Lost In Darkness
1 Prólogo
Rússia, São Petersburgo – 1852
Chovia tempestivamente naquele dia. As ruas estavam desertas, e em diversas partes alagadas, todos se encontravam no conforto de suas casas nesta madrugada fria de outubro. Exceto uma pessoa.
Uma mulher corria com dificuldade pelas sombras, porém desesperada para chegar a algum lugar.
Um lugar seguro era tudo o que queria. E assim poderá esperar tempo suficiente para depois voltar e buscar sua filha.
Cavalos relinchavam ao longe, seus galopes pesados se aproximavam cada vez mais, e montados neles se encontravam as pessoas que a procuravam com uma inabalável determinação, movidos a raiva e indignação.
Perto, estavam muito perto.
Eles irão encontrá-la, e dessa vez não conseguirá fugir novamente.
Mas ela não poderia parar ainda. A vida de sua filha também corria perigo, e ela a estava esperando quietinha onde a tinha deixado.
A mulher segurava seu pesado vestido o melhor que podia para não cair, ao mesmo tempo em que tentava enxergar através da chuva. Virou numa rua mal iluminada, não sabia em que parte da cidade estava, conhecia muito pouco aquele lugar, chegou lá inconsciente fazia quatro dias, e tudo virou um pesadelo desde então. Olhava pelas casas escuras a esmo, parecia que ninguém se atreveria a lhe ajudar. Vultos escuros passaram como um borrão ao seu lado, e foi neste momento que por não conseguir ver onde pisava, tropeçou numa pedra solta da calçada e perdendo o equilíbrio, atingiu o chão em um baque surdo.
Uma enorme Sombra chegou rastejando até ela, fundindo-se com a sua própria sombra, o que significa que ela não poderia levantar, pois ele a segurava no chão. No entanto, ela não iria precisar esperar muito, ele começou a voltar a sua forma humana, e o medo finalmente a tomou, mas tinha que pensar em sua filha, não poderia desistir agora.
Ele se inclinou sobre ela e a pega grosseiramente pelos cabelos, entretanto, sem se preocupar com a dor, ela se esquiva num salto de seu agarre e lhe chuta as costelas com força, fazendo-o derrapar no chão, agindo rapidamente, pega uma adaga que estava em seu cinto e pula sobre ele, mas ele já se transformou em sombra novamente e desapareceu, ela o procura aturdida ao redor, enquanto ele reaparece atrás dela, mas com instinto e reflexos agudos, ela desvia a tempo de um soco e crava a adaga bem no peito dele.
Ele resmunga de dor e cai de joelhos no chão, e aproveitando essa chance, ela volta a fugir.
Ela sabia que ele não ficará incapacitado por muito tempo. Ele é uma Sombra, e todos como ele nunca poderão morrer, pois já estão mortos.
A única vantagem que se pode ter sobre eles é que ainda podem se ferir e sentir dor, mas apenas com uma lâmina de prata banhada em verbena.
- Pare agora, Layniet! Tudo será melhor se pudermos conversar! O mestre apenas quer saber onde está sua filha! – Declarou a Sombra em rosnados enraivecidos.
E se depender de mim nunca saberá, pensou ela.
Layniet corre até o final da rua, e logo adiante encontra um galpão. Ficar ali dentro não a esconderá por muito tempo, mas será o suficiente para mandar uma mensagem telepática para seu marido, dom que adquiriram por meio de uma ligação mágica entre eles.
Ela arromba o cadeado com uma pá que encontrou do lado de uma casa, entra e fecha bem as enormes portas de madeira. Layniet corre para os fundos e senta num monte de feno. Há sacos de grãos e farinhas por todo canto, e montanhas de feno, tudo isso a esconderá por um tempo, mas apenas se nenhuma Sombra a viu entrar.
Por este motivo é errado criar qualquer tipo de esperança. Ainda não está segura e muito menos com tempo. Ela respirou fundo lentamente, tentando se acalmar e não tremer de frio. Estava encharcada e doente, eles a infectaram com alguma coisa. Antes de ter fugido, eles a tinham torturado tanto, a golpeavam quando não respondia suas perguntas e injetando líquidos escuros nos seus braços. Fediam a sangue.
Ajude-me, Chandler! Eles querem nossa filha! Consegui fugir, mas colocaram alguma coisa em mim. Sinto-me fraca e muita dor. Tanta dor no corpo todo...
Layniet esperou apenas alguns segundos para ter resposta de seu marido, mas ele parecia estranho, calmo demais:
Ah! Layniet, finalmente! Onde você está, minha querida? Estou te procurando há horas pela cidade.
Algo não estava certo em sua mensagem. A última vez que se viram foi ontem à tarde, quando ele saiu para resolver algo no trabalho, não disse a ela o que era, e não voltou ao anoitecer. Algumas horas depois de se deitar, ela foi raptada dentro de sua própria casa. A sala de estar estava repleta de sangue, e os corpos dos criados estavam jogados no canto da escadaria. Todos mutilados e alguns foram decapitados, ocorrera um massacre e ela não tinha ouvido nada?
Mas a sua principal preocupação era que ela e Chandler não se viam há quase dois dias. Pensava que ele tinha sido pego também, mas aparentemente não.
Não sei exatamente em que parte da cidade estou. Mas entrei num galpão...
O horror a atingiu com força ao escutar os cavalos relincharem do lado de fora e o eco dos risos das Sombras ao deslizarem pelas paredes do galpão.
Não se preocupe, já a encontrei. Obrigado por cooperar, minha bela.
O q-que está dizendo...?
Venha para fora e conversaremos melhor. Não quero fazer mal algum a você, só queremos saber onde está nossa pequena Skylar.
- O mestre está te esperando, Layniet! E adivinhe quem é!?
- Vamos, vamos! Não seja tímida! – Zombaram as Sombras, com risos enlouquecidos. Havia vários deles a cercando e não tinha nenhuma outra saída.
Um raio cortou o céu, e ao iluminar tudo, fez as Sombras desaparecerem por alguns segundos, junto com uma trovoada de tremer o chão.
Ela se levantou meio cambaleante e tremula, com o coração partido pela traição de Chandler, que era a pessoa no comando de toda essa loucura. O homem que mandou matar seus criados e a raptar, a torturar e a caçar pelas ruas de Petersburgo, mas o pior era que ele é seu marido e pai de sua preciosa filha, e de quem ela daria a vida para não encontrá-la jamais.
Layniet estava decidida. Deixou sua mente ser dominada pela raiva, o ódio, a traição e nojo por todos eles, e foi em direção as portas.
Não direi nada sobre minha filha. Não me renderei. Nem mesmo irei para o seu lado nesta luta. Você não é mais o mesmo há muito tempo, eu apenas fui cega demais para perceber. E errei ao amar um monstro como você!
- Essa é sua escolha final, Layniet? – Indagou Chandler friamente ao vê-la sair para a chuva depois de fazer sua declaração mentalmente.
- Sim. – Respondeu ela simplesmente, parando em frente a ele, que acabara de descer do cavalo.
Seus olhos pretos como a mais profunda escuridão a encararam por longos segundos. Inexpressivo. Frio. Calculista.
Ele era um ser desprezível quando em sua verdadeira forma. Porque a outra, a que ela amou e foi amada de volta, era o completo oposto deste desconhecido na sua frente. Talvez tivesse sido apenas uma atuação. Uma mentira. E ela caiu feio nela.
Como uma verdadeira tola apaixonada.
- Tudo o que passamos juntos foi mentira? – As palavras cheias de mágoa pularam de sua boca sem que pudesse conter-se, sentia que essas seriam as últimas, mas o desejo de saber era maior. Uma parte dela ainda ansiava em acreditar que tudo isso não passava de um terrível pesadelo. Que acordaria em sua casa, com todos vivos e felizes.
Ele finalmente pareceu deixar sua expressão de gelo ruir e sorriu tristemente para Layniet, seus olhos pareciam implorar por perdão. Ele toucou-lhe a face delicadamente, tirando algumas mechas de cabelo de seu rosto gelado da chuva. Sua mão era tão familiar, tão quente e macia, mesmo ele estando tão molhado quanto ela.
E Layniet estava gelada como um verdadeiro cadáver.
- Nunca menti sobre te amar, minha querida. Eu ainda a amo. Mas tudo isso não... – Chandler balançou a cabeça, angustiado — Para o resto da minha vida, as escolhas não serão mais feitas por mim. Me arrependerei, mas não irei me opor. Quero que saiba que apenas cumpro ordens. E se você, meu amor, escolhe ser livre delas e de mim, então que seja.
Layniet foi inesperadamente empurrada, batendo a cabeça com força ao cair no chão, o que fez com que desmaiasse, e logo em seguida Chandler conjurou seu poder de fogo negro em uma das suas mãos e, sem pensar e nem hesitar um segundo, o tacou no corpo frio de sua amada. As chamas a cobriram rapidamente, e a chuva que ainda caia não atrapalhava em nada. Ele a assistiu queimar até não sobrar mais nada. Nem mesmo cinzas.
Era o fim dela. E era o dele também. Mas era o começo do fim para a sua filha, Skylar Luna Levil. Filha de Chandler Levil e Layniet Bolten Levil.
Onde quer que ela esteja.
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