Lost
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O galpão era escuro e abafado, nada adequado para abrigar alguém tão especial, mesmo que por pouco tempo. Minutos, era o que Zapata esperava. A menos que Patterson tivesse informações relevantes, o que ela duvidava. A verdade é que vários fatores influenciaram sua decisão em trazer a filha para esse encontro.
— Tasha. – a voz de Patterson soou baixa e entusiasmada.
A loura saiu da escuridão e caminhou rápido em direção da amiga já rompendo seu espaço pessoal para um abraço forte e carregado de saudade.
— Não acredito que você a trouxe! – Patterson exclamou abaixando-se sobre o carrinho e aspirando o cheiro da bebê. – Ela está enorme!
— Ela realmente está crescendo muito rápido. Está no topo da estatura para a idade. Provavelmente não será baixinha como eu. Deve ter herdado a estatura do Edie. Como todo o resto. – reforçou num misto de tristeza e alegria – Ela lembra o pai em tudo. – e suspirou retomando seu lado profissional – Tem alguns bons motivos para Elena estar aqui. Raramente uma mãe com seu bebê atrai a desconfiança das pessoas. Nem mesmo as agências governamentais colocariam alguém em meu encalço se achassem que estou simplesmente saindo dar um passeio com Elena. Cobertura perfeita e acima de suspeitas.
— É, você deixa o trabalho de campo do FBI, mas esse trabalho nunca deixa você. Excelente estratégia. – a loura completou e beijo o pezinho de Elena que se remexeu em seu sono no carrinho. – Mal posso acreditar que ela já completou quatro meses.
— O tempo está realmente passando muito rápido. Esse é o outro motivo pelo qual Elena está aqui. Queria que vocês duas se reencontrassem. Você nos deu nossa casa, comprou tudo que precisávamos e aquela poupança, bem a faculdade dela está garantida. Ainda assim, só a viu recém-nascida, Patterson!
A latina estava ansiosa por exibir seu pacotinho de felicidade que ficava mais linda e mais esperta a cada dia.
— Não me agradeça, Tasha. É o mínimo que eu podia fazer. Você sabe que dinheiro não é um problema pra mim. Fico até revoltada com a facilidade com que meus aplicativos vendem. E não me lembre dessa parte da distância entre nós. É horrível não poder estar ao lado de vocês como eu queria. Quando tudo isso começou, realmente acreditei que resolveríamos as coisas mais rápido.
— Pensei o mesmo. Pra ser sincera, achei que faríamos antes mesmo de Elena nascer. E, se quer saber, teríamos feito se pudéssemos contar com todos do team como antes.
— As perdas que sofremos já tinham sido significativas o bastante para nos forçar a uma reorganização total. Mas quando Rich caiu fora para embarcar naquela loucura de caça aos tesouros, senti vontade de... de... Ai, eu nem sei! E o que dizer do Weller? Não esperava isso dele.
— Todos sofremos demais. Não merecíamos ter sido enxotados do FBI como fomos. Rich está lidando com suas próprias decepções. Weller perdeu sua confiança nas agências e ainda perdeu Jane. Quando perdi Reade, logo descobri que tinha Elena crescendo dentro de mim que era alguém que deixaria ele vivo em minha vida para sempre. Mas o que restou de Jane para Weller? Toda vez que pensei em te chamar e dizer que bastava, essa questão veio forte me fazendo persistir. Weller e eu tivemos nossas diferenças, mas o desfecho de tudo foi injusto demais com ele e Jane.
— Eu também me perguntei inúmeras vezes sobre o que estávamos fazendo nesses últimos meses. Já respondi que fazia por ele e depois pensei que era por ela. Jane não tinha ninguém além de nós. Quando penso no que aconteceu, realmente acho que ela não se importaria com isso e nos diria: sigam, sejam felizes. Mas a forma como isso afetou Weller, isso ela não aceitaria jamais. Moveria céus e terra para que ele pudesse seguir em paz também. E, como ela não está aqui para fazer o que precisa ser feito, me sinto na obrigação de fazer em seu lugar. Ainda assim, achava que ele embarcaria conosco nessa missão.
— Exatamente assim. – e baixou os olhos triste – E nossa cruzada insana está mais difícil a cada dia, Patterson. Quando aceitei a proposta de trabalho interno, tinha certeza de que eles estavam por trás disso. Eu sabia como articulavam as peças e sumiam com as provas. Só podia ser a CIA. O fato de terem me oferecido esse emprego burocrático me pareceu uma forma de manter sob vigilância ao mesmo tempo que me fariam vê-los como a agência acima de qualquer suspeita que me acolheu novamente depois de tudo. Alguns meses depois, percebi que estavam nessa busca frenética com tanto empenho quanto nós. Agora a própria CIA parece ter desistido. Por isso espero que você tenha informações bem relevantes para me animar.
A loura torceu os lábios numa expressão de desagrado.
— Se a CIA não está com ela, tampouco o FBI. Afreen foi minuciosa levantando todas as informações que pode. Também jogaram com tudo que tinham. As informações que consegui via Lincoln apontam a mesma coisa. Ainda não estão fora da busca, mas desaceleraram. O que tem um lado bom. Nossas suspeitas agora podem focar na ASN. Infelizmente é a única agência na qual não nos infiltramos.
— Sobre Weller, você tem falado com a Allie?
— Tenho feito contato com regularidade. Weller segue revoltado. Não aceita sequer que o nome de Jane seja citado. Se tornou uma versão piorada do que era antes dela. Fechado, carregando pesos que não deveria e fingindo ignorar o problema real. Praticamente se mudou pra casa de Allie que após algum tempo teve que pedir espaço porque isso estava afetando o casamento dela. Até mesmo com relação a Bethany, está mudado, mais exigente e super-protetor de forma exagerada. Não aceita tratamento. Ela não sabe mais o que fazer. Ele simplesmente não a escuta.
— Weller sendo Weller. E quanto ao Lincoln? Como você está lidando o peso de sua própria consciência?
A loura respirou fundo e expirou devagar, como quem sabe que vai adentrar por um assunto incômodo:
— Ainda não sei como ou se vou contar a verdade pra ele, Tasha. O procurei e comecei esse relacionamento apenas para ter acesso às informações que precisava do FBI, é fato! Além disso, era totalmente suspeito indicarem ele como novo chefe do laboratório do SIOC. Felizmente a indicação foi apenas uma forma de homenagear Weitz após sua morte. Engraçado como o FBI não teve a menor preocupação conosco que estamos vivas! Mas você sabe que me apaixonei por ele. Lincoln é divertido, inteligente, carinhoso, bom de cama...
— Ele precisa saber a verdade o quanto antes, Patterson.
— Eu sei, eu sei... mas é tão complicado. Não consigo encontrar o algoritmo certo que mostre que meus sentimentos são reais e que isso que estamos fazendo não é loucura.
— Amor não é matemática, Patterson.
— Mas um coeficiente me daria alguma certeza para encará-lo e dizer “Lincoln, eu me aproximei e dormi com você agindo como uma espiã porque Tasha e eu decidimos resgatar o corpo desaparecido de Jane e dar a nossa amiga um funeral e enterro dignos. Consideramos que não era justo ela continuar sendo usada depois de morta. Também achamos que isso ajudaria Weller a lidar melhor com tudo que aconteceu. Você era um de meus maiores suspeitos por ter conseguido um cargo tão alto em tão pouco tempo no FBI. Bem, já descobri que você não teve envolvimento nisso, me apaixonei e agora que tal se juntar a mim na busca do cadáver da minha amiga?”. Enfim, eu preciso continue existindo um “nós”, Lincoln e eu, enquanto a gente leva essa missão, Tash.
A latina se aproximou e levou a mão ao braço da amiga descrevendo movimentos para cima e para baixo para confortá-la.
— Talvez ele entenda, mesmo que precise de algum tempo para isso. Confie nos sentimentos que vocês tem um pelo outro.
As duas se abraçaram. Quando se separaram, Tasha continuou:
— Eu adoraria passar o dia conversando com você. Acho até que precisamos disso. Mas esse lugar aqui não é muito adequado para Elena. Qual descoberta te fez marcar essa reunião?
— Não marquei essa reunião, Tasha.
As duas se entreolharam assustadas e já sacaram suas armas. Em seguida, um barulho soou próximo a porta lateral. Logo foi possível definir o vulto se aproximando. Era Weller.
— Patterson. Zapata. – ele as cumprimentou com um aceno de cabeça, mãos para cima percebendo as armas apontadas em sua direção.
As duas respiraram aliviadas e baixaram as armas. Ele parecia ter envelhecido anos. A expressão fechada de seu rosto não dava espaço para uma aproximação mais carinhosa das meninas.
— Esse lugar não é adequado para um bebê. – ele continuou olhando de relance em direção ao carrinho.
— Eu sei que não. Pensei que seríamos só eu e Patterson.
— Pra alguém que foi do FBI e agora trabalha para a CIA, isso é uma falha imensa. Pra alguém que é mãe, arrastar seu bebê para um encontro às cegas numa missão é imperdoável. – disse seco.
— Todos nós aqui temos uma lista bastante grande quando o assunto é expor quem amamos aos riscos de nossa profissão, não é mesmo? – Tasha alfinetou disposta a não se deixar na berlinda sozinha.
Weller engoliu seco.
— Pessoal, por favor, peguem leve! Que bom que nos reencontramos após tanto tempo, não é mesmo? – Patterson tentou apaziguar a situação.
— É bom ver que vocês duas estão bem. Agora, melhor irmos logo ao assunto para podermos tirar essa criança daqui.
— Então que tal começar a falar, Weller? – a latina bufou.
— Não tenho nada a dizer. Foram vocês que me chamaram.
— Merda! – Tasha e Patterson disseram ao mesmo tempo sacando as armas e cercando o carrinho.
Weller instintivamente fez o mesmo.
— Não foram vocês que enviaram a convocação? – perguntou baixo.
— Não! – as duas responderam juntas e baixo.
— Vamos sair daqui agora!
Nesse momento, a porta dos fundos se abriu e a figura de baixa estatura entrou, aparentemente sem preocupação alguma, se deixando ver e caminhando na direção deles. Weller apontou para ela enquanto Patterson e Zapata cobriam as laterais.
— Bem-vindos! É bom vê-los de novo. – a voz de Ana Montes se fez reconhecer segundos antes de poderem identificá-la visualmente.
— Ana! – Patterson exclamou – Foi você quem convocou essa reunião?
— Sim, fui eu. Precisamos conversar. – enfatizou apertando os lábios e apontando para o laptop que carregava. – Nossa, você trouxe o bebê?!
— Trouxe. Não foi uma boa ideia no final das contas. Vamos logo ao assunto que quero levá-la pra casa.
Ana se dirigiu a uma mesa de metal que ficava na lateral do galpão. Abriu o laptop e apresentou uma lista de eventos.
— Há dois meses alguns incidentes e roubos chamaram minha atenção. Resolvi fazer uma investigação que retrocedeu no tempo e descobri novos eventos que podiam ser interligados. A coisa toda já tem mais de seis meses que vem acontecendo. Dinheiro, bitcoins, informações, substâncias inofensivas e em quantidades mínimas. A polícia e o FBI não deram a mínima. Acho que nem perceberam o elo que interliga tudo isso. – relatou apresentando a listagem levantada por ela.
Os três amigos se entreolharam preocupados.
— Dificilmente alguém traçaria esse tipo de ligação. – Tasha disse num lamento.
— Nem mesmo no laboratório do SIOC. Eu desativei o Tattoo Alert antes de deixarmos o FBI. – Patterson acrescentou – Afreen tinha acesso restrito aos dados desse caso e Lincoln nem sabe do que aconteceu.
— Tudo era altamente sigiloso e o governo cuidou para que as evidências fossem apagadas dos arquivos. Oficialmente, nunca aconteceu. Não da forma como foi realmente. – Kurt concluiu.
— Ela aparece apenas como uma informante que contribuiu com o FBI. Nada de ZIP, tatuagens, o que ela fez por todos. Isso me revolta! – Ana desabafou.
Zapata se aproximou mais da mesa, se distanciando da filha pela primeira vez naquele galpão. Ficou de costas para a mesa se colocando entre o móvel e Ana.
— E como você sabe de tudo isso, Ana?
— Já fui um hacker, Zapata! – a garota disse com naturalidade.
— Estamos falando de informações altamente sigilosas que atualmente são desconhecidas até para muitos dos que estão à frente de FBI. – a loura fechou o cerco também encarando Ana.
— Você me deixou mexer no seu computador lá no FBI, lembra?
— Isso foi há anos. Além disso, não te demos qualquer acesso ao caso Jane Doe.
— Patterson, não me decepcione. Você sabe melhor que ninguém que bastas alguns segundos e o comando certo para alguém como nós agir.
— Você era praticamente uma criança!
— Nativo digital. – Ana respondeu com uma piscadinha. – A coruja tatuada em Jane a trouxe até mim. E ela era coberta de tatuagens. Eu teria que ter alguma deficiência mental pra não sacar que cada tatuagem era uma peça num imenso quebra-cabeças. Parecia divertido jogar com esses enigmas. Nunca usei as informações. Só guardei para o caso de precisar delas pra me defender. Nunca se sabe. Foram úteis agora.
— Ana, preste atenção, essas informações eram sigilosas porque são perigosas.
— Quanto menos eu souber, melhor! Você fala igualzinho à Jane, Weller. Olha, eu sei me cuidar. Meus firewalls são mais seguros que os do FBI. Não tenho a menor intensão de sair pelas ruas caçando bandidos. Foi pra isso que chamei vocês. Esses incidentes e roubos podem significar que alguém está tentando usar as tatuagens. E sabemos onde a Sandstorm queria chegar: o governo dos EUA. Precisamos formar uma equipe e pará-los agora!
Debruçando-se na mesa, Patterson falou:
— Ok. Crie uma conexão segura entre nós quatro e nos transmita os dados. Vamos analisar e ver o que é possível fazer.
— Está feito, Boss. – Ana era realmente muito eficiente.
— Agora, volte para sua casa e sua vida. Se precisarmos de apoio remoto, entraremos em contato. – A voz de Weller era firme, não deixando espaço para contestações.
Ana revirou os olhos, mas acatou. Sabia que só permitiriam sua participação nos bastidores dos bastidores dessa missão. Compartilhou algumas informações adicionais e se despediu.
Assim que a jovem saiu, Patterson abriu seu tablet e cruzou os dados de Ana com seus arquivos criando um mapa das ocorrências que investigariam.
— Ana pesquisou os últimos meses. Assim que estiver no meu novo laboratório, em casa, vou realizar um levantamento com um tempo mais amplo. Isso pode estar ocorrendo desde o período em que estivemos foragidos.
— Quando concluir essa parte, me passe como posso ajudar de dentro da CIA. Use a conexão que Ana criou.
— Ana é realmente muito inteligente. Mas as ocorrências são pouco relevantes. Se alguém está realmente tentando trazer a Sandstorm de volta, vai demorar décadas pra conseguir nesse ritmo. De qualquer forma, o melhor é informar as agências de segurança. Talvez Nas dê alguma atenção ao caso.
— Você não está falando sério, está? – a latina disse inconformada.
— Terrorismo, coincidência ou seja lá o que isso for, é trabalho para eles, Zapata.
— São as tattoos. É sobre Jane, Weller! – a voz da loura estava carregada de emoção.
— Mais um motivo para nos afastarmos, Patterson. Sabemos como isso tudo termina. Alguns de nós estarão mortos e duvido que o governo será indulgente conosco novamente. Não hesitarão em nos colocar na lista dos culpados. Estou aposentado e tenho uma filha pra criar. Acabar preso ou morto como parte de um jogo de terroristas não está nos meus planos.
— Esse é o tipo de coisa que nunca está nos planos de ninguém, Weller. E eu nem preciso dizer que, se tem alguém usando as tattoos, essa pode ser a pista mais concreta que já tivemos sobre o corpo de Jane. Até agora apostamos que as agências de segurança tinham sequestrado o corpo para levantar dados sobre o ZIP. Mas essas ocorrências mudam tudo.
— Jane está morta, Zapata, e isso é tudo que importa! – ele quase gritou.
— Todos nós sabemos disso, Kurt. Assim como sabemos o quanto foi difícil para você perdê-la. Mas Jane merece que nenhum de nós desista dela, não é mesmo?
— Nada que façamos vai trazê-la de volta, Patterson. Nada pode consertar isso. Nada pode sequer amenizar isso. Jane não ia nos querer por aí nos arriscando. Ela deu a própria vida para que continuássemos vivos, para que eu pudesse viver e ver Bethany crescer. Não ponderou se valeria a pena pra mim seguir sem ela. Decidiu e agiu sozinha, sem considerar que fazia parte de uma equipe, dessa equipe que estão tentando trazer de volta. Sequer me consultou, ignorou o marido dela, a única família que tinha. Acha realmente que ela se importaria com o que aconteceu com seu corpo? Quando foi uma terrorista, ela planejou se infiltrar no FBI e nos destruir por dentro. E conseguiu. David e Mayfair foram os primeiros a cair. E olhem para nós agora. Só restaram cacos. Então, chega!
— Nossa, então é isso? Você está bravo com ela, deixando a raiva protagonizar a forma como está lidando com o luto. – e a latina assoviou
— Estou fazendo exatamente o que ela queria. Só isso.
— É por isso que não quer encontrar o corpo dela como nós. Não conseguiria ficar numa mesma sala que ela, não é? Nem que fosse para o funeral. Está tão decepcionado quanto quando ela retornou do black site da CIA.
— Não fale de luto pra mim, Zapata. Você deveria entender. Perdeu tanto quanto eu e pode criar problemas ainda maiores para Elena. Se eu entrar nessa loucura com você e, na melhor das hipóteses isso recair somente sobre mim, Bethany perde o pai, mas ainda terá Allie. Se qualquer coisa que recair sobre você, Elena não terá mais ninguém.
A latina se aproximou dele muito irritada, rompendo seu espaço pessoal e apontou o dedo bem em frente ao seu rosto:
— Não me diga que desconheço os riscos, Weller. É por isso que Patterson e eu temos tomado todos os cuidados necessários. Acontece que eu não vou fugir disso. Não vou deixar minhas decepções ou meu luto por Reade desviarem minha atenção do que é realmente importante. A Sandstorm foi a maior ameaça que esse país já enfrentou. A HCI Global foi ainda pior. E só neutralizamos essas ameaças por causa de Jane. Quando me arrisco para trazer o corpo dela de volta, faço isso por ela sim, mas também faço por você, por Elena e por um mundo melhor porque se tem alguém lá fora interessado no ZIP e eu não fizer nada para impedi-los, minha filha não estará em segurança.
— Ei, ei, ei, parem vocês dois! – Patterson praticamente se colocou entre eles – Tudo que passamos não foi fácil para nenhum de nós. Mas Zapata tem razão. Por favor, Kurt, pense melhor nisso. Jane tomou decisões sozinha e nenhum de nós concorda com isso. Mas agora que conhecemos a letalidade da nova forma de ZIP a qual ela foi exposta, temos que reconhecer que talvez estivéssemos todos mortos se ela não se sacrificado. Seja lá quem for que está por trás disso, precisa ser parado. Não podemos deixar o sacrifício de Jane, de Reade, de Mayfair e de David ser em vão.
— Eu fiz minha parte. Agora preciso criar Bethany, Patterson. E, para isso, tenho que confiar que as agências de segurança farão o mesmo que fizemos no passado. Estou fora! Meu voo para o Colorado parte em duas horas. Só vim até aqui porque precisava tentar fazê-las enxergar o que estão fazendo por outro ângulo. Vocês são muito importantes para mim. Só vou pedir mais uma vez: por favor, repensem a decisão de seguir com essas investigações e passem o caso para os órgãos competentes. Não podemos deixar que mais ninguém da equipe que fomos se perca.
Deu as costas e saiu sem deixar que elas dissessem mais nada.
As duas se entreolharam e suspiraram tristes. Não disseram nada. Não era preciso. Estavam decididas a prosseguir. Em silêncio, deixaram o local.
Uma vez na rua, Kurt respirou fundo. Elas não entendiam, ninguém entendia. A dor logo deu lugar à amargura que o consumia. O mundo perdeu a cor. Quando retornou ao SIOC naquela noite após a morte de Jane, encontrou Bethany o esperando com Allie. Agarrou-se a ela como pode. E seria assim. Viveria pela filha. Nada mais importava.
Zapata o acusou de estar lidando com o luto canalizando sua raiva em Jane. Não foi fácil ouvir isso, principalmente porque a latina não estava totalmente errada. Como perdoar Jane pelo que fez? Como perdoá-la por tirar dele seu futuro feliz ao lado dela? Não foi uma, duas nem dez vezes que conversaram sobre esse hábito dela de tomar decisões e agir sozinha, uma característica de Remi que precisava ser superada. Ela dizia que estava trabalhando nisso, que tinha mudado.
Mentiu. Da mesma forma que mentiu quando disse ser Taylor Shawn e que se lembrava da pescaria com ele quando eram crianças. Como mentiu ao concordar com ele que neutralizariam o prêmio colocado sobre a cabeça dela como um casal. Ou quando não falou sobre Clem. Ou quando disse que estava bem após a consulta com Borden. Ou quando dizia que estava bem naquele maldito bunker. A lista era realmente grande. Talvez ele tenha sido o único a não enxergar isso.
E o maior dos erros dela foi achar que ele seria capaz de ser feliz sem ela.
Ele olhou ao redor, buscando um caminho. Devia caminhar, pegar um táxi ou ir de metrô? Nenhuma decisão lhe agradava. Estar em NYC novamente não lhe agradava. Aquela cidade era um inferno que revivia lembranças que ele queria esquecer.
Por fim, pegou um táxi e indicou o aeroporto. Para evitar olhar a selva de pedras que o rodeava lá fora, ameaçando com novas lembranças a cada esquina, pegou o celular. Só as mensagens compartilhadas por Ana e Patterson estavam no visor.
Apagou a tela e deixou a mão com o aparelho cair sobre as pernas, bufando descontente.
“Pare, Jane! Chega! Já que escolheu morrer, me deixe em paz de uma vez por todas!” deixou a raiva explodir em pensamento se dirigindo a ela pela primeira vez desde sua morte. E sentiu as emoções subindo rápido.
Não. Ele não ia chorar. Não daria esse gostinho a seja lá o que for que traçou esse destino infeliz para sua vida.
Reacendeu a tela do celular. Antes de Jane entrar para sua vida, estar em campo era o único momento que o deixava em paz consigo mesmo. Talvez focar naqueles dados inconsistentes fosse o melhor para superar essas últimas horas em NYC.
Tudo parecia aleatório demais. Irritado, brincou com a tela reduzindo e ampliando o mapa enviado por Patterson. De repente, algo chamou sua atenção: as ocorrências cobriam uma extensa área de NYC, mas havia um ponto cego, um local onde nenhuma delas foi registrada.
Numa busca rápida pelo google, observou com atenção a região. Talvez pudesse associá-la a alguma das tatuagens prevendo os próximos passos de quem estivesse por trás disso. Mas não havia nada lá. Pelo menos não algo com qualquer referência as tatuagens ou que parecesse relevante para alguém que pretende reconstruir uma organização terrorista. Era apenas uma estação de metrô. Movimentado demais. Público demais.
Desligou a tela, mas a coisa continuou martelando em sua cabeça. Revolveu levantar informações sobre o lugar. Ali se interligavam quatro linhas de metrô e já existia o projeto para a interligação de uma quinta linha que seria construída no futuro, com um acesso já parcialmente construído e inoperante. Vazio. Seguro. Dando acesso fácil a toda cidade. Seria um bom esconderijo.
Chamou o motorista e mudou o endereço de destino. Melhor verificar isso antes do embarque.
Desceu no metrô e foi até a estação desejada. Desembarcou e começou a vasculhar o local procurando o acesso à construção interrompida. Não era algo fácil de identificar. Fez uma nova pesquisa, procurando o projeto na internet. Alguns truques ensinados por Patterson foram úteis.
Achou a discreta porta. Desceu uma longa escada. Depois veio a primeira rampa e a segunda. E mais uma escada.
O túnel escuro parecia vazio. Mesmo assim, resolveu vasculhar melhor. Acendeu a lanterna do celular. A planta baixa que acessou minutos antes, indicava a existência de alguma sala não muito longe dali.
Foi até lá. Encontrou uma porta de aço trancada com pesados cadeados. Inacessível. Melhor assim. Se ele não podia entrar, provavelmente outras pessoas também não. Pista falsa. Hora de voltar para vida normal.
Deu dois passos se afastando, mas seus instintos o mandavam voltar. Ele odiava sentir isso. Não seria difícil abrir aqueles cadeados. O canivete suíço ajudaria.
Voltou e abriu.
O lugar era muito melhor por dentro. Alguém tinha trabalhado duro ali. Mesas, uma cadeira, iluminação que ele acionou. Equipamentos para experiências químicas estavam numa estação de trabalho. Alguns deles possivelmente bem caros. Soro, seringas, agulhas e um microscópio em outra. Droga! Ele odiava estar certo.
Foi quando o mural na frente dele se revelou e agitando suas entranhas. Era bizarro, inacreditável e lindo. Dezenas das tatuagens dela estava reproduzida ali, organizadas numa linha do tempo que reproduzia as datas das ocorrências levantadas por Ana. E era muito mais extensa, retrocedendo no tempo como Patterson arriscou que poderia ter acontecido. Também avançava com projetos futuros.
Seus olhos se desprenderam das provas enquanto seu coração viajava pelas reproduções das tatuagens. Cada linha que ele acariciou e beijou estava desenhadas com traços marcantes que ele conhecia perfeitamente. Só uma pessoa podia desenhava assim: Jane!
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