Lost
11 Quieto demais
Notas iniciais
Foi uma sensação muito estranha acordar ali, no sofá, sabendo que bem pertinho de mim Brian dormia. E em sono pesado, pelo visto. O som da sua respiração era calmo. Me levantei e me estiquei. A cama dele era mais confortável. Fiquei me perguntando: como o dia mais tenso da minha vida pôde ser também o melhor?
O frio se intensificava, daqui há poucos dias seria Natal. Nada acontecia. Se não fosse por aquilo, a prova de que tudo era real, eu ainda tentaria acreditar na proposta dos trotes. Mas estava quieto demais. Nem mais uma ameaça ou coisa do tipo. Eu quase tive esperança de que viveria assim pra sempre. Mas é claro, eu não era iludida.
Depois de um tempo Brian se questionou porque não levou o cara para a polícia, mas eu disse que eles não iriam ser pegos de qualquer forma. Concluímos que era o ajudante dela. Tentei gravar seu rosto feio em minha mente porque, vai que ajuda em algo certo tempo.
Brian abriu mão de passar o Natal com a sua família para me fazer companhia. Ele sabia que seria estranho e suspeito se eu aparecesse ali com ele. Bom, ele poderia mentir "É uma namorada", o que seria um misto de verdades e mentiras. Mas ele andava muito inseguro, mandou colocar diversas trancas na porta, inclusive na do quarto.
O Natal foi bem legal. Eu e ele, pizza e aqueles doces natalinos tradicionais, filmes e presentinhos. Eu não tinha nada, então peguei um papel e um lápis e tentei fazer alguma coisa, constatar se eu realmente tinha esta habilidade. Ficou bonzinho. Fiz um desenho dele dormindo. Ele me deu uma camiseta com os dizeres "Grey is my favorite color" de cor cinza. Uma bela indireta, a cor dos olhos dele. Comecei a forçar uma risada cínica (pra ele notar mesmo) e depois bati nele.
Depois que o clima de festas passou e se iniciou um novo ano ele pensou que, mesmo estando tudo aparentemente calmo, devíamos fazer algo. Nos preparar. Principalmente eu, ele dissera. Porque ela tem planos. Os planos não são pra agora, talvez, mas eles existem SIM. Então ele contratou um professor de defesa pessoal e me deu uma faquinha estranha que parecia muito com uma adaga.
– E como essa droga vai salvar minha vida? — brinquei, observando-a e passando a lâmina de leve na mão.
– Ah, sei lá, você pode furar o olho do careca se ele vier te fazer algo. Isso, claro, se eu não tiver agido antes — respondeu rindo.
As aulas eram divertidas, eu estava aprendendo algo, realmente. E a sensação de não se sentir uma fraca era bem massa. E eu acho que a Emma criança — pelo que me contou tantas vezes — não se permitiria pensar em si mesma como uma pessoa fraca. O professor era um cara só um pouco mais velho que o Wood, que tinha 19. Eu estava tentando dar uma chave de braço no Brian mas era complicado por causa da diferença de altura. Então ele me imobilizou e eu tentei chuta-lo para me soltar. O professor só observava a palhaçada. Eu escorreguei e caí no chão, rindo.
– Isso é jogo sujo, viu, Wood? Eu estou praticando, não me atrapalhe — briguei. Me levantei e passei os braços por seu pescoço, fingindo tentar algum golpe. Como se aquele cara, o James, nem estivesse presente, beijei-o. Beijei-o com toda a empolgação, mas muito suavemente. Ele me abraçou e só paramos quando James pigarreou. Eu me virei para ele assustada e com vergonha. Aqueles momentos de coragem duram pouco. Notei que Brian estava com o rosto e principalmente as orelhas avermelhadas, como se fosse uma criancinha. Ele fez careta e se alongou para disfarçar. — Qual é a próxima coisa, James...?
– Ah, claro — concordou, apressando-se em mostrar-nos. Olhei para Brian de soslaio e começamos a rir baixinho.
...
Era dia 17 de janeiro, dizia o calendário pregado na geladeira. Eu tinha rabiscado várias carinhas felizes com caneta roxa em meus momentos de bom humor. Abri-a e peguei refrigerante. Estava vestida com um casaco jeans, uma calça e a camiseta que ganhei de natal. O cabelo liso e loiro-escuro, porém muito embaraçado, preso em um rabo de cavalo de qualquer jeito. Me encaminhei para a sala onde estava Brian com o notebook pesquisando algumas coisas. Ele tinha iniciado a pesquisa quando pensou que deveria agir, mas sem muito sucesso.
– Algo? — questionei, entregando uma lata de coca pra ele. Ele negou com a cabeça, ainda concentrado. Me sentei e comecei a chacoalhar os pés, nervosa. Meu pé atritou com alguma coisa no chão. Me abaixei para ver o que era. Um pacote como os que entregam encomendas. Coloquei-o em cima da mesa de centro. — Brian, isso é algo seu?
– Não... Não me lembro disso — respondeu, pegando o pacote. Ele abriu e colocou o conteúdo em cima da mesa. Um, aparentemente, álbum de fotos, e um pacote de presente. — Da onde surgiu isso? — perguntou e nos entreolhamos com preocupação.
Comecei a olhar o álbum. Tinha fotos de uma criança e sua família, me era familiar... É claro que me era familiar! Era eu. Então aqueles deviam ser meus pais. A mulher ruiva com feições semelhantes à minha era a mesma do desenho. Comecei a olhar as fotos, surpresa, um sentimento de melancolia e tristeza me invadia. Mas Brian ainda estava intrigado. Ele passou para a última página que me assustou muito. Nos entreolhamos novamente. Era uma foto minha e de Brian no Natal. Mas não tiramos foto alguma! Quem... Como... Quem, era óbvio quem. Mas como e por quê?!
– Ela... Droga... Trancas! — resmungou. Ele tirou a foto e um pedaço de papel caiu. Outro daqueles bilhetes ridículos. — "Lindo casal, pena que vou ter que estragar essa medíocre história de amor adolescente". — A mesma caligrafia rabiscada que aparentava ter sido escrita por alguém que tremia.
– Deixa eu ver o pacote — disse, de forma autoritária. Ele me deu um pequeno embrulho com papel de presente rosa de ursinhos. Abri-o. Tirei de dentro um casaco, parecido com o que usei quando saí do hospital. Só que ele era branco. Branco e com manchas de sangue seco por todos os lados. Comecei a fraquejar só de supor de quem seria aquele casaco. — Ela... Ela está nos espionando Brian. Como?! Como ela está fazendo isso? Arrr!
– Calma, vamos dar um jeito nisso — sussurrou, a preocupação entalada em sua garganta. — Quem...? — Ele pegou seu celular que tocava. — Não... não pode...
– Atende! — berrei. Ele atendeu e colocou no viva-voz. Deixamos que a pessoa que ligou falasse, apenas se ouvia o som de nossas respirações agitadas.
– Tão bonitinho você tentando me impedir. Uma garotinha, me impedir! — Ouviu-se então uma risada espalhafatosa do outro lado da linha. — Eu sei que deve estar enfezada, imagina eu como não estou! Mas em breve, querida, em breve eu acabarei com a sua chateação — e com isso desligou.
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