Lost

22 O silêncio assusta


Notas iniciais
- Hey, se existe alguém aqui. Que tal Pressure (PARAMORE)? Tá quase no fim... quase... Conversando com uma amiga/leitora eu tive umas ideias para o final muahahah'. Comentem?! ;-;

Eu estava pedindo isso. Eu tinha que lidar com as consequências. “Eu, eu, eu”. Parece que dentre dez palavras nos meus pensamentos, oito são referentes a mim, porque eu só penso em mim. É muito egocentrismo pra uma pessoa só. Eu estava trancafiada no quarto, como sempre. E não troquei mais nenhuma palavra com Wood. Ele vinha me oferecer comida, me empurrava-a, na verdade. Eu apenas ficava remexendo nela, seguindo com meu melodrama.

Mas não há nenhum livro de autoajuda para esse tipo de coisa. Eu fico aqui refletindo também, como pôde ser tão fácil. Tão rápido. Eu pensava que, pelo que ela fez no passado, e pelo que estava fazendo, que seria algo muito mais complexo... Um reles pedregulho nos salvou disto? Eu pensava que, se ela perdesse esse jogo – mentira, eu nunca pensei na possibilidade -, ao menos perderia com um pouco de dignidade. Que fosse presa, mas me matasse. Afinal, por que estava pensando esse tipo de coisa? Melhor nem responder, vou acabar sendo mais chata e repetitiva.

Ouvia passos inquietos na sala. Era tão irritante a sua insistência. Eu pensei que abrir mão de raciocinar um pouquinho faria bem. Fez? Fez. Mas agora eu não consigo ser mais sentimental que racional. Porque isso se torna um empecilho, eu nunca conseguirei fazer com que dê certo. É melhor que eu seja racional e abra mão dos meus sentimentos. O fim é certo: Brian se dará mal. Ele vai ficar chateado agora, mas um dia ele esquece. Eu só quero logo arranjar um destino e deixa-lo, por mais que as suposições doam. Pra quê adiar o inevitável?

– Você devia parar de se fechar – sussurrou alguém junto à porta. Revirei os olhos e fingi dormir. – Nos dois sentidos.

– Ou você devia aceitar quando o jogo está perdido.

– Jogo? – questionou, e tentou abrir a porta, mas ela estava trancada. Eu me levantei, destranquei-a e me deitei de novo. – Do que é que está falando?

– Sua persistência é irritante – resmunguei.

– Mas o qu... – começou. – Olha, você pode parar de me insultar um instante e abrir de uma vez esse jogo?

Eu sorri. Ele franziu o cenho, um leve sinal de irritação. Suspirei e continuei a propagar o silêncio naquele cômodo. Ele tinha dito que era pra parar de insulta-lo. Que seja assim.

– Você... – ele começou, bufou, revirou os olhos e tentou uma expressão mais suave. Estava meio rígido e seus punhos fechados.

– O que? Sou idiota? – Comecei a rir da cara dele, e mais ainda da sua cara de irritado. – Ah, Brian, isso é tão na cara. Mas você é mais ainda. Por que não largou mão logo? Se eu sou tão idiota eu não farei bem pra você. Isso não é uma questão e sim uma afirmação.

– Enfim... – disse com a voz baixa. Ele sorriu. Um sorriso sinceramente triste e fez um meneio com a cabeça, pra dizer que concordava. – Tem comida na cozinha.

E depois que ele saiu eu desabei. Eu achava que isso era necessário. Mas faz com que eu sinta meu peito doer como se martelos estivessem pregando diversos pregos no meu coração; e minha barriga dói como se um animal enorme estivesse dentro dela tentando se libertar. E algumas lágrimas caíram. Depois quem caiu fui eu, no sono. E fiquei imersa nele por um bom tempo.

Apareceram uns policiais aqui pra que eu desse depoimento. Foi maçante e frustrante. Acho que para eles também. Foi meio difícil, eu ficava me esquecendo do que falar toda a hora e não respondia compreensivelmente as suas perguntas. Em um momento um deles se irritou um pouquinho, mas o outro balançou a cabeça dizendo que parasse e deu uma piscadela. Eu fiquei apenas observando aquele negócio estranho, esperando que acabasse logo.

E com o passar dos dias eu tentava achar um jeito de sair dali. E o silêncio reinava. Eu não usava mais a boca para falar. Somente comia e bebia água. E suspirava. E as minhas decisões com certeza são errôneas, sempre são. Mas eu não vejo outra saída. Não tem luz para clarear minhas ideias. E talvez a escolha esteja sendo ignorante.

Eu nunca quis tanto ouvir a sua voz... Mas não posso deixar que saiba disso.

Depois de mais de uma semana de quietude – e aquilo estava quase me levando à loucura – eu resolvi sair. Novamente vesti as minhas roupas velhas, peguei a bolsa, o desenho, o caderninho e guardei a blusa que tinha ganhado. Eu deixei da última vez porque não queria nada dele, mas bom, não é dele... não exatamente.

E fiquei vagando pela cidade. Disseram que eu poderia voltar para o orfanato e esperar lá até completar dezoito. Mas seria estranho demais. Eles me deram acesso à conta que eu só teria quando chegasse à maioridade. Mas diante das circunstâncias, quem daria importância? Então me hospedei em um hotel pequenininho e barrela para pensar sobre o que faria daqui pra frente.

Os pensamentos suspeitos sobre tudo estar sendo estranhamente fácil – não no sentido geral – ainda invadiam a minha mente de vez em quando. Mas eu estava presa mesma a minha melancolia que provavelmente seria constante até que eu pudesse arranjar algo com que ocupar minha mente. Comecei a pensar se estudaria algo, e o quê, e que deveria arranjar um emprego... E em lugares para morar. Até estava dando certo, mas sempre há as recaídas.

Quando havia coisas do tipo, eu me agarrava à camiseta cinza e ficava respirando calmamente até que passasse. E imaginava como ele estaria reagindo. Eu esperava pra caramba que ele superasse e começasse a levar pra frente. Mas de vez em quando eu ficava incomodada imaginando-o logo com uma namoradinha nova, tocando a vida, enquanto eu ainda estava mergulhada nesse silêncio assustador e deprimente. Tão egoísta. Ele tinha que ser feliz. Mas eu desejava que a felicidade dele também fosse a minha.