Lost Heart
2 Dois lados da mesma espada
Notas iniciais
A primavera permanecia generosa com o Seireitei.
As cerejeiras continuavam floridas, espalhando pétalas pelas ruas largas que separavam os distritos das famílias nobres. Os dias tornavam-se mais longos e o vento, antes frio, agora carregava um calor suave que convidava até os mais disciplinados a permanecerem alguns minutos a mais do lado de fora.
Os treinamentos continuavam. As responsabilidades também. Mas, sem que ninguém percebesse, algo havia mudado. Não era uma grande mudança. Não acontecera de um dia para o outro. Apenas... Aos poucos.
Primeiro, Ginrei começou a levar Byakuya ao dojô Genryusai duas vezes por semana. Depois três. Pouco tempo mais tarde, já não era necessário combinar. Quando um chegava o outro já estava esperando. E, curiosamente, nenhum dos dois jamais admitiria isso.
-Você está atrasado. – Akane disse.
Ela estava sentada sobre o muro de pedra que cercava o jardim, equilibrando uma maçã sobre o joelho enquanto observava o caminho por onde Byakuya se aproximava.
Ele sequer levantou os olhos.
-Cheguei no horário.
-Não. – ela deu uma mordida na maçã. – Eu cheguei antes.
-Isso significa apenas que você chegou cedo.
-Então você admite que fui mais dedicada.
-Não foi isso que eu disse.
-Mas foi o que quis dizer.
-Não.
Ela sorriu.
-Tá bom.
Ela nunca perdia uma oportunidade. Nem precisava vencer, bastava fazê-lo responder. Byakuya percebeu isso depois de algumas semanas. No início tentava rebater todas as provocações, hoje... Simplesmente aprendia a escolher quais responder. Era uma pequena vitória. Embora jamais confessasse que havia aprendido isso justamente com ela.
Yamamoto observava tudo da varanda do dojô. Ao seu lado, Ginrei mantinha as mãos escondidas nas mangas de seu quimono.
-Eles discutem desde que chegam. – constatou com um sorriso.
-Sim. – Yamamoto concordou.
-E discutem durante todo o treino.
-Sim.
-Depois vão embora juntos.
Yamamoto permaneceu alguns segundos em silêncio e depois disse:
-Sim.
Ginrei sorriu discretamente.
-Curioso.
-Nem tanto. – Yamamoto fechou os olhos. – Crianças encontram formas simples de dizer “gosto da sua companhia”.
Ginrei arqueou uma sobrancelha.
-Acha que eles já percebem isso?
-Não. – a resposta de Yamamoto veio imediata. – Ainda são orgulhosos demais.
-Hoje eu ganho. – Akane desembainhou a bokken.
Byakuya fez o mesmo.
-Você disse isso ontem. – ele retrucou.
-E quase ganhei.
-Empatamos.
-Empate não vale. – ela fez uma careta.
-Continua sendo empate.
-Então luta de nova. – ela apontou a espada para ele.
Byakuya suspirou.
-Você sempre diz isso.
-Porque você nunca aceita perder.
-Eu nunca perdi.
Ela abriu um sorriso e disse:
-Nem eu.
O primeiro choque das espadas ecoou pelo jardim.
Tac!
Os dois já conheciam o estilo um do outro.
Akane movia-se como água. Leve. Imprevisível. Jamais atacava duas vezes da mesma forma. Se um golpe era bloqueado, ela já transformava o movimento em outro completamente diferente. Era impossível prever.
Byakuya, por outro lado... Era precisão. Cada golpe parecia calculado muito antes de acontecer. Economia absoluta de movimentos. Nenhum passo era desperdiçado. Nenhum ataque existia apenas pela beleza.
Eles eram opostos e, exatamente por isso, evoluíam juntos.
-Muito alto. – Akane desviou de um golpe. – Você levantou demais o ombro.
-Você apoiou o peso no calcanhar. – Byakuya rebateu imediatamente.
-Boa. – ela sorriu. No instante seguinte, girou sobre o próprio eixo e tentou acertar sua lateral.
Byakuya bloqueou. Ela já esperava. Empurrou a espada dele e mudou completamente o ângulo. Ele recuou.
-Melhor. – o jovem disse.
-Você também.
Por um breve instante... Os dois sorriram. Quase ao mesmo tempo. Yamamoto percebeu. Ginrei também. Nenhum comentou.
As semanas transformaram-se em meses e o jardim Genryusai passou a testemunhar a mesma cena incontáveis vezes: espadas, risos, discussões, empates.
-Outra vez!
-Já lutamos sete vezes.
-Oito.
-Você está contando aquela em que tropeçou? – Byakuya pergunta.
-Aquilo não conta. – ela rebateu prontamente.
-Conta.
-Não conta.
-Conta.
Akane cruzou os braços.
-Você é irritante.
-Você disse isso ontem.
-Porque continua sendo.
Num outro dia...
Foi Akane quem atravessou os portões da mansão Kuchiki. Os empregados imediatamente interromperam o trabalho. Uma das criadas arregalou os olhos.
-Senhorita Akane...
-Oi! – a garota acenou alegremente.
-O jovem mestre está treinando.
-Ótimo.
Era exatamente o que ela queria. A criada tentou impedir.
-Espere eu posso anuncia-la – tarde demais. Akane já estava atravessando o jardim.
Byakuya executava sozinho uma sequencia de cortes diante do lago artificial da propriedade. Cada movimento era perfeito. Ritmo constante. Respiração controlada. Silêncio. E então...
-ENGOMADINHO! – a voz ecoou pela mansão inteira.
Os jardineiros congelaram. Os criados trocaram olhares desesperados. Um dos guardas levou a mão ao rosto.
Byakuya fechou lentamente os olhos e respirou fundo. Sem sequer olhar para trás, murmurou:
-Você não sabe falar baixo?
-Sei. – ela apareceu caminhando tranquilamente até ele. – Mas perde a graça. – Jogou uma bokken em sua direção.
Ele a segurou no ar.
-Vamos. – ela sorriu.
-Estou treinando.
-Eu também.
-Sozinho.
-Agora não mais.
Byakuya olhou para a espada e depois para ela. Suspirou.
-Você é insistente.
Akane sorriu como quem acabara de receber um elogio.
-Obrigada.
-Não foi um elogio.
-Eu sei. – disse prontamente. – Mesmo assim eu gostei. – ela assumiu a postura. – Preparado?
Byakuya levantou levemente a espada.
-Sempre.
As duas bokkens voltaram a se encontrar. E, do alto da varanda principal, Ginrei observava a cena escondendo um discreto sorriso. Pela primeira vez em muitos anos... A mansão Kuchiki parecia menos silenciosa.
Os meses sucederam-se em silêncio.
Na Soul Society o tempo parecia caminhar de maneira diferente. As estações mudavam. As cerejeiras floresciam e perdiam suas pétalas. As folhas voltavam a crescer. E, junto delas... Duas crianças cresciam quase sem perceber.
Já não era estranho encontrar Akane caminhando pelos corredores da Mansão Kuchiki. Nem ver Byakuya atravessar os jardins do dojô Genryusai logo ao amanhecer.
Os criados já haviam desistido de perguntar. Os dois simplesmente apareciam como se sempre tivessem feito parte daqueles lugares.
-Vocês dois. – a voz grave de Yamamoto ecoou pelo jardim.
Akane imediatamente guardou a espada. Byakuya fez o mesmo. Os dois caminharam até onde os velhos capitães aguardavam.
Ginrei mantinha a postura serena de sempre. Yamamoto permanecia com os braços cruzados.
Os quatro permaneceram em silêncio por alguns segundos. Até que Yamamoto falou:
-A partir de hoje... Vocês deixarão de treinar apenas entre si.
-Como assim? – Akane inclinou levemente a cabeça.
-Um espadachim não aprende apenas enfrentando um adversário. – Ginrei respondeu. – Ele aprende... Lutando ao lado dele.
Byakuya compreendeu imediatamente. Akane ainda parecia intrigada.
-Vocês passarão a cumprir pequenas tarefas juntos. – Yamamoto diz.
-Patrulhas, reconhecimento, observação. – Ginrei complementou. – Nada que envolva combate real.
-Então vamos sair do dojô? – Akane abriu um sorriso.
Yamamoto lançou-lhe um olhar severo.
-Não interprete isso como um passeio.
Ela tossiu discretamente.
-Claro que não. -disse rapidamente.
Ginrei escondeu um sorriso. Era impressionante. Akane provavelmente era a única criança capaz de responder naturalmente ao Capitão-Comandante.
A primeira tarefa parecia simples. Percorrer parte dos jardins externos do Seireitei. Observar o fluxo de patrulhas, memorizar os caminhos, identificar possíveis falhas de segurança. Nada além disso. Ou pelo menos... Era o que Byakuya acreditava. Porque, cinco minutos depois... Akane havia desaparecido.
-Akane.
Silêncio.
Byakuya suspirou. Olhou ao redor. Nada. Continuou andando. Cinco passos. Dez. Então...
-Ei!
Ele levantou os olhos.
Akane estava sentada em um dos galhos de uma enorme cerejeira, balançando as pernas.
-O que está fazendo aí?
-Observando. – respondeu sorridente.
-Nossa rota é pelo chão.
-Daqui enxergo melhor. – retrucou.
Byakuya levou uma das mãos à testa.
-Você ignorou completamente as intruções.
-Não. – ela deu de ombros. – Só encontrei um jeito melhor.
-Desça.
-Vem subir.
-Não.
-Medo de altura?
-Não.
-Então sobe.
-Não.
-Medo confirmado. – ela sorriu.
Byakuya respirou fundo.
“Controle. Sempre controle” , pensou em Yoruichi. Pensou em Ginrei. Pensou em tudo o que aprendera. Depois... Subiu na árvore.
Akane abriu um sorriso vitorioso.
-Eu sabia.
-Você é insuportável.
-Você já disse isso.
-Porque continua sendo verdade.
Ela deu uma risadinha.
Os dois sentaram-se sobre um galho firme. Dali, o Seireitei parecia completamente diferente. Os telhados tradicionais espalhavam-se até onde a vista alcançava. As muralhas pareciam menores. As pessoas, minúsculas.
Uma leve brisa atravessou as folhas. Akane fechou os olhos.
-É bonito daqui.
Byakuya observou a paisagem. Demorou alguns segundos para responder.
-É.
-Viu? – ela sorriu discretamente.
Ele permaneceu olhando o horizonte.
-O quê?
-Você nunca teria vindo aqui sozinho.
Ele não respondeu, porque ela tinha razão.
A patrulha continuou. Pela primeira vez, sem discussões.
Os dois passaram a observar cuidadosamente os capitães que cruzavam os corredores do Seireitei. Ukitake caminhava sorrindo para todos. Shunsui parecia conversar com absolutamente qualquer pessoa que encontrasse. Unohana cumprimentava até os soldados mais jovens.
Akane observava tudo fascinada.
-Eles são completamente diferentes.
Byakuya assentiu.
-Achei que todos fossem iguais ao meu pai.
-Felizmente... – Byakuya começou a falar.
Akane virou o rosto em sua direção, curiosa com suas palavras.
-O quê? – perguntou.
Byakuya permaneceu sério.
-Não são. – disse por fim.
Ela começou a rir.
-Se ele ouvisse isso... – ela começou.
-Ele ouviu. – a voz surgiu atrás deles.
Os dois congelaram.
Yamamoto permanecia parado alguns metros atrás. Os braços cruzados. A expressão inalterada.
Akane lentamente virou para Byakuya e sussurrou:
-Corre.
-Concordo.
Os dois desapareceram usando shunpo exatamente no mesmo instante.
Yamamoto permaneceu parado. Observando.
Ginrei surgiu ao seu lado poucos segundos depois.
-Fugiram.
-Sim.
-Vai atrás?
Yamamoto fechou os olhos e depois um discreto sorriso surgiu sob a longa barba.
-Não. – disse. – Que aproveitem enquanto ainda podem.
-Está ficando mole. – Ginrei sorriu.
-Não espalhe isso.
Alguns minutos depois...
Os dois diminuíram o ritmo. Akane apoiou as mãos sobre os joelhos, respirando entre uma risada e outra.
-Você... – ela respirava com dificuldade. – Você corre rápido.
Byakuya mantinha a compostura, mas respirava um pouco mais forte do que gostaria de admitir.
-Você mandou correr.
-E você foi.
-Pareceu sensato.
Ela voltou a rir.
-Achei que você fosse dizer alguma coisa educada.
-Eu ia.
-O quê?
Ele olhou para ela. Muito sério.
-Mas correr parecia uma ideia melhor.
Por um segundo Akane ficou completamente imóvel. Então levou as duas mãos à boca. Os olhos arregalaram-se.
-Você... – ela começou a rir outra vez. – Você fez uma piada.
-Não fiz.
-Fez sim.
-Apenas constatei um fato.
-Não. – ela apontou para ele. – Isso foi humor.
Byakuya desviou o olhar. Um pequeno sorriso escapou antes que pudesse impedir. Muito pequeno, mas suficiente. Akane viu e sorriu de volta. Não havia vitória naquela expressão. Apenas satisfação. Como se estivesse feliz por vê-lo, pouco a pouco, se permitindo ser criança.
A tarde começava a cair e, sem que nenhum dos dois percebesse, estavam na beira de um lago onde sempre refletiam muito durante as pequenas pausas que faziam entre as patrulhas.
O vento voltou a espalhar pétalas sobre a água. Akane caminhou até a margem. Agachou-se. Pegou uma pequena pedra, girou-a entre os dedos e depois a lançou.
A pedra quicou uma vez. Duas. Três. Até desaparecer no centro do lago. Ela permaneceu olhando as ondas se espalharem, sem dizer nada.
Byakuya aproximou-se lentamente e parou ao seu lado. Também permaneceu em silêncio.
Ficaram assim por longos minutos. Não parecia haver necessidade de preencher aquele silêncio com provocações porque alguns silêncios... Eram confortáveis.
O lago permanecia imóvel. O ceú refletia-se na água como um enorme espelho azul alaranjado, interrompido apenas pelas pequenas ondas provocadas pela pedra lançada por Akane.
Ela observou as ondulações desaparecerem lentamente. Depois pegou outra pedra. Não a lançou. Apenas ficou girando-a entre os dedos.
Byakuya permaneceu ao seu lado. Em pé. As mãos escondidas nas mangas do haori. Esperando. Não porque acreditasse que ela diria alguma coisa, mas porque já aprendera que quando Akane ficava em silêncio, normalmente é porque estava pensando. E quando pensava, sempre surgia alguma pergunta difícil de responder.
O vento passou entre as cerejeiras. Algumas pétalas pousaram sobre a superfície do lago.
Akane sorriu de canto.
-Engraçado...
Byakuya voltou a olhar para ela.
-Quando a gente era pequeno... – ela continuou olhando para a água. – Eu achava que adulto tinha resposta para tudo.
-Eu também. – ele respondeu naturalmente.
-Hoje eu acho que eles só fingem muito bem. – ela riu baixinho.
Byakuya quase sorriu. Quase.
Os dois voltaram ao silêncio. Akane inclinou o corpo para frente e apoiou os cotovelos sobre os joelhos. Continuava girando a pequena pedra. Então perguntou, quase num sussurro:
-É pesado... Não é?
Byakuya demorou alguns segundos para responder.
-O quê?
Ela ergueu os olhos. Não havia brincadeira. Não havia provocação. Apenas serenidade.
-Carregar esse fardo.
O vento pareceu cessar por um instante. Byakuya permaneceu completamente imóvel. Ela continuou:
-O sobrenome. As expectativas. Todo mundo olhando pra você... Esperando que nunca erre. Esperando que seja perfeito. Esperando que você já saiba exatamente quem precisa ser. – ela baixou novamente o olhar. – É pesado.
Não era uma pergunta, era uma constatação.
Byakuya sentiu algo apertar dentro do peito, porque... Ela havia descrito exatamente o que ele sentia. Com poucas palavras e melhor do que ele próprio conseguiria.
Ele permaneceu olhando para a água. Por muito tempo. Até que perguntou:
-Como sabe disso?
Akane sorriu. Sem alegria.
-Porque também sinto. – ela olhou para as próprias mãos. Pequenas. Ainda marcadas pelos treinos da manhã. – Todo mundo olha pra mim, mas nunca enxergam a Akane. – suspira. – Só enxergam a “filha do Capitão-Comandante” a “próxima na linha de sucessão do clã e do comando do Gotei 13.” Às vezes eu queria fazer alguma besteira só pra ver a cara deles.
Byakuya virou lentamente o rosto para ela.
-Você faz.
Ela olhou para ele, surpresa.
-Faço?
-Sim. – ele respondeu com absoluta seriedade. – Quase todos os dias.
Ela ficou alguns segundos em silêncio e depois começou a rir.
-É verdade.
Os dois riram. Baixinho. Sem exagero. A risada terminou tão naturalmente quanto começou.
-Sabe... – Akane voltou a olhar para o lago. – Meu pai nunca me obrigou a ser forte.
Byakuya arqueou discretamente a sobrancelha.
-Nunca. – ela continuou. – Quem faz isso sou eu. – ela apertou a pedra com um pouco mais de força. – Porque quero que, um dia... Ninguém precise se preocupar comigo. Quero que um dias as pessoas com problemas corram até mim, com segurança, sabendo que posso ajuda-las. – sorriu. – Quero ser alguém que proteja as pessoas.
Byakuya ouviu cada palavra em silêncio.
-Parece bobo quando falo em voz alta. – ela sorri um pouco sem jeito.
-Não.
Foi a primeira vez que ele respondeu sem pensar.
Ela voltou sua atenção para ele, que permaneceu olhando para o horizonte.
-Não acho bobo. – ele continuou. – Eu também treino por isso.
Agora foi a vez de Akane permanecer em silêncio. Byakuya respirou lentamente.
-Um líder... – ele disse. – Não pode depender dos outros. Não pode hesitar. Não pode demonstrar medo. Se um dia eu falhar... Todo o meu clã falha comigo.
Akane observava seu perfil. Era a primeira vez que ele falava tanto sobre si. E ela percebeu algo, ele não dizia aquilo porque queria desabafar. Dizia porque finalmente encontrara alguém que entenderia.
Ela levantou devagar. Caminhou até a margem. Ficou olhando o próprio reflexo na água.
-Então somos parecidos.
-Somos?
Ela assentiu.
-A diferença... – ela virou o rosto para ele. Um sorriso brincalhão voltou a surgir. – É que eu admito quando estou cansada.
-Você também esconde muita coisa. – ele respondeu imediatamente.
Akane congelou. Apenas por um segundo. Depois sorriu.
-Nossa. Você tá ficando bom nisso.
-Em quê?
-Em me ler.
Silêncio.
Ela caminhou até ele. Parou bem a sua frente. Estendeu o dedo mínimo.
Byakuya olhou confuso.
-O que é isso?
Ela fez cara de espanto.
-Você nunca fez uma promessa?
-Claro que já.
-Então. – ela balançou o dedo mínimo. – Promessa.
-Assim?
-Assim.
Ele hesitou.
-Isso é infantil.
-Nós somos crianças.
Ele não encontrou argumento. Depois de alguns segundos ergueu discretamente a mão e entrelaçou o dedo mínimo ao dela.
Akane sorriu. Um sorriso tranquilo, daqueles que apareciam apenas quando ela esquecia completamente quem era.
-Promete uma coisa?
-Qual?
-Quando tudo isso ficar pesado demais... – ela olhou diretamente nos olhos dele. – Você me conta.
Byakuya permaneceu em silêncio.
-Não precisa carregar tudo sozinho. – ela continuou.
Ele olhou para os dedos entrelaçados e depois voltou a encará-la.
-E você?
-Também prometo. – ela sorriu.

Os dois permaneceram alguns segundos daquele jeito até que soltaram as mãos. Sem perceber... Haviam feito a primeira promessa de suas vidas. Uma promessa que nenhum dos dois imaginava que um dia seria impossível cumprir.
Byakuya olhou para o céu escurecendo.
-Acho que estamos atrasados. -ela disse.
-Bastante. – Byakuya concordou, começando a fazer o caminho de volta, mas antes esperou que ela pegasse o rumo para o clã Genryusai.
Ela começou a correr e depois parou, virando-se completamente para ele. Ele a observava sem entender. Ela ergueu o indicador, apontando para o peito dele.
-Só para deixar registrado.
-O quê?
-Hoje eu ganhei.
-Nós nem lutamos. – ele suspirou.
-Exatamente. – e saiu correndo.
Byakuya ficou parado, observando-a desaparecer entre as cerejeiras. Um vento suave balançou seus cabelos. Ele olhou para o lago, para as pedras, para as marcas dos passos dos dois na margem e, pela primeira vez, sentiu que aquele lugar havia deixado de ser apenas um jardim. Sem saber explicar o motivo, parecia que tinha acabado de encontrar um lugar para onde sempre desejaria voltar.
Naquela noite, enquanto organizava alguns pergaminhos na biblioteca da mansão Kuchiki, Ginrei percebeu o neto parado diante da janela. Não estava lendo. Não treinava. Apenas observava as cerejeiras balançando ao vento.
-Byakuya.
-Sim, senhor.
-Em que está pensando?
O garoto demorou alguns segundos para responder. Por fim, disse apenas:
-Hoje... Eu fiz uma promessa.
Ginrei sorriu. Não perguntou qual. Algumas promessas não pertenciam aos adultos.
Enquanto isso, do outro lado do Seireitei, Akane terminava mais um treino noturno sob a supervisão silenciosa de Yamamoto. Ao guardar a espada, abriu a mão direita.
-Engomadinho... – murmurou para si. – Você fala pouco, mas quando fala... Vale a pena ouvir.
O vento levou suas palavras embora. Nenhum dos dois sabia, mas aquela promessa simples, feitas às margens de um lago durante uma primavera qualquer, atravessaria séculos, sobreviveria a perdas, guerras e ao próprio tempo. Mesmo quando um deles deixasse de acreditar que o outro ainda existia.
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