Loriakh, por terra e mar
3 A Aliança - Sangue na Adaga
Notas iniciais
Mais de duzentos selvagens, essa era a visão de um dos poucos guardas de Gallis que não estava bêbado, mas, mesmo assim, ele também não estava completamente sóbrio. Escondido nos baluartes ele tentava procurar o líder como era de costume em cada grupo de selvagens, e encontrou o gigante selvagem vestido com velhos couros e armado com as melhores armas, esse não era um líder qualquer, ele tinha a face pintada com sangue e nenhum outro selvagem olhava-o diretamente.
– Fesner, o que está fazendo? Porquê não está se preparando para a batalha com os outros soldados. — Fesner não olhou para trás pois reconhecia a voz, era Trandyil, comandante dos soldados de Gallis.
– Senhor, posso perguntar-lhe uma coisa?
– Nós temos uma batalha para vencer, se você sobreviver sem ter a língua arrancada talvez eu responda sua pergunta. — Trandyil não era um homem duro, mas naquele dia ele precisava ser.
– É importante, olhe aqui – Disse Fesner enquanto apontava para o exército inimigo. — Aquele selvagem não parece igual os líderes normais, parece que seus soldados têm medo dele.
Trandyil aproximou-se sorrateiramente e observou o homem para quem Fesner apontava. Seu rosto ficou pálido, e sem dizer uma palavra saiu em disparada para os estábulos.
– Senhor, aonde está indo? — Fesner viu Trandyil abrindo as cercas e montando o mais rápido dos cavalos do estábulo, Vento Negro. — Espere os outros soldados para batalhar, não vá sozinho! — Disse aos gritos com a esperança de que o comandante o ouvisse, mas Trandyil já estava longe demais para isso.
Fesner percebeu que ele não estava indo para a batalha, Trandyil abriu um dos portões laterais e foi rumo ao Forte Sombrio. O jovem guarda desceu da muralha e se juntou aos outros soldados que estavam se preparando para a batalha, já haviam arqueiros subindo até a única torre da fortaleza que não estava destruída, alguns conhecidos por ele, Parthos, Robert, e o melhor arqueiro da fortaleza, Jaggo.
– Onde está o comandante? — Perguntou o guarda que estava ao seu lado, seu nome era Dalion, um rapaz esguio, mas bom com a espada.
– Já deve ter atravessado a floresta. — Respondeu Fesner.
O guarda ficou assustado, como lutariam sem seu superior, eram apenas jovens soldados sem muito treinamento.
– O que? Agora mesmo ele estava no baluarte, eu vi, ele estava com você!
– Com o Vento Negro é possível que tenha chegado em Forte Sombrio.
– Ótimo, nosso comandante fugiu e levou consigo o melhor cavalo da fortaleza. – Disse Dalion com medo do que estava por vir.
– Eu não acho que tenha fugido, eu mostrei a ele o líder dos selvagens, ele ficou atormentado. Penso que foi avisar Forte Sombrio. — Forte Sombrio não era longe de Gallis, apenas alguns minutos a cavalo.
De cima da torre Jaggo, o segundo em comando, avisou sobre a batalha:
– Nosso comandante não foi encontrado. — Começou um murmúrio entre os soldados, que só parou com o grito de Jaggo pedindo silêncio. — Todos em alerta, os selvagens não estão muito longe dos portões. — Eram aproximadamente cento e cinquenta soldados, dos quais quarenta usavam arcos, a maioria pouco treinados, mas com melhores equipamentos que os selvagens.
O desembainhar de espadas começou, alguns usavam espadas nas duas mãos, outros apenas em uma, mas a maioria usava espada e escudo. Os arqueiros se alinharam junto a Jaggo, que começou a comandar:
– Os selvagens se aproximam das muralhas! Todos os arqueiros em posição. — Os soldados obedeciam as ordens imediatamente, era a primeira batalha de muitos ali.
Já era possível ouvir os gritos dos selvagens que faziam os soldados tremerem as pernas.
– Não tenham medo irmãos! São apenas animais, eles são fracos e desorganizados. Será fácil vencê-los. — As palavras de Jaggo deram um pouco de confiança aos soldados, mas essa confiança só durou até os inimigos chegarem aos portões. — Apontar; fogo! — Em meio as flechas o exército selvagem se aproximava cada vez mais.
Com machados e martelos, os selvagens batiam nos portões de madeira, batida após batida, fazendo os soldados tremerem a cada uma delas. O portão estava começando a ruir quando as batidas pararam, ouviu-se passos e em um grito ensurdecedor o portão foi atravessado por um martelo enorme, era o líder de toda a terra dos selvagens, Bardok.
Ao comando de Jaggo todos os soldados avançaram em ataque, Bardok esmagava cada um com apenas um golpe, sangue derramado de ambos os lados, os arqueiros desceram das torres e também desembainharam as espadas, Fesner desviava dos golpes de machado dos selvagens e conseguiu atravessar o coração de um com sua espada, Dalion o defendia com seu escudo que já estava se quebrando de tantos golpes que havia levado, Jaggo girava sua espada com tamanha habilidade que fazia os selvagens gritarem de dor.
Bardok levantou um dos soldados pela cabeça esmagou-o contra a parede, e ao ver Jaggo matando seu povo, enfureceu-se e foi em sua direção, mas foi interrompido pelo grito dos selvagens ao verem algo incrível, era Trandyil com centenas de cavaleiros de Forte Sombrio, montado em Vento Negro e com os estandartes da Adaga, Bardok virou-se e chamou seus soldados:
– Cridett'lo – Disse o gigante selvagem em Jahar, a língua dos selvagens.
Ao ouvirem seu líder, os selvagens correram para o lugar de onde vieram, enquanto eram perseguidos e massacrados pelos cavaleiros. Bardok agarrou um cavaleiro pela perna e o jogou ao chão, montou em seu cavalo e correu para o norte, seguido por Jaggo que apontava com seu arco, ele segurava duas flechas, uma técnica antiga que fora ensinada a Jaggo. As flechas tremiam sendo puxadas para trás, foram lançadas e ouviu-se apenas um grito estridente de Bardok.
Os cavaleiros da Adaga correram em direção ao selvagem que havia caído do cavalo e o prenderam com todas as correntes e cordas que tinham, começando pelos seus braços que possuíam uma força inacreditável e seguindo para suas pernas cujo as quais podiam esmagar qualquer um deles facilmente. O gigante se debatia em meio a terra negra e gritava palavras estranhas, mas foi calado pela pedra que Trandyil quebrou contra sua cabeça.
Fesner não conseguiu ficar calado.
– O que faremos com ele?
– Podemos interrogá-lo. — Disse Dalion. – Mas acredito que nenhum de nós saiba falar Jahar.
– Isso descobriremos na fortaleza. — Disse Fesner, com a armadura pingando sangue.
Todos estavam ajudando a puxar aquele gigante que parecia ficar mais pesado a cada passo. Ele era arrastado em meio as pedras afiadas que o cortavam e a terra que entrava em suas feridas.
– Assim ele morrerá! — Disse Fesner.
Trandyil fez um sinal para que parassem de puxar, retirou a armadura de couro do selvagem e mostrou a Fesner três símbolos, um verde, outro dourado e uma mancha negra.
– Vê isso Fesner? Esse é o símbolo do dragão negro, já ouviu falar nele?
– Minha avó costumava me contar algumas dessas lendas. Um menino de uma tribo selvagem a muito tempo foi exilado para Loren e viveu com os dragões, para provar ao rei dragão que era forte desafiou-o para uma batalha. Durou apenas alguns segundos e a foice dourada do menino atravessou seu coração. O sangue derramada pelo dragão caiu sobre o peito do garoto, que a cada dia crescia mais forte e mal.
– Parece que isso não é uma lenda meu amigo, olhe os símbolos. Uma estrela de Jahad, a terra dos selvagens, meia lua dourada, a foice da lenda e a mancha negra. Esse é Bardok, o demônio selvagem, dizem que ele matou mais de cem mil homens com as próprias mãos.
– Também dizem que o rei Taryk matou mais de cem mil homens, dizem que Beldryc tem um navio maior que dez castelos, dizem que magos moram em Domenvar, boatos e mais boatos.
– Alguns boatos podem ser verdadeiros, descubra por si mesmo.
Bardok parecia tremer levemente enquanto era arrastado, o pesado bárbaro parecia acordar.
– Olhem! Ele está abrindo os olhos – Disse um jovem cavaleiro.
Havia algo de errado, seus olhos estavam diferentes do que eram antes, não negros e profundos, agora estavam verdes como esmeraldas. Os cavaleiros se assustaram vendo aquilo, a pele do selvagem começara a esbranquiçar, seus cabelos começaram a cair, sua pele endurecia e protuberâncias se formavam em sua cabeça.
– É a maldição! — Disse Trandyil, que expressava o mesmo pavor de quando estava com Fesner no baluarte.
Os cavaleiros começavam a soltar as cordas que seguravam Bardok e fugiam para o mais longe possível. Com olhos verdes brilhantes e a pele rígida e esbranquiçada escutou-se o grito de Bardok, seus braços se transformavam em asas, uma cauda se formou de seu corpo. Seus olhos começaram a brilhar ainda mais e seus dentes estavam tortos e finos como agulhas e agora era possível ver, eram escamas.
– Fujam, ou todos morrerão! Essa é nossa última chance. — Disse Jaggo, que aparentava estar mais apavorado que Trandyil. Suas ordens logo foram obedecidas e todos se afastaram de Bardok.
Já a uma grande distância do selvagem, Fesner olhou para trás e viu que aquele não era mais Bardok. O dragão branco saltou e começou a bater as asas. No ar, rugiu tão alto que fez os cavalos dobrarem a velocidade, começou a voar para o norte e sumiu da vista de todos.
– Ele se foi? — Disse Fesner.
– Dragões nunca se vão meu amigo, eles estão sempre sobre nossas cabeças, com seus olhos sombrios e suas longas asas, sempre a espreita. — Disse Trandyil. — E agora que ele se transformou, existe apenas um guerreiro que pode matá-lo.
– O que? Quem poderia matar um dragão? — Disse Fesner.
– Ele mora longe daqui, na Cabeça do Dragão, o homem que possui armadura de ouro, e coração de couro. Vocês precisam ir até Doran, Lanzur voltou, os velhos grinários são necessários novamente.
Sem esperar segunda ordem, Jaggo, Fesner e Dalion se voluntariaram a levar a mensagem à Doran, a Cabeça do Dragão.
– Meus jovens amigos, vocês estão formando uma aliança para a estabilidade do reino, enfrentarão água, terra e fogo. Vocês tem certeza de que esse é seu destino? — Disse Trandyil.
Jaggo e Fesner concordaram, Dalion estava receoso mas logo fez o mesmo que os companheiros.
– Eu os nomeio Sir Jaggo, arqueiro da Adaga, Sir Fesner, espadachim da Adaga e Sir Dalion, escudeiro da Adaga. Agora vão, Lanzur não aguarda ordens para espalhar o caos por Loriakh, Porto Sombrio os aguarda.
Os três jovens cavaleiros partiram para Porto Sombrio acompanhados pela cavalaria e o comandante dos guerreiros de Porto Sombrio, Grant Listhee.
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