Lorien Remains
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Quando ele entra os olhares das meninas se voltam pra ele.
–Sam. – Maggie bufa do meu lado.
Dá pra saber muito bem só pela cara dela – e de mais metade da sala – o quê eles são. Ela olha diretamente pra professora, que olha pro brigão.
– Ah, senhor Martin. – a professora repreende – Então você vai nos agraciar com o ar de sua presença? Sente-se em qualquer lugar.
Ele olha diretamente pra mim durante todo o caminho da porta até uma carteira no final da sala.
–Segunda opção? – pergunto. Eu não deveria, mas estava curioso demais pra não perguntar.
Ela assente com a cara emburrada.
–Deixa eu adivinhar. Capitão do time de futebol. Já pegou metade das animadoras de torcida. Valentão que se acha o máximo. Acertei?
–Totalmente. Conhece ele?
–Não muito, mas conheço vários assim.
–Uh. Você viaja muito?
E lá estava eu, numa conversa com uma garota que eu sequer conhecia. Duas das vozes mandavam eu dar o fora de lá, enquanto a outra mandava eu apresentar a garota pra ela.
–Hum Rum. – respondo por fim.
–É verdade? Digo, que você mora sozinho? — Rabisco um Sim no meu caderno e ela sorri. – Hum... Ei! Você é o garoto de que a Liah estava falando. Você mora na minha rua!
–Maggie, mais baixo! – a professora reclama. – Ok, todos entenderam?
Entender o quê? ELA ESTAVA EXPLICANDO?
¹Idiota.
–Pra cozinha! – ela diz e todos se levantam.
A cozinha é duas vezes maior que a sala. Tem oito pequenos espaços separados equipados com um fogão e uma geladeira. Maggie percebe minha cara de espanto e me puxa.
–Vem, — ela diz segurando meu braço — eu prestei atenção na aula.
–Maggie! – Sam nos interrompe na porta – Será que você podia me ajudar? Você prometeu, e você sabe que eu sou horrível nisso.
Posso perceber que seu sorriso é forçado quando ela aperta meu braço com raiva. Ela percebe e solta rapidamente, seguindo o brigão, que olha pra mim vitorioso. Vou pra um dos espaços.
–Hoje faremos os famosos capcakes. – a professora fala, e não me pergunte onde se encaixa o cominho de que ela perguntou – Os ingredientes estão dentro da geladeira e do armário. Pode ser qualquer sabor, único ou misturado. Mãos na massa.
Ok, eu já tinha feito isso antes, mais vezes do que gostaria de admitir.
Começo todo o processo.
Pego a batedeira, coloco o açúcar, a manteiga, os ovos e a baunilha.
Separo uma tigela com baunilha e leite e outra com farinha, fermento e sal.
Misturo coisas, bato lentamente e levo ao forno.
Quando me levanto todos ainda estão fazendo. As garotas estão no terceiro passo, enquanto Maggie e o brigão ainda estão no segundo. Sorrio ao ver o brigão com um avental rosa-chiclete em frente ao corpo.
Preparo o recheio de brigadeiro secreto numa pequena panela em cima do fogão enquanto bato a cobertura e baunilha também secreta.
Sim... A-a receita é minha.
Tiro a massa do cupcake do forno dez minutos depois, ela está exatamente no ponto, com um pouco mais de massa do que o esperado. Faço dez deles, injeto o recheio quente e ponho a cobertura.
–Cabei. – digo pondo a bandeja no balcão.
Todos olham pra mim de novo, e depois pra bandeja, e depois pra mim, e então pra bandeja.
–Oh, tudo bem. – a professora diz – Traga um aqui, por favor.
Coloco um deles num pequeno prato que estava dentro do armário e ando até a professora.
–Ainda está um pouco quente. – advirto.
Ela morde o cupcake e seus olhos brilham.
É, eu sou demais. Eu sei, eu sei, obrigado.
–Nossa! – ela fala – Eu quero a receita! – então ela olha pra classe e sussurra pra mim:
– Olha pra trás.
Os que não estão olhando pra professora ou pro seu trabalho estão encarando os meus bolinhos.
–Hum... Estão servidos? – pergunto e todos, menos o brigão, saem de seus lugares e pegam um dos que estavam, com ênfase do “avam”, na bandeja. Ando até o meu espaço e pego um dos dois últimos. – Sem fome? – ofereço pro brigão.
Ok, talvez eu goste de atrair confusão. Ok, talvez seja mais de um talvez.
Ele pega o último, um pouco receoso, e o põe de lado.
–Sky! – a professora chama – Aqui. – eu ando até ela. – Eu disse que queria a receita. É sua? Tem algum ingrediente secreto?
–Sim, mas é muito fácil de se fazer. – mostro pra ela como se faz e, quando finalmente termino, as garotas que estavam me encarando mostram seu trabalho pra professora.
Vou até a sala e pego meu livro, logo voltando pro meu espaço e lendo-o, sentado no balcão.
Estava deslizando os olhos sobre o porquê dos vírus não serem classificados com seres vivos quando alguém me interrompe.
–Você tem que me ensinar a receita.
Reconheço a voz da Maggie atrás de mim, me assustando e fazendo com que eu fechasse o livro rapidamente.
–Ah, claro – digo – Amanhã eu te...
–Você vai na festa dos Johnson? – ela interrompe.
–Vou...
–Meus pais vão me obrigar a ir, então lá você me conta. Te vejo lá.
Ela sorri e volta pro seu parceiro.
O sinal toca e eu posso escutar os “finalmentes” das garotas.
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¹Me apresenta pra Maggie? E pra Liah?
²Não vai lá, cara.
³Concordo com a dois. Fica.
Ignoro-as – o máximo possível – e visto uma roupa simples. Meu casaco por cima de uma camisa de botões e uma calça jeans preta. Celular no bolso, chaves na mão e vozes caladas. Hora de algum contato social.
Praticamente todos se calam quando eu entro no jardim dos Johnson. Apenas seis pessoas continuavam suas conversas. Liah, Zack, Maggie, o brigão e os garotos da diretoria. Os seis se movem em minha direção.
–Vem – Maggie diz puxando um dos meus braços.
–Vamos te tirar dessa – Liah completa puxando o outro, me fazendo andar de costas.
–Sky certo? – um dos garotos pergunta – Me chamo Mike. – ele estende a mão, que eu aperto. – Esse aqui é o Albert...
–Mas pode me chamar de Al – o outro interrompe.
Aperto a mão do outro enquanto uma das garotas cobre meus olhos com o capuz do meu casaco.
–Você não pode saber pra onde vamos. – Liah explica – Ainda não confiamos em você o suficiente.
Queria dizer pra ela que a trilha era óbvia, folhas amassadas em lugares limitados e o fato de existirem menos animais nesse lugar deixava claro que isso era uma passagem humana, mas imaginei que um adolescente normal não saberia disso.
–Chegamos! – Maggie exclama dois minutos de caminhada depois – Pode ver.
Ela retira meu capuz e eu tenho quase certeza que meus olhos brilharam.
A clareira é perfeita. Ela é quase que mecanicamente circular e tem uma taboa redonda de madeira exatamente no centro. Daqui eu posso perceber que é um tipo de alçapão.
Os seis andam em direção ao centro enquanto eu ainda estou hipnotizado pela visão da perfeita da lua.
–Você não vem? – Zack pergunta, me tirando do transe.
Ambos estão ao redor da taboa, separados por alguns centímetros.
Me aproximo e as meninas me puxam pra eu ficar entre elas.
¹Estranho.
²Muito.
³Demais.
Albert abre o alçapão e pega três garrafas de cerveja, uma delas vazia... Ah, não.
–Você bebe Sky? – Ele pergunta.
–Cerveja? Não.
–Então você bebe? – Liah pergunta.
Abro a boca pra falar, mas sou interrompido pelo brigão.
–Vamos? – ele coloca a garrafa vazia sobre o alçapão e gira.
–Do Sam pro Sky. – Mike explica.
É. Vai ser uma longa noite.
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