Lost In The Dark
1 Lost In The Dark
Notas iniciais
Lost in the dark
Kanda x Allen
Não entendia o que me levara até ali. Só me lembrava de estar lutando contra um ‘rival’ antigo, ser mortalmente ferido e depois aparecer naquela sala branca. Tsc... Por culpa daquele idiota, eu entrara apostando tudo em uma batalha contra o Alma. Uma batalha a qual não imaginava que pudesse ser derrotado, porém, ali estava meu corpo. Cansado, mutilado, desgastado demais para puder se reerguer como sempre fazia em meio a tantas lutas travadas.
No meio de tantos pensamentos, uma música aconchegante começou a tocar, me fazendo acompanhá-la com a imaginação. Estava ficando frio e com o passar do tempo, o branco estava escurecendo, transformando-se em negro. Era como se uma força me puxasse para longe, para um lugar onde jamais o veria novamente.
“Está escutando Allen?”, perguntei.
“O que Yuu...?”, a sua voz saía embargada pela tristeza. Seus soluços ecoavam pela sala branca.
“Essa música... É a sua composição...?”, sussurrei quase sem forças.
“Yuu~, não fale... Shh... Poupe sua energia. A ajuda já está vindo pra cá.”
“Tsc... Realmente você é um peso, seu moyashi imbecil...”
Aquela voz doce, envolvida pela emoção e pelo desespero, me fazia querer ainda permanecer acordado por mais um tempo. Aquele calor tão característico de sua mão humana me tocando a face era atordoante. O som dos seus soluços misturados as notas tocadas da canção brincavam em meus ouvidos, como se tentassem me manter sóbrio. O toque de seus lábios quentes sobre os meus, levemente trêmulos a cada tentativa de puxar o ar, parecia lutar contra o destino para me manter vivo. Não pude deixar de rir, entretanto, meu riso parecia mais uma tosse fraca, envelhecida.
“Kanda!! Por favor, continue vivo.”
“Não me peça o impossível, seu idiota.”
“A ordem precisa de você! O Lavi, a Lenalee, o Komui, o Crowley, a Miranda, o Maire, o General Tiedoll... Precisam de você! EU preciso de VOCÊ!”
“Tsc... Você me teve todos esses meses, Allen...”
“Mas eu quero você para minha vida toda.”
“Imbecil... Já lhe disse... Pare... De pedir o impossível. Estou morrendo. Eu quero morrer...”
“Então me leve com você!”
Querer? Mentira. Tsc. Talvez, se eu estivesse no lugar dele, e ele morresse a minha frente, meus lábios não pediriam aquilo. Permaneceriam quietos, sem profanar uma só palavra, esperando que ele sobrevivesse no fim, mas a situação era inversa. Eu estava morrendo e ele estava vivo. Nada que ele fizesse, poderia me salvar. O silêncio o dominou por um momento, mostrando que ele estava pensativo. Sufoquei um soluço, e engasguei-me com o sangue que expelia ao tentar fazer isso. As mãos trêmulas daquele novato agarraram o meu sobretudo rasgado e banhado de sangue, fazendo-me olhar atentamente para ele.
“Sabe, agora eu realmente entendo o que se passa pela cabeça das pessoas que fazem o contrato com o Conde.”
“Allen... Você... Nem pense nisso!”
“A dor de vê-las partindo, de não tê-las mais ao nosso lado é tão grande que...”
O puxei com o braço ainda intacto, o fazendo se aproximar do meu rosto. A raiva me subia à cabeça, fazendo-me tremer ainda mais. Nunca! Nunca admitiria que ele fizesse aquilo outra vez. Principalmente comigo.
“Se fizer isso eu juro que...”
“Eu fiz isso pelo Mana e ganhei essa maldição... Qual seria o preço que eu teria de pagar, caso pudesse ter você de volta, Yuu?”
“Nenhum... Agora, você vai me deixar aqui... Sozinho. Eu quero morrer, Allen. Não me faça ter que...”
Parei. Soltando instantaneamente. Uma dor aguda me atingiu o peito, e o ar me faltou. Sentia que estava partindo em muitos pedaços, me desintegrando aos poucos. Olhei para baixo, observando os pentagramas negros cobrirem minhas pernas, na verdade, o que restara delas. Tsc, havia me esquecido de um detalhe. O Alma ainda era uma fusão e tinha matéria Akuma dentro de si e nada que meu corpo pudesse fazer, conseguiria retardar ou anular o vírus que se espalhava por mim.
Não pude deixar de esboçar um sorriso sádico. Eu estava morrendo. Após tantos anos, eu estava morrendo.
“YUU! NÃO! AGUENTE FIRME!!”
“Agüentar firme? Tsc... Não seja ingênuo seu moyashi irritante...”
“Por favor, não me deixe aqui...”
“Tarde demais... Não há mais nada que possa fazer...”
“Não me abandone! Eu não sei o que vai ser de mim...”
“Você será... Tudo que foi até hoje... Não deixará de ser você...”
“Como...? Você está...”
“Pára de drama Allen. Só estou morrendo...”
“PARA! Pare de tratar sua morte como se fosse algo em vão! EU TE AMO!”
Não percebi direito como aquilo acontecera, mas os braços dele me envolveram num abraço apertado, carinhoso, quente. As suas lágrimas me acariciavam a face com sua temperatura amena, e seus soluços me embalavam. Não suportava ver seu desespero, e queria mandá-lo aquietar-se, calar a boca e aceitar, mas como conseguiria fazer aquilo se o garoto que me abraçava estava tão vinculado a mim, que não conseguira obedecer qualquer pedido egoísta que eu fizesse. Fechei os olhos, permanecendo quieto.
Naquele momento me peguei surpreso ao pensar que queria ter forças para poder abraçá-lo, segurar seu rosto e avisar que eu ficaria ali para sempre, mas não. Não era verdade e tão pouco poderia fazê-lo. No mesmo segundo que pensara aquilo, a dor viera me fazer uma visita, batendo na porta do meu peito. Ela parecia querer me mostrar quanta falta aquele moleque de olhos azuis me faria e como estava ligado a ele. O riso sádico se desfez em meus lábios, transformando-o num sorriso triste, doloroso.
Allen Walker. Eu o amava, mas fora orgulhoso demais para corresponder suas palavras com as mesmas. Vê-lo era desconcertante. Era irritante demais saber que jamais o teria em meus braços novamente. Que jamais o possuiria daquela forma tão envolvente e calorosa. Estremeci. Meu corpo dolorido não estava mais agüentando aquela pressão e a tatuagem em meu peito estava desaparecendo completamente.
Abri os olhos e os arregalei. Onde eu estava? Tudo estava escuro. Ele não estava mais ali, comigo? Não conseguia sentir o calor do seu corpo tão pequeno. Apenas conseguia escutar a música, ecoando ao longe. Algo novo borbulhava dentro de mim. O desespero, enfim, se mostrara presente. Eu estava morrendo.
“Tch... Estou desintegrando...”
“...”
“Allen?! Onde está você...?”
“Aqui Yuu.”
“Eu não estou vendo... Eu estou... Eu...te...”
“Yuu... Yuu?! Yuu!!”
“...amo...”, e a palavra morrera antes mesmo de ser pronunciada.
Do pó vieste ao pó retornarás.
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