Lost Inside
28 Não deixe que o tempo passe.
Notas iniciais

A Primavera passou de maneira arrastada, na verdade, nem parecia ser primavera. Havia algo de muito abatido nas pétalas das cerejeiras que dançavam pela brisa apática, o sol parecia opaco e sem vida, os dias pareciam lentos e enfadonhos.
Tudo mergulhado numa débil atmosfera de desânimo, cansativa e desinteressante. Mesmo que a vida dos outros parecesse correr em sua mais forma natural e vivaz.
Agora, era Verão, e não havia grande coisa sobre isso.
Sasuke se levantou desistindo de fazer da tarde um momento de relaxamento ou sequer, de meditação.
O calor tampouco ajudava, ele seguiu para baixo, e inicialmente estranhou o silêncio em pleno sábado, mas logo ouviu as vozes das crianças lá fora. Na cozinha, pegou uma garrafa de água e viu-as brincarem no quintal na beira do rio que cortava a propriedade sob o olhar da mãe e do irmão mais velho, que compartilhavam uma bandeja com melâncias fatiadas.
Seguiu de volta para a sala e abriu bem a janelas, apoiando o joelho no pequeno estofado embutido à uma delas. Quando se afastou, sem querer empurrou um livro de capa grossa que caíra no chão, e se curvou, resgatando-o. Facilmente reconheceu a capa, e seus lábios crisparam ao perceber o quanto aquele canto da sala era agradável.
Acabou sentando-se e abrindo o livro, nada mais que um simples almanaque shinobi, repleto de básicos conhecimentos de arte ninja, armas e política. Material usual dos alunos da academia.
As folhas estavam rasuradas até a metade, pelas beiradas, desenhos infantis, o livro pertencia a Shisui, mas como bons ciumentos e birrentos, os mais novos o picharam para provocar o irmão. Haviam também anotações das aulas, e quando ele virou para ver a capa de trás, encontrou apenas varias linhas tortuosas, uma letra tremida, mas de aspecto ondulado.
“Shiiiisuiiii
Man...(algo initelegível) tsu
Izun...
Sakuy...(?)
Ka(?)rin
Sasu(?)ke”
E seus dedos apertaram o livro mesmo sem querer.
Viu que, grudado com a última folha, estava uma foto e embora soubesse que iria odiar ver, ele estava muito bom em aguentar o autoflagelo.
A foto era da época do ano novo, Sakura e todas as crianças, ela não sorria para a câmera, mas sorria porque naquele momento, em volta dela, havia tanta alegria, e ela canalizava tanto, que era impossível não sorrir.
“— Você deveria sorrir mais, Srta. Haruno, vai acabar assutando seus pacientes.
— Meus pacientes não estão aqui para ouvir piadas ou serem entretidos, Bichura.
— Mas não custa nada ser mais gentil, vai deixá-los mais tranquilos – Ele proferiu, bastante humorado, apesar da clara rispidez no tom dela e em seus lábios crispados.
Ela parou o movimento das mãos, encarando as placas de petri que empilhava sob um balcão improvisado. Inspirou profundamente, e seus ombros caíram em clara derrota, meneou a cabeça, suas feições demonstraram estar, no mínimo, muito chateada, consigo mesma.
— Tem razão.
— Não quis dizer que era sua obrigação – Bichura emendou, um pouco culpado.
— Não, você tem razão. Essas... Essas pessoas vieram aqui bastante assustadas, a epidemia estar deixando todos muito nervosos, e como não estamos conseguindo respostas ainda...
— Você está trabalhando duro.
— Não é o bastante – Ela cortou, raiva pingando sutilmente em sua língua — Veja, tem razão, estou tão focada em terminar isso, que estou atropelando tudo sem qualquer...- Sakura se afastou do balcão, sem nada nas mãos, ela parecia desnorteada e a ponto de apenas cair, ela parou e sacudiu as mãos uma vez, como se tentasse recuperar a ordem em si mesma — Eu já fui melhor – Concluiu, pesarosamente. — Já fui muito melhor que isso... Eu não sei, eu... Eu me perdi... Não, eu sei, eu sei porque me perdi. Mas isso só faz mais vergonhoso.
Ela estava falando consigo mesma, por isso, voltou para ele, e a câmera, um olhar cansado, e um débil sorriso.
— Eu acho que você é ótima, se pode ser melhor? Tenho certeza que pode, um dia, ou uma hora vai fazer isso, sim? Na hora certa.
— Não preciso que seja a hora certa, Bichura, mas que não seja tarde – Sakura declarou, indo se sentar numa cadeira, ela inspirou como se tivesse ficado de pé o dia inteiro, chegando a esticar as pernas dentro de uma calça de barra mais curta.
— Tenha mais confiança, senhorita, vai encontrar o que precisa aí mesmo, dentro de si.
Nesta hora, ela estava com o rosto apoiando no cotovelo flexionado sobre a mesa, os olhos vagando pelo chão de terra, parecendo até mesmo alheia ao que ele disse.
No entanto, ela os ergueu e o encarou, e então ela sorriu, sorriu bastante cansada, completamente exasperada, e talvez, seus olhos estivessem cheios d’água. Não foi o seu melhor sorriso, mas também, não soara forçado.
Foi um natural sorriso de tristeza, onde na ponta mais profunda de seus olhos, havia desesperto.
— Não tenha tanta esperança, meu amigo. Eu estou completamente perdida aqui dentro, inclusive, de mim mesma”.
Sasuke fechou o livro e o deixou exatamente onde estava antes, na beirada da janela, onde Sakura gostava de sentar e apreciar o sol da manhã e o do fim da tarde, onde as crianças vinham brincar com ela, e onde liam para ela aquelas coisas do livro, e onde, ele agora perbecera, tentaram ensina-la a escrever.
Ele se levantou levando a foto entre os dedos, entrou novamente no quarto e se jogou na cama, deixando a imagem sobre o criado mudo ao seu lado, cobriu os olhos com o braço.
E naquele momento soube como Sakura havia se sentido.
Desolado, exausto, desesperado, e, perdido dentro de si.
***
Em algum lugar não propriamente mapeado.
O vento era muito forte naquela região graças a falta de montanhas ou florestas, que parecia que a qualquer momento poderiam até mesmo serem arrastados.
Suas capas sacudiam com força, era difícil manter os capuzes no lugar e ainda mais, aqueles longos fios que pareciam aproveitar cada chance que tinham de se imporem.
— Sakura, não tire a capa.
— Demo, Tsunade-sama, eu não consigo segurar.
— Parece quando pede para ir ao banheiro...!
— Tsunade-sama! Não se fala isso alto... Eu sou uma dama.
— Aham.
— Tsunade-sama também não deveria falar, ou não vai conseguir um noivo. – Ela resmungou, num soave muxoxo.
Houve um tempo que esse tipo de coisa levava Tsunade a um longo tempo sufocada dentro de si, amargando antigas lembranças, suspirando com as boas, remoendo as ruins. Mas agora, presumia que era isso que o tempo fazia, com que se pudesse lidar com os pesos da vida, de maneira diferente, às vezes mais fácil, mais difícil, às vezes da mesma forma até.
Ela riu suavemente e voltou os olhos para a equipe, que vasculhava o planalto árido com olhos de águia, observou em volta também, e viu mais a frente uma suave elevação de pedras, esculpida pela ação do vento. Com um suspiro, puxou a capa dos ombros, tomando a atenção de todos.
— Vamos parar aqui.
— Tem certeza?
— Aquela pequena encosta deve ajudar a montar um acampamento decente, e estou cansada de andar.
— Hai – E eles agilmente se moveram para vasculhar o local e montar acampamento.
— Nee, quanto tempo vamos ficar? – Sakura indagou, curiosa.
Tsunade lhe mandou um olhar esperto, e como ela não podia ver, deu um firme puxão em seu narizinho.
— Porque a pressa? – Indagou, zombeteira e presunçosa enquanto se afastava — Temos tooodo, o tempo do mundo, e você, tem que treinar.
Sakura parou de esfregar o nariz dolorido e rapidamente começou a segui-la.
— Ha-hai!
Tsunade concluiu que embora o tempo continuasse correndo continuamente, e fosse ela muito suspeita para falar, posto que se recusava a demonstrar isso em sua pele, gostava mesmo era de reviver bons momentos.
— Yosh! Alguém me traga o maior peixe que encontrar naquele rio que ficou mais atrás, Sakura, hora de treinar! Eu não vou pegar leve com você!
— Hai!
***
Maio chegou mantendo o Outono em seu auge, folhas douradas dançavam por um vento frio e melancólico enquanto as arvores rangiam, secas e escurecidas, preparadas para o Inverno cada vez mais próximo.
Karin gostava da estação, era em sua concepção, o melhor momento para se ter sossego em casa com um chá verde quente, e ao mesmo tempo, poder sair, não ficar preso pela neve.
Era o balanço perfeito.
Ela ajeitou o cachecol vermelho em torno do pescoço, despejando uma lufada de ar quente para o ambiente frio, ajeitou as sacolas entre os dedos, contando-as mentalmente, para ter certeza de que não deixou nada para trás. Comida, algumas roupas que apreciara, bibelôs para a sala e principalmente, uma nova moldura para sua foto preferida.
Não que desgostasse da antiga, mas, havia algo dentro dela clamando por renovação já a algum tempo.
Não era um sentimento que desejasse explorar totalmente, na verdade, nem entendia de onde ou porque vinha.
Sua vida estava ótima afinal.
As crianças cresciam maravilhosamente a cada estação, era uma casa harmoniosa, o que mais duvidava que conseguiria, aconteceu: Havia se adaptado à Konoha. Tinha amigos, saía para cinemas, teatros, jantares.
Sasuke estava pouco presente, mas vinha com mais regularidade, agora sob o olhar do Hokage, ele já não podia fazer do tempo seu servo, e tampouco ia muito longe de Konoha. Na verdade, seu foco maior havia se tornado proteger Konoha.
Karin nunca pensou que isso seria tão bom.
Havia descoberto que estava reclamando do que era bom.
Ela parou diante de uma loja, a vidraça mostrava modelos mordenos nos manequins, e várias mulheres mais atrás, entrando e saindo dos provadores como formiga, umas tão novas e tão velhas quanto ela.
Bem, ela tinha total consciência que não era velha, seu estatus de casada era que tornava tudo mais... Tradicional e sóbrio.
Nunca havia visto nada de ruim nisso, pois sempre julgara que sua adolescência houvesse sido boa o bastante, tivera de encarar guerras e horrores, morte e intrigas, no entanto, nunca havia deixado seus sentimentos joviais de lado e perseguira avidamente seus desejos, tanto era, que estava ali agora, a aliança e o símbolo em suas costas eram a prova.
No entanto, olhando aquela vidraça, ela notou aquelas roupas cheias de detalhes ousados até, recortes que deixavam diferentes ângulos do corpo visíveis, uns um tanto ousados demais e percebeu que jamais poderia vestir algo assim, as marcas em seu corpo jamais permitiriam isso, e também, ela percebeu, que nunca havia ido numa loja para isso.
Havia posto a mão em grandes quantidades de dinheiro trabalhando como mercenária e depois para Konoha, mas esbaldara tudo em apetrechos e caprichos curtos que certamente eram mais fáceis de levar consigo numa mochila simples enquanto seguisse Sasuke em sua viajem.
Ele tampouco era um marido avarento, ela nunca precisara lhe pedir dinheiro, estava sempre ao seu alcance, ele nunca fez questão de perguntar o que fazia com ele desde que as crianças estivessem alegres, saudáveis e satisfeitas. No máximo, dava seu veredito sobre gastar com algum capricho infantil. Karin estava acostumada que ele vez ou outra passasse sobre sua autoridade para mimar as crianças – Sakuya era a mais agraciada – mas ela havia se conformado que alguém tinha que estragá-las um pouco, mesmo que sempre fosse surpreendente, constatar que quem faria isso, era Sasuke.
Ela encarou o próprio reflexo, e notou as outras pessoas passando por si na calçada, sentiu-se tola e idiota por perder tanto tempo encarando um vidro. Mas não deixou de se ver vestida, um momento, num longe vestido de cor roxa ostentado por um manequim de pose presunçosa e sem cabeça.
Ele não portava decote, as mangas eram longas e a gola fechada, descia liso e pesado com um ar elegante, bem apegado as curvas do boneco, e nas costas, era aberto mas esta abertura era estampada por uma renda em flores, suavemente transparente.
Era maravilhoso, discreto, mas tão cheio de vida, ela, até mesmo ela, poderia usar.
Noutra vida talvez.
Seguiu em frente, ignorando o preço na etiqueta, mas internamente satisfeita ao constata que, não era preciso ser uma princesa para poder usar.
Olhou no relógio do pulso, e parou pronta para atravessar as ruas bastante movimentadas, estava tarde, e Shisui já deveria estar enfrentando a fúria dos estomâgos esfomeados dos irmãos. Ao menos Mangetsu estava com o pai, embora ele fosse sempre o que menos dava trabalho.
Olhou para frente vendo a loja de doces do outro lado, por um momento, negou-se e fazer semelhante bombagem. Mas se perguntou, se faria tão mal assim, ela ser a que estragava as crianças de vez em quando.
Talvez não, embora quando dava um dedo, seus filhos já queriam o braço inteiro.
Seus olhos passearam pelas guloseimas da doceria à distância ainda, quando notou um casal parar em frente as portas dela, acompanhados de uma criança saltitante.
Torceu o rosto inicialmente pelo casal babão estar entrando em sua frente, quando, chocou-se ao perceber que a criança saltitante era seu próprio filho, Mnagetsu.
Reconheceria seus cabelos prateados em qualquer lugar, mas deconheceu tamanha atividade, ele sempre era quem andava mais calmamente entre os irmãos. As pessoas sempre diziam o quanto era maduro para a idade e Karin sempre ficara satisfeita de ter menos um para dar trabalho, posto o quanto os gêmeos eram ativos o quanto Shisui também a cansara em seus primeiros anos, ainda que em parte isso se devesse à inexperiência dela como mãe.
Mangetsu fazia um tipo de passo de sapateado, a boca bem aberta num sorriso tão brilhante que fazia seus olhos ficarem apertados. O casal gargalhou, e ela reconheceu o som exagerado. Suigetsu.
Ele esfregou a mão na cabeça do filho deles, e então se curvou e lhe disse alguma coisa, que finalmente fez a atenção do menino ir para a doceria em que estavam a frente.
Mangetsu disparou em seguida novamente, praticamente pulando e lá dentro correu de um lado para o outro, grudando a cara na vidração dos balcões com bolos, doces, biscoitos.
E o casal voltou a rir, Karin então, encarou a mulher com eles. Ela, ainda rindo, se postou a frente de Suigetsu e conversou com ele.
Seu casaco era longo, elegante e o cachecol escuro fazia contraste com seus cabelos roxos, e ela reconheceu-os imediatamente.
Amane.
Uma pequena conversação, um longo olhar. E ele tocara seus cabelos, e então, seus lábios, com uma delicadeza e consideração enormes.
Os dois se afastaram com um sorriso ainda maior, e ela entrou, tão empolgada e saltitante quanto Suigetsu, se pondo ao lado dele, e também admirando as guloseimas. Mangetsu sorriu para ela, como se já fosse natural.
O que é isso?
O que está acontecendo?
Quando isso começou?
Porque ela não sabia?
Cada passo era uma pergunta, sua pele formigava com cada uma delas, revolta, desgosto, assombro fundindo-se sob ela.
Mas quando parou diante dele, só conseguiu esboçar uma pergunta fraca, talvez até sem sentindo, posto o que já havia assistido.
— O que você está fazendo...?
Suigetsu a encarou primeiramente aturdido, então seus olhos lilases se enfundaram nela, até o mais profundo, além do que ela já permitira a si mesma ir.
Então ele retornou e lhe deu uma expressão ríspida e irônica.
— Porque está me perguntando isso? Acha que eu não sei? E você? O que você está fazendo consigo mesma?
Ele deu as costas, ele não estava interessado na resposta. E nem em esperar mais.
Adentrou a loja, e parou ao lado de Amane e Mangetsu, alegremente se convertendo no velho Sui zombeteiro e idiota, pondo o filho sobre os ombros, e apontando e mais bem decorado bolo no balcão, para o espanto de Amane, e para gargalhadas do filho.
Mas Karin já estava muito longe quando eles saíram, discutindo se realmente dariam conta de comer aquilo tudo.
Ela adentrou a casa as sacolas caíram pelo caminho, pelo vidro da janela via uma fogueira e em volta dela, seus filhos, para sua degraçada surpresa, Sasuke, havia chego.
E ele já os estava estragando, permitindo-os assarem marshmallows espetados em gravetos, ou correrem e se jogarem nas pilhas de folhas secas que ela varrera pela manhã.
Karin subiu as escadas, mas em seguida, voltou, e parou diante da parede onde estava o seu quadro favorito. O vidro refletia seu rosto em completa tempestade, caos.
Quando entrou na cozinha, Sasuke, notou as sacolas largadas ao pé da escada, a luz da sala ainda estava apagada, e ele apesar de estranhar a bagunça, ia subindo, imaginando que a esposa estivesse lá em cima. No entando, sob seus pés ouviu um som arranhado, e recuou um passo, imediatamente alarmado, ao ver que pisava em vidro quebrado.
Piscou, confuso, ligou o interruptor. Vendo aos seus pés, uma moldura de madeira talhada agora quebrada, pedaços de vidro escapando das aberturas, mas, sem a foto. Se agachou, pegando-a, notando que não havia concerto, vasculhou a sala, e então, ouviu um baixo grunhindo e avançou.
Contornando a poltrona e parando diante da parede onde aquela moldura deveria estar, ele apenas encontrou sua esposa, sentada no chão, soluçando baixo, com outra moldura em mãos, esta era de metal, bilhante, a foto estava lá, mas o vidro também estava quebrado e sujo de sangue que vinha das pontas dos dedos de Karin.
— Karin...?
Ela ergueu a cabeça, primeiramente surpresa, sequer parecia ter notado mesmo quando ele ascendera a luz. Ela o encarou com os olhos vermelhos, rubros e brilhantes, encharcados de lágrimas, seu nariz e bochechas também vermelhos, sua expressão era desespero, como se estivesse completamente perdida agora.
Sasuke se abaixou calmamente, e tocou seu ombro, genuinamente assustado com o que via, e ela o fitou com dor, baixou os olhos para a moldura e soluçou mais alto.
— Karin?
— Eu não sei, eu não sei – Ela repetiu, desolada.
Era a resposta.
***
— Hinata?
Ela voltou a cabeça para trás, e Naruto entrou, um pouco constrangido, e imaginou se ela se sentira assim todas as vezes em que fora vê-lo no escritório tarde da noite, preocupada com sua saúde e também para consolar as crianças sobre sua ausência.
Ultimamente, as coisas tinham se invertido, desde que Hinata assumira de vez a responsabilidade de ser a próxima chefe do clã Hyuuga.
Agora os dois viviam em reuniões, e as vezes, só se encontraram durante elas.
Ele sabia que parte desse excesso de serviço era causado pelo pai dela, seja para impeli-la a desistir, ou testá-la.
Hanabi, estava presa a sete meses, em regime semiaberto, cumprindo também com serviços sociais.
Sua pena foi agravada quando, o advogado, ninguém mais que Shikamaru Nara, conseguira deixar claro que suas ações foram muito mais que o acidente causado por sua inconsequência de jovial mentalidade, como propusera o advogado dela, e sim, risco eminente ao bem estar de toda a Konoha, quando utilizou se sua posição tanto dentro do clã, quanto fora dele, para impelir Sakura Haruno, a liberar em plena aldeia, um poder capaz de destruí-la completamente, em prol de um pensamento radical e desconsiderando toda a sociedade e até mesmo a própria família.
Eventualmente, logo após a partida de Sakura, Himawaria despertou, no fim, era só seu corpo precisando se recuperar sozinho, e nenhuma sequela ficou do acidente.
Ela pode testemunhar exatamente o que havia acontecido.
Não percebera que Sakura estava assustada com algo quando se aproximou, estava em meio a corrida até ela quando uma parede de fios se ergueu entre as duas, apenas uma parede, mas Hima havia se assustado, tropeçado e batido a cabeça.
Sakura sequer a tocara.
Um acidente causado, pura e completamente pela tia.
Três anos de reclusão foram sua pena inicial, obviamente o advogado recorreu, o clã usou sua influência, e sendo pressionado dos dois lados, o juiz aliviou a pena pela metade. Um ano e meio no semi aberto e auxiliando em causas sociais ao lado de outras pessoas.
— Naruto, oi – Hinata disse, um pouco atudida e fechando o livro a frente, seus olhos arderam um pouco, e ela se sentiu desorientada quando olhou para janela e vira que já era noite, a última vez que se deu conta do tempo, havia feito o café da manhã das crianças. — Você já chegou? Que horas são...?
— Hora do jantar – Ele disse, embora sem qualquer tom de reprimenda, apenas esta verdade a fez se encolher. Naruto se recostou na mesa ao lado dela e cruzou os braços olhando a quantidade de documentos na mesa. — Wow.
— É... Wow. Naruto, me...
Naruto sacudiu a mão, cortando-a suavemente.
— Sem essa, Hinata, eu não posso te julgar.
Os dois mergulharam numa longa reflexão, principalmente ela. Não era como se pretendesse castigar Naruto, e tampouco, achava que ele devesse manter-se calado por falta de “moral” para tal, isso não era um jogo de ego.
— Eu confesso que não achei que seria tão... Difícil.
Naruto riu suavemente, e tocou as pontas de seus cabelos, eles estavam crescendo, derramando-se novamente em seus ombros.
— Você consegue, e... devo admitir que é legal, você sabe, te encontrar no trabalho. – Declarou, meio envergonhado, ela o fitou e se viu enrubescendo, se perguntando quando foi a última vez que isso aconteceu. — É quase um bálsamo encontrar você, minha linda esposa, depois de ver um monte de caras feias, ou ter você lá quando estamos em reuniões com velhos feios...
A cadeira caiu, quando ela se levantou, Naruto quase sentiu as costas baterem na mesa quando ela se curvou sobre ele e selou seus lábios, mas sua reação de volta foi tão voraz quanto a dela.
— As-as crianças...? – Ela arfou, puxando seu suéter, ou talvez o dele, não fazia diferença desde que houvesse pele contra pele.
— Na verdade...- Ele arquejou, abraçando seu quadril e sentando-a no colo, enquanto mergulhava o rosto em seu pescoço — Eu os mandei para casa da Karui, ela está recebendo as crianças do Darui lá, então...
— Eu amo a Karui...- Hinata declarou.
— E eu amo você...- Os dois sem encararam, longamente, enquanto começavam a deslizar para o tapete sob a mesa.
***
O Inverno tão logo veio, como se foi, o ano novo, foi a mesma coisa.
Sasuke, se levantou, e pegou a capa onde estivera deitado a alguns minutos, observando o orvalho pingar das primeiras folhas que brotavam as árvores ainda secas.
Havia andado bastante, demais até.
Não era como se houvesse procurado, embora não houvesse tido uma ordem verbal. Sabia que não deveria procurar.
Procura-la, poderia levar alguém ruim até ela, tinha plena certeza.
Quem quer que o seguisse, cansaria de vê-lo vagando pelas fronteiras do país do Fogo, e logo retornando para a aldeia.
Nada mais.
E ela estava muito mais longe.
Jogou a capa sobre o ombro e seu caminho não foi longo, pulando vez o outro no tempo-espaço, outra desvantagem pra quem tentasse usa-lo como ponte.
Quando chegou na aldeia, encontrou-a fervilhante, a neve ainda derretia mas as crianças já saiam olhando em busca das primeiras pétalas de cerejeira do ano.
Sasuke foi ao escritório do Hokage, não ficou surpreso de dar com Hinata e uma pequena comitiva, agora quase como chefe do clã, ela sempre estaria pelo escritório resolvendo assuntos com Naruto.
O que o surpreendeu foram seus longos cabelos como quando eram adolescentes, e principalmente, sua barriga redonda de pelo menos cinco meses e sua expressão brilhante. Ele não chegara a vê-la grávida, mas imaginou que ela devesse ter estado assim radiante em ambas as gestações.
Quando entrou, Naruto ainda suspirava abobado, tão abobado e idiota quanto de costume pois, quando Sasuke perguntara quando aquilo, a gravidez aconteceu, por puro formalismo, o idiota dissera que durante o inverno passado, o escritório da casa se tornara seu lugar favorito.
Detalhes demais.
Sasuke seguiu para casa, tentando apagar qualquer imagem que sua mente formasse. Há havia tido traumas demais nesta vida.
Quando chegou em casa, não estranhou não ser recebido pelas crianças, a tal hora, já deveriam estar na academia.
Sasuke recordou que não trouxera nada, e certamente seria cobrado por isso, mas esperava que sua demora os fizessem ficarem felizes em vê-lo.
— Sasuke – Karin exclamou, quase se levantando da mesa, mas ficando, havia um envelope de papel pardo a sua frente, onde ela pousou as mãos, inquietas.
Era normal ela saber que estava de volta assim que ele entrasse nos domínios do distrito, exceto quando ele escondia bem o chakra, estranho que estivesse surpresa, embora imaginou que fosse apenas distração.
— Aa, estou de volta – Declarou, pendurando a capa na cadeira vazia.
— Bem vindo de volta...- Ela falou, um pouco incerta. Sasuke se dirigiu até a geladeira, sentia o cheiro da comida mas imaginou que teria de esperar um pouco mais, então catou um tomate grande e bem vermelho. — Sasuke... Eu... Quero falar com você, sobre uma coisa.
Ele se voltou para ela, e se aproximou.
— As crianças?
— Elas estão bem, bom, talvez seja melhor esperar, você está cansado, e logo as crianãs chegam.
Vendo o tumulto em seu rosto, ele não poderia deixar viver, seja lá qual fosse seu tormento por mais tempo, ainda que seu corpo implorasse por banho, comida e uma meia hora de cochilo antes de as crianças chegarem e obrigarem a ficar disponível para elas.
— Você pode me dizer o que quiser, Karin – Declarou, esperando não ter soado ameaçador, pois sabia que não era bom em soar receptivo.
Ela o encarou profundamente, parecia até mesmo assustada, aos poucos, seus olhos desmancharam em determinação, embora ainda houvesse temor.
Seus lábios crisparam, secos, depois os umedeceu, e ela respirou profundamente. Suas mãos ainda trêmulas, empurraram o envelope pardo pela mesa, deslizando-o na direção dele e Sasuke demorou os olhos ali, curioso e encarou-a, vendo-a engolir duro e lentamente.
Ele se perguntou o que poderia estar deixando-a assim, tão visceral em suas ações e emoções, considerando que, havia sempre uma grande apatia reinando entre eles. Uma serenidade que ele sempre fizera questão, e ela aos poucos ia havia aderido e que compartilhavam perfeitamente bem, até que algo mudou.
Nele.
Depois nela.
Ou talvez nela, ele só tivesse demorado a perceber, enquanto que em si mesmo, ele permanecia batalhando para evitar chegar ao limite e então os dois estiveram mergulhados em suas próprias lutas.
E há algum tempo, ele tinha notado que os dois estavam perdidos.
Mas de alguma forma, Karin se encontrara primeiro que ele, ou ao menos, estava tentando.
— Sasuke, eu quero o divórcio.
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