Lost

26 31 de novembro


Notas iniciais
- Parece que eu meio que prevejo o futuro, já que em 31 de novembro de 2013 as coisas acontecem, e agora é dois anos depois... oh :B Beijos, seus sumidos ç.ç

Eu ainda ando por aí com aquele bilhete no bolso em todo o lugar que eu vou. Se o meu presente não me satisfaz, eu acabo por procurar lembranças legais no passado, por mais conturbadas que possam ser. E eu sei que é coisa de idiota viver absorta no que já aconteceu. Mas não tenho pique para fazer as coisas acontecerem, e o destino também não – é o que parece.

Já é dia 31 de novembro. 31 de novembro dois anos depois. Essa data eu nunca esquecerei. Foi quando minha vida ficou uma bagunça total. Mas partes dela eu gostaria de manter. Eu não posso ter tudo o que quero.

Tudo resolvido. Não aparentemente, de verdade. Jane está morta. O fez depois de mim. Eu não desejaria isso a ela, mas aconteceu. Eu não pude fazer algo. Eu acho que é isso o que a insanidade faz. Leva pessoas a cometerem atos horríveis, dando toda força a elas para não desistirem. Depois de cometidos, ela tira essa coragem e a pessoa, com medo, não veem saídas...

Eu continuo pensando que finais felizes não existem de fato. Mas algumas coisas podem acabar melhores do que imaginamos, sim. No final eu sou a mestre das pessoas que vivem se safando. E toda a vez que penso que vou morrer isso não acontece. A minha persistência para viver é maluca. Eu já estava fora de mim quando a ambulância chegara. O taxista desconfiado retornou ali um pouco depois e se deparou com o que acontecera...

Eu diria que era sorte, mas não, eu também não acredito em sorte. Talvez em destino. Bom, ele é bonzinho comigo. Nem compreendo para quê me manter aqui. Mas não desejo morrer. Minha vida está se desenrolando bem. Eu posso não estar no ápice da minha felicidade, mas há um pouco dela aqui no meu coração, porque estou ajudando os outros.

Eu vendi a casa. Até gostaria de continuar com ela se não soubesse de coisas, se tantas lembranças ruins não pairassem por ali. Comprei um apartamento legal e guardei o restante do dinheiro na poupança junto com minha herança. Utilizava-o para pagar a faculdade, apenas. Resolvi fazer faculdade de música. Arranjei um emprego de meio expediente na lanchonete de Luce – ela tinha abandonado a hotelaria para lidar com guloseimas, e parece que as pessoas gostaram mais da ideia. Aos sábados dava aulas voluntárias de piano no orfanato no qual morei por muito tempo.

Abri a porta do apartamento. Uma sexta-feira cansativa. Eu queria chegar e cair na cama. Tirei as roupas que apertavam meu corpo – eu as odeio – e coloquei um pijama quentinho. Estava perto de completar dezenove anos, mas me vestia como se tivesse dez em casa. Quem se importa? Era de noite, não estou a fim de janta. Peguei uma tigela de cerâmica e comecei a colocar todo o tipo de coisa doce dentro dela: sorvete de morango, creme de avelã, bolinhas de chocolate, calda de caramelo, jujubas e cereal de milho açucarado.

Me sentei em frente à TV enquanto comia. Tentei procurar algo bom para assistir e estava a passar um filme de comédia. Eles não me fazem rir muito, mas deixei ali e comecei a me concentrar em devorar aquela bomba de açúcar e carboidratos. Porque na sexta à noite é isso que jovens de quase dezenove anos fazem: assistem filmes com seus pijamas infantis e tomam sorvete.

...

Vesti aquela blusa (nostalgia) e um casaco por cima. Coloquei um cachecol. O inverno se aproxima. Ainda calço os mesmos tênis. Meus cabelos estão indomáveis, mas não ligo. Comi uma fruta e peguei a minha bolsa para ir até o orfanato. Fui de ônibus porque não tenho interesse em dirigir agora e aprecio a viagem.

Estava ouvindo uma música que conheci há dois anos atrás, mais ou menos. Sim, sim... E como eu superei, eu não sei. A verdade é que quando é verdadeiro, não se supera. Se lida. E eu somente lido com a dor, mas não sei se um dia a superarei. A nostalgia é parte integrante de tudo isso. Quase passei de onde deveria descer. Ao entrar no lugar, uma menininha morena com cachinhos castanhos simpáticos me abraça.

– Tia Em, estava ansiosa – ela disse enquanto corria para o piano. E era muito engraçado ouvir as crianças me chamando de “Tia”. Não sei se acostumo.

Oh, não. Eu tenho de me acostumar. Não tenho a mínima esperança de encontrar alguém e vou virar uma titia – não tia verdadeira, mas... Dou risada com esse pensamento. Risada da própria desgraça é meio triste. Não há tempo para pensar em relacionamentos amorosos, devo começar a aula...

Estava ensinando a três meninas e dois meninos que se interessaram. Um dos garotos já tinha quatorze anos, e fiquei meio mal por ele – é mais complicado estar em um orfanato quando se tem tal idade. Ele estava pegando bem, estava muito interessado. Notava sempre que depois das aulas ele ficava observando de longe uma menina. Suponho que gostaria de aprender muito bem uma música para tocar para ela. É inevitável suspirar quando o vejo.

Um casal entrou e foi conversar com a atendente/secretária/e muitas outras coisas. Ela era um doce de pessoa e multifuncional ainda por cima. Ela era loira — mais do que eu, mas a raiz do cabelo era escura — e estava com um braço deixado despojadamente em cima do ombro dele. O topo da cabeça era meio parecido com o de Brian, o que me fez ficar triste por um instante. Ouvi vagamente o que falavam. O rapaz movimentou a cabeça para o lado.

– Estão tendo aulas de piano agora? – perguntou, interessado. Concentrava-me no aluno e no piano. – Lembro que quando eu estava aqui alguém gostava de piano... – Sua voz era triste. De canto de olho notei a garota ao lado dele apertar seu ombro, consolando-o.

Senti a mão do garoto, Adam, em meu ombro esquerdo. Será que ele notou que estava preocupada? Sorri para ele e tirei de dentro do casaco jeans o bilhete.

“Ei...

Saiba que eu te odeio por tudo o que aconteceu. Por ter sido tão idiota. Por não seguir seu coração. Por me deixar. E te odeio por fazer com que parte de mim morresse. E porque você vive quase morrendo e isso é uma droga. Mas sabe o que mais odeio? Odeio amar tanto você.

Aonde estiver, aonde for

Wood.”

Olhei para o cara que agora estava totalmente visível. Seria ele? Mas estava com uma barba por fazer... E estava um tantinho diferente. E quem seria sua nova namorada? Me senti enraivecida por um segundo e olhei novamente para o bilhete. Tomei cuidado para fechar a boca, assim ele não notava o que se pensava em minha mente. Eu não queria esse reencontro, ainda mais nessas circunstâncias. Conseguiu se dar bem melhor que eu. Mas ia adotar uma criança? Era novo demais... Não era possível que tenha casado, nem vinte e cinco anos ele tem. Tentei ficar feliz porque ele seguiu com a vida dele, mas era complicado.

– Em... – Suspirou, me olhando com os olhos acinzentados e arregalados.

Por que sempre que a ferida cicatriza algo acontece e a abre novamente?