Lost

14 Capítulo Final


Notas iniciais
E chegamos ao final de mais uma história. Pelo menos, dessa vez, não ficarei no vermelho com todos vocês. Muito obrigada por não desistirem de mim e de Blindspot. É por vocês e só por vocês que essa história chegou até aqui. Boa leitura.

Um ano depois

O saguão do aeroporto Laguardia estava quase vazio às 3 horas da manhã, especialmente no terminal D que recebia voos das companhias menos conhecidas. As seis pessoas ali reunidas estavam estranhamente em silêncio há quase dois minutos, perdidos entre lembranças e reflexões.

— Vocês acham que pode ter acontecido alguma coisa? Já tem bastante tempo que o voo aterrizou – Nicolas Johansen falou aflito, limpando os óculos pela décima vez desde que chegaram.

— Eu não estranharia se algo tiver acontecido. Estamos falando de Kurt e Jane, sempre acontece algo imprevisível com os dois – Tasha brincou.

— Não dessa vez! Tudo deu certo e, em instantes, veremos os dois passarem por aquela porta felizes e saudáveis. Sem surpresas! Os momentos ruins ficaram para trás. Seremos apenas uma família normal a partir de agora – Patterson reafirmou para si mesma e para os outros batendo a mão na barra da catraca.

— Vocês precisam controlar sua ansiedade. O voo acabou de aterrizar. Eles precisam desembarcar e pegar as malas – Lincoln disse se aproximando da loira e a abraçando.

— Jane e Kurt ficarão chocados ao saberem que você preferiu amasiar com esse cara aí — não se ofenda, Lincoln —, do que formar um trisal conosco e sair pelo mundo em busca de aventuras.

— Amasiar? Trisal? Você enlouqueceu ou só está mais chato que de costume, Rich?

— Ele fica insuportável quando está com ciúmes, Patterson. Vivo isso na pele! – Boston revirou os olhos. – A pequena Megan é que será a surpresa dessa noite.

— Ela foi a melhor coisa que nos aconteceu no último ano – a loira confirmou se aconchegando aos braços de Lincoln. — Jane sabia dos meus planos de adoção. Conversamos muito sobre isso antes deles partirem.

— Surpresa mesmo é os dois estarem em Chicago todo esse tempo – Lincoln desabafou.

— Chigaco... Você me faz rir. Claro que os dois não estavam em Chicago! Devem ter cruzado o mundo todo seguindo as diversas rotas de fuga exóticas com garantia de satisfação sexual que EU preparei para os dois.

— Eu acho Chicago uma escolha possível para se esconder porque ninguém jamais pensaria que Jane estava em lá. E, dentro dos EUA, Kurt poderia ver Bethany com mais frequência – Nick concordou com Lincoln.

— Seu gêmeo tigrão falava coisas mais interessantes.

— Cala a boca, Rich! Você já foi inconveniente demais. Eu não sei em qual lugar ficaram, mas com certeza os dois não estavam nem em Chicago nem em Kathmandu – Tasha apostou.

Cerca de um ano atrás

Foram dias de viagens exaustivas. Traçaram rotas aleatórias que pudessem despistar qualquer perseguidor sendo absurdamente cautelosos. Quando finalmente entraram no quartinho apertado, aconchegaram-se um ao outro na cama estreita.

— É preciso sairmos muito cedo amanhã? – Kurt questionou com o olhar de súplica.

Jane estreitou os olhos e esboçou aquele sorriso velado que ele tanto amava, correndo os dedos pelos cabelos dele.

— O frio ao amanhecer é intenso. Acho que podemos ficar um pouco mais na cama.

— Ótimo. Ficar na cama com você é uma das coisas que mais amo. Você começa por cima ou prefere relaxar? Bem, não importa, se temos tempo, podemos alternar diversas posições.

Ela revirou os olhos.

— Você mente muito mal. Sabe que exaustos como estamos tudo o que faremos é dormir. Você vai adormecer muito antes de mim. E acordar depois também.

— Você fala com quem tem muita experiência nesse assunto – Kurt disse em tom de brincadeira.

— Eu tenho sim.

— Hum, terei que verificar isso. Se eu durmo primeiro e acordo depois, o que você fica fazendo?

— Eu fico te olhando. Ou só acompanhando a sua respiração. Você sempre parece tão entregue ao sono... queria ter a mesma facilidade.

Ele estreitou o abraço em torno dela e beijou seus cabelos.

— Depois que esse ano passar, vamos cuidar disso, procurar algum tratamento. Você precisa dormir melhor.

— Essas terapias não dão muito certo comigo.

Kurt segurou a mão dela e colocou em seu peito, cobrindo-a com carinho.

— Eu sei o quanto seu passado te assombra, mas nada do que aconteceu foi capaz de impedir que você se tornasse a melhor pessoa que eu conheço. Aliás, a única pessoa que eu conheço que se trancaria naquela sala com o ZIP, que deixaria de tomar o antídoto pra tentar salvar o mundo... – e riu. – Eu não sou terapeuta, mas estarei aqui pra te ouvir sempre que você precisar lidar com esses fantasmas.

As palavras dele penetravam fundo, derramando um bálsamo sobre antigas feridas. Ele conseguia levá-la para muito, muito perto do limite onde se rasgaria por completo. Mas era tão difícil para Jan deixar que isso acontecesse. Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu vou me esforçar pra conseguir, eu prometo...

E seus lábios pousaram sobre os dele de forma macia, deixando a intensidade do amor que sentiam guiar cada movimento. Essa conexão era tudo que precisavam, sentir que estavam ali um para o outro. O calor daquele momento fez uma nova forma de energia crescer intensamente dentro deles. E, mesmo exaustos, os dois demoraram muito para adormecer naquela noite.

Na manhã seguinte, colocaram-se novamente a caminho. Falaram pouco, trocavam olhares quando necessário, poupando suas forças. Fizeram uma única pausa na metade da jornada. Enquanto descansavam, apreciaram a vista.

— Kathmandu é ainda mais linda quando olhamos aqui de cima, não é mesmo? – Ela comentou num suspiro.

— Realmente é muito bonita. Acho que fizemos uma boa escolha – concluiu passando o braço ao redor dela.

— Com certeza, ninguém procuraria um cadáver aqui.

— O lugar é adequado para meu retiro espiritual, uma última tentativa de me reconectar com a vida após perder você. Afinal, foi aqui que você se escondeu por tanto tempo enquanto tinha um prêmio por sua cabeça. Allie e Sarah pareceram entender minha escolha. Assim como minha decisão de manter isso em família.

Foram mais de três horas até alcançar o mosteiro no alto da montanha. Os monges budistas os receberam com alegria. Após uma excursão inicial, instalaram-se na tenda indicada.

— O que achou do lugar, agora que pode conhecê-lo melhor? Quando você veio me buscar, saímos tão rápido.

— Melhor do que eu me lembrava.

Ela respirou fundo e sorriu tentando transparecer confiança. Segurou as mãos dele com carinho.

— O lugar tem tudo o que é necessário. Fiquei bem aqui há alguns anos. Então, relaxe, se reconecte com vida nos próximos dias ou semanas. Depois, volte pra casa. Eu ficarei bem. Sou adulta e posso lidar com isso. Bethany precisa de você. Sei que deve ser o inferno confiar que dessa vez eu voltarei pra você, mas acredite, Kurt, é a única coisa que eu quero fazer. Assim que esse ano passar, eu vou até você.

Ele sorriu e afastou aquela mecha de cabelo teimosa que cobria parcialmente os olhos dela.

— Tenho certeza que você faria isso. Consigo até te imaginar batendo a minha porta, sorriso tímido, para dizer olhando nos meus olhos “como prometi, estou aqui”. Sei até que você baixaria o olhar em seguida e emendaria uma outra frase qualquer pra me deixar a vontade até mesmo para dizer “olha, Jane, eu cansei disso e não posso mais”. Eu confio em você mais do que em qualquer pessoa, Jane. Não é por isso que escolhi estar aqui. Nós precisamos viver isso juntos. Juntos. Vou visitar Bethany sempre que sentir que devo ir, sem medo de voltar e não te encontrar aqui. Meu lar é onde você está. E eu não vou embora.

Ela apertou os lábios e assentiu com a cabeça antes de se atirar contra ele num abraço desesperado. Ele a recebeu carinhosamente e beijou seus cabelos num suspiro de esperança. Talvez ao final desse ano “sabático” juntos, ela pudesse entender que sua vida não precisava mais ser a cruzada de um cavaleiro solitário.

— Você prestou atenção às regras de veganismo e celibato? – ela indagou querendo se certificar de que ele havia entendido os detalhes.

— Bem, não existirão monges lá embaixo me vigiando quando eu visitar Kathmandu para fazer chamadas de vídeo com Bethany. E lá tem carnes de todos os tipos. Já a regra do celibato, pretendo quebrar aqui em cima mesmo.

— Teremos que usar todas as nossas habilidades para não sermos pegos.

— Tenho a melhor agente do FBI cobrindo minhas costas. Vai dar certo. Sequer temos comunicadores ligados dessa vez. Vamos encarar como uma espécie de treinamento para o que virá depois, quando enchermos a casa trazendo um grupo de irmãos do orfanato.

Ela estreitou seu abraço ao redor do marido, respirando fundo para ter certeza de que tudo aquilo era realidade e não mais um sonho ou alucinação.

De volta aos dias atuais

A porta se abriu e Avery entrou com Bethany empoleirada na sua cintura. Estavam sorridentes e conversando uma com a outra. Os amigos cumprimentaram com sonoros “ois” tentando disfarçar sua surpresa em ver as duas ali. Em seguida, se aproximaram para abraçá-las dando boas-vindas.

— Vocês foram ao encontro dos dois em Chicago? – Tasha questionou.

— Cadê a Elena? – A voz infantil da pequena Bethany exigiu informações da outra criança a Tasha.

— Elena está esperando por nós na casa da tia Patterson. Sam está com ela. Ele é filho do tio Nick aqui – contou beijando a pequena.

— E agora temos uma garotinha da sua idade. O nome dela é Megan. Tenho certeza que vocês vão se divertir muito juntas – Patterson disse puxando Bethany para seus braços.

— Obaaa.

— Bethany estava ansiosa pra deixar o avião. Foi uma longa viagem. Não estávamos em Chicago. Eu fui para o Nepal há pouco mais de 40 dias. Então, Kurt buscou a Bee na Tailândia. Allie e Connor aproveitaram para tirar férias por lá. Jane e Kurt decidiram que precisávamos de algum tempo em família antes de engrenarmos na nova rotina de vida normal. Bee está conosco há quase um mês.

— E nós não somos família também?

— Rich, não seja tão ciumento! – Patterson advertiu enquanto abraçava Bethany. — Nada mais justo que Jane e Kurt quererem um momento só com as filhas. Deve ter sido muito bom pra vocês.

— Foi ótimo. Com certeza nós precisávamos disso. E foi inesquecível também, praticamente um tratamento de choque viver esse teste-drive de família no alto de uma montanha do Nepal.

Os amigos se entreolharam trocando confidenciando veladamente a confirmação sobre o Nepal.

— E onde estão seus pais? – ansioso, Nicolas perguntou sobre o casal.

— Kurt estava pegando as malas. Fizemos muitas comprar em Kathmandu e em Chicago. Os dois não tinham quase nada.

Cerca de oito meses antes

Kurt passou vinte e três dias fora. A saudade o fez voar de volta à América pra visitar Bethany. Enquanto subia a montanha de volta, seu coração pulsava cada vez mais rápido, uma avalanche de pensamentos o cercando quanto ao reencontro com a esposa que aconteceria em breve.

Era próximo do horário do almoço quando entrou na tenda. Foi total surpresa encontrá-la ali. Jane costumava cuidar da horta naquele horário.

Ela estava desenhando e saltou da cama em sua direção assim que o viu. Jogou-se contra ele, se pendurando em seu pescoço com um sorriso amplo no rosto e brilho no olhar. Trocaram um beijo breve.

— Recepção calorosa. Como foram os últimos dias?

— Mais do mesmo: trabalho, meditação, leitura. As novidades virão de você. Conte-me sobre Bethany. Quero saber tudo.

Conversaram demoradamente. Kurt não economizou nos detalhes, relatando tudo que a pequena disse ou fez durante os dias que passaram juntos. Depois mostrou fotos e desenhos feitos pela filha. Jane tocava tudo com muito carinho, demonstrando o quanto sentia falta da enteada.

— Aconteceu alguma coisa para você se afastar da horta hoje? – perguntou a abraçando.

— Nada demais. Só estava um pouco cansada. Devia ser saudade. Fiquei meio apática pra tudo na sua ausência.

— Algo com que eu deva me preocupar?

— Claro que não. Estou bem, eu juro.

Kurt deixou seus lábios cobrirem os dela por um momento. Aquilo foi intencional. Queria preparar o caminho lembrando-a do quanto a amava.

— E quanto a sua menstruação? Aconteceu enquanto estive fora?

Ela respirou fundo e se remexeu desconfortável nos braços dele.

— Não, nada até agora. Acho que sequer virá novamente. Essa fase da minha vida deve ter se fechado.

— Você é um pouco jovem pra isso, não acha?

— Desde o envenenamento por ZIP, meu ciclo ficou muito irregular. Muitas mulheres entram em menopausa precocemente. Diante da montanha russa que meu corpo viveu, não é algo a se estranhar.

Ele afastou uma mecha de cabelo do rosto dela carinhosamente antes de prosseguir.

— Você não considerou nenhuma outra possibilidade?

Ela baixou o olhar, sem coragem de encará-lo.

— Prefiro não criar ilusões, Kurt. Além disso, se acontecesse, como lidaríamos com isso? Estou presa aqui pelos próximos oito meses. Sem pré-natal, sem exames que confirmassem que estava tudo bem... Então, é melhor que não tenha acontecido.

— E se eu quisesse fazer um teste, você concordaria?

— Não é algo que me deixa exatamente confortável – confessou voltando a olhar para ele em súplica.

—Por favor, Janie – insistiu cobrindo a mão dela que estava em seu peito com a sua. – Eu preciso ter certeza. Prometo que será a última vez que te peço isso.

— Fiz isso várias vezes nos últimos anos, Kurt. O vazio do fracasso não é nada que eu queira repetir. E, se já não foi fácil quando a expectativa era só minha, ver você se frustrar porque não engravidei vai ser horrível pra mim.

— Se não aconteceu, foi porque nós não engravidamos. Não pense como um problema só seu.

— Você tem Bethany...

— E você tem Avery. – Fez um breve silencio antes de continuar. – Eu posso fazer isso. Só preciso de um pouco do seu xixi.

— Você trouxe um teste?

— Três. Tem algo diferente em você. Só quero descartar a possibilidade.

— Por Deus, Kurt – expirou descontente. — Então, vamos fazer agora. Me dá logo isso – disse irritada se afastando do marido.

— Não, vamos fazer isso juntos.

Kurt pensou muito sobre o assunto desde que deixou o mosteiro. Sabia o quanto isso seria difícil pra Jane, mas a dúvida o consumia. A ideia fixara-se na sua mente e todas as reações dela ele interpretava como sinal de gravidez. E, se sua suspeita se confirmasse, devia ter acontecido há várias semanas, enquanto ainda estavam na América, provavelmente naquela noite em que desarmaram a última bomba.

Jane se retirou e pouco depois retornou com o copinho com a urina. Kurt já tinha desembalado o teste. Ela o mergulhou no líquido pelo tempo recomendado e depois deixou sobre a cama para a espera do resultado. Era algo tão simples, mas que mexia profundamente com o emocional dela. Sentindo-se quebrar, Jane procurou o peito dele e se aconchegou ali. Seu coração pulsava tão forte e sua respiração estava tão pesada que Kurt precisou agir:

— Vai acabar logo e eu prometo que nunca mais vou te fazer passar por aquilo de novo.

Ela não respondeu. Só se espremeu contra ele.

— Quanto tempo temos que esperar? – ele tentou restabelecer o diálogo.

— Cinco minutos – o fiapo de voz que saiu da garganta de Jane o esmagou.

De volta aos dias atuais

Kurt finalmente passou pela porta de desembarque empurrando o carrinho de malas. Estava sozinho. Os amigos já podiam ver Jane do outro lado, rodeada por uma família. A mulher com quem ela conversava tinha uma bebê nos braços que aparentava ter a idade de Elena.

Ele abraçou afetuosamente cada um dos amigos com um sorriso largo no rosto.

— E finalmente estamos de volta – desabafou.

— Estamos ansiosos para saber mais de sua experiência vegana no Nepal – Tasha provocou dando um tapinha em seu braço.

— Quero um filé enorme e costelinhas ao barbecue, é tudo que tenho a dizer.

— Alimentem esse homem com carne! – Rich declarou – Em todos os sentidos. Porque o veganismo não é a pior parte daqueles mosteiros tibetanos. Lá praticam o celibato!

— Ele estava com Jane, Rich, cai na real – Boston chamou a atenção do marido.

— Quais são as chances deles terem conseguido driblar os monges e as duas crianças? – Rich retrucou.

— Ei, eu já tenho 20 anos! Não devia, mas vou saciar sua curiosidade, Rich. Se tem algo que esses dois não fizeram enquanto estive por lá foi dormir. Aliás, Patterson, quero um quarto bem longe deles porque pretendo dormir até semana que vem!

— Realmente nossa experiência em família mostrou que uma relaxante noite de sono não é nosso forte – Kurt confessou com um sorriso encabulado.

De volta ao passado

— Não é muito tempo – Kurt argumentou estreitando o abraço em torno dela.

— É uma eternidade. Por que te deixei me convencer a fazer isso?

— Porque você é a pessoa mais corajosa que eu conheço.

— Só me sinto covarde agora.

— Se você argumentasse que teme a ideia de enfrentar uma gravidez sem acompanhamento médico ou sobre fraldas sujas, brinquedos espalhados, noites mal dormidas, eu entenderia seu medo. Mas é só um teste de gravidez, a parte mais fácil do que teremos pela frente.

— Não é fácil pra mim, Kurt! E, por favor, não fale assim como se houvesse qualquer chance de realmente termos um bebê a caminho. Isso realmente me machuca... – e a voz dela saiu junto a um soluço.

— Eu não brincaria com algo que sei que dói tanto em você. Só estou falando porque estou olhando para o teste e o resultado diz que você está grávida de 16 semanas.

Jane imediatamente se soltou dele e olhou para o teste, respiração pesada, músculos rígidos pela tensão. Ela estava em total alerta encarando o objeto como quem sonda o inimigo armado e pronto para atirar. E continuou ali, imóvel.

Kurt tinha toda sua atenção sobre ela. Sequer era capaz de considerar seus próprios sentimentos naquele momento. Manteve uma mão nas suas costas e estendeu a outra para o teste, mas foi abruptamente interceptado por Jane que bloqueou sua tentativa tão agilmente como em campo de batalha.

— Jane...

Ela se levantou num salto e caminhou em direção à entrada da tenda. Ele prontamente ficou em pé disposto a segui-la. Mas Jane parou e virou-se para ele atônita.

— Você disse que tinha três teste. Quero fazer outro.

Ele sorriu e buscou o novo teste em sua mochila. Desembalaram e colocaram na urina pelo tempo indicado. Dessa vez, durante a espera, Jane não tirou seus olhos do objeto.

O resultado se repetiu, fazendo-a olhar num relance rápido para o marido e logo desviar o olhar parecendo em choque.

— Parabéns, estamos grávidos – ele falou manso e foi surpreendido pela forma como ela saltou nos seus braços rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Eu não consigo acreditar que é real – Jane confessou quando se afastou do pescoço dele para olhar em seus olhos. – Você está bem com isso?

— Eu estou ótimo.

De volta ao presente

A porta de desembarque voltou a se abrir e Jane entrou sorrindo um pouco encabulada. Aninhado em seu peito, um bebê dormia preguiçosamente.

— Olá – ela arriscou dizer, mas ninguém respondeu.

Todos estavam boquiabertos, olhos fixos nela. Kurt resolveu intervir:

— Família, esse é nosso filho Yan.

— Oh, meu Deus, vocês tiveram um bebê! – Patterson foi a primeira a exclamar e correr para Jane, abraçar a amiga e paparicar o pequeno.

Todos explodiram em alegria, parabenizando o casal e rodeando Jane para conhecer o novo membro da família.

— É claro que eles fizeram um bebê. O que mais iam fazer no Nepal? Estavam sem serviço de streaming e smartphone – a irreverência de Rich arrancou risadas de todos enquanto ele limpava uma lágrima discreta.

— Qual a idade dele? – Tasha questionou acariciando as bochechas rosadas do menino que agora estava nos braços de Patterson.

— Cento e doze dias – Jane se apressou em dizer. — É muito doce.

— Só não consegue entender que a gente dorme à noite e fica acordado durante o dia – Avery se queixou.

— Ele nasceu por volta das 23 horas. E, como é muito curioso, ficou acordado tentando olhar para tudo – Jane defendeu o filho. – Só adormeceu após amanhecer. Desde então, tem trocado o dia pela noite.

— Talvez viajar para o outro lado do mundo, mudando completamente de fuso horário o ajude com isso. Olhem só, está dormindo agora. Nasceu no Nepal, mas já tinha hábitos americanos – Kurt estava esperançoso.

Sem demora, a família pegou o caminho da casa de Patterson. Lá, uma mesa farta os esperava. Todos falavam sem parar tentando compartilhar as novidades do último ano.

Jane conheceu Andrew, seu sobrinho. Aproximou-se da cama do menino e o beijou com cuidado já que toda aquela bagunça não foi capaz de acordar as crianças, nem mesmo Yan. Mas isso não a surpreendeu tanto quanto o fato de seu irmão estar namorando Zapata.

Quando Yan choramingou, Jane se retirou para o quarto e, discretamente, pediu para Patterson a acompanhar. Elas se sentaram e o bebê logo se agarrou ao peito da mãe.

— Que lindo você amamentar. Isso é raro hoje em dia.

— Não tive muita escolha. Era o que tinha disponível no momento em que ele nasceu. Mosteiros budistas não comercializam mamadeiras e fórmulas. Agora já estou adaptada, nos primeiros dias pensei que a CIA podia incluir amamentação de recém-nascidos em suas práticas de tortura.

— Ok, isso foi pesado. E, se Jane Doe encarou a amamentação dessa forma, como julgar as meras mortais que desistem?

— Sem julgamento. É um momento muito difícil. Foi por isso que te chamei aqui. Aconteceu algo que preciso que saiba. Eu tive uma nova alucinação com Roman.

Três meses atrás

— E se descermos a montanha? Eu posso te carregar.

Ela sorriu abanando a cabeça negativamente enquanto puxava todo o ar que podia tentando se recuperar de mais uma contração.

— É impossível. Acalme-se, estou bem... – falou sem conseguir evitar o tremor na voz.

— São trinta horas, Jane...

— Eu suportei três meses de black site.

— Um dia sim, outro não. Você tinha um intervalo para se recuperar. Mas essas contrações não te dão mais que segundos – e voltou a massagear as costas dela percebendo que a dor já tinha voltado.

Ela travou os dentes e se agarrou à treliça da cabeceira da cama numa luta desesperada para não amaldiçoar aquela dor, afinal isso traria seu filho ao mundo e queria que o pequeno fosse recebido com tudo que havia de bom. Ela suportaria o que fosse necessário para isso.

Quando a dor recuou, Jane se concentrou em sua respiração.

— Água... – pediu sedenta.

Kurt correu até o pote de barro no canto da tenda. Estava vazio. Inferno! Eles o encheram no início do dia. Para piorar, os dois estavam sozinhos. As monjas não tinham muita experiência com parto além daqueles que acompanharam na vida familiar antes de escolherem a clausura. Tentaram ajudar, mas tinham se afastado momentaneamente por causa de um princípio de incêndio na cozinha do mosteiro.

— Água, por favor... – Jane repetiu alheia a agonia do marido pela falta do líquido.

— Vou buscar. Volto em instantes.

Ela assentiu com a cabeça ainda concentrada na respiração. Mas assim que ele saiu, um mar de insegurança pareceu afogá-la. E se tudo desse errado? Talvez o bebê não fosse saudável, talvez ela não resistisse. Como Kurt lidaria com isso?

O ar pareceu lhe escapar e sua visão escureceu. Por um segundo, ela achou que ia desfalecer.

— Sis! – A voz de Roman soou ao longe. — A dor é um sonho.

Ela abriu os olhos rapidamente e o viu sentado no chão próximo à cama.

— Roman... – balbuciou.

— Hello, Sis. Sempre há uma saída.

— Isso é real, Roman. A dor é real... E não há saída... Por mais que eu tente... Eu sequer cumpri minha promessa de ir ao seu encontro...

— Shshshsh – ele gesticulou com o dedo na frente dos lábios pedindo silêncio. — Seja uma ótima mãe – e sorriu para ela.

Atordoada por uma nova contração, Jane ouviu a voz de Kurt que se aproximava e lhe oferecia um copo de água. Ela bebeu devagar assim que a dor atenuou. Então, uma nova contração veio mais forte do que todas as outras, fazendo-a empurrar com força. Mais alguns empurrões e o casal ouviu o som mais lindo que nem em seus sonhos poderiam alcançar: o choro de uma vida começando.

— É um menino! – Kurt anunciou em lágrimas segurando a criança nas mãos.

Jane respirava cansada, mas gesticulou pedindo o filho que foi colocado em seu peito. Eles se abraçaram, riram e choraram enquanto davam boas-vindas ao pequeno.

Horas depois, continuavam maravilhados.

— Ele é a cara do seu irmão – Kurt comentou correndo o indicador pela bochecha do filho que mamava.

— Você acha?

— Com certeza. Olhos, nariz, o jeito como franze a testa. E você, não acha?

— É, a semelhança é gritante.

— Algumas religiões acreditam em reencarnação. E diriam que ele escolheu voltar para você.

— Tudo que sei é que o amor que sinto por ele é avassalador.

— A chegada dele não é mero acaso. Sinto que precisávamos dele. Parece até que há tanto amor e paz aqui dentro dessa tenda que nossa família é capaz de mudar o mundo.

— Passei tanto tempo concentrada em salvar o mundo... Mas foi só aqui com você que descobri como salvar a mim mesma.

— Nós descobrimos. Porque agora, mais do que nunca, somos NÓS.

De volta ao presente

— Foi só no parto que isso aconteceu ou voltou a se repetir?

— Não se repetiu. Foi só aquela vez.

— Cientificamente falando, acho difícil ser algo relacionado ao ZIP. Você estava Numa situação de muito estresse e sob forte dor física. Seu cérebro pode ter projetado tudo numa fração de segundo quando você teve o breve apagão. Existem muito relatos semelhantes na história da medicina.

Jane puxou o ar e levantou as sobrancelhas.

— Se você diz, fico mais aliviada.

— Qualquer sequela do ZIP teria se repetido inúmeras vezes no último ano. Você parece muito bem. Eu não me preocuparia – e, se levantando, deu um beijo de despedida na testa da amiga. Já na porta do quarto, virou-se de volta – Ou você pode acreditar em algo sobrenatural como Roman voltando para te garantir que você não precisa ir ao encontro dele e que está feliz por você ter um bebê. Assim como todos nós. Boa noite.

Patterson saiu deixando Jane sentindo a paz crescer dentro dela. Pouco depois, Kurt chegou. Com cuidado, colocaram o bebê no mini berço que havia sido de Elena. Foram para a cama apressados.

— Conseguimos! É madrugada e ele está dormindo – ela sussurrou.

— Eu não comemoraria tanto, não falta muito para o sol nascer.

Por alguns instantes, ficaram em silêncio, processando as últimas horas.

— Você está feliz em estarmos de volta?

— É ótimo nos reunirmos com nossa família de novo. Mas eu tenho sido o homem mais feliz do mundo no último ano todo. E você, está feliz?

— É tudo tão novo: nós dois no Tibet, a gravidez, o bebê, depois nós três com Avery e Bethany e agora isso, como todos aqui reunidos. Enquanto estávamos na montanha, foi como viver um conto de fadas. Quando o avião aterrissou hoje, achei que estávamos voltando ao mundo real e que as coisas dentro de mim voltariam a ficar confusas, com aquela bagagem pesada do passado, mas não. Estou leve e confiante. Realmente acho que dessa vez tudo vai dar certo.

— Tudo já deu certo. Nós precisávamos desse ano a só mais do que imaginávamos. Nos conectamos um ao outro de tantas formas. E Yan é a prova de que somos melhores juntos.

— Eu achava que não saberia viver fora do FBI. Em campo era o único lugar onde me sentia bem. Mas ter um bebê e conciliar isso com nossas outras filhas é tão intenso, desafiador e recompensador quanto perseguir bandidos e salvar vidas – e deixou-se escorregar para mais perto dele. – Além disso, conseguir algum tempo a sós com você com um bebê dormindo profundamente no berço dele é tão excitante quanto desarmar uma bomba.

Um sorriso malicioso se formou no rosto dele.

— Precisamos ser rápidos. Não temos muito tempo antes de todos estarem aqui – disse escorregando a mão para baixo da blusa dela. — Não comprei preservativos. Você terá que confiar totalmente no meu autocontrole. Confia em mim, Honey?

Ela mordeu o lábio inferior, seu olhar permissivo num convite claro.

— Com a minha vida, Kurt.

Notas finais
Por favor, se você leu essa história e gostou, faça o login e favorite essa fanfic. Comente relatando sua experiência de leitura. Essa é a melhor forma de incentivar outras pessoas a lerem e de inspirar autores a continuar escrevendo. Mais uma vez, agradeço de coração a você que estive comigo capítulo a capítulo, torcendo por essa história. Sua leitura foi fundamental para que a jornada de LOST chegasse ao final. Sinta-se abraçado pela minha gratidão.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.