Lose My Mind
12 Extra III: A girl, a boy and a hairpin.
Notas iniciais

Era pouco mais de oito da manhã quando a descobri.
Eu me encontrava sentado em uma desconfortável e estreita cadeira, localizada na sala de espera do colégio. Eu tinha na época meus dezesseis anos, os cabelos entre o castanho e o ruivo escuro um tanto cumpridos demais. O calor que fazia naquele país que se tornara estranho a mim depois de cinco anos não colaborava, deixando-me desconfortável.
Passei os dedos em minha nuca, sentindo o suor que se aglomerava em minha pele clara. Fiz cara de desgosto, enquanto esfregava os dedos a fim de livrar-me da sensação molhada que me tomou as pontas dos dedos. Em seguida, ajeitei meu cabelo, jogando-o como pude para trás. Minhas feições continuavam incomodadas.
– Quer um prendedor?
Ao ouvir a voz feminina, ergui meus olhos, encontrando uma jovem loira parada diante de mim, um elástico de cabelo preto seguro em seus dedos. Ela usava o uniforme do colégio que eu pretendia voltar a estudar a partir do começo do seguinte ano letivo. Pensei em perguntar-lhe o que fazia na sala da direção, mas não era problema meu, apesar de que ela não aparentava ser do tipo que causava problemas.
– Obrigado. – eu disse, por fim, aceitando a gentileza e apressando-me em prender os fios do cabelo o melhor que pude.
– Não a de quê. Posso me sentar? – ela gesticulou ao lugar vago ao meu lado, ao que ergui uma sobrancelha e rodei os olhos pelo salão vazio e cheiro de cadeiras desocupadas.
– Fique a vontade… – eu acabei por responder, apesar de que a contragosto. Eu podia até não gostar da companhia de estranhos, mas eu sabia ser educado, ainda mais com uma garota que acabou de me ser gentil.
– Eu nunca vi esse uniforme. – ela disse, logo após se sentar. – De que colégio você veio? Você é do interior?
– Na verdade, eu sou do exterior. Da Itália.
– Italiano? Você? – ela abriu um sorriso alegre – Hum, é... Pensando bem, você tem carinha de italiano.
– Obrigado, eu acho... – eu disse, incerto sobre o que lhe responder. – Mas para ser sincero, eu nunca considerei a Itália meu lar, afinal vim para cá quando era um bebê e me mudei quatro anos atrás. Minhas lembranças mais preciosas são todas daqui. – eu disse, sorrindo involuntariamente enquanto me lembrava do amigo que eu não via há tanto tempo.
Uma de minhas mãos pousou sobre meu peito, onde pude sentir o coração pulsar fervorosamente. Lembrei de seu toque, de nossa despedida e de como não pude me expressar como desejava.
– Hummm… Lembrando de algum amor da infância? – ela brincou, fazendo-me corar ainda mais do que eu já estava.
– N-Não é nada disso! – exclamei, exasperado. Eu sentia meu lábio inferior tremer, como sempre quando eu ficava ansioso.
Ela comprimiu os lábios, unindo-os, e seu sorriso desapareceu. Ela então inclinou levemente a cabeça e tudo que suas feições passaram a exprimir foi confusão
– Hum?
Sentindo-me ainda mais nervoso, virei o rosto rapidamente. Meu coração batia acelerado, forte, e eu me sentia impaciente. Se antes eu cogitava visitar Antonio antes de pegar o avião no final da tarde, agora não sei se serei capaz de ficar frente a frente ao espanhol sem tornar meus sentimentos por si completamente evidentes.
Ao sentir meu coração acelerar ainda mais e minha respiração falhar um pouco, cobri imediatamente meus lábios por uma de minhas mãos e respirei, puxando e expulsando o ar de meus pulmões com força. Só depois de repetir o procedimento pela terceira vez é que senti que eu começava enfim a me acalmar.
– Tudo bem com você? – ela perguntou, ao me ver afastar a mão da cara.
– Tudo sim. Apenas uma crise de ansiedade. Normal até, então não se preocupe.
– Foi algo que eu disse?... – ela parecia bastante preocupada e seus olhos verdes transmitiam um sincero pedido de desculpas.
– Não foi nada. Não se preocupe. – eu sorri, a fim de acalmá-la. – E o que você faz aqui? Se meteu em encrencas? – perguntei, sorrindo, desejando mais que tudo que o foco da conversa mudasse para qualquer outro assunto.
– Nem. – ela riu-se brevemente – Vim apenas para entregar uns papéis pelo professor de química.
– Entendo...
– Ah! A propósito, meu nome é Bella.
– Ah. Prazer. – respondii, surpreso com a súbita apresentação – O meu nome é…
– Lovino Vargas. – a voz forte e masculina alcançou nossos ouvidos e ambos encaramos a figura estacionada diante da porta.
Mirei a garota uma última vez e sorri a ela, em um pedido mudo de desculpas. Ela anuiu a cabeça e desejou-me boa sorte. Segui atrás do diretor, com quem conversei durante mais ou menos meia hora.
O assunto da conversa era simples: que motivos me levavam a mudar de escola no último ano de colégio, minhas notas e presença nas aulas, meu relacionamento com meus antigos colegas de classe e outras banalidades. E, para todas as suas perguntas, eu já possuía uma resposta pronta. Ou ao menos eu assim pensava.
– Então seus pais não virão com você?
– Não, senhor. Eles tem que cuidar de meu avô doente, pois minha avó faleceu e não tem ninguém mais que possa cuidar dele.
– E você tem certeza de que não quer ficar com sua família? Eu entendo que você anda tendo conflitos com seus pais e irmão, mas não acha que esse é um motivo pouco razoável?
Coçei a cabeça, sentindo-me encurralado por um momento. Ele pareceu notar isso.
– Algum problema?
Suspirei, e só então prossegui:
– Sabe... A verdade é que a minha psiquiatra disse que seria melhor eu me afastar um pouco deles. Disse que talvez eu melhore de minhas crises de ansiedade e de minha depressão… – eu acabei por dizer o que seria meu real motivo de transferência, minha voz fraca e angustiada.
O homem ficou em silêncio por um momento, enquanto eu me limitava a encarar meus dedos, que se entrelaçavam ansiosamente sobre meu colo. Eu não tinha coragem de subir o olhar, por medo de que ele me negasse adentrar o colégio por ter mentido inicialmente. Eu sentia que havia destruído todas as minhas chances.
– Muito bem. – ele disse, por fim, com um suspiro cansado. – As suas notas são boas então não vejo porque não o aceitar. Apenas tente ser mais sincero. As pessoas daqui adorarão ajudá-lo, na medida do possível.
– S-Sim, senhor! – ergui minha face rapidamente, encarando-o com um olhar esperançoso e, ao mesmo tempo, aliviado. Minha face também se encontrava bastante corada. – Desculpe-me! – eu reverenciei-o rapidamente, antes de erguer novamente minha face.
– Mas onde você pretende morar durante esse ano?
– Ah, bem… Eu estava pensando em pedir a algum dos meus amigos antigos da escola. Ou então a algum conhecido da família… Tem bastantes opções. Senão, eu posso morar sozinho. Meus pais concordaram, em último caso, já que eu sei me cuidar.
– Certo então. – ele acenou com um gesto discreto da cabeça – Bem vindo de volta ao colégio, Lovino Vargas. As aulas começarão no meio de fevereiro do ano que vem. E não se esqueça de me trazer uma lembrançinha quando vir definitivamente da Itália, okay?
Sorri ao mais velho, que sorria a mim. Eu sentia-me de repente vivo uma vez mais, e eu podia ver uma luz radiante em meu futuro. Esperança... Eu havia recuperado minha perdida esperança.
Ao que me retirei da sala do diretor, depois de um aperto de mão e mais alguns sorrisos, encontrei a loira ainda sentada no mesmo lugar. Assim que me viu, sorriu-me largamente e se aproximou. Entregou uma pasta ao diretor, que sumiu de nossas vistas no mesmo instante, e virou-se novamente a mim.
– E aí? – ela perguntou, ansiosa. – Eles te aceitaram?
– Sim. – respondi, sorrindo um pouco mais largo do que pretendia. Mas não havia nada a ser feito, eu estava feliz oras! Muito feliz!
– Que bom! Eu fico feliz por você. Vai estar em que ano?
– No último.
– Eh? Mas você não parece ter a minha idade. Pensei que fosse pro segundo... – ela respondeu, sinceramente – Bem, pelo jeito estaremos estudando juntos. Talvez até caiamos na mesma sala!
– Quem sabe... Não seria ruim.
– Não é? – ela riu novamente, alegre. Vê-la sorrir me fazia bem, e me fazia corresponder de imediato àquela alegria. – Bem, agora eu tenho que ir. Eu já perdi tempo de mais de aula…
Só então me dei conta de que era horário de aula, e de que deixei Bella plantada na sala de espera por tanto tempo.
– Desculpe! Eu devia ter te mandado ir antes.
– Não se preocupe. – ela abanou uma mão em frente ao rosto, as feições despreocupadas – Matemática é um saco, então tudo bem.
Um sorriso brotou em meus lábios antes mesmo que eu me desse conta.
– Se você diz… Ah! O seu prendedor… – ao me recordar, levei meus dedos ao cabelos, mas a garota impediu-me antes que eu o soltasse, segurando meu braço com firmeza.
– Tudo bem. É apenas um elástico. Você pode me devolver ano que vem.
Sorri uma vez mais, afastando minha mão de minha cabeça, ao que ela também soltou-me o braço.
– Certo, então. Mas não me culpe se eu esquecer.
– Pode deixar que eu vou garantir que você não esqueça. – ela buscou a bolsa e abriu a carteira, pegando um papel de lá. – Este é o meu telefone e o meu e-mail. Eu anotei enquanto você estava lá dentro. Achei que seria bom você ter algum contato aqui da escola, além dos dos professores e da administração. Qualquer coisa é só me ligar ou me mandar mensagem. Sinta-se a vontade pra falar comigo.
– Obrigado. – eu agradeci, aceitando o pequeno pedaço de papel. – Espero que nos tornemos amigos então.
– Com certeza iremos, Lovino.
Ela então se virou em direção à saída, as mãos juntas nas costas e ainda um sorriso no rosto.
– Agora eu vou indo. Nos vemos daqui há alguns meses!
– Boa aula. – acenei em sua direção.
Ela já quase partia, quando pareceu se recordar de algo.
– Ah, só uma coisa! – ela virou-se novamente em minha direção – Lovino, acho que você devia tentar cortar o seu cabelo um pouco mais curto. O clima aqui é bem cruel. Além de que, tenho certeza de que ficaria bem legal. – ela me aconselhou – Mas é só um conselho. Ignore a vontade. – ela sorriu uma última vez.
Ela então se adiantou pelo corredor, seu cabelo loiro balançando enquanto caminhava rapidamente. Fiquei a encará-la até que sumisse de vista. Levei então os dedos aos fios cumpridos, enrolando-os em caracóis.
"É, talvez não seja uma má ideia…", pensei. Até porque, eu não mais necessitaria de algo que me diferenciasse de meu irmão, já que não o veria por uns bons anos. Com sorte, sequer o veria mais...
Fale com o autor