Lost

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Voltei! Estou enferrujada, mas sigo na determinação de levar essa história até o final. Acho que consigo finalizar em dois capítulos. Se tudo der certo, atualizarei os dois nos próximos dias. Boa leitura.

30 horas depois

Os olhos de Jane se abriram rápido assim como todos os seus sentidos. Ela engoliu seco, sondando o ambiente hospitalar do bunker onde estava. Tentou prestar atenção ao som dos aparelhos, mas a imagem de Kurt na poltrona ao lado remexendo no relógio de pulso foi mais forte.

— Ei! – ela o chamou enquanto tentava se sentar.

Ele saltou da poltrona e suas mãos estavam sobre ela, protetoras e quentes, antes que Jane pudesse concluir seu intento.

— Calma, Jane. Melhor ir devagar – ele disse num tom doce.

— Eu só preciso me sentar – insistiu apoiando-se nele para ficar numa posição mais confortável. – Por quanto tempo eu dormi?

Kurt se sentou na cama em frente a ela e deu um beijo na sua testa.

— Mais que um dia. Como se sente?

— Bem. – ela respondeu rápido como sempre fazia para tranquilizá-lo só depois parando para realmente avaliar seu estado. Remexeu o pescoço e voltou a olhar ao redor testando a visão e audição. – É, nenhuma tontura, visão e audição normais. Será que posso beber um pouco d’água? Minha boca está seca.

Imediatamente, Kurt saltou da cama e foi até a mesa lateral buscar o que ela precisava. Entregou o copo a Jane e ficou observando ternamente enquanto ela se fartava. Jane teria secado o líquido em instantes, mas os olhos do marido sobre ela lembravam que precisava ser cautelosa, então bebeu devagar sentindo-se feliz por ver o sorriso satisfeito no rosto dele.

Ao terminar, puxou o ar e foi direto ao ponto:

— E, então, consegui mais algum tempo com essa fórmula? – falou devolvendo o copo.

Kurt demorou alguns segundos para processar a pergunta. Estava admirando a forma corajosa como ela abordava uma questão tão delicada.

— Bem, se você pretendia morrer envenenada por ZIP, terá que descartar essa ideia – e piscou para ela. – O antídoto foi totalmente eficaz.

— Eles têm certeza disso?

— Fizeram muitos testes. Muitos mesmo. Conseguiram me deixar incomodado.

Ele mal terminou de falar e ela o puxou para um abraço se agarrando a ele de forma eufórica e fungando o pescoço do marido. Kurt retribuiu e depois se afastou apenas o suficiente para pegar o rosto dela entre as mãos:

— Bem-vinda ao início dos melhores anos de sua vida, Jane Alice Remi Krugger.

Ela se agarrou aos braços dele e fechou os olhos, tentando aspirar cada palavra do marido para acreditar nessa verdade com toda a sua alma.

Quando voltou a abrir os olhos, o encarou com determinação:

— Será assim. Os melhores anos para todos nós. E já está sendo diferente, não é mesmo? Foi a primeira vez que tomei o antídoto todo e deu certo. Em nenhuma das tentativas anteriores, consegui dormir até a infusão se completar. Com vocês por perto, tudo já é tão melhor e mais fácil.

Ele a puxou para um novo abraço. Seus braços a envolveram da forma mais protetora que podia relembrando os momentos tensos que viveram nas últimas horas dos quais ela não se lembrava. Talvez fosse melhor assim. As confissões poderiam fazê-la se sentir exposta demais nesse recomeço. Com o tempo, ele encontraria uma forma de ajudá-la a sentir-se à vontade para falar de novo sobre o fato de não conseguir engravidar.

— Vamos! – ela disse se desvencilhando dele. – Preciso de minhas roupas. Quero subir ver Avery e agradecer a todos. E quero respirar ar puro, fora de quatro paredes. Aliás, quero passar a maior parte do resto da minha vida ao ar livre.

Kurt a ajudou a se levantar e a abraçou por trás caminhando com ela em direção ao banheiro enquanto beijava seu pescoço:

— Vegana e natureba. Por favor, Jane, sem praia de nudismo. Meu lado ciumento não daria conta.

Ela parou, se virou para ele e revirou os olhos:

— Você disfarça seu ciúme muito bem, não se preocupe.

— Como quando quase te arranquei de perto de Oliver Kind?

— Essa vez não conta. Eu não identifiquei sua reação como ciúmes. Além disso, você sabe que seu nome não está tatuado só na minha pele, é no meu coração, Kurt. Eu te amo como nunca amei outro homem em toda a minha vida.

Seus lábios se encontraram numa ânsia de mostrar aquele sentimento para muito além das palavras. Kurt se entregou como sempre se entregava, permitindo-se ser homem e menino nos braços dela, a única mulher que foi capaz de fazer seu coração conhecer o amor.

Demoraram naquele beijo todo o tempo que foi necessário. Ele escolheu terminar aquilo da forma que mais gostava: distribuindo uma sequência de beijos pelo pescoço e clavícula dela enquanto repetia:

— Eu te amo... te amo... te amo...

Minutos depois, com Jane já vestida, a porta do elevador se abria e os dois surgiam no andar térreo da casa recebidos por palmas de todos os amigos. Abraços apertados vieram em seguida. O sentimento de celebração contagiava a todos.

O abraço entre Jane e Avery foi mais demorado.

Todos se mobilizaram para conseguir uma refeição à altura da comemoração da forma mais rápida possível. Comeram juntos como uma família unida que nada poderia separar. Brindaram à vida.

Após a refeição, Jane e Avery procuraram a privacidade do quarto para conversarem de forma mais prolongada. Começaram por assuntos casuais dos últimos dias e partilharam gostos por leitura e filmes sentadas na cama como se não houvesse tanta coisa a resolver entre elas.

— Avery, eu realmente quero me aproximar de você. Sei que não posso substituir os pais que você perdeu, mas quero estar lá quando você precisar. Só não sei como fazer isso. A minha vida toda foi uma loucura...

— Eu entendo como você se sente. A minha vida até aqui foi muito mais estável que a sua, mas perder meus pais e te reencontrar foi insano. Eu fiz uma série de escolhas erradas em muito pouco tempo. Me afastar de você foi a maior delas. Eu amo a faculdade, mas agora entendo que só fiz medo.

— Medo?

— Na manhã em que vocês voltaram da África do Sul, vi que você tinha um teste de gravidez. Fiquei pensando vocês precisavam de espaço para viver só os dois e que eu estava ali “atrapalhando” tudo. Meio que me senti deslocada. Com ciúmes também, eu acho. E, como vocês se afastaram logo em seguida, achei que me queriam distante.

— Não. Jamais! Mesmo que eu estivesse grávida, ter você por perto é muito importante pra mim. Sempre será.

— Então, vem comigo pra Inglaterra. Podemos alugar uma casa próxima a Oxford. Teríamos essa experiência de vida em família que não vivemos. Num dia a dia, aquela rotina chata. Não dá para mudarmos isso com alguns dias nas férias ou na reunião de Natal ou Ação de Graças.

Jane ficou em silêncio sem saber o que dizer a filha. A reivindicação de Avery era legítima. Era mais que isso, era como estar a um passo do seu maior sonho. Mas ela sabia que, se quisesse realmente reconstruir a relação com a filha, precisava ser com a verdade. Tomando coragem, alcançou os cabelos da filha num carinho ousado para elas.

— Eu te amo de uma forma que nem sei descrever, Avery. Eu daria minha vida por você sem pensar. Fazer parte de sua vida é um sonho que eu julgava impossível de ser alcançado. Então, essa proposta é mais que tentadora. A minha vontade é dizer: sim, claro, eu aceito – fez uma pausa e puxou o ar. – Mas se queremos realmente que isso dê certo, temos que aprender a ser uma família e Kurt faz parte disso. Ele e Bethany precisam ser levados em conta nos nossos planos. Isso não quer dizer que nosso tempo juntas tenha que ser só nas férias. Eu preciso de mais que isso também. Posso passar algumas temporadas do ano com você, quando você achar mais adequado ou porque a pressão das provas está pesada ou porque as festas da faculdade estão menos interessantes.

Avery se jogou nos braços da mãe e bufou.

— Sei que não era exatamente isso que você queria. Eu queria ter uma varinha mágica para poder conciliar tudo de outra forma...

— Não. Você está certa. Na verdade, eu queria era dizer que você está errada e que devia ficar comigo. Mas sei que só insistiria nisso porque estou muito brava com o Kurt. Quando nos conhecemos, eu meio que coloquei ele entre nós duas para te atingir. Ficava dizendo que ele era mais legal que você, mais confiável...

— Ele é sim confiável, responsável, leal. Você estava certa em admirá-lo.

— Eu achei que você ficaria bem com ele. Mas então, você morreu. Você morreu, Jane. E eu não sei se posso confiar nele pra cuidar de você agora. Ele confia demais em você, acha que dará conta de tudo. E não é assim. Não foi assim.

— Tudo que aconteceu estava muito além do que Kurt poderia fazer, Avery. Fiz escolhas erradas assim como você acabou de dizer que fez – e apertou o abraço ao redor da filha. – Mas isso não vai se repetir. Eu vou cuidar para que tudo fique bem.

Avery se afastou e a encarou:

— Esse é o problema, Jane. Quem vai cuidar de você?

Jane suspirou e retorceu os lábios:

— Eu... nunca pensei que precisava de cuidados. Mas, se vamos passar muito mais tempo juntas, acho que vou precisar da sua ajuda nisso. Podemos cuidar uma da outra.

Foi a vez de Avery morder o lábio pensativa. Após alguns segundos de silêncio, continuou:

— Pra isso dar certo, vamos ter que nos falar todos os dias.

— Sim. Eu posso ligar se você disser em qual horários está disponível.

— E nas semanas que estiver comigo, podemos voar até Paris, visitar o Louvre.

— Eu adoraria.

— Ou nos sentarmos um parque qualquer para você me contar como foi quando eu nasci.

— Pra que esperar, posso fazer isso agora mesmo se você quiser.

— É um bom começo.

No final da tarde

Todos estavam reunidos na sala quando Kurt anunciou.

— Os voos de amanhã estão esgotados. Teremos que viajar no dia seguinte.

— Vou aproveitar para comprar algumas roupas. Os tons xadrez da lojinha de roupas perto da nossa casa no Colorado não me atraem. – Jane arrematou.

— Vocês vão viajar? Isso não é arriscado? – Dr. Johansen colocou.

— Vocês disseram que estou curada, então deduzimos que eu poderia realizar um voo doméstico. Quero rever Bethany e retomar minha vida.

— Talvez isso não seja tão simples. Oficialmente você está morta. E as agências de segurança te cançando, lembra-se? – Zapata parecia abismada por terem feito tal escolha.

— Ela está viva, Tasha. E curada. Isso põe fim à caçada. – Kurt reafirmou.

— Não necessariamente – Patterson disse. – Conseguir Jane viva e curada ainda pode ser valioso para as agências de segurança. Teremos que mantê-la escondida aqui até as pesquisas do Dr. Johansen serem aprovadas e publicadas. Se eles pegarem Jane e usá-la para testes, podem usar de dispositivos que estão além das leis para impossibilitar a publicação da pesquisa de Johansen.

— Qual interesse eles teriam em barrar a ciência? – Ana questionou.

— Esse é o problema dos nerds de hoje: tão inteligentes e tão inocentes. – Boston colocou.

— Poder, aspirante a “Ned” da cadeira. Eles podem manter o ZIP como uma arma secreta se não for publicado. Jane é a prova viva de que a cura existe. Podem eliminá-la só por isso. Mas depois que tudo se tornar público, daí já era e a minha diva aqui poderá ter sua vida de volta. – Rich concluiu.

— Quanto tempo até a publicação? – Jane perguntou aflita olhando para Johansen.

— Posso conseguir a publicação do primeiro artigo em três ou quatro semanas.

— Não é tanto tempo assim. – Kurt tentou animar Jane acariciando suas costas.

Johansen continuou:

— Mas a defesa da tese só sairá em um ano.

— Um ano? É muito tempo para eu ficar aqui embaixo.

— Ficar aqui não é uma boa ideia. Vou identificar o contato de Johansen com a Patterson. Os dois foram vistos juntos no Congresso. E isso fará as agencias fecharem o cerco em torno dela e de mim. – acrescentou Lincoln.

— Vamos ter que manter contatos esporádicos até a tese ser publicada. E, para segurança de todos, melhor ninguém saber onde Jane estará.

Jane não disse nada. Saiu pisando duro na direção do elevador. Um furacão de emoções tomando conta dela. Foi rápida e assim que entrou, acionou o botão de descida. Kurt tentou alcançá-la, mas foi inútil.

Patterson se aproximou e colocou a mão no ombro do amigo:

— Ela já deve saber onde fica a sala de treinamento à essa altura. Terá que chutar e socar muito para extravasar a frustração. Dê algum tempo a ela antes de descer.

Meia hora depois

Kurt entrou na sala de treinamento e se recostou na parede. Patterson estava certa em pedir para ele se manter afastado. Esse tempo foi importante para processar seus próprios sentimentos e não abordar Jane de forma contraditória.

Ela castigava o saco de pancadas com toda a sua fúria. Tentou prender o cabelo num rabo baixo, mas boa parte dele tinha se soltado e estava colado à sua pele suada. Sabia que Kurt viria. Temeu que ele aparecesse antes. Mas ainda agora a presença dele era uma sobrecarga amarga. Agora ela entendia por que Shepherd era tão enfática em dizer que o amor deveria ser afastado de sua vida. Amar tornava todas as decisões mais difíceis.

Sabendo que o diálogo entre eles era necessário, parou a atividade física e se concentrou em respirar.

— Já decidiu por onde iniciaremos nossa rota de fuga? – a voz dele soou de forma leve.

Jane sorriu torto com sarcasmo.

— Não brinque com isso, Weller.

— Você disse que não fugiria de mim novamente, lembra-se? Foi uma promessa.

Ela o encarou.

– Eu prometi uma vida normal. E não é isso que temos agora. Fiz promessas a você e a Avery. Eu não sei por que faço isso se nunca consigo cumprir. Essa é a minha vida.

– Tudo será diferente dessa vez, Jane. Estaremos juntos.

– Não! Você ouviu o que disseram? Um ano, Kurt. Um ano inteiro. Não vou te manter afastado de Bethany esse tempo todo. E, se me encontrarem, já era. Não poupariam você se estiver comigo. Chega, Kurt. Acabou. Não há um final feliz pra mim.

– Nem pra mim sem você.

– É um ciclo sem fim, você não vê? Por mais que eu tente escapar...

– Só é um ciclo porque repetimos o erro. Porque sempre nos separamos sendo que conseguimos mudar as coisas juntos.

– Eu não posso fazer isso com você.

– Mas eu posso fazer isso com você. Eu quero. É minha escolha – finalmente estreitando a distância entre eles, a puxou para um abraço. – Vamos quebrar o ciclo juntos. Porque todas as vezes que você tentou sozinha não deu certo. Sei que não quer me separar de Bethany. Mas podemos organizar isso de uma forma mais leve. Você precisa continuar morta e desaparecida, não eu. Posso voltar para ver minha filha e te reencontrar depois. Só precisamos estabelecer uma rota meio que espiritual para justificar minha andança pelo mundo tentando reencontrar um significado para a vida após a morte da minha esposa.

– Isso é tão patético que pode até funcionar. – ela disse num suspiro e, alcançando a mão dele, o puxou até a parece onde os dois se deixaram escorregar para o chão, ela se aconchegando entre as pernas dele.

– Posso raspar a barba e o cabelo me tornando um monge budista.

– Você quer que eu aceite embarcar nessa jornada arriscada com você sem sexo? Pode esquecer isso de monge. Abstinência sexual não faz parte da minha fase vegana e natureba.

– Ou pode rolar um retorno à fase gótica. Além disso, sou o menor dos seus problemas. Como diria Rich, “Jane Junior” está lá em cima revoltada e querendo te acompanhar. Guarde seus argumentos para manter nossa filha mais velha na faculdade pelos próximos meses.

Quando tudo parecia não poder piorar, o alarme tocou. O casal correu para a sala de controle do bunker e lá encontraram os amigos desesperados.

– O que aconteceu, Patterson? O que esse alarme significa? – Jane questionou.

– Eles nos encontraram? – Kurt foi direto ao ponto.

– Calma, gente. Estamos seguros – a loira esclareceu. – Esse alarme é um alerta de bomba. Meu sistema tem a capacidade de antecipar ameaças. Criei um algoritmo que dispara diante de circunstâncias possíveis e algumas delas apontam para o Holland Tunnel.

– Onde é isso? É perto daqui? – Avery questionou.

– O Holland Tunnel é um dos dois túneis construídos abaixo do Rio Hudson. Eles conectam a ilha de Manhattan com Jersey City. São muito antigos e com tráfego intenso de veículos. – Ana esclareceu.

– Acionem o esquadrão antibombas – Kurt deu a ordem como se ainda fosse o diretor chefe do FBI.

– Não é tão simples assim. É um alerta do algoritmo. A bomba pode ou não existir. E, se eu informar o FBI ou qualquer outra agência, terei que descriptografar o algoritmo para o governo e descobrirão tudo sobre esse lugar e sobre a Jane.

– Merda! – Kurt rosnou – Vou até lá verificar.

– Vou com você – Jane se prontificou – Alguém tem uma touca de motoqueiro?

– Jane, não. Melhor você ficar aqui – Kurt insistiu.

– Vamos nos separar, então, Sr. Ex Agente Especial?

Torcendo o pescoço descontente, ele cedeu. Odiava colocar a vida de Jane na linha novamente. Mas os dois não tinham saída.

Notas finais
Solucionem a equação: Jane + Kurt + bomba =... dá pra antecipar o próximo capítulo. Agradeço muito a cada um de vocês que mantém essa história e Blindspot vivas com sua leitura. Se puderem comentar o capítulo para estimular minha inspiração em baixa, cada comentário é recebido com uma alegria sem tamanho. Até o próximo capítulo.