Lost Blue

33 Capítulo 33 - Ponto morto


Notas iniciais
Olá meus amores! Aqui está o capítulo da semana, tomara que gostem ♥ Boa leitura!

Desde que Jack comprou a Imperatriz, ela sempre foi uma nave que servia como residência de seus tripulantes. Tinha quartos, banheiros em conjunção, vários comandos altamente tecnológicos que facilitavam as viagens pelo espaço, sala de jogos, cozinha, sala de estar, entre outros. Ela era muito maior do que naves-cápsula ou naves de fuga, mas muito pequena comparada com naves-mãe, como um dia a Margosha foi, ou a nave principal da Federação dos Planetas que ficava em Vettore.

Jack ficou muito surpreso quando soube das alterações que Gavrel fez na nave. Nunca imaginou que a Imperatriz pudesse entrar em uma dobra tão longa, mas ainda não esperava que isso fosse deslocá-los no tempo, quatro meses a frente.

Não queria culpar os antigos trabalhadores da Margosha, mas fazia pelo que houve com Kayllon.

Logo que voltaram, seu companheiro começou a passar mal, ficar sem fôlego e sentir um desconforto tão grande que o fez desmaiar mais de uma vez. Jack se sentiu tão preocupado e com medo de que fosse perder as duas novas pessoas de sua vida.

Tinham sorte de que Zack era tão inteligente e possuía mais de uma especialização em seu currículo. Vê-lo atendendo Kayllon e o ajudando deu a Jack mais esperança de que fossem passar por aquela fase, ilesos.

Por outro lado, fez Jack refletir sobre seus sentimentos.

Quando Kayllon e ele começaram a se envolver, tinha certeza de que tudo o que possuíam era a atração um pelo outro. Ficou muito intrigado quando o uraniano confessou seus sentimentos por ele.

O bebê foi uma adição muito bem-vinda, mesmo com sua relutância inicial. Seus sentimentos começaram a mudar logo na primeira noite em que se encontraram. Kayllon já não era mais apenas o pai de Austin, a quem respeitava muito e achava atraente. Ele era mais do que isso… bem mais.

Descrever o que sentia conforme passavam os dias não era fácil. Quando se deu conta, já tinha caído de amores por ele e estava muito ansioso para a chegada do bebê.

Foi muito bom que Trey aceitou seu relacionamento. Seu filho era bem ciumento, mas ele acabou adotando Kayllon como alguém da família. O mesmo servia para Austin, que tinha ficado extremamente chateado quando descobriu de seu envolvimento com seu pai progenitor. Mas logo, Austin também aceitou e a situação entre eles melhorou.

No entanto, depois da última fuga da Federação dos Planetas, já não tinha certeza se realmente estava tudo bem.

Kayllon estava desacordado na cama da enfermaria. Seu rosto estava rubro e sua pele úmida com o suor causado pela febre. Zack estava ao longe em sua estação de trabalho, pesquisando nos monitores sobre casos semelhantes, buscando encontrar alguma solução menos dolorosa para o uraniano.

Jack, por sua vez, só podia sentar ao lado de seu amado e segurar sua mão, tão preocupado que lhe dava dores nas têmporas e embrulhava o estômago.

A respiração de seu companheiro estava afoita, com uma bolsa de gel eletrônica na testa que esfriava a pele e massageava ao mesmo tempo. Ele tinha um tubo que conectava ao braço, sem agulhas, pois o líquido penetrava os poros com certa rapidez. E mesmo assim, ele não estava melhorando.

— Vamos, meu amor… você tem que ficar bem. — Esfregou o braço dele para cima e para baixo, então olhou para o ventre dele, duas vezes mais inchado do que antes. O bebê teve um surto de crescimento grave, mas não demonstrou qualquer anomalia nos exames que Zachary fez.

— Encontrei! — Zack exclamou do outro lado da sala. Ele se aproximou com o tablet na mão.

— O que encontrou?

— Um caso similar de uma raça cleptoriana, que é parecida com a de Kayllon, já que os homens também podem ter bebês. Uma viagem de dobra deu errado e a nave em que estavam avançou dois meses no tempo em questão de segundos… — Zack procurava as partes importantes do que lia no tablet. — É… parece que a vítima faleceu horas depois junto com o bebê.

Jack empalideceu, engolindo um nó do tamanho de um limão. Seus olhos arderam e começou a implorar mentalmente para Kayllon ser forte. Zachary se afastou, sabendo que não estava ajudando… não ainda.

—*-*-

Dominic observou, em sua forma miniatura, Zachary desfalecer na cadeira, suspirando alto.

Estava sentado na mesinha onde continha várias telas e hologramas que permitia ao hacker monitorar a situação de Kayllon.

Uma espiada para onde o uraniano estava, não tinha mudado seu caso preocupante, exceto que Jack estava ajoelhado ao lado na cama e sussurrando coisas que não podia ouvir.

Todos naquela nave temiam que Kayllon e o bebê não sobrevivessem. E Zachary estava lutando contra o tempo, usando suas noções de medicina e tecnologia para encontrar uma possível solução.

— Escute, Zack… — Disse baixinho e o outro lhe deu atenção. — Já pensou em pesquisar algum caso com saturnianos?

— O quê…? — Zack balançou a cabeça, como se espantando alguns pensamentos. — Aconteceu com alguém da sua raça?

— Hum, não exatamente da mesma forma. — Dominic sentou com as pernas cruzadas. — Mas um dos meus muitos irmãos, Petronic, foi raptado pela Federação uma vez. Eu era bem pequeno na época, não entendia muita coisa. Ele estava com uma barriga bem pequena quando saiu…

— Quantos meses?

— Acho que uns três. — Respondeu. — Depois ele foi devolvido, porque disseram que sua colaboração foi promissora e até deram uma quantia como pagamento. Mas sua barriga estava enorme, e não demorou nem uma semana para o bebê nascer.

— Espere… — Zack cruzou os braços, pensando. — Quando tempo ele ficou fora?

— Dois dias.

— O quê?

— Isso, dois dias. Mais tarde eu descobri que a gravidez dos saturnianos dura em torno de nove meses, assim como a dos uranianos. Afinal, muitos dos meus irmãos e primos tiveram muitos bebês conforme eu crescia. Mas... enfim, esse foi o caso mais estranho. Não sei que tipo de experimento fizeram com Petronic, mas seu bebê cresceu e nasceu em menos de quatro meses.

Os olhos de Zack estava arregalados e Dominic se sentiu satisfeito por tê-lo surpreendido.

— Isso quer dizer… — Zack começou a pensar em voz alta, seu olhar começou a vagar pelo nada e fazer gestos para si mesmo. Era uma coisa de gênios que Dominic não entendia, mas não criticava, só assistia com curiosidade. — Então isso… hum… aquilo… oh

A porta da enfermaria se abriu e mesmo isso não interrompeu Zack de seus devaneios. Dominic assistiu Austin entrar e ajudar Jack a se sentar, falando com ele baixinho. Sully ficou na porta, observando com um semblante realmente triste e depois saiu.

Com um suspiro, Dominic decidiu que já tinha feito sua parte na enfermaria, era hora de fazer mais coisas úteis. Ele deslizou da mesa para o chão e se transformou em sua forma normal, saindo da enfermaria e seguindo atrás de Sully.

Era momento de começar a se enturmar melhor. Tinha notado como boas eram essas pessoas, que gostavam dele e cuidavam uns dos outros, então tinha que começar a ter coragem de enfrentá-las em sua forma humana. Fez isso tão bem em Plenitum Estelar — porque estava disfarçado -, por isso precisava aprender a fazer isso sem disfarces.

No entanto, logo quando ouviu vozes em um corredor, automaticamente se transformou em pequenino outra vez e se escondeu atrás de um painel contra incêndio.

— Eles vão chegar logo, não se preocupe. — A voz melodiosa e baixa pertencia a um dos gêmeos que eram pets de Askell.

— Bel, eu não acho que isso seja uma boa ideia. — A voz do punk surgiu e preocupou Dominic. — Vai matar pessoas inocentes…

— Escute aqui… — Houve um barulho alto como se alguém tivesse batido as costas contra a parede de metal. Dominic olhou em uma brechinha e viu Askell contra a parede com Syn pressionando seu pescoço com apenas um braço. Não tinha noção que o pet fosse tão forte. — Você não tem escolha, ou colabora conosco, ou seu querido chefe e o pet privilegiado dele morrem, entendeu? E claro… você não sairá ileso.

Askell deu o polegar para cima.

— Ótimo. — Bel falou, seu semblante era frio e calculista, completamente diferente do que tinha visto antes. Se lembrava dos gêmeos serem tão melosos e amorosos com Askell. Aquilo estava muito estranho.

— Alguém pode escutar vocês… — Askell murmurou, massageando a garganta.

— Isso não é um problema. — Bel respondeu. — Syn já hackeou todo o sistema da nave. O probleminha que tiveram com o tempo? Todos acham que foi uma falha dos engenheiros da Margosha. — Ele soltou uma risadinha para o seu irmão. — Mas é exatamente isso que queremos que eles pensem. A nave não pode ir muito longe sem a dobra… e com os rastreadores, será questão de dias até sermos encontrados.

Dominic congelou e empalideceu.

Merda.

Eram traidores! Para quem esses caras trabalhavam? Para a Federação?

Não entendeu é nada, mas de uma coisa tinha certeza, um ataque iminente estava chegando e tinha que alertar os outros o quanto antes!

—*-*-

— Nós temos mais familiares? — Perguntou Aquantis a Sully enquanto organizava o quarto que dividia com Trey.

Sully estava sentado sobre a cama, apenas observando seu irmão. Ainda lhe custava acreditar que realmente estavam ficando próximos. Se soubesse que Aquantis reagiria tão bem a notícia, teria lhe contado antes. É claro, não podia ficar se arrependendo ou pensando no passado, pois isso não valia a pena, já que nunca mudaria.

— Temos uma porção de tios. Sete no total. E primos também, moram todos espalhados pelo reino, por isso não são todos que tem afinidade com a nossa família.

— E avós, nós temos?

— Estão nas Geleiras Eternas.

— O quê? — Aqua finalmente fechou a porta do closet, tendo terminado sua tarefa, e sentou-se ao lado de Sully, tão perto que suas pernas roçavam. Era bom saber que ele não tinha medo de contato e que era um ser carinhoso, porque Sully sempre foi muito carente.

— Fica na superfície inferior do nosso planeta, já que Lost Blue não gira em torno de si mesmo. Então, é um continente gelado onde as pessoas vão para serem congeladas, pois, na nossa tradição, se um ser morre em terra firme, perto dos vivos, seu espírito desaparece e seu corpo perde a função, sendo obrigado a ser descartado… mas nas Geleiras Eternas, você é congelado quando está próximo da morte, então seu espírito é capaz de se rejuvenescer e viver abaixo da superfície, em um mundo completamente diferente. Ele pode voltar se quiser, mas aí voltaria a ser mortal.

— Uau. — Aqua ergueu uma sobrancelha falhada. — Nosso povo tem uma tradição meio estranha.

— Para quem nunca viu… sim, parece estranho. — Estava segurando um sorriso.

— E nossos avós foram juntos para esse lugar?

— Oh sim. Eles se amavam muito, quiseram ficar juntos por toda a eternidade.

— Quero fazer isso com Trey, quando ficar velho. — Murmurou Aquantis. Ele mal tinha notado o que disse até seu rosto enrubescer de repente fazendo Sully gargalhar. — Eu não deveria ter dito isso!

— Mas foi fofo. Trey deveria saber!

— Cale-se, de jeito nenhum! Não conte a ele, Sully!

Ainda rindo, Aqua o abraçou de lado, colocando a cabeça em seu ombro. A risada de Sully se foi, engolindo em seco e até mesmo sentindo-se um pouco nervoso.

— É bom ficar assim com você. Me faz sentir algo… eu não sei explicar. Seu cheiro é familiar, seu calor… — Murmurou seu irmão.

— Deve ser porque eu abraçava muito você quando criança.

— É?

— Sim. Realmente não se lembra de nada?

— Talvez algumas coisas. — Respondeu Aquantis.

— Que coisas?

— Alguns fragmentos que podem ser lembranças ou simplesmente meros sonhos. Lembro que quando estava sendo vítima de um experimento na Federação, tive uma alucinação estranha. Eu vi… uma grande árvore azul, havia outras também, mas essa parecia mais significativa. Vi algumas ilhas flutuantes, um campo verdejante, mas…

— Mas...?

— Em seguida eu acordei para a realidade.

— Hum. — Sully o abraçava de volta e beijou o topo da cabeça de seu irmão. — Há árvores assim perto de casa. De várias cores… mas é bem comum por todo o reino. As ilhas flutuantes também. Você vai adorar conhecer tudo e todos!

— Você fala de uma maneira que me deixa esperançoso.

A porta do quarto se abriu, revelando um Dominic atordoado em sua forma humana. Ele corou todos os tons de vermelho aos vê-los abraçados.

— A-A-Aqua… me-me desculpe… — Colocou as mãos na frente do rosto dando um passo para trás. — Desculpe atrapalhar, mais tarde eu vo-volto…

Aquantis se desvencilhou do abraço e correu para fora atrás de Dominic. Sully ouviu o burburinho lá fora, até que seu irmão voltou com um saturniano em miniatura nas mãos. Ele ainda estava vermelho, todo tímido e encolhido.

— Está tudo bem? — Perguntou.

— Dominic quer me contar algo, só está com vergonha de você. — Respondeu Aqua.

— Ora, de mim por quê?

— Porque ele te acha bonito. — O sorriso de seu irmão foi fofo, porém o guincho de Dominic foi engraçado.

— Nã-Não é isso! Quer dizer… acho bonito sim… só… ver vocês juntos… ah, você entendeu! — Ele pequeno e encabulado era uma gracinha.

— Eu entendi. — Aqua ainda sorria. — O que queria me contar? — O colocou sobre a cama, e mesmo assim, Dominic não quis voltar a forma humana.

— Eu queria saber se você poderia falar com o comandante Margosha.

— Por quê?

— Há algo que preciso perguntar a ele… meus poderes falharam recentemente, e nós temos uma habilidade em comum.

— Está falando sobre poder ver o coração das pessoas? — Sully indagou.

— Sim. — Dominic limpou a garganta, cruzando as pernas. — Embora eu acho que o poder dele seja mais eficaz.

— Sério? — Perguntou Aqua e o saturniano assentiu.

— Há algo que eu ouvi agora a pouco… não sei se deveria contar a vocês primeiro, mas…

Sully ouviu com atenção o que Dominic contava e como respondia às perguntas de Aquantis. Seu coração acelerou no momento em que pensou em um possível ataque a Imperatriz. Margosha tinha sido destruída tão facilmente pela Federação. E eles estavam simplesmente estacionados no espaço vazio, sem a possibilidade de fazer outra dobra, no Ponto Morto, a divisão entre o universo conhecido e o desconhecido.

Provavelmente ninguém das galáxias que Trey e os outros conheciam já tinham chegado tão longe no espaço. Mas se a Federação tiver a tecnologia de entrar em dobra, poderia chegar aqui com um…

Rastreador.

Ou simplesmente se alguém passasse as informações. Que como Dominic contou, foram os gêmeos.

— O que não faz sentido… — Disse de repente chamando a atenção dos outros. — São os gêmeos nos entregarem para a Federação prometendo que é algo bom a Askell, sendo que a nave deles foi destruída por ela.

— É verdade, Dominic. — Aquantis comentou. — Eles disseram “Federação” quando os ouviu?

O saturniano balançou a cabeça, em seguida ficou pensativo. — Quem será então?

— Eu não faço ideia. — Respondeu Sully. — Mas temos que avisar os outros o quanto antes.

— E se eles colocaram escutas ou câmeras pela nave? — Aquantis indagou.

— Bem pensado.

— Precisamos ser sutis. — Ele olhou para Dominic que tinha os olhos arregalados e novamente se encolheu.

— Eu não.

— Você sim.

— Mas eu tenho…

— Vergonha, eu sei. Mas precisamos de você, Dom, precisa nos ajudar!

O beicinho que o saturniano fez foi muito fofo e Sully precisou desviar o olhar antes que desejasse abraçá-lo. Estava pegando a mania de Austin em querer abraçar e admirar tudo o que era fofo.

— Está bem. Pelo menos posso me esconder.

— Exatamente. — Aquantis sorriu. — Precisa avisar Trey.

— Não pode ser Zack primeiro?

— Não. — Aqua balançou a cabeça. — Zack vai surtar e começar a respirar sua bombinha de ar, o que fariam os outros se perguntarem porque ele está nervoso.

— Pode ser pela situação de Kayllon. — Sully ofereceu.

— Pode, mas ainda não é tão convincente. Trey é o líder e é bom em planejar as coisas. Se ele souber primeiro, poderá informar o resto da nave sem ser descoberto, caso realmente estejamos sendo observados.

— E se estiveram nos observando aqui? — Sully especulou. O trio ficou em silêncio olhando ao redor, procurando quaisquer câmeras ou microfones embutidos em algum lugar. Felizmente não encontraram nada e suspiraram em uníssono. Mas a bagunça estava feita e Aquantis revirou os olhos, porque teria que arrumar tudo de novo.

—*-*-

Trey estava sentado na cadeira principal de comando, observando na tela frontal todas as câmeras exteriores da nave. Zack tinha voltado depois de longas horas na enfermaria e Austin estava comendo um pacote assustadoramente grande de salgadinhos, o que indicava quão nervoso e estressado estava.

Gavrel tinha levado Keesa para um quarto e ficou com ele. Morgana estava se ocupando com a cozinha, já que estava muito frenética e tinha que usar sua energia para algo útil.

Exceto que… não era tão útil assim. Ao menos Kimm tinha concordado em ajudá-la, e embora não conseguia imaginar a general cozinhando, Askell tinha comentado que ela era fantástica.

Askell estava lá com os gêmeos também. E Trey, em algum momento durante seu trabalho, começou a se irritar com gemidos e risadinhas.

Zack digitava atalhos pelos teclados touch a toda velocidade, enquanto Austin só estava inclinado em sua cadeira, comendo e observando o que Trey fazia.

Tudo parecia muito normal.

Mas algo estava errado, sentia isso.

Quando seu amigo Zachary congelou, olhando fixamente para os dados em sua tela holográfica, notou que realmente havia algo errado, no entanto, esperou que ele lhe dissesse primeiro.

— O que foi, Zack? — Indagou Austin mais rápido, com a boca cheia.

— Dá pra engolir antes de falar? — Repreendeu Trey.

— Me deixa. — Austin resmungou, engolindo. — Hein, Zack?

Mas o hacker continuou congelado. Quando Trey ia abrir a boca para chamá-lo, sua mão se ergueu e ele voltou a digitar, porém, mais sério do que o normal.

O clima pesado se dissipou um pouco quando Sully apareceu. Ele atravessou na direção de Austin e foi tão rápido em colocar algo no colo de Trey, que quase não percebeu, até se assustar com Dominic lá, de repente olhando para ele com olhos enormes e muito, muito encabulado.

Olhou na direção do Blue e recebeu um olhar rápido, porém significativo.

Escondeu Dominic dentro da jaqueta antes que qualquer um visse e questionasse. — Eu já volto. — E foi em direção ao banheiro.

Trey não teve tanto contato com Dominic desde que ele entrou na nave. Normalmente o saturniano se dava melhor com Zack, por namorá-lo, e com Austin, por ele ser um bobo. Mas isso não significava que não gostasse do saturniano, tinha respeito por ele, e claro, admirava sua capacidade de se encolher em tamanho miniatura.

Quando entrou no toalete, Dominic se remexeu em sua jaqueta. Pegou-o e o colocou sobre a bancada, recostando na parede e cruzando os braços.

— Fale.

—*-*-

— Assim é melhor? — Perguntou Gavrel ao ajeitar os travesseiros atrás de Keesa. O humano tinha acordado recentemente e estava bebericando um copo grande com suco de criptoranja, uma espécie de laranja evoluída que tinha o tamanho de uma melancia.

— Sim, obrigado.

O olhar do humano não o deixava. Sabia que estava percebendo algo errado nele.

— Agora que está confortável, é melhor eu voltar ao trabalho. Por favor não levante daí, sei que está melhor, mas precisa de mais repouso até recuperar todas as energias. Palavras de Zack. — Ele beijou a testa de Keesa e foi se levantar quando o humano segurou em sua jaqueta.

— Por favor, não. — Ele pediu com olhos enormes e brilhantes, implorando. Era óbvio que seu olhar se tornou uma das fraquezas de Gavrel, porque ele voltou a sentar. — Fique comigo mais um pouco.

— Está bem. — Não sabia se Keesa seria uma boa distração, ou se só estava preocupando-o com seus sentimentos tão bagunçados.

— Você está de luto…

Gavrel não ousou olhar para ele. Tinha se tornado uma tradição própria retirar o tapa-olho quando estavam juntos, porém, naquele momento, gostaria de colocá-lo para mascarar o que sentia em Keesa.

Havia tristeza e compaixão. Um entendimento enorme de como Gavrel se sentia. Havia dor, e o mais importante, amor.

Era como se um simples humano de sangue puro fosse capaz de ver quão destruído estava por dentro.

Uma mão cálida tocou seu rosto e lentamente foi acariciando seus traços.

— Não precisa se esconder de mim, não há mais ninguém aqui.

— Não quero preocupá-lo. Já passou por muito estresse.

— Besteira.

Gavrel olhou espantado. As bochechas de Keesa se avermelharam.

— Desculpe.

— Não precisa se desculpar. Pode falar comigo como quiser, não somos mais dono e pet, somos apenas Gavrel e Keesa.

— Gav. — Ele sorriu ao pronunciar o apelido carinhoso, o que o fez beijá-lo nos lábios.

— Minha tripulação… não sei o que houve com ela. — Respondeu baixinho, com suas testas coladas juntas. — Mas creio que muitos não devem ter se salvado. Minha nave era preciosa para mim, sobreviveu a tantos ataques… era velha, mas muito bem conservada. Eu a obtive quando ainda era um adolescente, seu antigo dono foi quem me acolheu e ensinou tudo sobre o espaço para mim. É uma pena que se foi…

— Sinto muito, Gav. — Keesa segurou seu rosto com ambas as mãos, olhando-o nos olhos. — Deve ser como eu me senti quando perdi minha colônia na via Láctea. Vi muitos serem mortos na minha frente… e outros sendo vendidos a homens cruéis. Acho que Deus ouviu minhas preces ao me enviar a você. — Seus olhos ficaram brilhantes, cheios de lágrimas.

— Você foi a melhor coisa que já me aconteceu, Keesa. Não sei o que seria de mim se te perdesse.

— Não vai me perder. — Keesa beijou suas pálpebras fechadas. Seus lábios eram tão macios e quentinhos. — Porque eu nunca vou te deixar.

Ouvir isso fez burburinhos felizes dentro dele.

— Obrigado.

— Não me agradeça, só me beije.

Era bom esse lado um pouco ousado de seu amante.

E Gavrel o beijou.

Continua...



Notas finais
Obrigada por ler ♥