procuraram.
— Quem?
— Dois homens vieram à minha casa. Me pediram uma amostra de sangue. Um tipo de processo. Queriam me testar para saber se... — Kate fez uma pequena pausa, o ar faltando-lhe por um segundo — se Aaron é meu filho.
Sun processou a informação rapidamente. Seus olhos brilharam com uma inteligência estratégica. — Quem esses advogados representavam?
— Eu não sei. Não me disseram quem era o cliente deles.
— Então não estão interessados em expor a mentira — afirmou Sun, recostando-se, a certeza emanando dela.
— Como sabe?
— Porque se quisessem, já teriam feito. Não falariam com você em particular. Não se importariam se estamos mentindo. Só querem o Aaron.
O medo de Kate transformou-se em horror puro. — Mas quem? Quem faria isso?
— Eu não sei. Mas tem que dar um jeito neles.
Kate arregalou os olhos, sentindo o gelo na voz da amiga. — Como assim dar um jeito neles?
— Você não seria capaz de fazer qualquer coisa para poder ficar com o Aaron? — Sun perguntou, o olhar fixo e implacável.
Kate recuou fisicamente, espantada com a frieza daquela sugestão. — Que tipo de pessoa você acha que eu sou?
— O tipo de pessoa que toma decisões difíceis quando é obrigada. Como fez no cargueiro — retrucou Sun, sem desviar o olhar.
Aquelas palavras foram como um chicote. As memórias do cargueiro, da fumaça, do pânico e da escolha impossível inundaram a mente de Kate.
Sun continuou, implacável: — Você me mandou ir pro helicóptero e disse que iria buscar o Jin.
— Sun, espero que não pense...
— Você fez o que teve que fazer — interrompeu Sun, a voz subitamente suave, mas carregada de uma dor antiga. — E se não tivesse feito, provavelmente todos nós teríamos morrido como meu marido.
O peito de Kate desintegrou-se. As lágrimas, contidas por tanto tempo, finalmente transbordaram. — Sinto muito — disse ela, a voz quebrada pela culpa e pela comoção.
À bordo do navio Elizabeth – Presente
A porta da sala de comunicações foi aberta com um chute de Roger. O que encontraram lá dentro fez o estômago de Jessy revirar — não por causa de sangue, mas pela destruição calculada.
Os painéis de rádio estavam estripados. Fios de fibra ótica pendiam do teto como entranhas expostas, e o console principal havia sido esmagado, provavelmente com uma barra de ferro.
— Malditos... — Roger passou a mão pelo painel destruído. — Isso não foi pânico. Foi cirúrgico. Alguém não quer que a gente peça ajuda.
— Temos um sabotador a bordo? — Jessy perguntou, ajudando Clementine a deitar Aaron no chão frio. O rapaz gemia, a pele pálida e úmida.
— Temos um traidor. — Roger corrigiu, a mandíbula trincada. — E eu vou descobrir quem é. Mas agora, a prioridade é o garoto.
— O que fazemos? — Clementine olhou para os destroços eletrônicos. — Não dá para consertar isso a tempo.
Roger olhou ao redor, avaliando os recursos. — Não precisamos consertar o navio inteiro. Precisamos apenas de um pulso de sinal. Se conseguirmos montar uma antena parabólica externa e conectá-la direto ao transmissor de emergência, podemos criar um hotspot de satélite. O suficiente para uma chamada de voz.
— É uma aposta arriscada — comentou Jessy.
— É a única que temos. — Roger virou-se para a porta. — Fiquem de olho nele. Se ele começar a convulsionar, segurem a língua dele. Eu vou subir e colocar meus homens para trabalhar.
Ele saiu correndo, gritando ordens pelo rádio portátil.
No silêncio tenso que restou, Clementine ajoelhou-se ao lado de Aaron. Ela tocou o rosto dele e sentiu a umidade quente. Quando afastou a mão, viu o vermelho vivo.
— Jessy, olhe. — A voz de Clementine tremeu. Ela apontou para o nariz de Aaron, de onde um fio de sangue começava a escorrer, manchando o colarinho da camisa. — Já está começando. A pressão intracraniana está aumentando.
Jessy checou as pupilas dele. Estavam dilatadas, irregulares. — O tempo está acabando. O cérebro dele está entrando em colapso.
No convés superior, a tempestade castigava o navio. Roger e três de seus mercenários trabalhavam freneticamente sob a chuva, arrancando peças de radar e soldando cabos em uma estrutura metálica improvisada.
A movimentação caótica chamou a atenção de Ji Yeon. Ela estava em seu camarote, tentando ignorar os gritos vindos dos alojamentos inferiores, mas a curiosidade e o instinto de sobrevivência falaram mais alto. Ela subiu, protegendo-se do vento com um casaco pesado.
Ao ver a montanha de sucata eletrônica sendo erguida no meio do convés, ela se aproximou, gritando para ser ouvida sobre o vento.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Ji Yeon, encarando Roger. — Estamos afundando?
Roger, encharcado e com graxa no rosto, parou de conectar um cabo e olhou para ela com impaciência. — Volte para o seu quarto, garota. Isso não é lugar para civis.
— Eu não sou uma civil qualquer, sou uma investidora dessa missão! — Ji Yeon retrucou, firme. — Por que vocês estão montando uma antena pirata? O rádio pifou?
— Não é seguro aqui! — Roger gritou, empurrando-a levemente em direção à escotilha. — Temos homens armados e loucos lá embaixo e uma tempestade aqui em cima. Se quiser sobreviver, tranque-se no camarote e não saia até eu mandar.
Ji Yeon sustentou o olhar dele, percebendo que Roger não estava apenas sendo rude; ele estava aterrorizado. Ela assentiu, recuando, mas não sem antes memorizar a cena. Algo muito errado estava acontecendo.
De volta à sala de comunicações destruída, o rádio portátil de Roger chiou. — Conectando em três... dois... um. Teste o sinal agora.
Clementine segurou seu celular com as duas mãos, observando a tela preta. De repente, as barras de sinal apareceram. Uma. Duas. Três. O ícone de Wi-Fi acendeu.
— Eles conseguiram! — Clementine exclamou, quase chorando de alívio. — Temos sinal de satélite!
No chão, Aaron se agitou. Seus olhos se abriram, mas não focavam em nada na sala. Ele levou a mão à cabeça, gemendo de dor.
— Minha cabeça... dói muito... — Ele choramingou, a voz de uma criança assustada. — Cadê a mamãe?
Jessy segurou os ombros dele para mantê-lo deitado. — Estamos ligando para ela, Aaron. Aguente firme.
Clementine não esperou. Com os dedos trêmulos, ela discou o número de Nova York. O som da chamada ecoou no viva-voz, o único som no mundo que importava naquele momento.
Los Angeles – 2007
O corredor do luxuoso Beverly Wilshire parecia sufocante. Kate Austen estava parada em frente à porta de Carole Littleton, os braços cruzados sobre o peito, tentando conter o tremor que subia por seus ombros. Ela viera até aqui achando que Carole era a sua inimiga, a mulher que queria roubar o seu filho. Agora, sabendo que tudo fora um jogo de Ben Linus, a verdade era muito mais pesada: Carole não era uma ameaça; ela era a justiça.
Kate respirou fundo quando a porta finalmente se abriu. Carole Littleton apareceu, o rosto marcado pelo luto e pelo cansaço da batalha legal contra a Oceanic.
— Senhora Littleton, eu sou Kate Austen — disse Kate, a voz firme apesar da tempestade interna.
Carole mediu Kate com um olhar gélido, de cima a baixo. — Eu sei quem você é. Pode entrar — disse ela, cedendo espaço.
Kate entrou, sentindo o luxo impessoal do quarto de hotel.
— Seu amigo, doutor Shephard, esteve aqui noite passada — começou Carole, fechando a porta. — Falou sem parar a respeito de alguém que se chamava Aaron. Quando perguntei a ele quem era, saiu correndo como se aqui tivesse um incêndio.
Kate manteve o silêncio por alguns segundos, processando a covardia de Jack em enfrentar a verdade. Mas ela não podia mais fugir.
— Ele é seu neto.
Carole estancou. O choque foi visível, uma rachadura na sua postura defensiva. Kate não parou; as palavras agora fluíam como uma confissão há muito represada.
— E sua filha Claire... — Kate engoliu seco, desviando o olhar para o teto para impedir que as lágrimas caíssem — ... está viva.
— Do que é que você está falando? — perguntou Carole, a voz falhando. — Claire morreu no acidente aéreo...
— Não! Ela sobreviveu — interrompeu Kate, dando um passo à frente. — Quando caímos, sua filha estava grávida de oito meses e foi ela que deu à luz na ilha, não eu. Nós mentimos. Existem outros sobreviventes. Nós os deixamos para trás.
Carole cambaleou, a mão procurando o encosto de uma cadeira. — Por quê? Por que vocês a deixariam lá?
— Porque ela desapareceu e deixou o bebê para trás. Procuramos por todos os lugares, mas... foi quando eu comecei a cuidar do Aaron. E quando fomos resgatados, tivemos que decidir o que fazer com ele. Eu sabia que ela queria que ele fosse adotado, mas não quis. Eu tinha que proteger ele. Então disse que era meu.
As lágrimas agora corriam livremente pelo rosto de Kate.
— Por que você mentiu? — Carole perguntou, a voz quebrada. — Por que você não me procurou desde o começo?
Kate baixou a cabeça. A resposta era egoísta e, ao mesmo tempo, a coisa mais real que já sentira. — Porque eu precisava dele. Sinto muito.
Carole encarou Kate, tentando processar a magnitude daquela traição, e então fixou o olhar no chão, as mãos trêmulas. Kate aproximou-se, retirando uma fotografia da bolsa.
— Mas vai ver que ele é um doce, bom e amável.
Carole pegou a foto. Ao ver o rosto de Aaron, os olhos azuis e os cachos loiros que tanto lembravam Claire, a avó desabou em emoção.
— Onde ele está? — indagou ela.
— Ele está a dois quartos daqui. Está dormindo. Eu sei que isso é demais para você, mas quando estiver pronta, ele estará esperando você. Contei para ele que você é a avó dele. Que vai cuidar dele quando eu estiver fora e que eu vou voltar logo.
— Para onde você vai?
— Eu vou voltar para encontrar sua filha — disse Kate, com uma determinação que selava o seu destino.
À bordo do navio Elizabeth – Presente
No chão frio da sala de comunicações, Clementine segurava o telefone com as mãos trêmulas, o som de chamada ecoando no viva-voz como um batimento cardíaco agonizante. Aaron gemia ao seu lado, o sangue escorrendo pelo nariz, os olhos perdidos em um tempo que não existia mais.
— Alô? — A voz feminina do outro lado era cautelosa, sonolenta.
Clementine engoliu o choro, forçando a voz a sair. — Kate? Sou eu, Clementine. A filha do James.
Houve uma pausa gélida do outro lado. — Clementine? — O tom de Kate endureceu instantaneamente. — Por que está me ligando a essa hora? Se o seu pai te pediu para...
— Não é sobre o meu pai! — Clementine gritou, o desespero quebrando a barreira da polidez. — É sobre o Aaron.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O nome pairou na linha, pesado como chumbo.
— Aaron? — A voz de Kate mudou. A dureza desapareceu, substituída por um fio de medo e esperança que Clementine reconheceu imediatamente. — O que aconteceu com ele?
Clementine aproximou o aparelho do rosto de Aaron. Ele estava pálido, a respiração irregular. — Ele precisa ouvir sua voz, Kate. Ele... ele acha que é uma criança. Ele está chamando por você.
— Coloque-o na linha, — ordenou Kate, a voz embargada. — Agora.
Clementine encostou o celular no ouvido sujo de sangue de Aaron. — Aaron... a mamãe está aqui.
Os olhos de Aaron, que vagavam sem foco pelo teto metálico, fixaram-se no aparelho. Uma centelha de reconhecimento brilhou através da névoa da dor.
— Mamãe? — sussurrou ele, a voz infantil e quebrada. — Você demorou...
Em Nova York, Kate cobriu a boca com a mão, as lágrimas transbordando instantaneamente. Aquela voz... era a voz do menino que ela embalara, do menino que ela protegera e, por fim, perdera.
— Oi, meu amor... — Kate soluçou, a saudade de duas décadas rompendo a represa. — Desculpe a demora. A mamãe está aqui. Eu estou aqui.
Ao ouvir aquela voz, algo aconteceu dentro da mente fraturada de Aaron. A âncora foi lançada. O passado e o presente colidiram, não como um desastre, mas como um encaixe. As memórias de uma infância esquecida — o cheiro dela, a segurança dos braços dela — inundaram sua consciência, estabilizando o caos temporal.
A respiração de Aaron começou a desacelerar. O olhar infantil desapareceu lentamente, substituído pela confusão dolorosa de um homem adulto que acabara de acordar de um pesadelo.
— Kate... — A voz dele engrossou, voltando ao normal, mas carregada de uma emoção crua. — É você...
— Sou eu, Aaron. Sou eu. — Kate chorava abertamente agora. — Você está tão grande... Meu Deus, você está vivo.
Aaron fechou os olhos, sentindo a dor de cabeça recuar, deixando apenas uma clareza cristalina. Ele se lembrava. Lembrava-se de quem ela era para ele. Não apenas a mulher que o "roubou", como Claire dizia, mas a mulher que o amou.
— Eu me lembro... — Aaron sussurrou, as lágrimas limpando o sangue em seu rosto. — Eu lembro que você me salvou.
— Eu sinto tanto a sua falta... Eu sinto muito por ter deixado você.
— Não sinta. — Aaron respirou fundo, sentindo a paz tomar conta de seu corpo exausto. — Eu te perdoo, Kate. Eu entendo agora.
A conexão caiu. O sinal de satélite, instável pela tempestade magnética, finalmente cedeu. Mas tinha sido o suficiente.
Aaron deixou o braço cair, exausto, mas lúcido. Clementine desligou o aparelho, chorando de alívio, e abraçou-o impulsivamente. Jessy, encostada na parede, limpou uma lágrima discreta. Até Roger, o mercenário cínico, parecia ter prendido a respiração.
— Ele voltou. — Jessy checou as pupilas dele. — A pressão intracraniana está baixando. Ele voltou para nós.
Roger soltou o ar ruidosamente, guardando o rádio. — Ótimo. Sem sentimentalismos agora. Temos um navio para salvar.
Horas depois, a tempestade havia diminuído, mas o mar continuava agitado e escuro. Na ponte de comando, Juan Smith mantinha os binóculos fixos no horizonte, onde a névoa parecia dançar de forma não natural.
— Terra à vista! — gritou Juan, sua voz rouca de cansaço.
Roger correu para o vidro. Lá estava ela. Uma massa escura de terra, surgindo do nada no meio do Pacífico, como se o oceano tivesse acabado de parir uma montanha.
Aaron, ainda fraco mas teimoso, subiu até a ponte apoiado em Clementine. Ele olhou para a ilha. Não parecia um paraíso tropical; parecia uma fera adormecida.
— Chegamos — murmurou Aaron.
— Não podemos atracar. — Juan analisou os instrumentos. — O fundo é raso demais e os recifes são uma muralha. Se tentarmos chegar com o Elizabeth, vamos rasgar o casco.
— Então vamos voar. — Roger virou-se para a equipe. — Bryan, prepare o helicóptero. Vamos mandar a equipe de reconhecimento primeiro. Eu, Bryan, Aaron, Bianca e Clementine. O resto fica e cuida dos feridos.
— Tem certeza de que você aguenta, garoto? — Roger olhou para Aaron, avaliando-o. — Você quase fritou seu cérebro há duas horas.
Aaron soltou o braço de Clementine e ficou de pé, sozinho. — Eu não vim até aqui para ficar no barco. Eu vou.
Clementine olhou para ele, admirada pela resiliência. — Eu também vou. — Ela disse, firme.
— Preparem-se. Partimos em dez minutos. — Roger ordenou.
O helicóptero decolou do convés balançando com o vento. Lá embaixo, o Elizabeth parecia um brinquedo no meio da imensidão negra. Bryan pilotava com uma concentração feroz, lutando contra correntes de ar que não deveriam existir.
Dentro da cabine, o barulho era ensurdecedor. Clementine sentou-se ao lado de Aaron, observando-o. Ele parecia mais velho, mais sombrio do que o rapaz que embarcara em Sydney.
— Você está bem? — ela gritou sobre o ruído do rotor.
Aaron olhou para ela e sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno. — Estou. Obrigado, Clementine. Pelo que você fez. Por ter ligado para ela.
— Agradeça ao Roger. — Clementine sorriu de volta, apontando com a cabeça para o mercenário que verificava o fuzil no banco da frente. — Ele montou a antena.
— Eu não fiz por caridade — Roger resmungou pelo headset, sem se virar. — Fiz porque não sou pago para levar cadáveres de volta.
Bianca, sentada atrás, segurava seu equipamento geológico com força. — Pessoal... olhem para fora.
De repente, o céu mudou.
Não foi um amanhecer gradual. Foi instantâneo. Em um segundo, eles voavam na escuridão da noite. No segundo seguinte, uma luz violeta cegante engoliu o helicóptero, seguida por um estrondo que fez a aeronave despencar trinta metros no ar.
— Segurem-se! — gritou Bryan, lutando com o manche.
A luz se dissipou tão rápido quanto surgiu. E quando a visão deles clareou... era dia.
— O que diabos... — Roger olhou para o relógio. — Eram três da manhã há dez segundos!
— Onde está o navio? — Aaron olhou para trás. O mar estava vazio. O Elizabeth havia sumido.
— Esqueçam o navio! Olhem para baixo! — gritou Bianca.
Eles estavam sobrevoando a ilha. A vegetação era de um verde impossível, vibrante sob um sol do meio-dia que não deveria estar lá.
— Pousando! — avisou Bryan, mirando uma clareira.
O helicóptero tocou o solo com um baque pesado. O motor foi desligado, e o silêncio da selva os envolveu. Um silêncio antigo, primordial.
Eles desembarcaram, atordoados, as armas de Roger e dos soldados levantadas, os olhos de Aaron e Clementine varrendo a linha das árvores.
— Para onde foi a noite? — perguntou Clementine, a voz trêmula.
— Não sei. — Roger verificou a bússola; ela estava morta. — Mas não estamos sozinhos.
Uma figura emergiu da mata densa. Um homem de estatura média, com olhos esbugalhados e uma postura que transitava entre a cautela e a arrogância. Ele vestia roupas civis surradas, como se vivesse ali há muito tempo.
Aaron sentiu um arrepio. Ele conhecia aquele rosto, não de memórias, mas de instinto.
O homem parou a uma distância segura, levantou as mãos vazias e abriu um sorriso enigmático que fez o sangue de todos gelar.
— Sejam bem-vindos, tripulantes — disse ele, sua voz calma contrastando com o caos da chegada. — Meu nome é Benjamin Linus. Mas podem me chamar de Ben.
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