Lost In Time
4 Lost in lies
Notas iniciais

Fazia tempo que eu não me movimentava assim. Dormia tranquilamente, quando eu finalmente percebi. Eu tava dormindo. E seu estava dormindo, isso significa que não estou mais na floresta. Acordo com um sobressalto e respiro rápido, assustada com o lugar onde estou.
As paredes são repletas de estantes de livros, há várias mesas com poções e frascos cheios de líquidos estranhos. Olho ao redor, mas não parece ter ninguém. O lugar é empoeirado, como se não tivesse sido limpo há bastante tempo. Estou em uma cama, desconfortável, bem no meio do quarto. Minhas costas doem, minha cabeça parece que vai explodir e eu, mesmo de baixo dos cobertores, ainda sinto frio.
Me levanto da cama e cambaleio. Procuro por alguma coisa ou alguém, mas não acho nada. E então eu noto que não estou com a mesma roupa que estava antes. Os farrapos cinzas foram trocados por um vestidinho rosa, largo e até que confortável. Meu estômago ronca e eu percebo que ainda não comi.
Caminho lentamente em direção da janela e olho a vista. Florestas e mais florestas até o fim do meu olhar. Um verde que se encontra com o azul do céu e ainda sim continua. Estou em uma das torres de um castelo. Me pergunto como fui parar ali. A arquitetura é no estilo medieval e estranhamente maravilhosa. Não é luxuosa e detalhada como o palácio em Angeles, mas linda com seu jeito rústico. Em frente a porta principal há uma área aberta, onde guerreiros treinam e cidadãos passeiam, entram e saem do castelo. Mais a frente, já fora da construção principal, existe uma pequena vila. Casinhas simples e pequenas alinhadas, e na rua, barraquinhas ocupam o lugar. Pessoas circulam entre a cidadela e os portões, cavalos entram e saem e carroças transportam alimentos e feno. Um brilho surge em meu olho e olho, admirada, para a paisagem.
_A vista é realmente muito bonita. — uma voz diz atrás de mim. Eu pulo de susto e viro para trás. O homem atrás de mim tem por volta dos 70 anos, o rosto coberto de rugas de preocupação, mas um sorriso divertido estampado. Sua roupa é diferente, ele usa uma camisola, ou um pedaço de pano que cobre todo o seu pequeno corpo. Ele é baixinho e corcunda, e seu cabelo branco vai até a altura do ombro. Olho para ele sem saber o que dizer, mas ele só sorri.
_Fico feliz que tenha acordado. Está melhor?- ele me pergunta preocupado e vai para trás de uma mesa cheia de livros abertos.
_Estou sim. — respondo simplesmente e o observo trabalhar. — Quem é você?- eu pergunto depois de um tempo.
_Meu nome é Gaius. Sou o curandeiro da corte. — ele explica e faz uma reverência, que retribuo hesitante.
_Que corte? Como vim parar aqui?- me desespero. Ele vem em minha direção e me senta na cama.
_ Te encontraram na floresta, você estava quase morrendo de frio. Te trouxeram para cá, para que eu cuidasse de você.- ele me explica calmamente, percebendo o quão assustada estou com tudo isso.
_ Para cá onde?- eu pergunto com medo da resposta.
_Camelot. O melhor dos cinco reinos. — ele responde como se fosse óbvio.
_Espera. Camelot?! Camelot?! Como o reino de Camelot?!- eu pergunto assustada. Não, não, não, não! Eu queria voltar no tempo um dia, não mais de mil anos. Isso deve ser uma brincadeira, claro que é! Mikail fez isso comigo, como castigo por ter entrado na máquina. Ela nunca funcionou! Estou em Angeles, isso tudo é uma ilusão, um sonho, e quando eu acordar vou estar no palácio. Então fecho os olhos com força. Torcendo para que, quando acordar, voltar para minha casa. E então eu abro, e o velho olha para mim espantado. Praguejo e fecho os olhos novamente. Ainda estou aqui. Repito o processo várias vezes, mas sempre acordo no mesmo lugar.
_De onde é mesmo?- Gaius me pergunta, mas antes que pudesse responder, um garoto entra pela porta. Ele é moreno e tem por volta de 16 anos. Ele olha para mim e para Gaius e para mim de novo, sem saber quem eu sou. Gaius se levanta e anda bravo até o garoto.
_Você nunca deixa de me surpreender! Uma coisa que alguém como você deve fazer, é ficar com a cabeça abaixada!- ele diz e o menino se envergonha. — Você se comporta como um idiota! — ele termina.
_Me desculpa! Você tem razão. — ele responde, mas é interrompido.
_Eu tive que mexer uns pauzinhos para te soltar. — Gaius começa e o garoto o abraça e não para de agradecer.
Não entendi nada do que acabou de acontecer e os dois homens parecem se esquecer que estou ali ouvindo tudo.
_Tem um pequeno preço a se pagar. Mas se preocupe com isso amanhã.
O garoto ignora o fato e puxa Gaius para fora do quarto.
_Quem é a garota?- ele pergunta.
_Não sei. Arthur a encontrou quase morta na floresta e a trouxe para cá. — Gaius explica. Arthur me trouxe para cá? Então esse é o nome do loiro?
_Arthur salvou ela?- o garoto pergunta e solta uma risada. — Ele não tem coração! Porque ele salvaria ela?- o garoto pergunta incrédulo.
_Eu estou aqui sabia? E ouço tudo. — eu me intrometo e os dois se viram para mim.
_Descanse e tome bastante líquido. — ele me aconselha. — Merlin aqui- ele continua a aponta para o garoto- cuidará de você até que eu volte. — ele diz e antes que qualquer um de nós pudesse protestar, sai pelo corredor. Nos deixando sozinhos e constrangidos.
_O que você fez?- eu pergunto não aguentando de curiosidade.
_Essa é uma ótima história. — ele diz e sorri. Seu sorriso é bonito e contagiante. Merlin parece uma daquelas pessoas que é alegre e sempre motivado. Ao olhar seu sorriso brincalhão, eu só penso em esquecer dos meus problemas e me juntar a ele. -Eu cheguei dois dias atrás e vi uns valentões atirando facas em um garoto, como tiro ao alvo, eu disse que já chega e o enfrentei. Quem poderia ser ele para me impedir? Ele era o príncipe. Então nós brigamos. E eu fui para as masmorras. Até Gaius me soltar hoje de manhã. — ele me explica como se não se arrependesse de nada do que fez.
_Então você defendeu um amigo, enfrentou o príncipe e foi pra cadeia por isso?- eu pergunto resumindo toda a história.
_Basicamente isso. — ele diz envergonhado
_Você não é um idiota. Talvez um pouco, mas foi corajoso da sua parte. — eu digo honesta.
Merlin parece uma pessoa dócil e inofensiva, se ele lutou com alguém, isso deve ter o irritado muito. O príncipe não parece ser uma pessoa boa. Somente um nobre arrogante que só se importa com o próprio umbigo.
_Mas o que você fez para estar aqui?- ele me pergunta e eu gelo. Não é como se eu pudesse falar que vim do futuro, então minto.
_Acreditaria se eu dissesse que não me lembro?- pergunto arriscada. Ele faz cara de desentendido e eu continuo- acordei na mata e não tinha ideia do que estava fazendo ali. Não sabia o que tinha acontecido, o meu nome, nada. Eu passei muito tempo caminhando quando vi uma fogueira e resolvi seguir ela. Então eu encontrei esses homens feios e eles me pegaram e só lembro disso. Eu apaguei e acordei aqui. — eu explico, resumidamente, o que aconteceu até chegar. Eu tecnicamente não menti. Eu realmente não sabia de nada.
_Então não se lembra como se chama?- ele pergunta surpreso e eu assinto. Ele faz uma cara de pensativo e depois de um tempo se anima. — achei o nome perfeito para você!- ele diz e corre para a mesa, onde ele pega uma flor, e volta até mim. — Guinevere. O nome de uma flor, para uma flor.- ele diz brincalhão e eu rio.
_Prazer, eu sou Gwen. — eu digo e estendo minha mão.
_Sou Merlin. Prazer em te conhecer Gwen. — ele segura minha mão.
_O que pretende fazer aqui agora?- ele me pergunta e eu dou de ombros. Eu preciso arranjar um jeito de sair daqui, voltar para o meu tempo, minha casa, mas essa ideia parece praticamente impossível.
_Posso falar com Gaius. Tenho certeza que ele pode te ajudar a arranjar um trabalho e uma casa na cidadela. Ele me ajudou tanto. Pode ficar no meu quarto até acharmos um lugar para você. — ele oferece e eu o abraço imediatamente. O conheci a cinco minutos, mas tanto ele quando Gaius fizeram tanto por mim.
_Já sabe o que vai dizer para Uther?- ele pergunta descontraído.
_Como assim? Quem é Uther? Porque eu falaria com ele?
_O rei. Todos que chegam aqui falam com ele. Contam sua história e o pedem ajuda.
_Acha que ele vai me ajudar?- pergunto esperançosa. Às vezes se eu contar a verdade, ele poderá me ajudar.
_Não. — ele responde sincero e ri da minha cara de decepção. — Uther não é do tipo de pessoa que faz alguma coisa sem esperar algo em troca. Ele não se importa com os outros.
Me lembro de Clarkson na hora. Quando pensei que poderia me livrar de um, aparece outro para complicar as coisas ainda mais.
_Acho que descobrimos de onde o príncipe puxou o gênio. — eu comento e ele ri.
_Muita coisa ainda vai acontecer. E eu e você, vamos estar no meio de tudo. — ele comenta e eu penso em suas palavras. Não pode acontecer mais coisas ruins do que o normal. Como eu estava errada.
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