Lost

21 É estranho acordar


Notas iniciais
- Oi! Demorei? E vocês, desapareceram? Está massante? Estou preocupada, mas sei lá, cara... Já sei o que fazer com os dois, mas não acho que as coisas devam acabar assim para Jane. Fácil demais. Help. É isso! Sem ideias de músicas, rs.

Um lugar que estava em pleno caos. E as luzes piscavam. Instáveis, elas não se decidiam se queimavam ou se lutavam para continuar acesas. O silêncio era maluco. Não se pode ouvir silêncio, mas eu o sentia. E ele era absolutamente espesso. O chão estava se fundindo e eu caía. Eu caía mas não havia nenhum fundo. E rostos começavam a aparecer na minha frente. Mãe, pai, Brian. E então ouvia-se um estalido e eles desapareciam. E eu continuava a cair.

Uma risada malvada era a trilha sonora daquele filme. Sentia-se loucura nela. E eu não queria continuar a cair. Por favor, vamos logo com isso! Mas nada acontecia. Um baque, mas eu não havia atingido o solo. Outro baque. Alguém chama meu nome. Tem alguém mirando meu coração. Sua cara de espanto é visível quando tudo se dissolve.

Tudo dói e eu abro os olhos. Imediatamente eu gostaria de não tê-los aberto. Eu só me lembro de estar caindo no sonho. E me era completamente sem sentido, mas eu preferia ficar presa nele a ter que encarar a realidade.

Eu fechei os olhos, mas não rapidamente suficiente para que não me notassem. Tentei me virar. Eu queria dormir para sempre. Eu sei que a experiência de dormir mais do que o normal não é das mais agradáveis, eu lembro disso – só disso.

– Em... – Ele não me chamou de “Em” propositalmente. Só não conseguiu terminar de falar. – Tudo bem?

Ahm, é, tudo bem. Tudo vai ótimo, eu apenas tirei um cochilo depois de uma cansativa rotina normal. Mas eu não falei nada. Ele era legal, eu não. E não iria magoá-lo com as minhas baboseiras. Desejei nunca tê-lo conhecido. Tudo iria ser tão mais fácil, tão mais simples. Tudo seria menos complicado se o acidente forjado tivesse saído como planejado.

Quer dizer, o que fazer depois que tudo isso acontece? O que dizer? Eu queria ter levado uma pedrada na cabeça. Eu já não queria me lembrar de mais nada. Queria me trancar, inerte, em um casulo e não precisar mais fazer nada. Porque eu não sei por onde começar.

Mas o mundo não gira ao redor de determinada pessoa, muito menos de alguém tão insignificante quanto eu. Então os meus desejos claramente não foram atendidos e eu tinha que aceitar o fato.

– Srta. Harrison? Como se sente? – perguntou uma enfermeira. Eu apoiei-me nos cotovelos e balancei a cabeça, dei um leve suspiro e respondi:

– Me sinto OK.

– Bom, além de todos esses cortes, que, hm, não foram assim tão graves, você está com alguns pequenos problemas de saúde.

– Hein? – interveio Brian.

– Eu esqueci de lhe dizer, rapaz... Ah... Anemia... – Ela olhou a prancheta. – Alguns probleminhas no estômago, falta de várias vitaminas... Precisa se alimentar melhor e estará bem de fato.

– Tá. Algum remédio? – perguntou Brian novamente. Estava concentrado nela, não notou que eu o encarava.

Eu realmente não vi necessidade de continuar prestando atenção em qualquer uma dessas coisas, então optei por me concentrar em minha mente. Má ideia. Os pensamentos são tantos que me deixavam visivelmente louca. Mas achei melhor. Brian chamou um táxi. Eu via o vulto de Londres enquanto o táxi corria bruscamente. Por algumas vezes Brian tentou falar comigo. Falar o quê? Fazer o quê? Eu pensei que estava o mais confusa possível quando acordei no hospital ano passado. Eu estava tremendamente enganada.

Quando eu fui tentar refletir sobre tudo o que havia acontecido me vieram flashbacks na cabeça. Eu estava bem até me lembrar dos meus pais. Aquela doida os havia matado. Por motivos tão ridículos, tão idiotas. Eu não sabia se ela estava dentro da linha que separava os psicopatas ou fora dela, no lado dos insanos, quando cometia aquilo. É meio maluco pensar sobre os... Ahm... É. Muito mesmo.

E como uma pessoa que quase foi morta por sua tia doida deveria estar? Eu deveria chorar compulsivamente no ombro do Brian enquanto ele murmurava que me amava e que tudo estava bem? Eu continuei olhando para a janela. Eu me sentia patética porque eu tinha ficado ali esperando morrer, sem tentar qualquer coisa, sem ao menos ter a esperança de tentar – porque, bom, eu não conseguiria nada, mas... Eu não tinha feito nada digno. Eu era a princesinha tola que esperava por seu príncipe encantado estúpido. Não gosto nada dessa posição.

...

Estava sentada no sofá abraçando os joelhos, mas acho que minha expressão devia estar até calma. Brian estava tamborilando os dedos na parede onde estava encostado, olhando pra mim. Eu simplesmente dei um sorriso fraco e cheio de ironia. Eu devia ser legal, oh, eu sei. Mas sou eu e... Não, não é uma possibilidade. Eu já banquei a idiota uma vez, eu espero mesmo que ele tenha morrido de raiva, ele merece. Estou sendo idiota de novo, eu não sei ser outra coisa!

– Eu dei o depoimento e... Bom, você deve dar também – ele disse, quebrando o silêncio. Balancei a cabeça lentamente. – Está com fome? – Dei de ombros. – Então será assim? – Eu levantei os olhos para encara-los, mas isso era muito complexo pra mim, principalmente agora.

– Hmm – murmurei e me levantei e ia passando pelo corredor que levava ao único quarto do pequeno apartamento. Ele segurou minha mão. Não olharei em seus olhos, não olharei... Uma pequena espiada. Eles estavam repletos de dor. – Me desculpe. – Não saiu som algum da minha boca.

Eu precisava ir logo. Não podia haver brecha alguma. Ele tinha aproximado seu rosto do meu e eu estava quase a ceder. E seu nariz tocava o meu, uma melancolia me invadia pra caramba. Eu soltei sua mão e corri para o quarto.

Deitei na cama e fiquei encarando o teto por bastante tempo. Uma brisa fresca entrava para a janela. Eu veria a primavera, então. Eu gostaria de ter uma roca, eu gostaria de ser Bela Adormecida. Dormir por cem anos. Um cochilo eterno sem sonhos e perturbações. E sem nenhum príncipe para me acordar. Nesses momentos as frases que invadem sua cabeça são repletas de inícios do tipo “E se...”. E se eu tivesse morrido atropelada? Bom, tudo seria mais simples. Porque nada haveria pra mim. Descomplicado. Uma acovardada que foge das complexidades que existem na vida. Eu vivo fugindo. Perdida e fugindo por aí.

Eu só queria adormecer, mas seu cérebro não parava de trabalhar. Adormecer para nunca mais abrir os olhos. É tão estranho acordar.

(É melancolia demais para uma pessoa só).