Losses And Achievements
3 Capítulo 3
Ao chegarem em casa, a primeira coisa que Bella fez foi colocar leite na tigela de Sarah cuidadosamente. Ela esperou que a gata viesse tomar o leite, mas nada de Sarah aparecer. O coração de Bella palpitou com um mau pressentimento. Ela chamou o nome da gata insegura várias vezes, subiu os degraus da escada correndo na ponta dos pés e entrou em seu quarto. Ligou a luz e percorreu os olhos pelos cantos e lugares possíveis onde a gata poderia ter se escondido. Vasculhou todo o quarto, embaixo da cama, no banheiro, na varanda e nada. Revistou toda a casa, nada de Sarah.
-Oh, meu Deus! –Bella juntou as sobrancelhas com o coração apertado.
-O que houve Bella? –Seu irmão perguntou. O pai dos dois não estava em casa.
-A Sarah não está em nenhum lugar aqui! –Bella respondeu desesperadamente.
-Acalme-se, você vai encontrá-la. –Paul pousou o braço no ombro da irmã, falando a frase com tanta segurança e despreocupação que parecia saber de tudo.
-Você não sabe como ela é importante para mim... Eu já perdi duas pessoas especiais e únicas na minha vida, não quero perder mais outras também. –Ela respondeu, colocando as mãos na cara, cobrindo seu rosto, chamando-se de inútil mentalmente.
-Quer que eu ajude a encontrá-la? –Paul perguntou calmamente. Bella assentiu com a cabeça, limpando suas lágrimas e engolindo-as.
Um nó invadia a garganta de Bella, ela apenas seguia para onde seu irmão ia.
Ela entrou na sala de estar e preferiu não acreditar no que os olhos estavam vendo. Mas com certeza era real, seu coração palpitou de dor.
-Não... Não! Você não, por favor. –Bella caminhou até a gata e se derramou em lágrimas. Os olhos de Bella estavam abundantes de lágrimas de dor e de culpa, apesar de que a culpada não seja ela e sim alguém muito, muito cruel que faz de tudo para vê-la machucada, para vê-la sofrer.
Bella afagou o dedo na orelha da gata, que estava com os olhos petrificados e o corpo paralisado, não movendo um único músculo. Bella sentiu a falta de ouvi-la ronronar. Derramou as lágrimas sob a gata.
-Lamento. –Paul disse calmamente, abandonando a sala e deixando a irmã com a gata. Bella pegou sua gata no colo como se fosse um bebê, afundou o rosto no pêlo dela e o deixou molhado com suas lágrimas.
-Sinto muito por não ter chego a tempo de impedir de te matarem, Sarah. Eu sinto a sua falta. Desculpe-me se eu não te dei o que você precisou, mas eu tentei ser a melhor para você. Eu só queria te acariciar e ouvir seu ronronado, sabendo que essa seria a última vez. Você não sabe a dor e a falta que estou sentindo de você, minha gata. Se você está em algum lugar, espero que esteja me ouvindo, eu te amo.
Bella abriu a tampa do piano de cauda preto, um pouco empoeirado. Colocou o papel que havia a cifra de uma música e martelou as teclas do piano tristemente. Abaixou a cabeça, deixou os cabelos cobrirem seu rosto e caiu em lágrimas.
Ela queria a mãe, o Vini, ou a gata para abraçar e consolá-la. Três seres vivos que ela assume que perdeu, mas não os esquece e ainda mais uma que perdeu.
Seu coração estava apertado, rasgava sua alma, como uma pedra que se quebra com o tempo.
E ela ainda vai perder mais pessoas que ela ama? Essa pergunta latejava em sua cabeça. Será que a pessoa que matou as três pessoas e, talvez, matará mais é a mesma?
Silêncio absoluto naquela sala mal iluminada, com a persiana ainda fechada, com os raios de sol penetrando pelas frestas da persiana. Bella ouviu o pai entrando em casa, dando ‘’oi’’ para o seu irmão e procurando-a. Ela ainda estava com a cabeça baixa, só viu os sapatos pretos lustrados do pai aparecendo no piso da sala.
-Aconteceu alguma coisa, Bella? –O pai perguntou estranhando ver a filha chorando. Ela realmente nunca chorou na frente do pai. Bella não respondeu. O pai caminhou até perto da filha, observando a sala para ver se tinha algo errado. Ele só ouvia gemidos e suspiros vindos de Bella. Foi ai que viu a gata naquele estado, como uma estátua. Aproximou-se de Sarah morta sem entender nada, tocou várias vezes na gata e formou uma expressão facial de espanto.
-Está vendo agora? –Bella perguntou a ele com a voz enfraquecida.
-Não pode ser... –Ele levou a mão à boca que formava um ‘’o’’. –Foi você, Bella?
-Não! –Ela respondeu entre soluços. –Paul me ajudou a procurá-la e encontrei-a assim. Diga-me que não é verdade, pai...
-Eu não posso fazer nada, Bella, sinto muito mesmo. Só posso enterrá-la.
-NÃO! –Ela respondeu desesperadamente.
-Quer vê-la virando cinzas?
-Não... –Bella viu que não tinha outra saída mesmo.
-Eu deixo você visitá-la na clínica veterinária quantas vezes quiser. –O pai falou gentilmente. Ela assentiu com a cabeça, mas no fundo só iria doer mais vê-la várias vezes.
-Eu não sei por que as pessoas são tão frias e calculistas. –Bella resmungou tristemente.
-Não faça drama, Bella. No mundo, há pessoas boas e más. Essa é a realidade e não podemos mudar.
-Então, eu não posso confiar nem em você, nem no Paul? Um dia vocês irão me trair e me deixar de lado? –Ela perguntou insegura com dor no peito. O pai não respondeu, as lágrimas calaram a resposta do homem.
-Quer ir à clínica veterinária comigo? –Ele perguntou, segurando a gata no colo. Bella passou os dedos delicadamente na cabeça de Sarah, pegou-a no colo e olhou-a com carinho e amor. Abraçou-a fortemente.
-Eu te amo, Sarah. –Ela falou consciente de que aquela seria a última vez que ela poderia falar aquilo. –E eu vou continuar te amando. Seu corpo morreu, mas sua alma ainda vive no meu coração para sempre, gata. –Dizendo as últimas palavras, Bella fechou os olhos preferindo não ver a gata partindo e entregou-a no colo do seu pai. Ela sabia que nunca mais iria ver a gata, por mais que tivesse chances de vê-la, ela não iria, porque não adianta ficar vendo um corpo abandonado. Só adianta senti-la dentro do coração.
Bella deixou a sala de estar, foi caminhando em passos rápidos até o seu quarto. Sentiu a falta de ter a gata pulando em seu colo. Trancou a porta, como sempre, se jogou na cama com força e ficou mirando os olhos cor de mel para a parede branca como o pêlo da gata. Novamente lágrimas caíram do canto dos olhos dela, morrendo no travesseiro.
O que ela podia fazer para impedir a pessoa que estava matando-a por dentro aos poucos de parar, sendo que ela nem sabia quem é?
‘’ No mundo, há pessoas boas e más’’, Bella ouviu as palavras de seu pai na mente. E se as que se passam de boas fossem más? Mas quem... Quem podia ser essa pessoa?
Bella teclou o número que já sabia de cor, de tantas vezes que havia discado, para emergências, ou para acontecimentos bons...
-Oi, Bell... –Bella reconfortou-se ao ouvir a voz suave do outro lado da linha.
-Oi, Amy.
-E ai, o que houve dessa vez? –Amy perguntou preocupada, como se soubesse de tudo. Sempre decifrando os pensamentos de Bella.
-Eu cheguei em casa e... –Bella começou insegura, com a voz falhada e enfraquecida. As sardas do rosto arrepiaram-se de tristeza.
-Continue. Não vou julgá-la e vou ajudar você como eu conseguir. –A amiga incentivou-a.
-E então... –Bella contou o que havia acontecido, muitas vezes tendo que parar pelos soluços e pelo nó na garganta que a sufocava.
-Eu não acredito nisso, Bell. –Amy respondeu, mas no fundo já sabia que alguma coisa ruim iria acontecer... Amy, a cheia de segredos e mistérios, como Bella, mas a diferença, é que Amy sempre se mostra sábia de tudo e sempre se passa de desinformada.
-Eu também não e eu queria que não fosse verdade. –Bella respondeu com palavras entregando o vazio que ela estava sentindo no peito.
-Eu vou ter que desligar. –Amy falou discretamente, escondendo alguma coisa, como se não conseguisse mais agüentar ouvir as palavras de dor da melhor amiga. –Eu te ajudo amanhã ou hoje mais tarde na escola. Se acontecer alguma coisa, me avisa amanhã na escola. Por favor, não falta amanhã.
Bella suspirou. –Vou tentar. –Ela falou suavemente para o nada. Amy já havia desligado o telefone.
O anoitecer chegou tão rápido que Bella nem acreditou. Passou horas, minutos e segundos com os olhos fixos para o teto, nem se deu conta do tempo passar. Chamaram-na para jantar, mas ela não tinha fome disso. Ela tinha fome de descoberta, de vingança.
E afundada sob seus pensamentos, sentimentos, emoções, adormeceu em um piscar de olhos...
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