Lost Blue
3 Capítulo 3 – Uma segunda chance
Notas iniciais
Passou-se cerca de seis dias em que Aquantis estava da mesma forma em que foi encontrado. Os hematomas estavam desaparecendo, as feridas se curando e os antibióticos trabalhando arduamente em seu sistema para expulsar as toxinas de seu sangue e purificá-lo das drogas.
Zack tinha comentado com ele que considerava que o garoto blue estivesse em coma. Muito provável.
Trey se sentia uma enorme trouxa de lixo espacial. Não compreendia quais sentimentos eram esses que o acometiam, como se o viver de Aquantis fosse mais importante do que o fato principal: Se o rapaz morresse, eles seriam fuzilados pela Federação.
A sensação era mais parecida com a amizade que desfrutava de Austin e Zachary. Não podia viver sem os dois homens, dois grandalhões com personalidades completamente distintas das dele e ainda sim, tinham uma importância tão grande quanto uma família.
Ah, eles eram a sua família, contando com seu pai.
E o sentimento que ele tinha por Aquantis beirava a tudo isso. O que era assustador, sendo que ele nem mesmo chegou a ter uma conversa com ele. Não sabia os seus verdadeiros gostos, não conhecia sua personalidade, nunca realmente olhou em seus olhos ou teve um momento de diversão juntos.
No entanto, não resistia a estar muito tempo longe de Aquantis. Seu coração clamava para dar o seu apoio, cuidar dele da forma que podia, conversar com ele mesmo que não pudesse ouvi-lo, ou mesmo ler trechos de seus livros preferidos perto do rapaz.
Trey nunca antes tinha sido tão atencioso... não veja por mal, ele não era um cara ruim, mas não o melhor dos amigos, o mais gentil e amoroso dos caras, admitia ser um pouco grosseiro, insensível e talvez uma dor na bunda.
Mas ele queria ser diferente para Aquantis.
Em sua cama, naquela noite apenas identificada pelas horas no relógio, desde que ainda andavam próximos de alguns sóis, Trey se pegou pensando em como seria conversar com o Blue, ter os olhos verde água brilhando em sua direção. Como seria a aparência dele quando suas condições enfim melhorassem.
— Trey? — Austin bateu à porta. Trey permitiu a entrada e ela deslizou aberta para o seu piloto entrar. Ele tinha um refrigerante, bebendo pelo canudinho. — Trouxe uma bebida. — Entregou um copo de seu chá gelado preferido.
— Obrigado. — Sentou-se na cama e bebericou sua bebida, apreciando o sabor em sua língua.
— Eu estava na enfermaria, você sabe... — Começou Austin. Trey se fez de desinteressado, porém queria saber mais. — Zack estava me contando que você tem se afeiçoado bastante com Aquantis. Por quê?
Simples assim? Como ele responderia o que nem mesmo a si próprio entendia?
— Não estou me “afeiçoando” a ele. Eu não sou esse tipo de cara sentimental. — Mentiu. Ele recentemente descobriu que havia mais do que apenas amor pelo dinheiro em seu catálogo pessoal de interesses.
— Hum. — Austin ergueu uma sobrancelha e olhou-o desconfiado. — Sei.
Trey socou o braço dele.
— Que foi?
— Trey, você está estranho cara. — Austin sugou mais em seu canudinho, olhando perdidamente.
Austin era o oposto de Zack, era calmo e adorava comer, embora seu físico fosse de dar inveja em qualquer homem. As mulheres babavam pela aparência dele. Austin era uma montanha de músculos com um rosto bonito.
— Não há nada de estranho em mim. Veja só, estamos bilionários não é? Por que não fazemos uma festa? — Trey se levantou. — Podemos convidar homens e mulheres bonitas, fazer uma festa mista e ter uma noite inteira de sexo quente e selvagem. Quem sabe algo grupal, você curte, não é?
Austin soltou um suspiro e sugou seu canudinho.
— Ei... — Trey olhou chateado. — Eu estou falando com você.
Seu amigo piloto olhou para ele, abatido.
— Não consigo pensar em nada disso enquanto há alguém muito doente em nossa nave. — Ele terminou com seu refrigerante. — Ele pode morrer quando você menos esperar. Seria a nossa morte também. — Com isso Trey não sabia o que responder, Austin deu-lhe um olhar significativo e deixou o quarto.
O comandante olhou para a janela, sua imagem refletida nela. Seu ego não se manifestou naquela hora, ao contrário, sentiu-se ruim e sujo pelo que tinha oferecido a Austin. Sinceramente, seu amigo estava certo, a cada dia que se passava ele estava se afeiçoando cada vez mais ao garoto Blue, e não tinha como fugir disso.
—*-*-
Trey acordou com Zack chamando o nome dele incontáveis vezes no comunicador. Levantou-se atordoado, respondeu grosseiramente e deixou a cama. Após ter tido um pouco de café para acordar, levou consigo seu tablet e alguns petiscos de chocolate sem açúcar para a enfermaria.
Zack gritou com ele pelos petiscos e tomou dele a bandejinha com eles, dizendo que ali na enfermaria não era lugar para comer um lanche. Não quando o paciente estava se alimentando por sonda.
Trey sentou-se ao lado da cama, seus olhos inchados pelo sono, mas ao averiguar a face imparcial de Aquantis, sorriu.
— Sentiu minha falta? Durante todo o dia foi Zack e Austin aqui, não é? — Colocou seu tablet sobre o criado mudo e se inclinou sobre os joelhos. Suas mãos cuidadosamente pegaram na mão de Aquantis, acariciando a pele gélida contra sua palma quente. — Eles não tentaram falar com você?
Silêncio.
Trey sorriu e seguiu de um suspiro deprimido.
— Quando você vai acordar?
Suas mãos apertaram um pouco mais a mão de Aquantis. Sua única mão sã, a outra estava com dois dedos envolvidos por talas e curativos.
Trey olhou para cima e um par de olhos verde água o fitavam meio abertos.
Seu coração quase parou naquele momento em uma travada brusca, voltando com velocidade total ao se dar conta de que Aquantis estava olhando para ele fixamente.
— Você estava me ouvindo?
O garoto não se moveu, mas lambeu seus lábios ressecados pelo menos.
— Está se sentindo mal?
Aquantis permaneceu em silêncio, seus olhos não deixavam Trey, o que o comandante não sabia se era bom ou ameaçador. Entretanto, Aquantis parecia calmo, não seria necessário aplicar a seringa com o calmante, não é?
— Eu vou chamar Zachary, ele tem cuidado de você. Ele ficará feliz em saber que está acordado.
Trey estava prestes a se levantar, porém a mão de Aquantis ainda em meio às suas próprias se apertou minimamente, como se ele estivesse pedindo para que ficasse. O garoto piscou pesadamente, então Trey notou que ele estava muito fraco e provavelmente precisava descansar um pouco mais.
Então permaneceu sentado em sua poltrona, apenas vigiando o sono do menino Blue.
—*-*-
— Você está brincando?! — A voz de Zachary ecoou por toda a ponte de comando. — Está me dizendo que Aquantis acordou no meio da noite e você nem me avisou? Somente agora? Seis horas depois do ocorrido?
Trey engoliu, detestava levar repreensões, mas ele teve suas razões para não chamar Zack.
— Ele estava muito cansado... — Não queria citar a parte onde estavam de mãos dadas. — Eu não queria atrapalhar o seu sono também. Isso quer dizer que ele está melhorando, não é?
Zack tomou sua bombinha da gaveta e inspirou fortemente, depois expelindo o ar, se acalmando.
— Ele disse qualquer coisa?
Trey balançou a cabeça negativamente.
— Hum. Austin está com ele?
— Sim.
— Você não aplicou a seringa, não é? Ela estava cheia esta manhã.
Trey se sentiu um tanto nervoso.
— Acho que não devemos aplicar o calmante nele, Zack. — Seu amigo lhe deu um olhar do tipo você está louco. — Ele mal podia se mover, não tinha forças nem mesmo para falar. Acredito que ele fez muito esforço para abrir os olhos.
— Hum. Eu preciso vê-lo acordar outra vez e terei certeza. Vá saber se ele não está planejando nos enganar e explodir essa nave. Ele mostrou muito bem que pode sobreviver sem oxigênio.
Trey assentiu, fugindo de novas discussões. Entendia as preocupações de seus amigos, mas algo dentro dele o incentivava a crer que Aquantis não tentaria nada de mal contra eles.
—*-*-
— Aqui está! — Mesmo dentro da enfermaria, Trey mostrou a seus dois melhores amigos, a planilha com os valores do banco. — O depósito foi feito com sucesso!
Austin estava prestes a gritar quando Zack tapou a boca dele com ambas as mãos.
— Eu mal posso crer nisso! — Zack exclamou, retirando as mãos e as limpando em seu avental de enfermeiro.
Austin tinha um amplo sorriso de todos os dentes. Ele tomou a planilha em mãos.
— Quando formos a Zona Saturniana, eu vou comprar uma centena de presentes e encher a casa do meu pai com eles. Ele vai ser o cara mais feliz do mundo!
Trey teve que rir, assim como Zachary.
O Hacker e também enfermeiro, pegou a planilha em mãos.
— Eu vou começar doando uma quantia para minha mãe reformar a casa dela. Aquele estilo meio duende e meio contemporâneo está horrível, vamos contratar um novo arquiteto.
Trey pegou a planilha novamente. Ele não diria o que pretendia fazer com o dinheiro. Era tanto que ele demoraria meses para poder gastar tudo, se fosse sem pensar.
Mas inicialmente já tinha ideia do que mais precisava.
— Dirija para a Zona Saturniana, nós vamos às compras! — Piscou para Austin.
— É para já, comandante!
—*-*-
Em sua soledade, melancólica e obscura, pouco a pouco sentiu-se emergir para onde se parecia ser uma luz. A consciência, tremendamente embaraçada, revelou-se com fracos pensamentos e um sentir quente em uma determinada parte de seu corpo: Sua mão.
Naquele estado, não sabia quem era, onde estava, e o que ele era, apenas sua vida gritou e ele respirou acordado. No entanto, suas pálpebras não tinham forças para se elevar e revelar a realidade para ele.
Durante uma eternidade naquela consciência sem sentido, o conforto começou a aparecer. Algo se movia sobre sua mão e aos poucos ele sentiu o resto de seu corpo se sentir vivo.
Oh, ele era Aquantis. Finalmente lembrou de sua identidade.
Seus olhos se abriram apenas um pouco, muito curioso para saber quem era o dono daquele toque quente. O único toque que realmente sentiu desde sabe-se lá o que tinha acontecido que ele não se lembrava.
A dor ainda era presente, cada centímetro dele era preenchido por sofrimento, no entanto saber que estava vivo e acordado foi uma pequena alegria.
Seus olhos fitaram, mesmo que entreabertos, o homem cujas mãos quentes tocavam a sua esquerda. Ele tinha uma feição preocupada, mas quando notou que estava acordado, sorriu brilhantemente.
Para Aquantis foi a coisa mais linda que ele já tinha visto, a primeira visão do belo. Então um pequeno reconhecimento se fez em sua mente lentamente, ele já tinha visto esse homem, em algum momento neste mesmo lugar, nesta mesma cama. Estaria cuidando dele? Mesmo que não fosse, ele era muito bonito, sua presença foi suficiente para se sentir um pouco mais seguro.
— ... acordou... Zack... feliz em te ver... — As palavras que ele dizia não chegavam inteiras aos ouvidos de Aquantis, uma falha imensa de comunicação. Forçou sua garganta, mas estava seca e sua voz simplesmente parecia ter deixado de existir. Talvez tudo isso eram os problemas de sua mente tentando acordar completamente.
Seus olhos desviaram sem sua permissão, fora de seu controle. Ele ouviu ao longe chamarem seu nome, mas ele não pode responder, muito menos olhar de volta. Uma mão quente tocou em seu rosto e alguém se aproximou olhando fixamente para seus olhos. Não era o mesmo que tocava sua mão, era outro homem.
— ... drogas... causa... alucinações... — As palavras mais uma vez não se juntavam. Aquantis queria chorar, ele não sabia do que eles estavam falando, mesmo que essa fosse a sua própria língua.
Com uma ínfima força concentrada em sua mão, Aquantis apertou minimamente a mão do homem. De repente todo aquele sofrimento se foi, assim como a sua consciência, mergulhada novamente em escuridão.
—*-*-
Austin estava confortavelmente em sua cadeira de pilotagem enquanto verificava os botões de comando. O apito de transmissão cortou o silêncio da sala e então resolveu atender, já vendo em sua tela que se tratava do pai de Trey, o General Jack Scarlet da Federação dos Planetas.
— General Scarlet. — Sorriu ao cumprimentá-lo. O homem na tela que tomava praticamente todo o espaço frontal da ponte de comando, sorriu em retorno para Austin.
— Austin, como está? Onde estão os outros? — Já que o único presente ali era ele.
— Eles estão com o garoto Blue. — Pescou alguns salgadinhos e mastigou. — Trey tem dado muita atenção para Aquantis, o que é um bocado surpreendente. Ele normalmente não é de se importar... digo isso porque o conheço há muito tempo. Mas, ultimamente ele tem permanecido mais tempo com ele do que com o resto de nós.
Jack ergueu suas sobrancelhas com espanto.
— Você está brincando!
— Que nada, ele mal tem dormido em seu próprio quarto.
O general piscou e então tossiu um pouco, olhando pensativo em seguida.
— Bem, traga-o aqui, eu tenho algumas informações sobre o garoto.
Austin assentiu cantarolando e chamou Trey pelo comunicador da nave. Em alguns minutos o comandante estava lá, Zack também. Austin permaneceu quieto, ele tinha dito demais, embora não se importasse. Algo dentro dele dizia que seu amigo de infância estava descobrindo algo muito importante que era elementar para a vida de um ser humano. Entretanto, para a personalidade de Trey e por tudo o que conheceu do homem até hoje, não se precipitaria em dizer que realmente poderia ser que estivesse amando, talvez ele simplesmente jogasse a toalha para o alto amanhã.
— Trey, eu estive conversando com a rainha e ela me pediu para agendar uma reunião contigo. Isso é, ao término do mês. Ela me garantiu o depósito da segunda parcela em breve, parece que não quer esperar por algum motivo. Bem, eu tentei persuadi-la a me dizer o porquê da reunião, se era somente para verificar como Aquantis se comportou, no entanto, ela apenas deixou claro “ eu tenho planos para o comandante Scarlet “.
Austin notou como a expressão de Trey era suave.
— Talvez ela tenha gostado de mim. — E riu, Zack segurou a risada. O canto do lábio de Austin subiu.
— Não, eu não acho que seja isso, mas também não posso garantir certeza de nada até que faça pesquisas. Trey, como está Aquantis?
O comandante da nave Imperatriz se sentou em sua poltrona e suspirou, inclinando-se para frente, sobre os joelhos.
— Ele está melhorando, pai. Mas creio que até que ele possa se levantar novamente da cama vá demorar em torno de semanas.
Jack tinha um olhar fixo em seu filho.
— Aquantis não é um simples garoto... A espécie dos Blue é muito mais complexa do que nós, variações humanas. Ele pode parecer conosco, mas sua raça é superior, Trey, por isso o desespero da Federação em protegê-lo, e possivelmente utilizá-lo para encontrar Lost Blue.
Austin olhou para o seu extenso teclado, apenas ouvindo, não realmente trabalhando.
— A Federação tem praticamente o controle de Órus e várias galáxias vizinhas, e onde ela não está, mantêm as suas marionetes trabalhando. — Trey estava dizendo. — É óbvio que ela quer chegar primeiro do que as outras Federações em Lost Blue. Eles querem manipular o que há lá, o que não é nenhuma novidade.
Jack apenas assentiu e tomou alguns documentos em mãos.
— Não existe qualquer indício da existência de Aquantis, as poucas informações que vazaram de Exórdio foram completamente apagadas, e o que há sobre esse garoto é mantido sob sigilo absoluto.
Trey assentiu. Austin estava pensando que apenas Zack era capaz de entrar no sistema da Federação e roubar os arquivos relativos a Aquantis. Sorriu com uma gota de orgulho por seu amigo inteligente. Pelo menos ele era um grande piloto, podia não ser tão inteligente, mas compreendia tudo sobre naves e sobre rotas, era a sua maior habilidade.
— General. — Disse Zachary. — Quer um relatório oral das condições de Aquantis, ou prefere que lhe envie por email?
Jack pensou um pouco antes de responder.
— Me envie, é melhor. Eu estarei saindo daqui a pouco para um congresso, retornarei apenas pela madrugada. Meu comunicador estará ativado, portanto, qualquer coisa que precisarem, é só me chamar. — Jack se despediu deles e então desligou a chamada de vídeo.
O silêncio permaneceu durante algum tempo na ponte de comando, até que Austin permitiu comentar algo:
— Seu pai parece um pouco solitário, Trey.
Seu comandante olhou para ele. Austin apenas mastigou mais um pouco de petiscos.
— O que você quer dizer?
— O que eu disse, oras. — Austin torceu as sobrancelhas.
— Você é muito observador, Austin. — Zack sorriu para ele. — Agora que você disse, eu consigo notar.
— Eu não creio que ele esteja sozinho. Meu pai se diverte muito, ele não precisa de ninguém. — Trey bufou com desgosto. — O que vocês acham que ele vai fazer nesses congressos da Federação? Falar de negócios? Política? Vocês sabem como ele é, ele vai estar se divertindo muito com um bando de mulheres mais jovens.
Austin riu, assim como os outros, porém na verdade ele não tinha visto muita graça. Jack Scarlet era um homem super independente. Ele tinha criado Trey da melhor forma possível, e em todo esse tempo ele não teve sequer um caso que durasse mais de um mês. Talvez fosse o seu maior defeito, e Trey tinha herdado muito disso, ele nunca teve realmente um relacionamento.
Isso lhe fez pensar em seu próprio pai, Kayllon, que provavelmente estivesse sentindo muito a sua falta. Austin queria lhe mandar uma mensagem, decidiu que faria naquela noite quando todos fossem dormir. Lhe doía saber que seu pai não concordava com seu trabalho, ele sempre insistia para Austin largar a Imperatriz e voltar para casa, encontrar um trabalho cômodo em uma empresa ou mesmo na Federação, mas não trabalhar como viajante, o que sempre acarretava em discussões que fazia Austin se sentir uma merda como pessoa. Ele amava seu pai acima de tudo e de todos, mas não podia largar todo o trabalho duro que teve para chegar até onde estava, que era algo que fazia parte dele.
—*-*-
Quando todos estavam recolhidos para a noite, Trey entrou na enfermaria. Eles não tinham se preocupado muito em revezar horários desde que foi instalada uma câmera dentro da sala visualizando as condições de Aquantis, no caso de ele acordar e de repente querer explodir tudo.
Trey não acreditava que o garoto faria isso. Quase pulou ao pegar o olhar atento de Aquantis sobre ele quando entrou. Tudo o que ele menos esperava era vê-lo acordado. Seus olhos ainda estavam um pouco baixos, a aparente fraqueza chutava o coração de Trey de uma forma que ele não sabia definir se estava com pena ou o que era.
— Você está acordado... será que faz muito tempo? Eu dormi um pouco antes de vir aqui. Zackary passou bastante tempo verificando sua saúde hoje, ele disse que em breve você estará saindo dessa cama.
Normalmente Trey se sentava na poltrona, mas desta vez sentou-se à beira da cama.
— Não sei se você lembra meu nome. Sou Trey, Trey Scarlet, o comandante desta nave. — Trey tomou delicadamente a mão esquerda do garoto em suas palmas, sentiu um suave apertar. Os olhos verde água brilhantes continuavam a verificá-lo com curiosidade e algo mais naquele brilho. — Será que você ainda não consegue falar?
Aquantis lambeu seus lábios secos.
— ... rey... — Ele sussurrou baixinho.
Trey engoliu duramente. Algo dentro dele gritou.
— Você quer ver como está lá fora? — Ofereceu com um sorriso. Aquantis apenas fez um som que se pareceu com um “hãh?”. Trey se levantou, relutantemente deixando a mão fria do garoto para trás, então abriu as imensas cortinas liberando as janelas que tomavam praticamente toda aquela parede lateral da nave. Lá fora estava bonito, uma imensidão de estrelas de todas as cores e tipos, além de vários planetas em locais diferentes.
Por um momento se permitiu admirar a paisagem, mãos para trás nas costas, então ouviu um longo suspiro.
Quando se virou para ver se Aquantis estava gostando, surpreendeu-se pelos olhos arregalados do garoto, cheios de lágrimas que passaram a escorrer pela face dele. Seu lábio inferior tremeu.
Trey ingeriu dificultosamente o ar, ele nunca tinha visto tamanha emoção em apenas uma expressão. Aquantis ainda estava sem os seus cabelos, seus cílios ou sobrancelhas, e mesmo assim pareceu tão bonito, tão doce.
— Você nunca... tinha visto algo assim? — Trey perguntou.
— Não. — A voz de Aquantis saiu entrecortada e em seguida ele soluçou, afundando sua face no travesseiro e caindo em um choro profundo. Trey não sabia o que fazer, ele mesmo tinha lágrimas em seus olhos que as enxugou rapidamente, assim, sentou-se novamente onde antes estava. Ajeitou Aquantis para que ficasse meio sentado, mas confortavelmente recostado em uma porção de travesseiros. Os braços trêmulos do garoto lhe cobriam a face enquanto ele desabava em um choro sem freio que era um tanto silencioso, exceto pelos soluços e pequenos gemidos.
Trey se sentiu impotente. Não sabia como fazer para que ele parasse com as lágrimas, mas ao invés de simplesmente assisti-lo se dissolver no choro, puxou delicadamente seus braços fracos para baixo, e enxugou as lágrimas com um lenço umedecido. Então fez algo que ele não tinha certeza se estava certo, se deveria realmente ter feito, mas que se sentiu muito bem: Ele o abraçou com todo o seu ser, e beijou ternamente sua face, sem soltá-lo, por um tempo que pareceu uma eternidade maravilhosa, até que o choro se dissipou e Aquantis não se moveu. Trey beijou novamente sua face, então sua testa. Ele não era acostumado com demonstrações de afeto, mas ver como o garoto se acalmou após isso o fez apreciar cada segundo do ato.
Quando se afastou, o Blue olhava para ele, apenas um pouco corado desde que ele ainda estava adoecido, mas o pequeno sorriso sincero que brotou naquela face fez o coração de Trey guinar, alavancar para o alto e ser preenchido com um sentimento furioso de ternura e carinho.
Continua...
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