Lost In Time
6 Lost in magic
Notas iniciais

Foi definitivamente a noite mais longa da minha vida. Não no sentido ruim de que o tempo não passava devido ao tédio, mas ao contrário, tantas coisas aconteceram e em tão pouco tempo, que meu único desejo era arranjar uma pipoca e assistir tudo o que aconteceu, mas não acredito que ela já tenha sido inventada nessa época. Então me contento em rir da situação e aproveitar o momento.
A situação era tão diferente, mas ao mesmo tão estranhamente familiar que senti arrepios na espinha. Nobres aristocratas celebrando por nenhum motivo aparente. Definitivamente as coisas não mudam mesmo. Então essa velha senhora apareceu, e a cantora famosa que viajou reinos para cantar durante a celebração, desapareceu no meio da confusão. A idosa atirou uma adaga em direção do príncipe, que com certeza estaria morto se não fosse por Merlin, que o tirou do alcance da faca antes que ela pudesse feri-la. O que é uma ironia, já que meu amigo, cinco minutos antes, praguejava e desejava a morte de Arthur de todos os jeitos. Como “recompensa” por ter salvo a vida do filho, Uther o parabenizou com um novo trabalho, ser criado de Arthur. Eu juro que tentei controlar meus risos, mas não fui a única a não conseguir isso. Os dois se detestam, e Arthur não deixa de dizer isso para qualquer um que pergunte. Ele tentou argumentar, mas de nada adiantou.
E isso me trás a esse momento. Estou na enfermaria, esperando que Gaius termine uma poção para Lady Morgana. Aparentemente ela tem pesadelos durante a noite e, como sua criada, é meu dever ajuda-la nessas ocasiões. Admito também que estou enrolando, esperando com que Merlin volte e conte sobre seu primeiro dia de trabalho, poque definitivamente o meu foi melhor.
Então a porta se abre, e dela, Merlin entra, vestido com uma meia armadura e um escudo na mão. Seu rosto transborda choque e cansaço. Seu andar é duro e antes que pudesse dar dois passos dentro do cômodo, ele deixa que o metal caia no chão e se deixa sentar na primeira cadeira que aparece na frente.
_Como foi seu primeiro dia como servo do Arthur?- Gaius deixa que um sorriso escape e eu me contenho no canto. Em um gesto inusitado, Merlin começa a bater na própria cabeça, quase como se estivesse cheia de água, o que não duvido nada.
_Vocês estão ouvindo os sinos?- é o que ele pergunta. Me levanto e sento no banco em sua frente.
_Foi assim tão ruim?-entro na conversa e ele faz um sons com a boca que não posso nem saber o que significam.
_Foi horrível!- respira fundo.- E eu ainda tenho que aprender tudo sobre etiqueta dor torneios para amanhã de manhã- reclama e deixa que seu rosto encontre a mesa.
—Eu posso te ensinar!- me prontifico animada.
—Gwen? Você é mais desorientada do que eu. Tem certeza que acha que sabe sobre isso?- seu rosto cansado exalava dúvida. Com certeza não sei o que fazer, mas sei que quero fazer alguma coisa, e essa foi a primeira coisa que apareceu.
_Claro que sei! Tom mas está me ensinando sobre essa cultura louca de vocês de matar pessoas sem motivo algum.- digo honesta e me olham assustada.
—Cultura louca de matar pessoas sem motivo? De onde você veio?- Merlin se choca e dou de ombros.
_Então você salva Arthur de um assassinato e acaba como seu servo. Isso é muito justo.- mudo de assunto na hora e ele me olha com gratidão, satisfeito por alguém entende-lo.
_Isso não tem a ver com justiça.- Gaius, que esteve o tempo todo fazendo a provavelmente a pior massagem que Merlin já teve, se pronuncia.- Nunca se sabe. Pode ser legal.
—Você acha legal limpar cocô de cavalo? Vocês tem que ver minha lista de obrigações!
_Todos tem obrigações. Até mesmo Arthur.- Gaius o repreende.
_Deve ser muito difícil para ele, com todas as garotas e a glória.- ironiza.
_Ele é o futuro rei. Ele vive sob muita pressão.- e do mesmo jeito que a conversa começou, o silêncio se instalou. Pode parecer egoísta da nossa parte, mas eu não pensei no que ele poderia estar vivendo. Eu, mais do que qualquer um, deveria saber que ser um príncipe não é uma tarefa fácil, Arthur provavelmente deve estar enlouquecendo com esse torneio que está chegando. Não existe outra opção para alguém como ele além de vencer.
A multidão já estava impaciente quando os homens armados começaram a entrar na arena, que era composta basicamente de nada. Um quadrado de areia cercado por tendas e arquibancadas lotadas de crianças, mulheres e adultos desesperados por uma luta. Como criada de Morgana, tenho de me sentar ao seu lado e me impressiono ao notar que sua repugnância ao evento é a mesma que a minha. Não entendo para que tanta violência grátis, o que as pessoas vêem de tão interessante em dois homens sujos e suados batendo um no outro até a morte?
Um em um, todos os vinte e quatro homens, de diferentes idades e raças, vestidos com suas capas, escudos e o elmo em mão, caminham até o centro da arena e param um ao lado do outro, para ouvir os cumprimentos do rei. Vejo Merlin escondido atrás da arquibancada e torço para que tudo tenha se ido bem.
_Cavaleiros de todo o reino- Uther desce de seu palaque e anda entre os competidores- é uma honra recebe-los no grande torneio de Camelot. Pelos próximos três dias, sua bravura será testada, suas habilidades como guerreiros, e é claro, terão que desafiar o campeão do reino: Meu filho, Príncipe Arthur!- a multidão se enlouquece e como uma cidadã normal dessa época estranha, grito também. O rei disse mais coisas, mas já não prestava atenção. Olhava para Arthur e tentava imaginar o que estaria passando por sua cabeça nesse momento.
_Achei que não gostasse desses eventos.- sussurro para Morgana enquanto batemos palmas.
_Não gosto.
—Então porque está sorrindo?
_Porque ele sorriu para mim antes.- ela sorri novamente e sigo seu olhar para o tumulto dos guerreiros que saem para as suas barracas.
_Quem? Arthur?- ouso soltar uma risada. Ela não parece se ofender, parece até achar engraçada a ideia de que em alguma vez poderia sorrir para o quase irmão.
_O de verde.- então o vejo, conversando com os outros homens. Ele não parece muita coisa, se bem que nenhum deles parece nada demais para mim. Mas com o tempo, cheguei a conclusão de que, se Arthur não ganhasse, ele ganharia. Apesar de ter passado a maior parte do tempo com os olhos fechados, tentando não ver tamanhas atrocidades, ouvia os gritos de delírio de todos e os breves resumos que Morgana me fazia. Arthur ganhou várias lutas, assim como o cavaleiro verde a qual fomos descobrir chamar Valiante, que quase instintivamente captou os olhares de Morgana.
Nos poucos dias que tive que ficar ao seu lado, Morgana se tornou o mais perto de amiga que eu poderia pedir. Ela não me trata como um inferior, e mesmo que eu tenha que praticamente vesti-la, eu acredito que ela realmente confia em mim. Ela é boa, generosa e no pensamento atual, tenho um pequeno fio de esperança de que, de algum jeito, ela possa governar Camelot e livrar esse povo das mãos de Uther.
_Cavaleiro Valiante, das Ilhas do Norte- Uther anuncia e o homem em sua frente faz uma reverência. Estamos no salão, onde todos os guerreiros do torneio e outros convidados comemoram as lutas do dia. Morgana, como a protegida do rei, está de seu lado direito, e eu, como uma mera serva, estou ao seu lado. Eu poderia até me importar por estar assim tão perto dela, que é o centro das atenções, mas mesmo se quisesse aparecer, não conseguiria. Ninguém me nota, literalmente, eles passam por mim como se eu fosse somente um pequeno animal que atrapalha seu caminho até o rei.- Eu vi você lutando hoje. Você tem um estilo bastante agressivo.- a protegida do rei me lança um olhar mais do que sugestivo e sorri, para voltar sua atenção para o homem.- Deixe-me apresentar-lhe, Lady Morgana, meu tesouro.- Valiante se vira para nós, me ignorando é claro, e foca todas as suas atenções nela, que realmente está muito bonita. Lentamente, ele toma suas mãos e deposita um beijo.
_Parece-me que o vencedor do torneio terá a honra de escoltar minha Senhora ao banquete.- ele lança no ar a indireta. Olho para Arthur com o canto do olho e vejo seus narizes soltarem fumaça.- Pois darei tudo de mim para ganhar o torneio.- com um último olhar, ele sai do campo de visão, anda até o companheiros enquanto continuamos a observa-lo.
_Todos estão impressionados com o cavaleiro Valiante- Morgana implica com Arthur que surge em nossa frente.
—Eles não são os únicos.
—Você não é ciumento, é?- ela implica novamente e abre um sorriso.
_Não vejo motivo para ser.- entra na brincadeira e se finge de desentendido, deixando o local imediatamente, sem antes piscar para mim.
_Arthur não poderia ser mais irritante.- ela bufa.- Espero que Valiante vença o torneio.
_Você não está falando sério, está.
—Sim, estou.- responde convicta.
O dia seguinte passou com a mesma quantidade de sangue e violência. Arthur ganhou algumas lutas e Morgana alternava seus olhares entre Arthur e Valiante, somente para provocar. Tenho impressão de que Arthur tem ciúmes de Morgana, mas por causa do pai, que a trata com se fosse a própria filha. É por isso que ele faz tudo isso, orgulhar o pai e ter a esperança de que pelo menos uma vez esse se lembre de que ele é o verdadeiro filho.
Não sei se isso era normal ou não, mas pouco depois do fim das disputas do dia, todos foram convocados na sala do trono, algum tipo de reunião emergencial, não sei. As pessoas conversavam naturalmente, ainda sem saber o que aconteceria. Nesse momento as portas se abrem e Valiante entra escoltados por diversos guardas. O resto das pessoas presentes voltam para seus lugares devidos, assim como eu.
_Porque você convocou o tribunal?- um Uther furioso marcha pela porta e se senta em seu trono. Não compreendo, se não foi ele quem fez isso, quem poderá ter feito? Então sigo seu olhar de ódio e me decaio em seu filho, que conversa preocupadamente com Merlin. Se os dois estão se falando sem gritar, alguma coisa grave realmente deve ter acontecido.
_Eu acredito que o Cavaleiro Valiante está trapaceando usando magia em seu escudo.- Arthur toma a dianteira e se porta no centro do salão. Morgana me olha sem entender e simplesmente respondo que não sei de nada.
_Valiante, o que tem a dizer sobre isso?- Uther se pronuncia.
—Meu senhor, isto é ridículo! Eu nunca usei magia. O seu filho tem alguma evidência para fazer uma acusação tão ultrajante?
_Você tem alguma prova?- Uther se vira para o filho que simplesmente responde que sim. Ele se vira para Merlin e pega algo em suas mãos. Uma cabeça de cobra. Uther a analisa cuidadosamente e então se vira para o escudo, enfeitado por três cobras verdes, exatamente iguais a mostrada. Como se as coisas não pudessem piorar, Gaius chega pedindo por Merlin. Os dois conversam enquanto Valiante tenta se proteger e encontrar alguma resposta plausível para aquilo.
_Como vou saber que está dizendo a verdade?
_Eu tenho uma testemunha.- ele se vira para o resto dos espectadores que observam tudo amedrontados- Cavaleiro Ewan foi picado por uma das cobras do escudo. O veneno o atingiu gravemente, no entendo ele recebeu um antídoto. Ele confirmará que magia foi usada.
—Onde está essa testemunha?- por um segundo vejo o medo atravessar os olhos de Arthur. Ele gagueja por um segundo e se vira, procurando por alguém.
_Ele deveria estar aqui.-receoso e sem saber o que fazer, Arthur se dirige para Merlin, que não parece ter boas notícias. Com um olhar assustado, Arthur percorre todo o salão, para depois se dirigir ao pai.
_Ele está morto.
_Então você não tem nenhuma prova para a acusação?-Uther dá um passo para frente, pronto para enfrentar o filho e furioso pela humilhação que acredita estar passando.- Você o viu usando magia?
_Não-Arthur abaixa os olhos.- Mas o meu servo lutou com as cobras...- ele tenta argumentar.
—Seu servo? Você cometeu um ultraje contra um cavaleiro pelas palavras de um servo?- vejo Merlin se remexer no canto, claramente insatisfeito com o rumo que a conversa tomou.
—Eu acredito que ele esteja dizendo a verdade!
_Meu senhor, realmente serei julgado pelas palavras de um menino?- Valiante se põe entre os dois.
_O que espera que eu faça com isso?
_Percebo que houve um mal-entendido.- quase não ouço a voz de Arthur, de tão baixa que foi. Eu retiro minha acusação. Por favor aceite meus pedidos de desculpas.- cercado de vergonha e desapontamento, ele guarda a espada e caminha para fora do salão. Merlin o segue, sabendo que provavelmente seu trabalho e sua vida estão em risco. Pouco a pouco as pessoas de dispersam, até que estou só ao lado de Morgana.
_Você está bem?- ela se vira para mim com um semblante preocupado.
_Sim, sim. Será que eu poderia...?
—Claro que sim, Gwen. Vá falar com ele.- ela sorri.- E depois me conte tudo o que aconteceu.- ela pede. Faço uma reverência e saio a procura de Merlin.
Realmente acreditava que encontra-lo seria mais fácil. Procurei por todo o castelo, para no fim vê-lo sentado no canto das escadas principais, sentindo pena de si mesmo.
—Olá. Está tudo bem?- ele se vira para mim e sem dizer nada, volta seu olhar para o chão. Sem pedir permissão, me sento ao seu lado.
_Pelo menos está vivo.- tento anima-lo, mas não adianta de nada, ele simplesmente assente com a cabeça.- É verdade o que você disse sobre Valiante usando magia?
Não acredito nessas coisas, para mim, essas pessoas estão delirando, mas não serei eu a dizer isso para eles, muito menos agora em um momento como esses. Ele balança a cabeça em afirmação.
_O que você vai fazer?
_Porque todos acham que devo fazer alguma coisa?- ele se vira para mim pela primeira vez, inconformado.
_Porque você deve! Não deve? Você tem que mostrar para eles que está certo!
_E como eu faço isso?
_Eu não sei.- digo honesta.
Final, Arthur contra Valiante, e se Merlin realmente diz a verdade, o que não acredito que seja a ocasião, Arthur morrerá. Merlin deve estar provavelmente nesse momento tentando convence-lo de não participar da competição, mas não há nada que o faça desistir de lutar, ele possui esse desejo insaciável de mostrar ao pai o quão bom é.
_Ele vai ficar bem.- Morgana segura minha mãe e tenta me acalmar. Nesse momento a multidão se levanta para ver os dois homens entrando. Instintivamente boto meus dedos na boca, em sinal de nervosismo. Prometi para mim mesma que veria a luta, que abriria meus olhos.
Os dois botam seus elmos e erguem as espadas, ao sinal de Uther, Valiante se joga na frente de Arthur e a disputa começa. Valiante é mais forte, mas Arthur é mais rápido, e consegue se desviar do golpe com uma certa facilidade. Antes que o oponente conseguisse se recuperar do mal investimento, Arthur gira a espada que voa em direção do rosto de Valiante, que, no último segundo, desvia o golpe. Os dois mantém distância e ficam, até que uma boa parte do tempo, simplesmente andando em círculos, provavelmente tentando recuperar o fôlego ou tomando coragem. Com um rugido, Valiante se joga para cima de Arthur e desfere diversos golpes, que são rebatidos no susto. Assim que se recupera do choque, o príncipe ataca e, em uma jogada de sorte, consegue atingir o elmo do guerreiro, que cai no chão. A multidão se assusta, mas logo volta a bater palmas. Em uma jogada estúpida, Arthur retira seu elmo também e espera pelo ataque, que vem mais rápido do que ele poderia esperar. O escudo de cobras bate em seu queixo, o desestabilizando e o fazendo cair no chão. Morgana aperta minha mãe e solto um gritinho de susto. Valiante berra e ataca o garoto no chão, que por pouco consegue rolar e de desferir do golpe, antes fatal. De pé e sem armas, Arthur desvia dos golpes e da espada de Valiante, mas não há muito que ele possa fazer sem uma arma. Então vejo Merlin, escondido no mesmo canto que o tinha visto todas as outras vezes. Em um gesto estranho, ele levanta a mão e, por um segundo, juro ter visto seus olhos terem ficado amarelos. Deixo a alucinação de lado e volto para a luta, mas não acontece muita coisa. As cobras entalhadas no escudo de Valiante tomam vida e saem do escudo, o mais estranho que isso possa parecer. A multidão vaia, o rei se levanta, ultrajado e Arthur aproveita a distração para roubar a espada do oponente e joga-lo no chão, sem antes esquecer de cortas as cabeças das cobras. Valiante não se levanta, muito menos abre os olhos, fazendo com que toda a arquibancada se levanta e grite por seu velho campeão. Não deixo de bater palmas, claramente aliviada por Arthur estar vivo.
Em pouco tempo, Arthur foi coroado o vencedor, o rei anunciou o banquete e todos foram embora. Fiz meu trabalho e ajudei Morgana a se arrumar para o banquete. Já na celebração, procuro Merlin por todos os lados e assim que o vejo, sorridente e alegre, o puxo para um canto privado, com medo do que ele provavelmente me dirá.
—O que aconteceu?
—Você tem magia!- digo mais para mim mesma.- Você fez aquilo acontecer!- levanto minha cabeça e vejo seu rosto assustado e seus olhos amarelos.
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